João Saldanha, o técnico que não teve medo da ditadura
Assumidamente comunista, o jornalista-treinador não aceitou receber ordens de um ditador e foi demitido
Por William Pessoa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Em um país que está vivendo o auge da ditadura ter um técnico comunista dirigindo sua seleção é uma coisa quase impensável. Mas, em 1970, essa foi a realidade da Seleção Brasileira.
O jornalista João Alves Jobin Saldanha foi uma pessoa de personalidade forte, sendo apelidado de “João sem medo”. Ele era assumidamente comunista, inclusive foi filiado do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 1940, chegando a ser preso algumas vezes por razões políticas.
Em 1969, Saldanha assumiu o comando da Seleção Brasileira. O jornalista-treinador dirigiu a amarelinha, que na época ficou conhecida como “Feras do Saldanha”, com nomes como Carlos Alberto Torres, Gérson, Jairzinho, Pelé e Tostão. Eles se tornam imbatíveis e venceram todos os jogos das Eliminatórias, caindo nas graças da torcida.
A negação e a demissão
Às vésperas da Copa do Mundo de 1970, o presidente Emílio Garrastazu Médici declarou que queria o jogador Dario, conhecido como Dadá Maravilha, na Seleção. Saldanha respondeu, via imprensa: “nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”. Duas semanas depois, o técnico foi demitido do cargo.
Dois meses antes do Mundial, Zagallo assumiu a equipe nacional, após a saída de Saldanha, e acabou conquistando aquela edição do Mundial. Atendendo ao pedido de Médici, o novo treinador convocou Dadá, porém o atleta não jogou uma única partida na competição e viu o título do banco.

Devido à censura, a imprensa não tocava no nome de Médici e o que foi relatado pelos jornais da época é que o ex-técnico da Seleção Brasileira teria tido problemas com o diretor de futebol da Confederação Brasileira de Desportos, e a gota d’água teria sido deixar Pelé no banco de reservas em uma partida contra o Chile.
Após o fim da ditadura militar no Brasil, João Saldanha não se calou e falou sobre o ex-presidente em entrevista ao Roda Viva. “Eu considero o Médici o maior assassino da história do Brasil”, disparou o jornalista-treinador.



