Por Emilly Mariana – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Muito antes da Copa do Mundo de 2026, Kylian Mbappé e Lamine Yamal já ocupavam um espaço que vai além do futebol. Dois dos maiores rostos da nova geração do esporte, os atletas também se tornaram símbolos políticos em um cenário geopolítico marcado pelo avanço da extrema direita, pelo crescimento da xenofobia e pelo aumento dos discursos anti-imigração.

Na França, Mbappé construiu esse posicionamento ao longo dos últimos anos. Filho de imigrantes, mãe argelina e pai camaronês, o atacante frequentemente se manifestou contra o racismo e a desigualdade social nas periferias francesas. Em 2023, após a morte do jovem Nahel Merzouk durante uma abordagem policial, o jogador classificou a situação do país como “inaceitável” e pediu justiça nas redes sociais. Já em 2024, durante as eleições legislativas francesas, Mbappé convocou publicamente os jovens a votarem contra partidos extremistas, afirmando que não queria representar “uma França dividida”.

O posicionamento ganhou ainda mais peso por partir do principal nome da seleção francesa e de um dos atletas mais influentes do planeta. Em um país onde a extrema direita frequentemente utiliza pautas nacionalistas e anti-imigração como estratégia política, o camisa 10 virou também o símbolo de uma França multicultural que esses movimentos tentam rejeitar.

Kylian Mbappé, camisa 10 da França (Foto: Divulgação/FIFA)

Na Espanha, Lamine Yamal representa um debate semelhante. Filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, o jovem atacante de apenas 18 anos do Barcelona cresceu em Rocafonda, bairro periférico de Mataró, na Catalunha, marcado pela presença de famílias imigrantes. Sua ascensão no futebol mundial aconteceu paralelamente ao crescimento de partidos de extrema direita espanhóis que defendem políticas anti-imigração e discursos nacionalistas cada vez mais agressivos.

Entre essas disputas, vale destacar que o pai do camisa 19 da Espanha já se envolveu em brigas com integrantes da VOX (partido de extrema direita da Espanha). O episódio aconteceu em 2023 e Nasraoui teria discutido com candidatos e apoiadores do partido ao tentar expulsá-los de Rocafonda durante ações políticas no bairro. 

Esse histórico ajuda a explicar um dos gestos conhecidos de Yamal durante sua carreira, mas que voltou a tomar força após o jogo contra a Arábia Saudita. Logo depois de marcar seu primeiro gol pela Espanha em uma Copa do Mundo, o atacante voltou a fazer com as mãos o número “304”, referência ao código postal de Rocafonda. O gesto já se tornou rotineiro em suas comemorações pelo Barcelona, mas em um contexto de visibilidade de uma competição mundial, Yamal se torna um símbolo de orgulho periférico, resistência contra a xenofobia e afirmação das comunidades imigrantes que frequentemente são atacadas por setores ultra nacionalistas espanhóis. 

Lamine Yamal comemorando gol com “304” (Foto: Reprodução/X/SEFutbol)

Sendo assim, ambos os jogadores ajudam a mostrar como o futebol europeu se transformou em um espaço inevitavelmente político e que não pode haver separação entre os dois. Durante décadas, atletas eram pressionados a evitar posicionamentos públicos para preservar contratos, patrocinadores e relações institucionais. Mas a coragem de jogadores que são o rosto de seus clubes e seleções desde muito novos, mudou essa lógica. Em um cenário de ataques frequentes a imigrantes, muçulmanos e populações racializadas, o silêncio passou a ser questionado por muitos jogadores.

Mais do que craques da Copa do Mundo, Kylian Mbappé e Lamine Yamal representam a resistência dentro de uma Europa que será construída nos próximos anos pelas novas gerações. A luta por um continente formado justamente pela mistura de culturas, origens e identidades que o futebol ajudou a revelar ao mundo.