O país das fronteiras: o que Fátima Mernissi revela sobre o Marrocos na Copa
Entre África e Europa, o Marrocos construiu uma identidade atravessada por deslocamentos, encontros culturais e diferentes formas de pertencimento
Por Kelly De Conti Rodrigues – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Enquanto o Marrocos se prepara para enfrentar a Escócia pela segunda rodada da Copa do Mundo, uma palavra ajuda a compreender muitas das questões que atravessam este Mundial: hudud.
Foi tentando entender esse termo que a socióloga marroquina Fátima Mernissi iniciou uma reflexão que a acompanharia por toda a vida. Em árabe, a palavra pode ser traduzida como “fronteiras” ou “limites”. E poucas ideias ajudam tanto a compreender o Marrocos contemporâneo quanto essa.
A seleção marroquina reúne jogadores nascidos na Espanha, França, Bélgica e Holanda. Muitos são filhos ou netos da diáspora que se espalhou pela Europa ao longo do século XX. A seleção reflete a trajetória de um país construído por deslocamentos, encontros culturais e múltiplos pertencimentos.
Separado da Europa por apenas 14 quilômetros de mar, no Estreito de Gibraltar, o Marrocos ocupa uma posição singular entre África e Europa. Décadas antes de essas questões ganharem visibilidade nos gramados, uma menina tentava entender uma palavra.
Ela cresceu em Fez, uma das cidades mais antigas do Marrocos. Entre muralhas centenárias e ruas que se entrelaçam como um labirinto, a cidade oferecia uma experiência cotidiana de fronteiras e passagens.
Em casa, escutava mulheres discutindo política, religião, casamento e liberdade. Entre uma conversa e outra, uma palavra surgia com frequência: hudud.
Fátima Mernissi não entendia exatamente o que ela significava. Sabia apenas que estava relacionada a limites. A lugares onde alguém podia entrar e outros não. A regras que pareciam naturais para os adultos, mas que despertavam sua curiosidade.

Anos depois, ao recordar a infância no livro “Sonhos de Transgressão”, a socióloga escreveria que passou boa parte da juventude tentando descobrir onde essas fronteiras estavam. Algumas eram visíveis. Outras não. Havia muros, portas e divisões físicas. Mas também existiam limites mais difíceis de localizar, responsáveis por definir quem podia estudar, circular livremente pela cidade ou participar das decisões que moldavam a vida coletiva.
A Fez onde Mernissi cresceu também vivia suas próprias fronteiras. Nascida em 1940, ela testemunhou os últimos anos do protetorado francês sobre o Marrocos e acompanhou as transformações que levariam o país à independência, em 1956. As discussões sobre soberania nacional ocupavam as ruas. Dentro de casa, porém, outras disputas aconteciam.
As mulheres de sua família falavam sobre liberdade em uma escala diferente. Questionavam restrições impostas aos seus deslocamentos, à educação e à participação na vida pública. Em suas memórias, Mernissi descreve um ambiente distante das representações exóticas que durante décadas dominaram o imaginário ocidental sobre os haréns. Em vez de um espaço de passividade, ela apresenta um universo povoado por mulheres que discutiam política, contavam histórias, discordavam umas das outras e refletiam sobre o futuro.
Entre elas estava Yasmina, sua avó materna. Moradora do campo e frequentemente retratada como uma voz de inconformismo, Yasmina aparece no livro como alguém que desconfiava das fronteiras consideradas naturais pelos demais. Em uma das passagens mais conhecidas da obra, defende que Deus criou os seres humanos para serem livres. A afirmação ajuda a compreender o ambiente intelectual que cercou a formação de Fátima.
Outra personagem marcante é Tamou, mulher tatuada, cavaleira e conhecida por desafiar convenções sociais. Ao descrevê-la, Mernissi escreve uma frase que atravessaria décadas: “Existem muitas maneiras de ser bonita. Brigar, praguejar e ignorar a tradição pode tornar uma mulher irresistível”.
Além de uma lembrança de infância, a personagem sintetiza a atenção às formas de resistência construídas por mulheres em contextos frequentemente retratados de maneira simplificada pelo olhar ocidental.
A experiência vivida naquele harém doméstico não transformou Mernissi imediatamente em uma intelectual. Mas forneceu as perguntas que orientariam suas pesquisas nas décadas seguintes. Ao estudar Ciência Política em Rabat, Sociologia em Paris e concluir seu doutorado nos Estados Unidos, ela levaria consigo uma inquietação nascida muito antes das universidades: quem define as fronteiras que organizam a vida social?
A resposta a essa pergunta a transformaria em uma das pensadoras mais influentes do mundo árabe contemporâneo.
Quem conta a história?
Ao longo das décadas seguintes, Mernissi encontraria essas fronteiras em lugares inesperados.
Uma delas aparecia na forma como a história era contada. Outra, nas interpretações religiosas que ajudavam a definir o papel das mulheres na sociedade. Havia ainda as fronteiras construídas pelo olhar ocidental sobre o mundo árabe, frequentemente reduzido a imagens simplificadas que pouco diziam sobre a complexidade das sociedades da região.
Em entrevista concedida à jornalista Terry Gross, nos anos 1990, Mernissi afirmou que uma das fronteiras que precisou atravessar foi justamente a de ler a história por conta própria, sem depender das interpretações produzidas por outros. Ao revisitar textos religiosos, documentos históricos e memórias coletivas, passou a questionar o fato de que a escrita da história e a construção da memória coletiva haviam sido dominadas por vozes masculinas.
Esse esforço de reinterpretar a tradição também moldou sua visão sobre a relação entre o mundo islâmico e a modernidade. Para Mernissi, as mulheres não deveriam ser obrigadas a escolher entre esses dois universos.
“Como mulher muçulmana vivendo em 1993, eu quero duas coisas: a mesquita e o satélite, ao mesmo tempo”, afirmou.
A frase tornou-se uma das sínteses mais conhecidas de seu pensamento. A mesquita representava a tradição religiosa e a herança cultural islâmica. O satélite, símbolo das novas tecnologias de comunicação da época, remetia à circulação global de informações e ao contato com diferentes culturas.
Ao aproximar as duas imagens, Mernissi rejeitava a ideia de que mulheres muçulmanas precisassem abandonar sua identidade para participar plenamente do mundo contemporâneo.
“Ninguém pode me mutilar dizendo que eu não posso ter acesso à mesquita ou ao Corão; que outra pessoa vai ler por mim ou frequentar a mesquita em meu lugar. Da mesma forma, ninguém pode me dizer que eu não devo aproveitar nada do Ocidente porque o Ocidente é o inimigo, e assim por diante”, pontuou Mernissi.

O poder do feminismo islâmico
Sua pesquisa ganhou projeção internacional em um momento de profundas transformações sociais no Marrocos. Após a independência, o país ampliou o acesso das mulheres à educação e incentivou sua participação em diferentes setores da vida pública. Enquanto isso, leis relacionadas ao casamento, à herança e à estrutura familiar continuavam reproduzindo desigualdades históricas.
Foi nesse contexto que Mernissi passou a investigar a relação entre religião, poder e gênero.
Em O Harém Político: O Profeta e as Mulheres, publicado em 1987, analisou textos históricos e religiosos frequentemente utilizados para justificar a exclusão feminina da esfera pública.Em vez de atribuir a desigualdade entre homens e mulheres ao Islã como um todo, Mernissi procurou demonstrar como determinadas interpretações haviam se tornado dominantes ao longo da história.
A abordagem aproximou seu trabalho do que mais tarde seria chamado de feminismo islâmico, corrente que defende a ampliação dos direitos das mulheres a partir de uma releitura crítica das tradições religiosas.
O interesse pela história conduziu Mernissi a outra investigação. Em Sultanas Esquecidas, recuperou trajetórias de mulheres que exerceram poder político em sociedades muçulmanas, questionando a ideia de que a liderança feminina seria incompatível com a tradição islâmica e chamando atenção para os mecanismos que definem quais personagens permanecem na memória histórica.
As fronteiras do futebol feminino no Marrocos
Quando Nouhaila Benzina entrou em campo na Copa do Mundo Feminina de 2023 usando hijab, tornou-se a primeira atleta a disputar o torneio com o véu islâmico.
A imagem correu o mundo como um símbolo das mudanças em curso na sociedade marroquina.
O episódio também chamou atenção por ocorrer em um momento de expansão do futebol feminino no país. Os gramados passaram a refletir debates que ultrapassam o universo esportivo e envolvem questões de identidade, representação e participação das mulheres na vida pública.
Além disso, houve mais investimento da Federação Marroquina de Futebol na modalidade. Nos últimos anos, o país ampliou competições nacionais, profissionalizou equipes e conquistou resultados inéditos.
Uma seleção da diáspora
A história da diáspora marroquina também se escreve na escalação da seleção nacional. Alguns dos principais nomes da equipe nasceram na Espanha, França, Bélgica ou Holanda, resultado de um fluxo migratório que há décadas conecta as duas margens do Mediterrâneo. A seleção transformou-se em um retrato singular do próprio país: uma sociedade cuja identidade constrói-se tanto dentro quanto fora de suas fronteiras.
Achraf Hakimi e Brahim Díaz nasceram na Espanha, assim como Ismael Saibari, que também possui nacionalidade belga. Os meio-campistas El Khannouss e Neil El Aynaoui nasceram, respectivamente, na Bélgica e na França. Já Noussair Mazraoui nasceu na Holanda. E a lista poderia continuar.
Filhos e netos da diáspora marroquina, esses atletas cresceram entre idiomas, sistemas educacionais e referências culturais distintas. Suas trajetórias refletem um movimento migratório que, ao longo do século XX, levou milhões de marroquinos para diferentes países europeus.
No Estreito de Gibraltar, o país construiu sua história no encontro entre diferentes mundos.
Talvez por isso a obra de Fátima Mernissi continue tão atual. Ao investigar as formas como fronteiras – geográficas, culturais, religiosas ou sociais – moldam a vida das pessoas, a socióloga produziu uma interpretação do Marrocos que ajuda a compreender muitos dos debates que chegam aos gramados da Copa do Mundo de 2026.



