Por Raphael Cezario – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Convidado por um amigo russo para assistir ao jogo entre México e Coreia do Sul em uma “watch party” em Astoria, Nova York, saí de casa com minha câmera imaginando encontrar um choque de culturas: coreanos e mexicanos reunidos para acompanhar uma partida da Copa do Mundo. Como brasileiro, acompanhado por um russo, eu também fazia parte desse mosaico de nacionalidades.

O evento acontecia em um amplo salão de madeira, com lustres antigos de cristais e dezenas de cadeiras voltadas para um grande telão. Um DJ tocava antes do jogo, criando um clima acolhedor para quem ia chegando. A maioria dos presentes eram mexicanos, mas alguns coreanos estavam espalhados pelo salão, acompanhando o jogo com atenção silenciosa e tímida, no início da partida.

Nas mesas laterais, algumas comidas e bebidas típicas dos dois países dividiam espaço. Uma delas chamava atenção: a Horchata Makgeolli, fusão entre a tradicional bebida mexicana de arroz e canela e o makgeolli, vinho de arroz coreano. Um encontro improvável que parecia traduzir bem o espírito do evento.

Foto: Raphael Cezario/@raphaelcaco

A iniciativa da transmissão nasceu de uma conversa entre Vicente e YJ. Filho de imigrantes coreanos e segunda geração nos Estados Unidos, YJ assumiu o negócio de eventos da família após a aposentadoria dos pais. Vicente chegou aos EUA vindo do México quando ainda era um adolescente de 14 anos e hoje trabalha ao lado dele há mais de 15 anos, coordenando uma equipe de mais de 80 pessoas.

Conversando separadamente com os dois, a palavra que mais se repetia era “confiança”. Nenhum deles falava de diferenças culturais como barreira. Pelo contrário, falavam de respeito, parceria e de uma relação construída ao longo dos anos, que foi resumida por ambos como sendo “praticamente uma família”.

E essa sensação não estava apenas nas falas. Apesar das diferenças entre um México conhecido por uma forte mistura étnica, tendo 68 línguas indígenas reconhecidas no país, e uma Coreia do Sul historicamente mais homogênea, com imigração recente como fenômeno social, o salão se tornou um espaço de convivência natural. Durante o intervalo, mexicanos e coreanos se misturaram, dançando juntos ao som do DJ.

Foto: Raphael Cezario/@raphaelcaco

Apesar de o jogo ter sido relativamente morno, quando a bola rolava as diferenças desapareciam ainda mais. As reações eram universais: mãos na cabeça em lances perdidos, gritos em chances claras, risos e tensão a cada ataque. As expressões davam vida ao famoso clichê de que “o futebol é universal”.

No fim, o México venceu por 1 a 0, com a Coreia do Sul pressionando nos minutos finais e chegando a desperdiçar uma chance clara diante do goleiro. Mas o resultado ficou em segundo plano e a festa continuou após o apito final. Com o DJ tocando músicas mexicanas, o salão se transformou em uma grande rifa organizada por Vicente e YJ. O mais curioso é que os gritos a cada sorteio eram mais altos do que durante boa parte do jogo, ditando o clima de celebração entre as duas culturas.

Naquela noite, mais do que uma partida da Copa do Mundo, o que ficou foi a sensação de que identidade também se constrói no encontro, principalmente entre imigrantes. E que, às vezes, o futebol apenas abre a porta para isso acontecer.