Quando o rosa choca: a relação entre moda e masculinidade frágil no futebol
A moda define chuteiras rosas na Copa, mas o estilo nem sempre conseguiu superar a masculinidade frágil no futebol
Por Sara Trindade – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Na Copa do Mundo de 2026, as principais marcas de chuteira, Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers, lançaram calçados na cor rosa. O público assistiu aos maiores jogadores do evento exibindo sapatos da mesma cor, de Vinícius Júnior a Mbappé.
Odinga Nimako, líder global de calçados da Nike, declarou que o lançamento aconteceu porque a cor rosa contrasta com o gramado verde. Agências já apontavam para a cor Eletric Fuchsia, um rosa vibrante, como uma das tendências para a primavera/verão de 2026. Esse fator também pode ter influenciado as coleções esportivas.
Fato é que, historicamente, não foram só as tendências que ditaram a moda nos gramados, mas sim, a masculinidade frágil dos jogadores.
Os torcedores devem se lembrar de quando a imprensa ficou “rosa-choque” com o ex-jogador David Beckham usando um sarongue (tecido amarrado à cintura e usado como vestido ou saia), em 1998. O tabloide britânico The Sun publicou a notícia na primeira página, com a manchete “Beckman está com seu look Posh”, fazendo alusão a Victoria Beckman, esposa do atleta.
A repercussão influenciava também os fãs do astro de futebol. Na época, Alex Tong, de oito anos, disse em entrevista ao jornal The York Press: “Eu simplesmente não gosto de homens de saia. Estou acostumado a vê-los usando calças.”

O acontecimento exemplifica como a ideia da masculinidade atravessa o futebol dentro e fora de campo, criando significações sobre o que era ser homem pelo olhar da moda. Se em 1998 o cenário era de julgamento a um atleta de futebol que usava saia, atualmente, a proliferação de chuteiras rosas, já não causam tanto incômodo. Isso porque, desde o início do torneio, a loja esportiva Centauro registrou um aumento de 50% nas vendas de chuteira da cor, mostrando como o contexto de estigma se adapta de acordo com o mercado.
‘Meninos vestem azul e meninas vestem rosa’: como surgiu o padrão e sua relação com o futebol
A noção de que meninas devem vestir rosa e meninos devem usar roupas azuis é bem recente. Na verdade, até o século XX, o azul era associado ao feminino, por ser ligado à Virgem Maria e à delicadeza das mulheres. Já o rosa, era relacionado ao masculino, por estar ligado ao vermelho, que representava força e energia. A ideia era a de que a cor traria mais masculinidade aos garotos. Antes disso, as roupas infantis eram brancas ou em tons pastéis.
O que ditou a mudança nesse imaginário foi a industrialização e a formação de um mercado da moda entre 1920 e 1950, nos Estados Unidos. De repente, o azul passou a ser comercializado por varejistas como a cor ideal para homens. Além disso, marcas de moda afirmavam que a cor rosa era a mais delicada.
Esse cenário expõe como as noções sobre o que é masculino foram moldadas ao longo do tempo pela indústria da moda, atingindo também o futebol. Em 2012, a masculinidade frágil de torcedores causou a suspensão de uma partida que teria a renda arrecadada revertida a uma organização de combate ao câncer de mama. O Deportivo Táchira, da Venezuela, entrou em campo com uma camisa cor-de-rosa para uma campanha contra a doença, gerando protestos de torcedores, que invadiram o campo no início da partida.

Recentemente, a revolta masculina contra o rosa reapareceu nos gramados. No final de 2025, o técnico Abel Braga afirmou publicamente em coletiva de imprensa: “Eu não quero meu time jogando com camisa rosa, parece time de viado”. A frase dita como se fosse uma piada revela o contexto de uma masculinidade baseada em convenções sociais moldadas historicamente pela moda.
O histórico das chuteiras rosas no futebol
A chuteira rosa surgiu no futebol em 2008, quando a Nike lançou o modelo Mercurial Vapor IV Rosa, nos pés do ex-jogador dinarmaquês Nicklas Bendtner. Inicialmente, a imprensa repercutiu o calçado como uma jogada perigosa. Antes disso, a chuteira preta era o padrão no futebol. Só nos anos 2000 as marcas começaram a investir em cores como amarelo, laranja e verde, com o objetivo de buscar diferenciação em um mercado cada vez mais competitivo. Esse histórico revela como o mercado da moda molda o que é aceitável em relação à masculinidade ao longo da história, criando significações e disputas no futebol.




