Quando a geopolítica entra em campo: o futebol como espelho do poder
De Mussolini a Trump, dos estádios usados como propaganda às restrições à imigração, o esporte revela como disputas políticas e sociais atravessam diferentes momentos da História
Por Nathalia Medina – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Há quem insista no velho clichê de que “futebol e política não se misturam”. No entanto, basta uma rápida folheada nos livros de história, ou um olhar atento aos noticiários de 2026, para perceber que as quatro linhas sempre foram um dos palcos mais cobiçados pelo poder global. Longe de ser um ambiente neutro de pura celebração esportiva, a Copa do Mundo frequentemente funciona como um microscópio que amplifica as tensões, propagandas ideológicas e debates sobre identidade e fronteiras de cada época.
A bola, afinal, caminha lado a lado com os rumos da civilização. E o torneio atual, sediado na América do Norte, deixa claro que o gramado continua sendo o reflexo direto das decisões tomadas em gabinetes presidenciais.
Do totalitarismo de Mussolini ao ufanismo das ditaduras
O uso do futebol como ferramenta de legitimação política e nacionalismo agressivo ganhou seu primeiro grande roteiro em 1934. O ditador fascista Benito Mussolini não queria apenas sediar a segunda Copa do Mundo da história na Itália; ele queria usá-la como prova de que seu regime estava “forjando uma raça dinâmica, metódica e persistente”. O Duce usou a máquina estatal para controlar jornais, criar marcas de cigarros temáticas do mundial e espalhar cartazes de propaganda onde a figura de Hércules exibia a saudação fascista com o pé sobre a bola.
Para garantir o título a qualquer custo, o regime promoveu um agressivo processo de nacionalização de atletas sul-americanos. Filó (italo-brasileiro), além dos argentinos Guaita, Orsi e Luis Monti, que haviam jogado a final de 1930 pela Argentina, foram recrutados como oriundi para defender a Azzurra. Sob a ameaça velada que Mussolini enviou ao técnico Vittorio Pozzo (“Deus o ajude se falhar”), o torneio foi manchado por arbitragens escandalosamente parciais, como a atuação do árbitro suíço René Mercet, que anulou gols legítimos da Espanha nas quartas de final.
Décadas mais tarde, o roteiro se repetiu na América Latina. Em 1978, a ditadura militar argentina utilizou o ufanismo do título mundial conquistado em casa para tentar mascarar os horrores e as violações de direitos humanos que ocorriam a poucos metros do Estádio Monumental de Núñez, nos porões da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). O futebol, nesses cenários, foi sequestrado para servir de cortina de fumaça para regimes autoritários.
O campo como debate de identidade e imigração
Se por um lado os governos tentam usar o esporte para moldar narrativas, por outro, as seleções frequentemente se tornam o centro de discussões profundas sobre quem pertence, de fato, a uma nação. As Copas do Mundo recentes transformaram-se no principal palco editorial para debater imigração e diversidade.
O título da França em 1998, com a geração “Black, Blanc, Beur” (Negro, Branco, Árabe) liderada por Zinedine Zidane, foi celebrado como o símbolo de uma nova identidade francesa integrada. Contudo, essa mesma sociedade tendeu a apontar o dedo para a ancestralidade dos atletas em momentos de crise no início dos anos 2010. A bola expõe a fragilidade do discurso de tolerância: o imigrante só é plenamente abraçado quando levanta a taça; na derrota, suas raízes voltam a ser questionadas.
Os apagamentos e as barreiras invisíveis de Trump em 2026

É nesse cenário histórico de tensões que a Copa do Mundo de 2026 se desenrola, escancarando um paradoxo incômodo. Vendida originalmente como o torneio da “união e da integração” entre três nações da América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá), a competição esbarrou na dura realidade da política externa e migratória americana sob a gestão de Donald Trump. O clima de exclusão e as severas barreiras burocráticas transformaram a logística do torneio em um pesadelo geopolítico.
Nas arquibancadas, o prejuízo é evidente. Torcedores de diversos cantos do planeta, sobretudo do Sul Global, enfrentam uma enxurrada de vistos negados e acumulam perdas financeiras astronômicas após serem impedidos de entrar em território americano. Mas o que parecia uma barreira restrita aos turistas explodiu de forma agressiva dentro dos vestiários das próprias delegações e equipes oficiais, em episódios explícitos de xenofobia e racismo nas fronteiras.
Os casos se acumulam e chocam pela gravidade. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi retido e submetido a um exaustivo interrogatório de quase sete horas na imigração antes de ser liberado. O jogador suíço Breel Embolo teve seu visto inicialmente negado e colocado em revisão, conseguindo se juntar à sua equipe apenas dias depois. O absurdo ganhou contornos ainda mais dramáticos com a seleção do Irã: mesmo com entradas previamente autorizadas, jogadores e membros da delegação tiveram seus vistos sumariamente revogados pelas autoridades ao desembarcarem.
O preconceito também se fantasiou de protocolo de segurança. A delegação do Uzbequistão foi constrangida ao ser revistada por cães farejadores de bombas e drogas, enquanto membros da equipe do Senegal foram forçados a tirar os sapatos e submetidos a revistas excessivamente demoradas, um tratamento que pode ser considerado abusivo e de cunho puramente racista. A barreira migratória alcançou até mesmo o apito: o somali Omar Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025, viajava com passaporte diplomático quando foi impedido de entrar no país e deportado sob a vaga justificativa de “segurança nacional”. Como uma resposta contundente ao boicote norte-americano, a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) agiu rápido e anunciou que Artan será o árbitro principal da Supercopa da UEFA, comandando o grande duelo entre Aston Villa e PSG, garantindo ao juiz o palco de elite que as fronteiras da Copa tentaram lhe tirar.
O silêncio cúmplice da FIFA e o alerta da ONU

A gravidade dos episódios escalou a ponto de romper as barreiras do esporte. O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, veio a público cobrar formalmente uma revisão imediata na política migratória e nas medidas adotadas pela imigração estadunidense durante o torneio, alertando para o impacto humanitário e a discriminação sistêmica nas fronteiras.
Enquanto a comunidade internacional exige respostas, a FIFA adota uma postura de omissão que opera como uma engrenagem de apagamento político. Ao declarar burocraticamente que “não intervém nos procedimentos de imigração do país anfitrião, incluindo a concessão de vistos”, a entidade máxima do futebol lava as mãos diante dos abusos corporais e morais infligidos aos próprios protagonistas do seu espetáculo.
O ápice dessa desconexão, ou alinhamento deliberado, ocorreu de forma quase satírica nos bastidores das cerimônias oficiais. Ignorando as denúncias de xenofobia que mancham o torneio, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, entregou a Donald Trump o recém-criado “Prêmio da Paz da FIFA”, condecorando o líder da Casa Branca com uma medalha de uso diário. A premiação expõe o paradoxo definitivo de 2026: a mesma entidade que promove campanhas com o lema “O Futebol Une o Mundo” decide premiar e blindar politicamente o arquiteto de políticas de exclusão que segregam atletas, torcedores e nações inteiras.
A história espera pelo inesperado!
Entre a propaganda ufanista de 1934 e as salas de interrogatório de 2026, a história prova que a Copa do Mundo é complexa demais para ser resumida a táticas, gols e estatísticas. Que cada drible, cada visto negado e cada barreira burocrática nos lembram que os campeonatos mundiais são, fundamentalmente, eventos humanos e, portanto, profundamente políticos.
Quando o árbitro apita o início de uma partida, os atletas carregam nos ombros muito mais do que o peso das camisas de suas federações; eles carregam as contradições, as dores e as disputas de um mundo que teima em erguer muros onde o esporte tenta abrir caminhos.



