Por Rodrigo Matias

Na tarde desta quarta-feira (20/05), estudantes, professores e servidores das três universidades estaduais paulistas — Universidade de São Paulo, Universidade Estadual Paulista e Universidade Estadual de Campinas — realizaram um ato unificado contra o governador Tarcísio de Freitas. A concentração começou às 14h no Largo da Batata, em Pinheiros, e a marcha seguiu em direção ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

As principais reivindicações giram em torno de melhorias nas políticas de permanência estudantil, como auxílio-moradia e alimentação, além da contratação de novos profissionais.

A mobilização ganhou força após a ação violenta da Polícia Militar contra estudantes que ocupavam a Reitoria da USP na madrugada do dia 10 de maio, episódio que se tornou símbolo do enfrentamento à política de desmonte do ensino público e da falta de diálogo do governo estadual com os estudantes. A luta estudantil também se coloca como oposição às privatizações e terceirizações defendidas pela gestão estadual, além de denunciar a repressão policial. Desde então, a paralisação deixou de ser um protesto localizado e passou a reunir reivindicações comuns entre as três universidades.

Realidade na Unicamp

Na Unicamp, a greve já atinge pelo menos 65 cursos, segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE-Unicamp). A unidade de Limeira está totalmente paralisada.

As pautas na universidade focam na moradia estudantil, no reajuste das bolsas e também na resistência à terceirização. Os estudantes apontam que a insistência em empresas privadas para setores como o Restaurante Universitário (RU) e a limpeza compromete a qualidade do serviço e enfraquece o vínculo com a comunidade acadêmica. Além disso, o movimento local também se posiciona contra a autarquização do complexo de saúde da universidade, identificada pelos manifestantes como uma porta de entrada para a privatização.

Em solidariedade, os professores da Unicamp aprovaram greve por tempo indeterminado a partir do dia 18 de maio, seguindo a orientação do Fórum das Seis, articulação que reúne sindicatos de docentes, funcionários e estudantes das três universidades.

Unesp

Na Unesp, a greve atingiu mais de 40 cursos em seis campi, o equivalente a aproximadamente 30% das 136 graduações oferecidas pela universidade. A mobilização começou no Instituto de Artes, na capital, onde alunos ocupam o prédio há mais de 20 dias.

Estudantes de diversos campi denunciam a demora na aprovação das bolsas de permanência estudantil, situação que obriga muitos alunos a abandonarem a graduação por não conseguirem se manter na universidade.

A mobilização na Unesp também foi impulsionada pela morte da professora Sandra Regina Campos, de 66 anos, que sofreu um mal súbito durante uma atividade acadêmica no Instituto de Artes, na zona oeste de São Paulo, e não resistiu. O local não contava com serviço de emergência médica, e os próprios estudantes precisaram prestar socorro à docente.

A reitoria da Unesp informou que, em 2025, mais de 7 mil estudantes receberam auxílio, o que corresponde a mais de 20% dos matriculados, e que o orçamento destinado à permanência estudantil em 2026 é de R$ 110,7 milhões. A universidade reconheceu, no entanto, que o processo de inclusão social exige “esforços constantes e melhorias contínuas”.

O fim do ICMS

Para além das pautas locais, as três universidades compartilham um problema estrutural: o modelo de financiamento. Desde os anos 1990, USP, Unesp e Unicamp recebem um percentual fixo de 9,57% da arrecadação do ICMS. O mecanismo ajudou a consolidar São Paulo como um polo de excelência acadêmica. Entretanto, nas últimas três décadas, o número de campi, cursos, estudantes e servidores cresceu, enquanto o repasse não acompanhou essa expansão.

A Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132/2023) prevê a extinção gradual do ICMS a partir de 2026, com substituição total pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) até 2033. O novo imposto terá regras de distribuição diferentes e, até o momento, não há garantia legal de que as universidades continuarão recebendo o equivalente aos atuais 9,57%.

A proposta da comunidade acadêmica, defendida pelo Fórum das Seis e também pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), é substituir o modelo atual por um percentual fixo da Receita Tributária Líquida (RTL) do Estado. Segundo os cálculos apresentados pelas entidades, 8,63% da RTL equivaleria, na prática, aos atuais 9,57% do ICMS. O mesmo modelo já é utilizado no financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Os estudantes também reivindicam a revisão da distribuição dos recursos para garantir que a expansão das vagas nas últimas décadas seja acompanhada de investimento proporcional em assistência estudantil. A pauta central, unificada entre as três universidades, inclui o reajuste do auxílio permanência para o valor de um salário mínimo paulista (R$ 1.874).

Durante a posse da nova reitoria da USP, em janeiro de 2026, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que “não vai ser a reforma tributária que vai fazer com que isso mude” e prometeu “construir o mecanismo de transição”. Até agora, porém, nenhuma proposta concreta foi apresentada pelo governo estadual. A promessa não tranquiliza estudantes e servidores, que lembram que a mesma gestão já tentou reduzir o financiamento das universidades nos últimos anos e mantém uma agenda considerada por eles como de ataques à educação pública.

A unificação das lutas

Para além dos muros das universidades, a mobilização estudantil também se articula com trabalhadores, operários e demais servidores públicos que denunciam as privatizações de empresas como a Sabesp e das linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, além do aumento da violência policial nas periferias e dos cortes de verbas para políticas sociais.

Com a união das entidades nesta e em outras marchas, a crise da educação superior ganha visibilidade nacional e passa a contar com o apoio de sindicatos e movimentos sociais, fortalecendo a articulação entre diferentes setores das três principais universidades públicas paulistas.