O Movimento Verde e Amarelo reúne torcidas de todas as regiões do país para tentar reconstruir a relação do Brasil com a Seleção durante a Copa de 2026. Torcidas que se enfrentam nas arquibancadas e que acumulam décadas de rivalidade e históricos de conflito estão dividindo o mesmo espaço nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2026. 

A iniciativa, pensada pelo Movimento Verde e Amarelo (MVA), criado em 2008 com o objetivo de organizar o apoio às seleções brasileiras em competições internacionais, passou a articular lideranças de torcidas organizadas de diferentes clubes do país para formar uma arquibancada unificada durante os jogos da Seleção Brasileira no Mundial.

O projeto começou a ser estruturado no fim de 2025 e, ao todo, reúne 31 torcidas organizadas das cinco regiões do país. A lista inclui alguns dos grupos mais tradicionais, influentes e, em muitos casos, historicamente antagonistas do futebol brasileiro. A distribuição geográfica do movimento é um dos seus aspectos mais relevantes, o MVA não é uma iniciativa do eixo Rio-São Paulo estendida para o restante do país, mas uma articulação que reúne torcidas de diferentes regiões, com identidades e culturas distintas entre si.

Como o Brasil perdeu a sua seleção?

Essa investida do Movimento Verde e Amarelo parte da necessidade de reencontrar na Seleção e em seus símbolos a capacidade de mobilização e pertencimento que marcou diferentes gerações de brasileiros.

Durante décadas, ela funcionou como um símbolo de pertencimento coletivo capaz de unir pessoas de diferentes regiões, classes sociais e até torcidas rivais em torno de um objetivo comum. Em um país marcado por profundas desigualdades e diferenças culturais, a Seleção era um dos poucos pontos de convergência real entre os brasileiros.

Essa relação foi se desfazendo ao longo de pelo menos duas décadas, e o processo não tem uma causa única. Ele é resultado de ao menos três fatores que se acumularam e se intensificaram ao longo dos anos: os maus resultados dentro de campo, a disputa política em torno dos símbolos nacionais e uma transformação estrutural na forma como o brasileiro se conecta emocionalmente com o futebol.

O 7 a 1 e a série de frustrações que ninguém quer lembrar

Nenhum episódio traduz melhor o peso desse distanciamento esportivo do que a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, no Mineirão. Além de ser um dos placares mais simbólicos da história do futebol mundial, o resultado se transformou em um marco psicológico para o futebol brasileiro: um vexame internacional dentro de casa, em um torneio que deveria representar a redenção de uma geração de brasileiros.

O 7 a 1 se apresenta como um dos pontos mais visíveis de um desgaste que já vinha se acumulando. Depois do título de 2002, o Brasil registrou uma sequência de eliminações traumáticas em Copas do Mundo: para a França, em 2006; para a Holanda, em 2010; e, posteriormente, para Alemanha, Bélgica e Croácia nos torneios seguintes. Cada eliminação reforçou uma desconfiança que crescia em relação à Seleção, substituindo a expectativa quase automática de título por uma relação mais tensa com a equipe.

Foto: David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images

O clube sempre foi mais que a Seleção

Há ainda um terceiro fator que ajuda a explicar esse distanciamento: a forma como os brasileiros se relacionam com o futebol mudou profundamente nas últimas décadas. Embora o desempenho irregular da Seleção Brasileira tenha contribuído para esse processo, a transformação é mais ampla. Em um cenário em que a equipe nacional entra em campo apenas em datas esporádicas, concentradas em Copas do Mundo, Eliminatórias e amistosos, os clubes acompanham seus torcedores ao longo de todo o ano, construindo vínculos emocionais contínuos e renovando constantemente o sentimento de pertencimento e identidade de seus torcedores.

Essa mudança de comportamento também aparece em pesquisas recentes sobre o futebol brasileiro. Um levantamento realizado pela CNN Brasil, pela Itatiaia e pela Quaest mostrou que, quando precisam escolher entre assistir a uma partida do clube para o qual torcem ou da Seleção Brasileira, 58% dos entrevistados preferem acompanhar o time do coração. Apenas 38% afirmaram optar pela equipe nacional, enquanto 4% não souberam ou não responderam. Os dados ajudam a ilustrar um cenário em que a Seleção já não ocupa, de forma incontestável, o centro da paixão futebolística dos brasileiros.

O cenário não indica uma perda do amor dos brasileiros pelo futebol, mas uma mudança no foco desse sentimento. O pertencimento que antes se concentrava na Seleção Brasileira hoje se manifesta, de forma cada vez mais evidente, nos clubes, que permanecem como os principais espaços de identidade, mobilização e expressão da cultura futebolística do país.

A camisa virou campo de batalha político

Se os resultados em campo e a aproximação com seus clubes do coração abalaram a relação dos brasileiros com a Seleção, foi a disputa política em torno dos símbolos nacionais que aprofundou ainda mais esse distanciamento.

A partir das jornadas de junho de 2013, e de forma ainda mais intensa durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a camisa amarela passou a aparecer com frequência crescente em manifestações políticas de direita. O que antes era um símbolo nacional de uso amplo foi sendo gradualmente associado a um espectro político específico. Esse processo se intensificou nas eleições de 2018 e 2022, quando a amarelinha se tornou um dos elementos visuais centrais do bolsonarismo, presente em comícios, nas ruas durante o período eleitoral e nas manifestações golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Para uma parcela da população brasileira, especialmente entre adeptos ideológicos de esquerda e centro-esquerda, vestir a camisa amarela deixou de ser um gesto natural e passou a ser um ato carregado de ambiguidade política. Algo que em outras gerações não exigia nenhuma reflexão passou a traduzir tipos de posicionamento político dentro da sociedade brasileira. 

Foto: Eibner-Pressefoto/picture alliance

A lição argentina

A experiência argentina é uma das principais referências para o Movimento Verde e Amarelo (MVA) e ajuda a explicar a estratégia adotada pelo grupo para tentar reconstruir o vínculo entre a Seleção Brasileira e seus torcedores. Na Copa do Mundo de 2022, no Catar, a Argentina ganhou destaque não apenas pela campanha que culminou no terceiro título mundial. Fora das quatro linhas, a equipe contou com uma das mobilizações de torcedores mais expressivas da história recente das Copas. Integrantes das tradicionais barras bravas argentinas, grupos que, dentro da Argentina, protagonizam rivalidades históricas e, por vezes, violentas entre si, deixaram as disputas locais de lado para construir uma identidade coletiva unificada em torno da Albiceleste.

O resultado foi amplamente comentado no mundo do futebol. Com uma arquibancada coordenada, cantos unificados e bandeiras, os torcedores criaram uma atmosfera única que se tornou parte da narrativa do torneio. A experiência mostrou que a aproximação organizada entre seleção e torcida pode produzir efeitos positivos tanto no ambiente dentro de campo quanto no fortalecimento do sentimento coletivo em torno de uma equipe nacional.

Mais do que torcer

Em um cenário marcado por divisões políticas, clubísticas e por uma crise de confiança que afetou diretamente o vínculo dos brasileiros com a Seleção nos últimos anos, o MVA apresenta esse projeto como uma tentativa de reconstruir essa conexão.

A Copa do Mundo de 2026 será o primeiro grande teste dessa reaproximação entre a Seleção Brasileira e sua torcida. Além dos resultados em campo, o desafio será medir a capacidade do Movimento Verde e Amarelo de reconstruir laços de pertencimento em torno da equipe nacional e de seus símbolos. Se essa mobilização conseguirá reduzir a distância entre a Seleção e parte dos brasileiros, ainda é cedo para afirmar. Mas uma pergunta permanece em aberto: o sentimento de pertencimento em torno da equipe nacional voltará a ocupar o espaço que já teve no imaginário dos brasileiros?