O time do povo e a chance de se parecer com ele novamente
Entre a falta de ídolos, a distância da torcida e a transformação do futebol em negócio, a Seleção Brasileira deve reencontrar aquilo que a tornou a expressão do país
Por Mariana Pesquero – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Como se cria um herói nacional? Para o Brasil, parece fácil. Pelo menos quando falamos de heróis que nasceram no berço do esporte. Garrincha, Romário, Pelé, Zico, Ayrton Senna, Marta, Falcão. O país tropical tem um arsenal de ídolos consagrados pela nação. O jeito moleque, desenrolado, a genialidade intrínseca, o talento, parecem ser os checks na lista de pré-requisitos para ser considerado uma lenda.
Ok, esses são fatos. Agora, em 2026, em plena Copa do Mundo, o clima parece… diferente. Não só agora, mas nos meses que precederam o mundial, a sensação é de que o clima da copa está adormecido. Parece que os torcedores sofrem de uma descrença generalizada aguda. Ora, nós não somos o país do futebol? Do samba no pé, da bola na rede?
Por que o brasileiro tem sido tão duro com a própria Seleção? A não ser em período de copa, não sabemos quando tem amistosos, quando serão as eliminatórias para o mundial, muito menos quem são os jogadores atuais. Claro, se você é alguém que acompanha o futebol diário, o campeonato brasileiro, a história é um pouco diferente. Mas o futebol brasileiro, que nasce na pelada com os amigos, nos campinhos de terra, no sofá de casa durante um Derby assistido com seu avô, aquele amor que ultrapassa gerações, parece distante. Nós perdemos o orgulho nacional?
Todo mundo sente, mas ninguém sabe o por quê. O Brasil não é mais um favorito. Em vários dos 48 países participantes desta Copa do Mundo de 2026, nossos rivais transformam seus ídolos em patrimônio nacional. Salah, no Egito, Guilhermo Ochoa, no México, Edin Dzeko, da Bósnia e Herzegovina e Sadio Mané, no Senegal, são exemplos de representantes de um povo, de uma história.
Esses representantes são, é importante mencionar, da nova geração. E talvez esteja aí uma das questões centrais para nós brasileiros. Há quem discorde, mas, hoje, é difícil encontrarmos um herói na nossa Seleção. Craques? Sim, aos montes. E aqui voltamos à primeira pergunta. Como se cria um herói nacional?
O que nos falta?
Para Joseph Campbell, mitólogo e autor de “O herói de mil faces” e “O Poder do mito”, um herói nasce no povo. Ele sai do mundo cotidiano em busca de aventura, enfrenta desafios – que para nós, meros civis, são obstáculos insuperáveis. Por fim, volta para casa com a vitória, com a conquista, que é benéfica aos seus semelhantes.
Foi isso o que Pelé fez em 1970. Foi isso também o que ocorreu em 1994, após 24 anos de jejum, sem uma vitória mundial (qualquer semelhança com a realidade atual é mera coincidência). Com o tetra da Seleção naquele ano, Romário trouxe aos brasileiros a sensação de poder, de esperança, de que a chama da essência da nação não só ainda existia como estava mais acesa do que nunca. Será que nos falta, então, um herói?
Vale mencionar, ainda, o aspecto engessado do futebol brasileiro contemporâneo. Institucionalizado, o futebol virou uma empresa. Falamos em lucro, vendas e negócios mais do que dribles improvisados em ritmo de samba e requebrada de cintura.
Sabe o garoto que joga descalço no terrão, que vive e respira a jogada de bola? Hoje ele tem chances praticamente nulas de ingressar num clube profissional. O mercado formador de jogadores mudou. Ou melhor dizendo, virou um mercado.
Rafael Oliveira, jogador e jornalista, em reportagem para o jornal Outras Palavras, faz uma análise interessante ao afirmar que, entrando cada vez mais cedo nos clubes de base, a garotada é formada não para viver o futebol, mas viver para o futebol.
Mas esse esporte, no estilo brasileiro, nasceu justamente disso: da paixão, da vivência. Isso é o que somos. E talento não falta, tá? Conforme levantamento do Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES), o Brasil é o país com o maior número de jogadores que atuam no exterior. Segundo o relatório, mais de 1,4 mil atletas brasileiros jogam fora do país.
Quer um exemplo? Endrick, grande promessa deste ano, iniciou sua trajetória no Palmeiras aos 10 anos e foi vendido aos 16 anos para o time europeu Real Madrid. Já Garrincha ficou 12 anos no Botafogo e, assim, virou ídolo do clube. Aqui no Brasil, nossos atletas, atualmente, são exportados na lógica econômica do esporte.
Um grande amigo corinthiano uma vez me disse que o Brasil é um dos únicos países do mundo em que o futebol pode mudar tudo. O resultado de um jogo pode mudar tudo. Ganhar uma Copa pode fazer o país prosperar economicamente, culturalmente, turisticamente.
Acho que não podemos deixar isso de lado. Não devemos esquecer quem somos, o que representamos. Nós somos resiliência. Identidade. Ginga. Pluralidade. Expressão. Criatividade. Afinal, nós somos a esperança.



