Por Miryan Romão – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Nos últimos anos, as casas de apostas se tornaram presença constante nas transmissões esportivas. Com esse crescimento, a CazéTV passou a incorporar cada vez mais conteúdos ligados às bets em suas transmissões no YouTube e plataformas digitais, por meio dos seus apresentadores. Diante da credibilidade que esses comunicadores possuem com o público, surge um debate sobre o uso dessa influência na promoção das apostas e sobre a responsabilidade ética de incentivar uma atividade considerada de risco. 

Hoje, as casas de apostas patrocinam clubes, campeonatos, estádios, programas esportivos, influenciadores e transmissões ao vivo, deixando de ocupar apenas os intervalos comerciais. Essas plataformas mudaram a estrutura econômica do futebol brasileiro e estão entre os principais investidores do esporte no país. 

Só em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tinham uma casa de apostas como patrocinador máster, com receitas que se aproximam de R$ 1 bilhão anuais. Essas marcas não ficaram apenas estampadas nos uniformes, passaram a ocupar placas de publicidade, conteúdos digitais e as transmissões esportivas. 

É aí que plataformas digitais de transmissão como a CazéTV se consolidam nesse meio. Com uma proposta de gratuidade para assistir campeonatos importantes, linguagem informal e comunicadores que construíram uma relação de confiança e credibilidade com o público, o canal se tornou um espaço estratégico para a divulgação das bets. 

Durante jogos e coberturas, é comum que apresentadores e comentaristas mencionem esses patrocinadores e participem de ações publicitárias relacionadas às casas de apostas. Entre elas, estão a divulgação de bônus de cadastro, apresentação de odds (cotações), QR Codes, links e códigos promocionais desenvolvidos em parceria com patrocinadores. 

Durante a partida entre Inglaterra e Gana, por exemplo, um anúncio incentivava o público a acessar uma casa de apostas usando um QR Code exibido na tela. Enquanto isso, o narrador utilizava a expressão “colocar a paixão em jogo”, convidando os espectadores a conhecer a plataforma, fazendo uma associação direta entre a paixão pelo futebol e o ato de apostar. 

Em outra transmissão, no pré-jogo de México x Coreia do Sul, comentaristas divulgaram para mais de 2 milhões de pessoas uma odd de 4.0, gerando uma onda de indignação e críticas no X, por meio dos espectadores, por ser uma aposta muito alta e com uma grande probabilidade de não acontecer.  

Nas redes sociais, muitos internautas questionam se a confiança construída com o público estaria sendo usada para promover uma atividade considerada de risco por especialistas, colocando o interesse comercial acima da responsabilidade social. 

O debate ganhou ainda mais repercussão, após o fundador e apresentador da CazéTV, Casimiro Miguel, quando questionado sobre a quantidade de publicidade de casas de apostas durante suas transmissões, afirmou: “Não tem muito o que fazer. É o que mais paga hoje e o que faz girar o negócio.”

Neste caso, a linguagem informal e a proximidade construída com a audiência, composta em grande parte por jovens, contribuem para um modelo de comunicação diferente do tradicional. No entanto, a frequência constante das publicidades de sites de apostas e o grande volume de inserções, resultou em uma investigação pela Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor).

Em nota, o órgão informou que irá avaliar as ações promovidas pelo canal e enfatizou que a legislação proíbe mensagens que incentivem apostas impulsivas: “A Senacon vai analisar se essas ações respeitam as normas que exigem publicidade responsável, transparente e com informações claras sobre os riscos envolvidos nas apostas. A legislação proíbe, por exemplo, mensagens que incentivem apostas impulsivas, sugiram ganhos fáceis ou minimizem os riscos da atividade.” 

Após a abertura de uma investigação pelo Ministério de Justiça, a CazéTV reduziu a exposição publicitária das bets, além de não recomendar as odds e retirar os QR Codes na tela. O canal comunicou que decidiu rever o formato dessas ativações comerciais após “ouvir o debate público” e que adotará um modelo mais tradicional para esse tipo de anunciante. 

Credibilidade em jogo 

A crescente participação de narradores, comentaristas e apresentadores na divulgação das apostas tem alimentado um debate sobre os limites entre conteúdo esportivo, publicidade e influência, especialmente diante da confiança que esses profissionais construíram junto ao público. 

Um episódio envolvendo a apresentadora Fernanda Gentil, que, durante uma das transmissões da CazéTV, estava participando de uma ação publicitária de uma casa de apostas, gerou críticas nas redes sociais nos últimos dias. Por ser uma figura reconhecida e com prestígio no meio jornalístico, ela foi questionada por vincular sua imagem a uma atividade considerada de risco à saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Em um post no X (antigo Twitter), um usuário publicou: “Tristeza ver a Fernanda Gentil fazendo propaganda de bet na CazéTV. Decepção”. Mesmo com a repercussão negativa, Fernanda não se pronunciou sobre o assunto. 

O episódio levanta uma pergunta: quando um jornalista ou uma rede de transmissão, como a CazéTV, promove uma bet, ele continua exercendo apenas a função de comunicador ou passa a atuar como agente de marketing? 

Para o pesquisador Álisson Coelho, doutor em Comunicação e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (ObjETHOS), a presença das bets no jornalismo esportivo vai além do patrocínio tradicional. Em um artigo, ele afirma que as casas de apostas se tornaram “onipresentes” no futebol, ocupando espaços na transmissão, estúdio e até na atuação dos comunicadores.  

Coelho argumenta que esse cenário cria desafios éticos para o jornalismo, especialmente quando profissionais emprestam sua credibilidade para promover empresas em que o lucro depende das apostas que o público realiza. 

Em meio ao avanço desse mercado, ainda permanece uma questão que vai além da legalidade: qual a responsabilidade ética de quem utiliza seu reconhecimento para promover uma atividade que está associada ao endividamento e à ludopatia, transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde? 

A resposta ainda divide especialistas, empresas e autoridades, mas mostra que o debate sobre as bets não se limita às próprias plataformas. Ele também passa pelo papel dos veículos de comunicação e seus comunicadores. Afinal, se reconhecemos que a comunicação influencia hábitos de consumo e comportamentos, por que essa influência seria diferente quando se trata desse mercado?