Por Yasmim Lima, da Cobertura Colaborativa da NINJA Esporte Clube

A Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, virou também o maior lançamento de moda coletivo do ano. Pela primeira vez, marcas de skate, grifes parisienses, rappers e artistas de K-pop assinaram coleções oficiais para seleções nacionais, transformando kits de aquecimento e coleções pré-jogo em peças de streetwear que esgotaram antes do apito inicial.

A camisa de time sempre foi uma peça de arquibancada. Você tirava do armário em ano de Copa, usava nos jogos e guardava de volta. O mundo da moda nem olhava pra isso.

Mas aí a rua começou a falar mais alto. No início dos anos 2000, os rappers do Grime londrino já usavam camisa de time no dia a dia como parte do visual, não como declaração de torcedor. No Brasil não era diferente: a camisa do Flamengo, do Corinthians e do Santos já circulava nas periferias misturada ao look urbano muito antes de alguém chamar isso de tendência. O blokecore que viralizou no TikTok em 2022 só deu nome ao que as ruas já faziam há anos.

A Copa 2026 chegou com as marcas de olho nisso. E desta vez não foram só as fornecedoras esportivas: grifes parisienses, revistas de skate, rappers e ídolos do K-pop assinaram coleções para seleções nacionais. O torneio se tornou o maior lançamento de moda coletivo do ano.

Inglaterra x Palace

A Palace começou em 2009 num apartamento tão precário que o pessoal chamava de palácio na ironia. Do South Bank de Londres, virou referência global de streetwear com collabs que vão da Gucci à Tate Britain, sem perder o sotaque britânico e a conexão com o hip-hop underground inglês.

“Sempre foi um sonho nosso trabalhar oficialmente com a Inglaterra. Crescer em Londres, saber que o futebol de torneio começa e todo mundo torce pelo mesmo time… já fizemos algumas coisas no passado como homenagem à seleção, mas agora fechar essa parceria oficialmente é um sonho realizado”, disse Lev Tanju, cofundador e diretor criativo da Palace. 

Foto: Divulgação/Nike/Palace
Foto: Divulgação/Nike/Palace
Foto: Divulgação/Nike/Palace

Quando a Federação Inglesa a escolheu para assinar o kit de aquecimento da seleção, foi a primeira vez que uma marca de skate assumidamente urbana chegou nesse espaço no futebol inglês. A Cruz de São Jorge nas jaquetas e agasalhos não é detalhe de coleção. É um posicionamento sobre pra quem o futebol inglês quer falar.

França x Jacquemus

Jacquemus chegou a Paris sem diploma de moda e fundou a marca aos 19 anos com o nome da mãe. Virou referência global mantendo um tom pessoal e quase autobiográfico em cada coleção. Na França, ele representa uma geração que chegou à alta moda sem passar pelas grandes maisons.

Foto: Divulgação/Jacquemus/Nike
Foto: Divulgação/Jacquemus/Nike
Foto: Divulgação/Jacquemus/Nike

Assinar a camisa de aquecimento dos Bleus com a Nike foi o encontro mais improvável do torneio. Azul royal, listras finas em vermelho e branco, e o nome Jacquemus onde ficaria o escudo da federação. Esgotou antes do primeiro jogo e virou pauta de editorial mundo afora.

Argentina x Adidas x Thrasher

A Thrasher não vende roupa, vende atitude. É uma revista de skate de 1981 que virou símbolo de uma geração que nunca nem pisou num skate. O fundador, Fausto Vitello, nasceu na Argentina, e foi esse detalhe que deu origem à collab com a Adidas e a Asociación del Fútbol Argentino (AFA).

Foto: Divulgação/Adidas
Foto: Divulgação/Adidas
Foto: Divulgação/Adidas

As peças resgatam o uniforme de 1994 com a estampa losango em azul e preto. A foto de Messi ao lado do skatista Mark Gonzales num mesmo frame já diz tudo que a collab queria comunicar.

Holanda x Patta

Em 2004, Edson Sabajo e Guillaume Schmidt abriram a Patta em Amsterdam. Os dois são filhos da diáspora surinamesa e criaram a marca justamente porque não encontravam representação na cena europeia de streetwear. O nome vem do slang surinamês pra “sapato”. Em vinte anos, viraram um dos pilares da cultura negra holandesa.

Foto: Divulgação/Nike/Patta
Foto: Divulgação/Nike/Patta
Foto: Divulgação/Nike/Patta

Ver a Patta vestindo a seleção dos Países Baixos num Mundial é mais do que uma collab bonita. É reconhecer que a identidade holandesa também passa por Amsterdam, pela diáspora surinamesa e pela cultura que eles construíram.

EUA x Virgil Abloh Archive

Virgil Abloh foi o primeiro diretor criativo negro das coleções masculinas da Louis Vuitton e fundador da Off-White. Morreu em 2021, aos 41 anos, enquanto tratava um câncer raro em silêncio. Qualquer collab relevante de moda e streetwear dos últimos dez anos tem a digital dele em algum lugar.

Foto: Divulgação/Nike/Virgil Abloh Archive
Foto: Divulgação/Nike/Virgil Abloh Archive
Foto: Divulgação/Nike/Virgil Abloh Archive

A Nike se uniu ao Virgil Abloh Archive pra criar a coleção americana da Copa 2026, revisitando o futebol dos anos 1990 e a Copa de 1994, que também aconteceu em solo americano. É nostalgia, mas é também um documento.

Nigéria x Slawn

A Nigéria não está na Copa 2026. Não se classificou. E mesmo assim protagonizou uma das histórias de moda mais comentadas do torneio.

Foto: Divulgação/Nike/Slawn
Foto: Divulgação/Nike/Slawn
Foto: Divulgação/Nike/Slawn

A Nike se uniu ao artista Olaolu Slawn, nigeriano radicado em Londres, pra lançar um terceiro uniforme especial pros Super Eagles. Camisa com estética de graffiti, “NAIJA” no peito em tipografia expressiva, linha de roupas e tênis que esgotou como se fosse ingresso pra final. Sem entrar em campo em nenhum jogo.

A jogada é cirúrgica: a Nike usou o peso cultural da Nigéria no futebol pra vender moda sem depender de resultado esportivo nenhum. A seleção perdeu a vaga. A collab ganhou a Copa.

Canadá x NOCTA

A NOCTA foi lançada em 2020 como a primeira submarca criada especificamente pra um artista dentro do portfólio da Nike. Drake construiu ela em torno do processo criativo noturno, das ruas de Toronto, numa estética funcional e limpa que virou referência no streetwear urbano.

Foto: Divulgação/Nike/NOCTA
Foto: Divulgação/Nike/NOCTA
Foto: Divulgação/Nike/NOCTA

O Canadá vive o maior boom do futebol masculino da sua história e sediou a Copa com um kit que fala a língua da cultura que o país mais exportou nas últimas duas décadas. Faz sentido.

Coreia do Sul x PEACEMINUSONE

G-Dragon é um dos nomes que mais contribuiu pra dominância global do K-pop. Mas além da música, criou a PEACEMINUSONE em 2016 como extensão da própria visão estética. A marca já colaborou com a Nike e fez uniformes pro Paris Saint-Germain (PSG). Na Coreia do Sul, ele não é só artista: é referência de moda, arte e comportamento.

Foto: Divulgação/Nike/PEACEMINUSONE
Foto: Divulgação/Nike/PEACEMINUSONE
Foto: Divulgação/Nike/PEACEMINUSONE

A coleção com a federação coreana mistura vestuário de trabalho moderno com a flor símbolo da PEACEMINUSONE. É o encontro dos dois maiores produtos de exportação cultural da Coreia: o futebol que levou o país às semifinais em 2002 e o K-pop que levou o país pros ouvidos do mundo nas décadas seguintes.

Japão x Adidas

O Japão não precisou de collab com ninguém. O uniforme reserva ganhou a internet pela força do design: off-white com 12 listras verticais finas em cores diferentes, cada uma representando um jogador em campo, com a listra central em vermelho referenciando a bandeira. O conceito se chama “Cores além do horizonte” e o efeito parece pintado à mão. Foi a peça mais elogiada do torneio por pessoas que sequer acompanham futebol.

Foto: Divulgação/Adidas
Foto: Divulgação/Adidas
Foto: Divulgação/Adidas

México x Adidas

O verde histórico do Tri voltou. Depois de anos com o preto como segunda opção, a Adidas trouxe de volta a cor que define o México no futebol, com padrões geométricos inspirados no Calendário Asteca e “Somos México” gravado na nuca. Um dos países-sede quis chegar na própria Copa com uma camisa que conta quem ele é.

Foto: Divulgação/Adidas

“Todo design começa da ideia de conexão: com as pessoas, com a cultura, com o orgulho”, disse Rafael Pereira, diretor de marketing esportivo da Adidas, em entrevista à ESPN. “Queríamos uma camisa que parecesse icônica, que fizesse os mexicanos se orgulharem da sua identidade.” 

O que fica depois do apito

O que rolou nas federações abriu espaço pro mercado inteiro. A mesma onda que levou a Palace pro kit da Inglaterra e a Jacquemus pro vestiário da França chegou em marcas que nunca tinham falado de futebol: New Era com bonés temáticos, Havaianas com coleção Copa, Ellus com cápsula, FARM Rio com linha de dia de jogo. Não foi oportunismo. Foi leitura de momento: a Copa 2026 virou evento cultural antes de ser evento esportivo.

Segundo levantamento da Serasa Experian, 13,5 milhões de consumidores brasileiros ligados ao futebol indicaram que iam gastar mais durante o torneio. De janeiro ao início de junho de 2026, só o setor de camisas de futebol bateu R$ 1,2 bilhão em vendas online no Brasil, crescimento de 80% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com dados do setor. A maioria não estava atrás de camisa oficial. Estava montando o look.

No Brasil, a FARM Rio lançou a “Torcida Farm Rio” pra quem quer viver cada jogo com personalidade. A Piet, em parceria com a Pool da Riachuelo, foi pela alfaiataria: camisetas esportivas com calça larga, jaqueta corta-vento e shorts de nylon que estrearam na Rio Fashion Week de abril. E a collab entre Guaraná Antarctica e Youcom apostou em brasilcore e blokecore sem verde e amarelo óbvio: amarelo manteiga, verde vintage, jaquetas de nylon e a baby tee com “Aqui é Brasil 26” nas costas. Edição limitada. Quando acabou, acabou.

Foto: Divulgação/Riachuelo/FARM/Youcom/Havaianas
Foto: Divulgação/Riachuelo/FARM/Youcom/Havaianas
Foto: Divulgação/Riachuelo/FARM/Youcom/Havaianas
Foto: Divulgação/Riachuelo/FARM/Youcom/Havaianas

Nas ruas de Lagos, Londres, São Paulo, Seul ou Cidade do México, o futebol aparece menos como uniforme e mais como linguagem. Misturado ao skate, ao rap, ao K-pop e à moda de rua, virou ponto de encontro entre culturas que nem sempre dividem o mesmo campo.

Essas collabs mostram que as seleções pararam de representar só federações esportivas. Elas passaram a carregar narrativas sobre território, moda, diáspora, pertencimento e criação cultural. Quando a Palace veste a Inglaterra, a Patta veste a Holanda ou Slawn transforma a Nigéria em desejo global mesmo fora do torneio, o que tá em jogo vai além do resultado.

Talvez essa seja a grande história da Copa de 2026. Não a que acontece dentro dos estádios, mas a que atravessa ruas, bairros e comunidades. O futebol continua sendo o ponto de partida. Mas já não é o único protagonista.