Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas debatem ancestralidade e identidade brasileira na Feira do Livro
Os autores discutiram mitologia, religiosidades afro-brasileiras, memória coletiva e a importância das narrativas populares na construção da identidade nacional
Abrindo a programação do Palco Praça no primeiro dia da Feira do Livro de São Paulo, os escritores Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas participaram da mesa “Encantarias Brasileiras”, dedicada a discutir ancestralidade, espiritualidade afro-brasileira, mitologia, orixás e as manifestações culturais que atravessam as ruas, os terreiros e o cotidiano do país. O encontro reuniu reflexões sobre memória, oralidade, decolonialidade e a importância das narrativas populares na construção da identidade brasileira.
A conversa partiu de duas obras centrais dos autores. Em Meu Destino é Ser Onça, Alberto Mussa revisita a mitologia tupinambá e utiliza a figura da onça como metáfora da alteridade humana, conectando passado e presente enquanto recupera vozes historicamente marginalizadas. A obra, uma década após o lançamento, tornou-se referência para diferentes manifestações culturais, incluindo o desfile da escola de samba Grande Rio, em 2023.
Já Luiz Antonio Simas trouxe para o debate as reflexões presentes na série Kit Encantarias, formada pelos livros O Corpo Encantado das Ruas, Crônicas Exusíacas e Estilhaços Pelintras. A coleção nasce das experiências do autor com a cultura popular, os terreiros, as religiões de matriz africana e a Umbanda, além de seus estudos sobre a formação de uma religião genuinamente brasileira.
Durante a mesa, os autores discutiram as vivências únicas brasileiras, o resgate das ancestralidades e a decolonialidade a partir da valorização das culturas periféricas e da diversidade religiosa e étnica. A partir de suas escrevivências, seus trabalhos transitam pela mitologia, pelas crenças e pelas criatividades dos autores, que constroem um universo fantástico baseado na realidade cotidiana da multiplicidade de povos brasileiros.

Simas destacou que suas vivências em terreiros e seu contato com as religiões afro-brasileiras influenciam diretamente sua produção intelectual e literária. “Eu levo isso para os meus trabalhos e para as minhas histórias”, afirmou. Para o escritor, compreender o passado é essencial para interpretar o presente e construir o futuro. “Não se constrói futuro e não se entende o presente se você não enfrentar o passado”, destacou.
A partir dessa reflexão, os autores discutiram a importância de múltiplas narrativas históricas. Para Alberto Mussa, a capacidade de contar histórias é uma característica constitutiva da humanidade. “A arte narrativa é a arte mais antiga da humanidade. Quando surgiu o primeiro Homo sapiens, ele já nasceu contando histórias”, afirmou.
Segundo os escritores, muito antes dos registros escritos, os povos já utilizavam a oralidade, os mitos e as narrativas para responder às grandes questões da existência. Por isso, suas pesquisas e produções literárias valorizam tradições que sobreviveram por gerações por meio da memória coletiva.
Complementando essa ideia, Simas afirmou que a mitologia é uma das expressões mais universais da experiência humana. “A mitologia é o único gênero absolutamente universal, porque acompanha as transformações dos corpos e das culturas, mas continua tratando dos problemas essenciais da humanidade”, explicou.
Ao discutir identidade nacional, Alberto Mussa defendeu que o Brasil ainda precisa aprofundar o conhecimento sobre suas próprias origens. Para o autor, a valorização das culturas indígenas, africanas e populares é fundamental para fortalecer um senso coletivo de pertencimento. “É necessário criar uma comunidade que tenha senso de nação, algo que nunca desenvolvemos plenamente”, afirmou.
Em meio a risadas, memórias dos encontros em escolas de samba e muitas musicalidades, a festa é ressignificada pelos autores como forma de protesto, sobrevivência e luta. Alberto Mussa ressignifica as corporeidades inspirado nas religiões de matriz africana, nas quais o corpo, vivo ou morto, vai muito além de órgãos funcionando. Viver é ocupar espaços, sentir-se pertencente e ter história. “Existem pessoas com o coração batendo que estão mortas, assim como pessoas que faleceram há centenas de anos e ainda estão vivas.”
Ainda recorrendo às suas memórias de infância, o autor relembra: “Os maiores esporros que eu tomei foram de pessoas que morreram há 200, 300 anos”.
A discussão também abordou a relação entre educação e diversidade cultural. Para Simas, ainda existe um distanciamento entre os conhecimentos produzidos nas comunidades e aquilo que é valorizado pelos sistemas formais de ensino. “O diálogo entre escola e cultura é um diálogo que muitas vezes ainda precisa ser construído”, observou.
Encerrando a mesa, o escritor questionou o papel que a educação desempenha na formação das novas gerações. Para ele, a escola frequentemente prioriza a preparação para o mercado de trabalho em detrimento da valorização da memória, da cultura e da diversidade de experiências que compõem a sociedade brasileira.
Entre mitos, encantarias, religiosidades e histórias populares, o encontro reafirmou a potência das narrativas ancestrais como ferramentas para compreender o Brasil contemporâneo e imaginar futuros mais plurais e conectados às suas raízes.



