Por Rodrigo Marques – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Antes de levantar seis taças da Liga dos Campeões, quebrar a hegemonia de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo na Bola de Ouro e se tornar o jogador mais vitorioso da história do Real Madrid, Luka Modrić era apenas uma criança correndo entre ruínas.

Aos seis anos, viu sua família ser obrigada a abandonar a própria casa durante a Guerra da Independência da Croácia. Perdeu o avô assassinado por grupos paramilitares sérvios, tornou-se refugiado em seu próprio país e cresceu cercado pelo som de bombas e sirenes.

Em meio ao caos, encontrou no futebol um refúgio.

Mais de três décadas depois, às vésperas de disputar sua quinta Copa do Mundo com a camisa da Croácia, Modrić se aproxima do encerramento de uma das trajetórias mais extraordinárias da história do esporte. Sua carreira ultrapassa os limites dos gramados: ela se confunde com a própria história da Croácia moderna, um país que nasceu da guerra e encontrou no futebol uma das formas mais poderosas de afirmar sua identidade perante o mundo.

A criança que cresceu entre bombas

Luka Modrić nasceu em 9 de setembro de 1985, em Zadar, cidade localizada na costa do Mar Adriático. Na época, a Croácia ainda integrava a antiga Iugoslávia, uma federação composta por seis repúblicas socialistas que começava a enfrentar profundas tensões políticas e étnicas.

Os primeiros anos de sua vida foram passados no pequeno vilarejo de Modrići, uma comunidade rural situada aos pés da montanha Velebit. Filho de Stipe Modrić e Radojka Dopuđ, Luka cresceu cercado por paisagens montanhosas, estradas de terra e uma rotina simples do interior.

Uma das figuras mais importantes de sua infância era seu avô paterno, também chamado Luka, de quem herdou o nome. Os dois passavam longos períodos juntos, cuidando dos animais da família e compartilhando uma rotina tranquila que seria interrompida pela guerra.

Em 1991, a Croácia declarou independência da Iugoslávia.

A decisão desencadeou um conflito sangrento que rapidamente transformou regiões inteiras do país em zonas de combate. O avanço das forças sérvias e de grupos paramilitares ligados à autoproclamada República Sérvia da Krajina atingiu diretamente a região onde a família Modrić vivia.

No dia 18 de dezembro daquele ano, a tragédia bateu à porta.

O avô de Luka foi assassinado por milicianos sérvios próximo à casa da família. Pouco depois, a propriedade foi incendiada e completamente destruída.

A vida que a família de Modrić conhecia deixou de existir. Sem alternativa, a família abandonou o vilarejo e iniciou uma fuga que mudaria para sempre o destino do garoto.

Foto: FIFA+

Refugiado em seu próprio país

Como milhares de croatas durante a guerra, os Modrić tornaram-se refugiados.

A família encontrou abrigo na cidade de Zadar, que também sofria ataques constantes. Durante anos, Luka viveu nos hotéis Kolovare e Iž, transformados em centros de acolhimento para famílias deslocadas pelo conflito.

Seu pai ingressou no Exército Croata como mecânico de aeronaves. Enquanto isso, a mãe buscava manter alguma normalidade em meio à instabilidade provocada pela guerra.

Bombardeios faziam parte da rotina. As sirenes eram constantes. A incerteza sobre o futuro era permanente. Mesmo assim, Modrić recorda que os adultos faziam o possível para proteger as crianças dos horrores do conflito.

No documentário Capitães, produzido pela FIFA em parceria com a Netflix, o jogador relembrou a figura do avô com emoção.

“Eu me lembro muito bem dele. Era meu protetor. Tenho o nome dele. Fico triste porque ele não pôde ver tudo o que conquistei, mas sei que está lá em cima olhando por mim.”

Apesar do trauma, Modrić costuma destacar que sua infância não foi definida apenas pela guerra.

Os pais e familiares tentavam preservar momentos de normalidade, permitindo que as crianças brincassem e construíssem amizades mesmo em meio à destruição.

Estima-se que mais de 20 mil pessoas tenham morrido durante a Guerra da Independência da Croácia. Cerca de 550 mil foram deslocadas de suas casas.

Entre elas estava o menino que, décadas depois, conduziria a seleção croata a uma final de Copa do Mundo.

Quando o futebol virou abrigo

Foi justamente nos estacionamentos dos hotéis onde vivia que nasceu o sonho.

Sem campos oficiais, sem traves e sem equipamentos adequados, Luka improvisava partidas utilizando pedras para marcar o gol. O concreto substituía o gramado. Os corredores dos hotéis viravam arquibancadas. A bola era a única coisa capaz de fazer desaparecer, ainda que por alguns instantes, o peso da guerra.

Quando vejo fotos da minha infância, estou sempre com uma bola. O futebol era uma maneira de escapar da realidade que nos cercava“, recordou anos mais tarde.

Em 1992, apesar das dificuldades financeiras, seus pais conseguiram matriculá-lo em uma academia esportiva de Zadar. Muitas vezes, parentes precisavam ajudar a família para que o garoto pudesse continuar treinando.

Ali começaram a surgir os primeiros sinais de um talento incomum.

Enquanto outros meninos se destacavam pela força física, Modrić chamava atenção pela inteligência, pela leitura de jogo e pela capacidade de controlar a bola com naturalidade.

Seus grandes ídolos eram Francesco Totti e Zvonimir Boban.

Boban, em especial, representava algo além do futebol. Capitão da primeira geração da seleção croata independente, simbolizava a resistência e a construção de uma nova identidade nacional.

Luka observava tudo à distância, sem imaginar que um dia seguiria caminho semelhante.

O garoto franzino que ninguém queria

O talento era evidente, o físico, nem tanto. Magro, baixo e aparentemente frágil, Modrić não se encaixava no perfil tradicional dos jovens jogadores que os clubes buscavam na época. Por essa razão, acabou rejeitado pelo Hajduk Split, principal equipe da região da Dalmácia e um dos clubes mais populares da Croácia.

A avaliação era simples: o garoto parecia pequeno demais para sobreviver ao futebol profissional. Foi um dos primeiros grandes erros cometidos contra ele.

Enquanto muitos enxergavam limitações físicas, Tomislav Bašić, responsável pelo desenvolvimento de jovens atletas em Zadar, via algo completamente diferente.

Bašić se tornou uma espécie de mentor para o jovem jogador. Foi ele quem insistiu para que os grandes clubes observassem Luka mais de perto. Foi também quem o ajudou a organizar sua transferência para o Dinamo Zagreb, em 2001, quando o meia tinha apenas 16 anos.

A mudança representava muito mais do que uma oportunidade esportiva. Era a chance de uma família refugiada reconstruir sua vida.

Foto: Instagram/@lukamodric10 

A construção de um craque

A chegada ao Dinamo Zagreb marcou o início da transformação de Luka Modrić de promessa regional em um dos maiores talentos do futebol europeu.

Mas o caminho até o estrelato não foi imediato, assim como aconteceria diversas vezes ao longo de sua carreira, ele precisou provar seu valor em ambientes adversos.

Após uma temporada nas categorias de base, o Dinamo decidiu emprestá-lo ao Zrinjski Mostar, da Bósnia e Herzegovina, em 2003. A decisão surpreendeu muitos observadores.

A liga bósnia era conhecida pelo jogo físico, pelos gramados precários e pela intensidade dos confrontos. Para um jovem de apenas 18 anos e considerado franzino demais para o futebol profissional, parecia um desafio desproporcional.

Modrić enxergou a situação de outra forma. Em vez de ser intimidado, adaptou-se rapidamente ao cenário hostil.

Passou a usar sua inteligência para escapar dos marcadores, aprimorou a leitura de jogo e desenvolveu a capacidade de controlar o ritmo das partidas.

Ao final da temporada, foi eleito o melhor jogador da Premier League da Bósnia.

A premiação representou um recado claro aos críticos. O garoto considerado fraco demais para competir entre adultos acabara de se tornar o principal jogador de uma liga profissional.

Anos mais tarde, resumiria aquela experiência com uma frase que se tornou famosa:

Quem consegue jogar na liga da Bósnia consegue jogar em qualquer lugar.

No ano seguinte, um novo empréstimo, desta vez para o Inter Zaprešić, da primeira divisão croata.

Mais uma vez, Modrić respondeu dentro de campo. Conduziu a equipe à melhor campanha de sua história, conquistando um vice-campeonato nacional e uma vaga nas competições europeias.

Em 2004, recebeu o prêmio de maior promessa do futebol croata. O país começava a perceber que um novo talento estava surgindo.

O maestro do Dinamo Zagreb

Quando retornou ao Dinamo Zagreb, em 2005, Luka já não era apenas uma promessa. Era um jogador pronto para assumir protagonismo.

O clube percebeu rapidamente seu potencial e ofereceu um contrato de dez anos, um movimento incomum para um atleta tão jovem.

Com o primeiro grande salário da carreira, Modrić realizou um sonho que carregava desde a infância, comprou um apartamento para sua família em Zadar. Depois de anos vivendo como refugiados, os Modrić finalmente tinham um lar novamente.

Dentro de campo, o meia tornou-se o cérebro da equipe. Sua capacidade de encontrar espaços, acelerar o jogo ou desacelerá-lo quando necessário transformou o Dinamo em uma das equipes mais dominantes da Croácia.

Os títulos vieram rapidamente. Campeonatos nacionais, copas da Croácia, participações em competições europeias. Além dos troféus, crescia também o interesse dos gigantes do continente. Arsenal, Chelsea e Barcelona passaram a monitorar suas atuações.

Mas a explosão definitiva ainda estava por vir.

Na temporada 2007-08, já usando a braçadeira de capitão, Modrić liderou o Dinamo em uma campanha histórica. Sua atuação diante do Ajax, nos playoffs da Copa da UEFA, chamou atenção em toda a Europa. O pequeno maestro croata estava pronto para um novo desafio.

Londres descobre Luka Modrić

Em abril de 2008, o Tottenham Hotspur anunciou a contratação de Luka Modrić por cerca de 16,5 milhões de libras, valor recorde para o clube na época.

A transferência representava um salto gigantesco. A Premier League era considerada o campeonato mais intenso do planeta, e havia dúvidas sobre a capacidade de um jogador tão leve suportar o ritmo do futebol inglês. 

As críticas surgiram rapidamente. Comentaristas questionavam sua força física. Alguns chegaram a afirmar que ele jamais conseguiria se adaptar à Inglaterra.

Os primeiros meses foram realmente difíceis. Lesões e mudanças constantes de posição dificultaram sua adaptação. Mas tudo começou a mudar com a chegada do técnico Harry Redknapp.

Ao colocá-lo em sua posição ideal, no centro do meio-campo, o treinador permitiu que Modrić mostrasse aquilo que fazia melhor. Pensar o jogo. 

A partir daquele momento, o croata tornou-se o coração da equipe londrina. Sua visão de jogo impressionava. Sua capacidade de escapar da pressão rival parecia sobrenatural. Enquanto outros jogadores dependiam da força física, Modrić dominava as partidas com inteligência.

Na temporada 2009-10, mesmo após sofrer uma fratura na fíbula, retornou em grande nível e ajudou o Tottenham a conquistar uma vaga histórica na Liga dos Campeões.

No ano seguinte, liderou os Spurs em uma campanha memorável na competição europeia. As atuações contra a Inter de Milão colocaram seu nome definitivamente no radar dos maiores clubes do mundo. Sir Alex Ferguson o descreveu como um dos melhores meio-campistas da Europa. O Chelsea tentou contratá-lo. Sem sucesso. Mas era apenas questão de tempo até que um gigante conseguisse tirá-lo de Londres.

Foto: AP

De aposta contestada a lenda do Real Madrid

Em agosto de 2012, Luka Modrić foi anunciado pelo Real Madrid. A transferência representava o maior desafio de sua carreira. Também marcava o início de uma história que mudaria para sempre o clube espanhol.

O começo, no entanto, esteve longe de ser fácil. O elenco era repleto de estrelas. Xabi Alonso, Mesut Özil, Sami Khedira e Ángel Di María ocupavam espaços importantes no meio-campo. Modrić teve dificuldades para encontrar seu lugar.

As críticas voltaram. Uma votação realizada por um jornal espanhol chegou a apontá-lo como uma das piores contratações da temporada.

Parecia um roteiro conhecido. Subestimado. Questionado. Dado como insuficiente. Exatamente como havia acontecido na infância. Exatamente como havia acontecido na Bósnia. Exatamente como havia acontecido na Inglaterra. A resposta veio dentro de campo.

Em março de 2013, durante um confronto decisivo contra o Manchester United pela Liga dos Campeões, Modrić saiu do banco de reservas e marcou um golaço que mudou o rumo da eliminatória.

Foi o início da virada. Pouco a pouco, tornou-se indispensável. Quando Carlo Ancelotti assumiu o comando da equipe, a evolução foi definitiva. O treinador italiano enxergou em Modrić o cérebro que faltava ao time.

Na temporada 2013-14, o croata foi peça fundamental na conquista da histórica “La Décima”, a décima Liga dos Campeões do Real Madrid.

Na final contra o Atlético de Madrid, foi dele a cobrança de escanteio que resultou no gol de Sergio Ramos aos 93 minutos, um dos lances mais emblemáticos da história do clube.

Era apenas o começo.

Nos anos seguintes, ao lado de Toni Kroos e Casemiro, formaria um dos trios de meio-campo mais dominantes que o futebol já viu. Sob o comando de Zinedine Zidane, o Real conquistaria três Champions League consecutivas entre 2016 e 2018, um feito inédito na era moderna do torneio.

Enquanto o clube construía uma dinastia, Modrić consolidava seu lugar entre os maiores jogadores de sua geração.

A criança refugiada que improvisava traves com pedras agora comandava o meio-campo do maior clube do mundo.

E o auge ainda estava por chegar.

O homem que interrompeu a era Messi e Cristiano

Se a chegada ao Real Madrid consolidou Luka Modrić entre os melhores meio-campistas do mundo, a temporada 2017-18 o transformou em um dos grandes nomes da história do futebol. Naquele período, o croata viveu o auge de sua carreira.

Pelo Real Madrid, foi peça central na conquista da terceira Liga dos Campeões consecutiva do clube espanhol. Atuando como o cérebro da equipe, comandava o ritmo das partidas com uma combinação rara de inteligência, precisão nos passes e leitura de jogo.

Mas o momento que mudaria definitivamente sua trajetória aconteceria alguns meses depois, na Rússia. A Copa do Mundo de 2018 representava mais do que um torneio para a Croácia.

Com pouco mais de duas décadas de independência, o país buscava consolidar sua identidade internacional também através do esporte. E ninguém simbolizava melhor essa geração do que Luka Modrić.

Capitão da seleção, ele conduziu os croatas em uma campanha histórica. Na fase de grupos, a Croácia venceu Nigéria, Argentina e Islândia, terminando a primeira fase com 100% de aproveitamento. Contra os argentinos, Modrić marcou um dos gols da vitória por 3 a 0, em uma atuação que chamou a atenção do mundo.

Nas fases eliminatórias, a equipe eliminou Dinamarca, Rússia e Inglaterra. Todas as partidas exigiram um esforço quase sobre-humano. Duas foram decididas nos pênaltis, outra precisou da prorrogação.

A cada jogo, Modrić parecia crescer. Corria, organizava, defendia, atacava e liderava uma seleção que desafiava potências muito mais tradicionais.

A caminhada terminou apenas na final, diante da França. Mesmo derrotada por 4 a 2, a Croácia deixava a Rússia com um feito inédito: a primeira final de Copa do Mundo de sua história.

Ao fim do torneio, Modrić recebeu a Bola de Ouro da Copa, prêmio concedido ao melhor jogador da competição. Era o reconhecimento de uma campanha que ultrapassava os resultados esportivos.

Para muitos croatas, aquele time simbolizava a capacidade de um país pequeno e marcado pela guerra competir em igualdade com as maiores nações do planeta.

Meses depois, veio a consagração definitiva. Modrić conquistou o prêmio de Melhor Jogador da UEFA, foi eleito The Best pela FIFA e, finalmente, recebeu a Bola de Ouro.

A premiação encerrou uma sequência histórica de dez anos de domínio alternado entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Mais do que uma conquista individual, o prêmio representava o triunfo de uma trajetória construída contra todas as probabilidades.

O menino refugiado de Zadar havia chegado ao topo do futebol mundial.

Foto: X/@BBCMOTD

O capitão de um país marcado pela guerra

A relação de Luka Modrić com a seleção croata sempre foi diferente. Enquanto muitos jogadores são lembrados pelos clubes que defenderam, o meia construiu parte significativa de seu legado vestindo a camisa de seu país.

Para uma geração que cresceu durante os conflitos dos anos 1990, representar a Croácia nunca foi apenas uma questão esportiva. Era também um ato de identidade nacional.

Ao longo da carreira, Modrić frequentemente relacionou a mentalidade da seleção ao passado recente do país.

Em suas entrevistas, costuma lembrar que muitos jogadores daquela geração cresceram ouvindo histórias da guerra ou convivendo diretamente com suas consequências.

Esse sentimento ficou evidente durante a Copa do Mundo de 2022. No Catar, a Croácia voltou a surpreender o mundo. Mesmo sem o favoritismo de seleções como Brasil, Argentina, França ou Inglaterra, os croatas alcançaram novamente as semifinais do torneio.

Nas quartas de final, enfrentaram a seleção brasileira. Após empate por 1 a 1 na prorrogação, a vaga foi decidida nos pênaltis. Modrić converteu sua cobrança e ajudou a conduzir a Croácia para mais uma classificação histórica.

Após a partida, foi questionado sobre a capacidade física e mental da equipe. Sua resposta rapidamente repercutiu em diversos países.

Ninguém nos deu nada. Ninguém acreditava que poderíamos estar nas semifinais. Mas nós acreditávamos. Quando vestimos esta camisa, queremos mostrar o quanto significa representar nosso país. Sofremos muito para ter nossa independência. Isso nos enche de orgulho e paixão.”

A declaração sintetizava algo que acompanhou toda a sua carreira. Para Modrić, vestir a camisa da Croácia sempre significou representar muito mais do que uma seleção. Significava representar a história de um povo.

Após a derrota para a Argentina na semifinal, os croatas venceram o Marrocos na disputa pelo terceiro lugar. Pela segunda Copa consecutiva, Modrić saiu do torneio entre os melhores jogadores do mundo, recebendo a Bola de Bronze da competição.

O último capítulo de uma história improvável

Enquanto seguia escrevendo capítulos memoráveis pela seleção, Luka Modrić também ampliava seu legado em Madri.

Mesmo após completar 35 anos, idade em que muitos jogadores iniciam uma trajetória descendente, o croata continuou atuando em alto nível.

Sob o comando de Carlo Ancelotti, participou das campanhas vitoriosas da La Liga e das conquistas da Liga dos Campeões de 2022 e 2024. Sua longevidade impressionava treinadores, companheiros e adversários. A inteligência de jogo compensava qualquer perda física natural provocada pelo tempo.

Em 2024, assumiu a braçadeira de capitão do Real Madrid. Pouco depois, tornou-se oficialmente o jogador mais vitorioso da história do clube. Ao final de sua passagem pelo Santiago Bernabéu, acumulou números que pareciam impossíveis quando chegou à Espanha em 2012 sob desconfiança.

Foram 597 partidas oficiais. 43 gols. Dezenas de assistências. E 28 títulos conquistados. Mais importante do que os números, porém, foi a forma como construiu esse legado.

Modrić nunca foi o atleta mais rápido. Nunca foi o mais forte. Nunca foi o mais midiático. Sua carreira foi construída a partir da inteligência, da disciplina e da capacidade de superar obstáculos que pareciam intransponíveis.

Em maio de 2025, anunciou que deixaria o Real Madrid após o Mundial de Clubes. O fim de uma era emocionou torcedores em todo o mundo. Mas o adeus ao clube espanhol não significava o fim da carreira.

Aos 40 anos, o meia decidiu iniciar um novo desafio no Milan. A escolha tinha um significado especial. Quando criança, Modrić admirava Zvonimir Boban, ídolo da seleção croata e um dos grandes nomes da história do clube italiano.

Vestir a camisa rossonera representava a realização de um sonho cultivado desde a infância. Agora, às vésperas de disputar sua quinta Copa do Mundo, o croata se aproxima dos últimos capítulos de uma trajetória única.

Uma história que começou em um pequeno vilarejo destruído pela guerra, que passou pelos corredores de hotéis usados como abrigo para refugiados, atravessou campos improvisados em estacionamentos e terminou transformando um menino deslocado pela violência em uma das maiores lendas da história do futebol.

Muito antes dos troféus, dos aplausos e dos estádios lotados, Luka Modrić aprendeu a sobreviver.

Talvez seja por isso que tenha aprendido também a vencer.

Porque, para alguém que precisou reconstruir a própria vida desde a infância, nenhum desafio dentro de campo parecia grande demais.