O chute que colocou Kevin Pina na história de Cabo Verde
Meio-campista entrou para a memória esportiva do país ao marcar em sua primeira Copa do Mundo
Por Karoline Naeyli – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Quando Kevin Pina cobrou a falta contra o Uruguai, talvez não imaginasse que aqueles poucos segundos seriam suficientes para colocá-lo na história de Cabo Verde. O chute que abriu o placar também marcou o primeiro gol do país em uma Copa do Mundo. E para uma seleção que está disputando seu primeiro Mundial, o lance representou mais do que uma vantagem momentânea, foi a concretização de um sonho que, durante décadas, pareceu distante para os cabo-verdianos.
Conhecido também como Kevin Lenini, o jogador, nascido em Praia, capital de Cabo Verde, chegou à Copa do Mundo aos 29 anos. Iniciou sua caminhada no futebol ainda em seu país antes de seguir para Portugal, país com o qual o arquipélago mantém fortes laços históricos e culturais. Foi no futebol português que o meio-campista desenvolveu grande parte da sua formação profissional e construiu os primeiros passos de uma carreira que, anos depois, o levaria ao maior palco do esporte.
Ao longo do percurso, passou por clubes como Oliveirense, Anadia, Sertanense e Chaves. Longe dos grandes holofotes do futebol europeu, consolidou características que se tornaram marcas do seu jogo: qualidade na distribuição de passes e confiança nas finalizações de média e longa distância. Além de intensidade na marcação.
O crescimento constante abriu portas para novos desafios, e em 2022, Kevin chegou ao futebol russo para defender o Krasnodar, clube onde passou a viver o momento mais estável da carreira. Ao mesmo tempo em que conquistou espaço em uma das principais ligas do leste europeu, o jogador aumentava sua importância na seleção cabo-verdiana.
Os Tubarões Azuis no Mundial
A história de Kevin Pina com a seleção nacional acompanha um dos períodos mais significativos do futebol cabo-verdiano. Conhecida como Tubarões Azuis, a equipe passou anos construindo espaço entre as seleções africanas, participando de competições continentais e desenvolvendo uma geração capaz de competir em nível internacional. Pina se tornou uma das peças desse processo, contribuindo para uma campanha que culminou no maior feito da história da história esportiva do país: a classificação para a Copa do Mundo de 2026.
Para Cabo Verde, a vaga representou muito mais do que um resultado esportivo. Com cerca de 560 mil habitantes, o arquipélago tornou-se uma das menores nações a disputar o torneio e passou a ocupar espaço inédito no cenário do futebol mundial. Por décadas, a Copa do Mundo foi acompanhada como sonho, uma festa vista de fora que parecia pertencer a outros países.
O empate sem gols contra a Espanha, uma das seleções mais tradicionais do futebol mundial, chamou atenção para a organização e competitividade da equipe. Dias depois, a igualdade em 2 a 2 diante do Uruguai reforçou a impressão de que os Tubarões Azuis eram capazes de desafiar adversários muito mais experientes no cenário internacional. Foi justamente nessa partida que Kevin viveu o momento mais marcante de sua história.
Além do placar
Na cobrança de falta contra o Uruguai, quando a bola encontrou as redes e Pina se tornou o autor do primeiro gol da história de Cabo Verde em Copas do Mundo, o momento foi além do placar. O lance passou imediatamente a integrar a memória esportiva do país e ganhou um significado que ultrapassou os noventa minutos daquela partida: marcar pela primeira vez no torneio era também deixar sua marca na competição. Era uma forma de mostrar que a nação cabo-verdiana já não estava assistindo à história da Copa, mas sim fazendo parte dela.
O momento também ampliou a visibilidade internacional do país, e sua participação despertou curiosidade sobre a cultura, a história e a identidade do arquipélago, além de aproximar torcedores de diferentes países. Nas redes sociais, brasileiros e cabo-verdianos passaram a interagir com frequência, fortalecendo uma relação já marcada pela língua portuguesa e por conexões históricas entre os dois povos.
Esse é um dos movimentos mais bonitos da Copa do Mundo: quando uma seleção estreante deixa de ser apenas uma curiosidade e se transforma em uma das histórias mais lembradas da competição. Talvez seja também uma das demonstrações mais claras de que o futebol vai muito além do esporte.
Kevin Pina pode não ter chegado ao Mundial como uma das grandes estrelas do futebol internacional. Seu nome não aparecia entre os favoritos aos prêmios individuais e tampouco ocupava o centro das atenções antes do início do campeonato. Ainda assim, foi dos seus pés que saiu um dos momentos mais significativos e memoráveis do cenário esportivo de Cabo Verde.



