Marcelo Bielsa, o treinador que mais influenciou o futebol moderno, questiona o que o esporte se tornou
Enquanto dirigentes celebram lucros na Copa de 2026, o treinador segue questionando o futebol moldado pela lógica do mercado
Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Em meio à Copa do Mundo de 2026, uma curiosidade chamou a atenção de torcedores e jornalistas. Nas fotografias oficiais produzidas pela FIFA antes das partidas, Marcelo Bielsa aparecia sistematicamente olhando para baixo. A repetição da cena gerou comentários nas redes sociais até que, na entrevista coletiva após o empate do Uruguai com a Arábia Saudita, veio a explicação. “Não sou modelo”, respondeu o treinador argentino. A frase, aparentemente banal, funcionou como uma síntese involuntária de sua própria trajetória: a de alguém que nunca pareceu confortável diante dos holofotes e que passou boa parte da carreira questionando as transformações do futebol moderno.
Em uma era marcada pela construção de marcas pessoais, pelo marketing esportivo e pela valorização da imagem pública, Bielsa continua sendo uma figura desconfortável. Seu prestígio não foi construído pela quantidade de títulos conquistados nem pela capacidade de se transformar em personagem midiático. Nasceu de algo mais raro: a coerência entre aquilo que pensa, aquilo que diz e aquilo que faz.
O professor dos professores
A influência de Bielsa sobre o futebol contemporâneo é muito maior do que seu currículo sugere. Poucos treinadores exerceram tamanho impacto sobre as gerações seguintes sem ocupar o mesmo espaço reservado aos grandes vencedores da história do esporte.
Pep Guardiola talvez seja o exemplo mais conhecido. Em entrevista reproduzida pela Sky Sports em 2020, o técnico do Manchester City afirmou que Bielsa é, para ele, “o melhor treinador do mundo”. O elogio não se refere a troféus. Guardiola argumenta que a verdadeira grandeza do argentino está na influência exercida sobre jogadores, treinadores e sobre a própria evolução do futebol moderno.
Diego Simeone e Mauricio Pochettino também apontam Bielsa como uma referência fundamental em suas formações profissionais. Mas talvez ninguém tenha resumido melhor esse impacto do que Jorge Sampaoli. Em diferentes entrevistas ao longo da carreira, o ex-técnico da Argentina e do Chile descreveu o chamado “bielsismo” como uma espécie de religião para parte dos treinadores sul-americanos. Para muitos, o bielsismo é uma religião
Essa admiração não nasce apenas das ideias táticas. Bielsa se tornou uma referência moral e intelectual dentro de um ambiente cada vez mais dominado por interesses econômicos. Muitos de seus discípulos enxergam nele alguém que preservou uma forma de pensar o futebol que parece cada vez mais rara.
Essa postura acompanha o treinador há décadas. Em um perfil publicado pelo jornal chileno La Tercera, Bielsa recorda uma reflexão que se tornaria uma das frases mais conhecidas de sua carreira. Para ele, “o sucesso é deformador”. A ideia aparece associada a uma visão de mundo construída ainda nos anos 1990, muito antes de suas críticas mais recentes à indústria do futebol. Em sua interpretação, o fracasso possui um caráter formativo porque obriga indivíduos e instituições a confrontarem suas próprias limitações, enquanto o sucesso frequentemente produz acomodação e ilusões.
A frase ajuda a entender por que Bielsa se tornou uma figura tão singular dentro do esporte.
Quando Bielsa decidiu atacar o sistema

Embora sempre tenha mantido uma postura crítica, foi durante a Copa América de 2024 que Bielsa realizou seu ataque mais contundente ao futebol contemporâneo. Na entrevista coletiva que antecedeu a disputa do terceiro lugar do torneio, o argentino abandonou qualquer diplomacia e direcionou críticas abertas aos dirigentes e organizadores do esporte.
Bielsa afirmou que “cada vez mais gente assiste ao futebol, mas ele fica cada vez menos atrativo”. A frase rapidamente ganhou repercussão internacional porque sintetizava uma preocupação que vinha sendo compartilhada por jogadores e treinadores, mas raramente expressa com tanta clareza.
Ao longo da entrevista, Bielsa argumentou que aquilo que transformou o futebol no esporte mais popular do planeta não foi a expansão dos negócios, mas a relação de pertencimento construída entre torcedores, clubes e seleções. Em sua visão, a lógica comercial passou a ocupar uma posição dominante dentro da estrutura do jogo.
O treinador também criticou o aumento constante do calendário, a sobrecarga física dos atletas e a incapacidade das instituições de responder às preocupações manifestadas por quem trabalha diretamente dentro de campo. Para Bielsa, o crescimento econômico do futebol não tem sido acompanhado por uma preocupação equivalente com a qualidade do espetáculo ou com as condições de trabalho dos jogadores.
As declarações ocorreram justamente quando a FIFA promovia a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções e avançava com novos projetos comerciais de alcance global. O contraste tornou a entrevista ainda mais significativa.
O paradoxo de Bielsa
Existe uma ironia inevitável na trajetória de Bielsa. Parte do futebol que ele critica hoje foi construída a partir de ideias que ele próprio ajudou a popularizar. A pressão alta, a intensidade constante e a exigência física que marcam o jogo contemporâneo carregam traços evidentes de sua influência. Ao mesmo tempo, sua obsessão pelo detalhe também produziu episódios controversos, como o chamado Spygate, em 2019, quando foi acusado de espionar um treino do Derby County durante sua passagem pelo Leeds United. Bielsa admitiu a prática, assumiu a responsabilidade pela multa aplicada ao clube e defendeu sua conduta em uma longa coletiva de imprensa, afirmando que analisava todos os adversários da mesma forma.
A diferença é que Bielsa parece enxergar algo que o mercado absorveu apenas parcialmente. Enquanto o futebol incorporou a intensidade de seus métodos, deixou para trás boa parte das reflexões que os acompanhavam. Sua personalidade inflexível, capaz de levá-lo tanto a romper com dirigentes quanto a ultrapassar limites em nome de uma busca obsessiva pelo conhecimento do jogo, ajuda a explicar por que suas críticas continuam encontrando eco entre jogadores, treinadores e torcedores.
Em uma Copa que celebra recordes de audiência, receitas e expansão global, Bielsa segue fazendo uma pergunta simples: o futebol está realmente melhorando ou apenas crescendo? Talvez seja justamente essa insistência em fazer perguntas incômodas que explique por que Bielsa continua sendo uma das vozes mais respeitadas, e também mais desconfortáveis, do futebol contemporâneo.



