O triunfo do cinema queer no Festival de Cannes 2026
Recorde de produções LGBTQIAPN+ selecionadas reforçaram a importância da diversidade em grandes eventos de cinema
Por Mateus Felipe Silva
A 79ª edição do Festival de Cannes terminou com um saldo histórico para a representatividade cinematográfica. Este ano, a Queer Palm, premiação paralela dedicada a títulos de temática LGBTQIAPN+, contou com 27 produções na disputa, entre 22 longas e 5 curtas, o maior número registrado desde sua criação.
O impacto, no entanto, foi além das mostras paralelas e dominou a competição oficial do evento. O longa espanhol “La Bola Negra”, dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, venceu, ao lado do polonês Pawel Pawlikowski (por “A Terra do Meu Pai”), o cobiçado prêmio de Melhor Direção. A obra, que narra as histórias interligadas de três homens gays em diferentes períodos históricos da Espanha, foi uma das mais aclamadas pelo público este ano, sendo aplaudida de pé por 20 minutos após sua exibição, a segunda maior ovação da história do festival, de acordo com a imprensa especializada.
Na categoria de Melhor Ator, mais uma vitória conjunta. Emmanuel Macchia e Valentin Campagne levaram o troféu pelo drama militar “Coward”, do diretor Lukas Dhont, que aborda temas como sexualidade, amor e arte entre soldados na Primeira Guerra Mundial.
Mesmo sem vitórias, outros títulos de peso movimentaram a competição principal. Foi o caso do drama musical “The Man I Love”, de Ira Sachs, com roteiro coescrito pelo brasileiro Maurício Zacharias, que retrata a epidemia de Aids nos anos 1980. Já o veterano Pedro Almodóvar levou a Cannes seu “Natal Amargo”, drama que acompanha uma diretora de publicidade em crise após a morte da mãe durante as festividades de dezembro, integrando discussões sobre luto e mortalidade aos elementos clássicos das obras do diretor: sexualidade, desejo, culpa e religiosidade.
Na disputa pelo prêmio principal da Queer Palm 2026, o grande vencedor foi “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”. O longa imprime uma estética puramente camp, trazendo Gillian Anderson como uma final girl clássica e Hannah Einbinder no papel de uma diretora de cinema encarregada de reviver uma franquia de horror.
Dirigido por Jane Schoenbrun, cineasta trans não binária, o filme subverte as bases do terror slasher, historicamente criticado por reproduzir narrativas misóginas e transfóbicas. O júri destacou que o longa reivindica um formato antes relegado às margens para propor novas perspectivas de identidade para filmes do gênero.
Na categoria de curtas, o prêmio ficou com o americano “Silent Voices”, de Nadine Misong Jin, que retrata uma família fragmentada em uma metrópole moderna. Esta edição do Queer Palm também marcou a inauguração do Prêmio Revelação, concedido ao longa franco-polonês “Du Fioul dans les artères” (“Flesh and Fuel”), de Pierre Le Gall. O filme direciona o olhar para a classe trabalhadora ao construir um romance clandestino entre dois caminhoneiros europeus, equilibrando o desejo afetivo com a dureza das condições de trabalho nas rodovias.
A presença marcante de filmes queer neste ano mostra uma mudança clara se comparada aos primeiros anos do festival. Franck Finance-Madureira, fundador da Queer Palm, recordou que, no ano de criação do prêmio, em 2010, apenas cinco ou seis filmes se qualificavam para a disputa. Desde então, obras com esta temática vêm alcançando o eixo central da competição.
Neste ano, por exemplo, a mostra Un Certain Regard concedeu à coprodução brasileira “Elefantes na Névoa”, que discute a experiência trans, o Prêmio do Júri. Na Seleção Oficial, sete dos 22 longas que disputavam a Palma de Ouro apresentaram personagens, temas ou perspectivas queer, o que marcou esta como a edição mais diversa da história do festival.
O aumento acompanha o atual cenário político mundial. Com o avanço de pautas e movimentos conservadores em diversos países, a arte tem servido como resposta social de resistência, invocando a necessidade de apresentar narrativas plurais para o público.
Porém, apesar da celebração, o festival não escapou de críticas. Parte da imprensa especializada e de profissionais do setor apontou uma forte concentração de títulos do eixo europeu, apesar da presença menor de grandes produções de Hollywood no circuito, o que acende discussões acerca da urgência dos grandes festivais em expandirem o alcance e reconhecerem filmes fora do circuito tradicional.
Ainda assim, o Festival de Cannes 2026, como a principal vitrine internacional de cinema, serviu para reafirmar a potência de produções e produtores queer, além de confirmar o contexto de mudanças comerciais e artísticas na indústria cinematográfica global, provando que filmes de perspectivas diversas também se comunicam com o grande público.



