Em uma cena imaginária de O Diabo Veste Prada, Miranda Priestly talvez torcesse o nariz com a mínima chance de misturar futebol e moda. Afinal, para um gosto tão apurado como o dela, poucas peças carregam tanta identidade quanto as camisas das seleções que disputarão a Copa do Mundo de 2026 pela primeira vez.

Estreantes em copas, as seleções de Curaçao, Cabo Verde, Jordânia e Uzbequistão trazem consigo não apenas um uniforme com cores diferentes, e sim, a identidade cultural de todo um país.

CURAÇAO

Localizada no sul do Mar do Caribe, e distante 65 km da Venezuela, Curaçao é uma pequena ilha de autonomia limitada, que até hoje é colônia dos Países Baixos (comumente conhecida como Holanda). 

Após se classificar em primeiro lugar do Grupo B nas Eliminatórias da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe), o país caribenho divulgou dois uniformes, sendo o principal predominantemente em azul com detalhes em amarelo e o segundo uniforme é predominantemente amarelo com detalhes na cor azul-petróleo. Com destaque para o nome da ilha atrás da camisa na altura do pescoço, sendo que no uniforme principal é constituído por linhas que remetem às ondas.

Mesmo tendo divulgado dois uniformes para a Copa de 2026, Curaçao utilizará apenas o uniforme principal, por conta do regulamento da FIFA em virtude de que as demais seleções do Grupo E não tem a cor azul predominante em seu uniforme. 

CABO VERDE

Colonizada pelos portugueses até 1975, o arquipélago de Cabo Verde deixou Camarões para trás ao se classificar também em primeiro lugar no Grupo D das Eliminatórias Africanas.

Para esta copa, os Tubarões Azuis, além de trazerem as cores azul, vermelho e branco da sua bandeira, trouxeram uma coisa bastante peculiar para retratar em suas camisas: o padrão geométrico triangular das rotas aéreas que ligam as ilhas do país.

De acordo com o site InforPress, a origem do apelido Tubarões Azuis, utilizado desde os anos de 2007 e 2008 e colocado no escudo da seleção, é resultado de uma iniciativa ligada à proteção ambiental e à valorização dos recursos marinhos do arquipélago.

JORDÂNIA

Localizada estrategicamente no cruzamento entre a Ásia, África e Europa, a Jordânia é um país com mais de 90% da população seguindo o islã. E com uma cultura árabe muito rica e extensa, trazer essa identidade cultural para o uniforme não seria um caminho tão diferente assim.

Os jordanianos levarão para a Copa de 2026 três uniformes, os quais trarão as principais representações de sua cultura. O primeiro uniforme é predominantemente branco com detalhes em vermelho. O segundo é totalmente em vermelho com detalhes em branco, onde ambos os detalhes representam um padrão de losangos inspirados na Kufiya, tradicional lenço de cabeça árabe usado no Oriente Médio.

Já o terceiro uniforme é totalmente preto com detalhes dourados e com um design gráfico inspirado na íris-negra, flor nacional da Jordânia. 

UZBEQUISTÃO

Localizado na Ásia Central, cujo território já fez parte da antiga URSS (União Soviética), o Uzbequistão atualmente é um país democrático, laico, cuja maioria da população se declara muçulmana.

Classificada na terceira fase com 18 pontos ao empatar em 0 a 0 com os Emirados Árabes Unidos nas Eliminatórias Asiáticas, o Uzbequistão será a terceira ex-República da União Soviética a se classificar para a Copa do Mundo de futebol.

Para o mundial, a seleção uzbeque entrará em campo com dois uniformes, sendo o principal completamente em azul e o reserva totalmente branco. Porém, em ambos os uniformes há um padrão de mosaico inspirado na arquitetura histórica com detalhes em alusão à bandeira nacional.

UNIÃO E IDENTIDADE CULTURAL

A frase “não é só futebol” faz total sentido quando ampliamos a forma como enxergamos o esportepara além de quatro linhas, gramado, 22 jogadores de linha e uma bola redonda.

Jogar uma Copa do Mundo de futebol não é apenas o ápice do jogador de elite, mas, também, é fazer com que ressoe nos quatro cantos do mundo toda uma identidade de um povo que respira um dos maiores esportes do mundo.

Por mais que a FIFA não permita mensagens políticas até nos uniformes das seleções, jogar futebol e vestir a camisa do seu país, ou até mesmo o do seu time do coração, é um ato político. Mas, além disso, é também uma forma de comunicação, para que o mundo todo possa ver a nossa diversidade como povo e que estamos unidos através do esporte. Mesmo que somente uma das 48 seleções termine como a campeã de 2026.

Se os universos de O Diabo Veste Prada e a Copa do Mundo de futebol se encontrassem num multiverso tal qual o criado pela Marvel, certamente deixaria Miranda Priestly muito feliz em ver que moda, futebol e semiótica se comunicam perfeitamente entre si. 

Só que ao invés de modelos caminharem por uma passarela de piso liso, os jogadores desfilam em um gramado verde.

*Com informações do site FootHeadLines