Por Mariana Ribeiro, da Cobertura Colaborativa da NINJA Esporte Clube

Ao longo dos anos, todos os países e povos realmente foram bem-vindos na competição?

“O jogo se transformou em espetáculo com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue.” 

A frase escrita há mais de 20 anos por Eduardo Galeano na segunda edição do livro “Futebol ao Sol e à Sombra” carrega consigo questões que transcendem o marco do tempo, se fazem presentes nas Copas do Mundo desde o início do século 20 e se tornam ainda mais atuais nos Estados Unidos em 2026.

Copa do Mundo de 1934

A FIFA coleciona casos de omissão em relação às questões sociais e políticas de países que sediam e participam das Copas do Mundo. Em 1934, na Itália, o evento funcionou como uma espécie de reafirmação e promoção da ditadura fascista de Benito Mussolini. O que foi o primeiro Mundial de Futebol na Europa demandou a construção de dois estádios e exigiu a reforma de cinco já existentes. Neste ano, a Itália levou o título e o ditador utilizou o fato para promover e difundir as ideias de seu regime fascista, fato que não se limitou a Mussolini já que outros regimes autoritários utilizaram da mesma tática. O futebol neste momento assumiu um papel político e a FIFA escreveu seu nome na história com submissão e conivência com o cenário. O país importou jogadores com descendência italiana, impôs a atuação de árbitros específicos em seus jogos, boicotou seleções latinas e levou a taça. Após a ocasião, a Itália manteve o título por 12 anos por causa do cancelamentos das Copas do Mundo durante a Segunda Guerra Mundial.

Copa do Mundo de 1978

Disputada na Argentina, a FIFA mais uma vez permitiu que o silêncio e a omissão transformassem o futebol em ferramenta de controle social durante a ditadura de Jorge Rafael Videla. Durante o regime, o futebol era um personagem importante para a política. Mesmo com o gerenciamento da Junta Militar sobre as emissoras, que tinham uma programação ligada ao Estado, as partidas de futebol foram mantidas como parte da grade gratuita. O Mundial, cercado por polêmicas, passou por uma tentativa de boicote de outros países pela ausência de respeito aos direitos humanos somado a um jogo supostamente manipulado contra o Peru após a visita do ditador à sua concentração. A seleção argentina neste ano foi convocada com a premissa de ser “pura” e não admitia atletas expatriados. Mesmo com as diversas dúvidas sobre os acontecimentos que permearam a Copa na Argentina, o silêncio da FIFA e a insistência em manter a competição no país sabendo do grande papel político e social que poderia assumir marcou a edição.

Copa do Mundo de 2022

No Catar, as leis machistas, a ausência de vozes femininas, um código penal que criminaliza relações homoafetivas e trabalhadores vivendo situações análogas à escravidão durante a construção dos estádios da Copa levantaram debates sobre a competição de 2022. Num país onde as mulheres possuem penas de apedrejamento, pessoas são presas por amar e funcionários bebem água salgada a FIFA não realizou nenhum tipo de pressão contra o governo.

Copa do Mundo de 2026

A Copa do Mundo de 2026, que acontece no México, nos Estados Unidos e no Canadá, tem gerado medo e insegurança nos atletas, torcedores e trabalhadores que participam do evento. Para algumas delegações, a chegada aos Estados Unidos tem sido hostil e marcada pelo preconceito que faz parte do discurso e do cotidiano do presidente estadunidense. É impossível pensar na Copa e na premissa de união entre culturas e países, proposta pelo evento esportivo, e não considerar a forte cultura anti-imigração construída diariamente por Donald Trump. Antes mesmo da abertura da maior Copa de todos os tempos, há relatos de casos de racismo, xenofobia e preconceito cometidos pelas autoridades de imigração do país. Um local regado a discursos de ódio que tem mostrado isso ainda mais de perto sob os holofotes do mundo inteiro.

A organização, liderada por Gianni Infantino, se demonstrou submissa ao posicionamento dos Estados Unidos em diversos momentos. A lista extensa para o curto período inclui o caso de Omar Artan, considerado o melhor árbitro masculino da África, que foi barrado do país e retirado da lista de juízes da FIFA. A delegação do Irã foi impedida de viajar para o país e de se hospedar no hotel que haviam escolhido, o que atrapalhou a preparação dos atletas para o mundial, e seus torcedores estão tendo ingressos cancelados desde antes do início da Copa do Mundo. O jogador iraquiano Aymen Hussein, foi interrogado por sete horas e teve o celular inspecionado pelo governo estadunidense em Chicago, não houveram explicações significativas para o ocorrido. Estes são apenas alguns dos  problemas que têm permeado a competição.

O silêncio da FIFA faz parte de sua história. Levantar a voz diante de patrocinadores, muitas vezes, parece ser menos importante que assegurar os direitos das delegações, dos trabalhadores e dos torcedores que estão presentes na Copa. A omissão perante ditaduras e seus ditadores, políticas misóginas, homofóbicas, racistas e xenofóbicas é apenas a ponta do iceberg. Permitir que a competição seja usada como mecanismo político de manutenção do fascismo e abaixar a cabeça diante de interrogatórios e inspeções irregulares não deveria ser a postura de uma organização que tem as proporções da FIFA. Mas, segundo Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA em 2013, “Menos democracia às vezes, é melhor para organizar uma Copa do Mundo”, se referindo às dificuldades enfrentadas a partir das manifestações no Brasil contra o evento. Assim, não é palpável esperar atitudes diferentes da organização que a cada Copa reafirma através de seus feitos e dizeres que democracia não é, e nunca foi, sua prioridade. Onde o lucro vem antes, os direitos existem apenas se for possível.

Os eventos se conectam com a visão de Galeano, mesmo mais de 20 anos depois. O futebol da FIFA é organizado para impedir alguns de jogarem. Seu país, religião, gênero, orientação sexual e seu pensamento crítico te impedem de assistir à Copa de perto. Uma competição que propõe unir países, mas, que segrega o diferente e cria um prêmio para um presidente que grita aos sete ventos todos os tipos de preconceitos, bombardeia e invade países como se o mundo fosse seu. O espetáculo virou negócio e o torcedor está fora dele, seu convidado de honra é o dinheiro.