Do Zico à Copa de 2026: a construção do futebol japonês
Influência brasileira, investimento na base e planejamento ajudaram o Japão a virar referência na Ásia
Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
O empate por 2 a 2 com a Holanda na estreia da Copa do Mundo de 2026 reforça uma percepção que vem se consolidando há alguns anos: o Japão deixou de ser uma surpresa do futebol internacional. A seleção, que nunca havia disputado um Mundial antes de 1998, chega à sua oitava participação consecutiva cercada por respeito e reconhecimento.
O contraste é significativo. Até o início dos anos 1990, o futebol ocupava uma posição secundária no cenário esportivo japonês. Em um país onde o beisebol era tratado como paixão nacional e dominava o imaginário esportivo, a modalidade ainda estava longe da popularidade que alcançaria nas décadas seguintes.
O país não tinha tradição em Copas do Mundo e mantinha um campeonato semiprofissional, formado principalmente por equipes ligadas a grandes empresas. Pouco mais de três décadas depois, tornou-se uma referência do futebol asiático e uma presença constante nos grandes torneios internacionais.
A trajetória japonesa costuma ser citada como um dos exemplos mais bem-sucedidos de planejamento esportivo de longo prazo. Para entender essa transformação, é preciso voltar ao momento em que o país decidiu profissionalizar o futebol e construir uma estrutura capaz de produzir resultados por décadas.
A influência brasileira e o nascimento da J-League

O ponto de virada começou no início da década de 1990. Até então, o futebol japonês era disputado principalmente por equipes corporativas, em um modelo que limitava o crescimento da modalidade e dificultava a criação de uma cultura de torcedores semelhante à observada em países onde o esporte já estava consolidado.
A mudança começou a ganhar forma em 1991, quando Zico chegou ao Sumitomo Metals, equipe que mais tarde se transformaria no Kashima Antlers. Mais do que um reforço de prestígio, o brasileiro tornou-se uma referência para a profissionalização do futebol local. Métodos de treinamento, hábitos fora de campo e uma nova mentalidade competitiva passaram a fazer parte da rotina do clube.
Em paralelo, o Japão se preparava para uma transformação estrutural. Em 1993, nascia oficialmente a J-League, a primeira liga profissional do país. A competição começou com apenas dez clubes, mas tinha objetivos ambiciosos: criar uma cultura nacional de futebol, fortalecer as categorias de base e aproximar os times de suas comunidades.
A influência brasileira não ficou restrita a Zico. Jogadores como Dunga, César Sampaio e Alcindo passaram pelo país nos anos seguintes. O Japão buscava referências em uma das maiores escolas de futebol do mundo e utilizava esse conhecimento para acelerar seu desenvolvimento.
O plano que pensou o futebol em décadas

A influência brasileira ajudou a iniciar o processo, mas ela não explica sozinha a transformação japonesa. O principal diferencial talvez tenha sido a capacidade de planejar o futebol em horizontes muito mais longos do que os normalmente observados no esporte.
Em 2005, a Associação Japonesa de Futebol (JFA) lançou sua Visão 2050, conhecida internacionalmente como o “Plano de 100 Anos”. O documento estabeleceu metas ambiciosas, entre elas alcançar 10 milhões de pessoas envolvidas com o futebol e conquistar uma Copa do Mundo até 2050.
A estratégia envolve a expansão da infraestrutura esportiva, o fortalecimento das categorias de base e a descentralização do futebol profissional. A ideia é garantir que diferentes regiões do país possam formar jogadores, desenvolver clubes e criar uma cultura local ligada ao esporte.
Os resultados também aparecem nos números. A J-League, que começou com dez clubes em 1993, atualmente reúne 60 equipes distribuídas em três divisões nacionais. O crescimento ampliou o alcance territorial do futebol e criou uma rede permanente de formação de atletas.
Enquanto muitos projetos esportivos mudam a cada troca de gestão, o futebol japonês mantém uma linha relativamente estável ao longo das últimas décadas. Essa continuidade acabou se transformando em uma de suas principais vantagens competitivas.
De estreante a presença constante nas Copas

Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Em 1998, apenas cinco anos após a criação da J-League, o Japão disputou sua primeira Copa do Mundo. Desde então, não ficou fora de nenhuma edição do torneio.
A Copa de 2026 marca a oitava participação consecutiva dos japoneses em Mundiais. Ao longo desse período, a seleção alcançou as oitavas de final em quatro oportunidades: 2002, 2010, 2018 e 2022.
O momento mais simbólico dessa trajetória aconteceu no Catar, em 2022. Naquela edição, o Japão derrotou Alemanha e Espanha na fase de grupos e avançou ao mata-mata na liderança da chave. O feito chamou atenção não apenas pelos resultados, mas também pela maturidade tática demonstrada pela equipe.
A evolução continuou no ciclo seguinte. O Japão foi o primeiro país a garantir vaga para a Copa de 2026 entre as seleções que não sediariam o torneio. O período também foi marcado por resultados que reforçaram a consolidação da equipe entre as principais forças do futebol internacional. Além de golear a Alemanha por 4 a 1 em território alemão, os japoneses chegaram à Copa após vitórias históricas sobre Brasil e Inglaterra. O triunfo por 1 a 0 em Wembley, diante dos ingleses, foi um dos resultados que ajudaram a consolidar a nova imagem internacional da seleção.
Mais do que resultados isolados, esses jogos indicaram uma mudança de percepção em torno da equipe. O Japão deixou de ser tratado como um adversário capaz de surpreender ocasionalmente e passou a ser visto como uma seleção capaz de competir em igualdade de condições com algumas das maiores potências do futebol mundial.
Uma seleção global

A força atual dos Samurais Azuis também está diretamente ligada à internacionalização de seus atletas. Dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026, 23 atuam fora do Japão, especialmente em clubes das principais ligas europeias.
Jogadores como Kaoru Mitoma, Takefusa Kubo e Daichi Kamada representam uma geração formada em um ambiente muito diferente daquele encontrado pelos pioneiros dos anos 1990. A experiência acumulada em competições de elite elevou o nível técnico, físico e tático da seleção.
Ao mesmo tempo, a exportação de talentos não enfraqueceu o campeonato nacional. A J-League continua funcionando como principal espaço de formação de jovens jogadores, criando um fluxo constante entre as categorias de base, os clubes japoneses e o futebol europeu.
A trajetória japonesa costuma despertar interesse porque oferece uma resposta rara em um ambiente esportivo frequentemente marcado pela urgência dos resultados. Em vez de apostar em soluções imediatas, o país investiu em estrutura, formação e continuidade.
O empate diante da Holanda na estreia da Copa de 2026 não representa um acaso esportivo. É mais um capítulo de uma transformação iniciada há mais de trinta anos, quando o Japão decidiu tratar o futebol como um projeto de longo prazo.
Em um esporte frequentemente marcado pela pressão por resultados imediatos, a trajetória japonesa mostra que a construção de uma potência também pode ser resultado de planejamento, continuidade e paciência. O que hoje parece natural — ver o Japão competir de igual para igual com seleções tradicionais — foi, durante décadas, apenas uma meta escrita em um plano de futuro.



