Manga ñembosarái, conheça o futebol ancestral do povo guarani
Dentre os desportos que precedem o futebol moderno, temos um com origem indígena sul-americana que é pouco conhecido
Por Levy Marchetto – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
O futebol,que hoje nos mantém vidrados em frente à uma tela ou prendendo o fôlego nas arquibancadas de um estádio, sofreu diversas mudanças desde de seu dito nascimento nas vilas inglesas no século XIX, mas e se sua história não fosse tão europeia assim?
Podemos citar o Tsu Chu dos chineses, o Ullamaliztli dos aztecas, o Pok-ta-pok dos maias, a Sferomachìa dos gregos, o Harpastum dos romanos, o Peil ghaelach dos irlandeses, entre várias outras práticas esportivas, com diferentes graus de similaridade e distinção, como ancestrais do nosso futebol de hoje, mas tem um, bastante próximo de nós, que é pouco ou raramente citado nessas listas de possíveis precursores.
Em 2010, no jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, foram publicados dois artigos intitulados respectivamente: “Quando i guaranì inventarono il calcio” (Quando os Guaranis inventaram o futebol), e “I guaraní e le origini del football moderno – Del calcio inventarono anche le scommesse” (Os Guaranis e as origens do futebol moderno – Eles chegaram até a inventar as apostas no jogo), ambos escritos por Gianpaolo Romanato, professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Pádua, na Itália.
No primeiro dos artigos publicados, de junho de 2010, o professor Romanato transcreveu uma pequena parte do relato de José Manuel Peramás, Padre jesuíta catalão, onde se lê: “[…] Eles também costumavam jogar um jogo de bola; a bola, embora feita de borracha maciça, era tão leve e veloz que, uma vez golpeada, continuava a quicar por uma distância considerável sem parar, impulsionada pelo seu próprio peso. Eles não lançam a bola com as mãos, como nós fazemos, mas sim a golpeiam com o peito do pé descalço, passando-a e recebendo-a com grande agilidade e precisão”. O texto foi tirado do livro “De vita et moribus tredecim virorum paraguaycorum“, publicado em latim em 1793 (sua versão em espanhol é conhecida como “Platón y los Guaraníes“).

Já no segundo artigo, de julho de 2010, além de relembrar as palavras escritas por Peramás, o professor ainda cita parte do relato de outro padre jesuíta, José Cardiel, publicado ainda antes do primeiro, provindas do livro “Breve relación de las misiones del Paraguay” (1771): “Após a missa, são distribuídas as tarefas da semana, e eles saem para comer e jogar bola — praticamente o único jogo que praticam. No entanto, não o jogam como os espanhóis; não a lançam nem a manuseiam com as mãos. Ao sacar, lançam a bola levemente para o alto e chutam-na com o peito do pé, tal como nós a lançaríamos com a mão; o lado adversário também a devolve com o pé — qualquer outro método é considerado falta. A bola deles é feita de um certo tipo de borracha que tem muito mais elasticidade do que a nossa. Muitos se reúnem para esse jogo, fazendo apostas em um ou outro lado…”
Desses dois indivíduos, temos então duas descrições bastante precisas e semelhantes deste esporte ancestral tão similar ao futebol moderno. Peramás, nascido em 1732, na Espanha, viveu entre os indígenas Guaranis desde que foi designado às Reduções (pequenas comunidades auto-suficientes) de Sant’Ignacio Miní, em 1756, e permaneceu entre lá e Córdoba (na Argentina), até 1767, quando ele e outros jesuítas foram presos e receberam uma ordem de expulsão do Rei da Espanha, Carlos III. Já José Cardiel, também nascido na Espanha, mas em 1704, foi designado ao Paraguai e chegou à América do Sul em 1729, onde participou de várias missões até 1768, quando também foi detido e recebeu ordem de expulsão.
Citado também no segundo artigo do professor Romanato, está o Padre jesuíta Bartomeu Meliá (1932-2019), antropólogo e linguista hispano-paraguaio. Meliá é descrito pelo próprio professor como “provavelmente o maior especialista na língua e cultura guarani”, salientando sua contribuição em artigo publicado na revista de jesuítas paraguaios “Acción”, em 1999, onde já citava tais relatos de Peramás e Cardiel. Não coincidentemente, em 2014, um documentário intitulado “Los Guaraníes Inventaron el Fútbol” (Os Guaranis Inventaram o Futebol), produzido pela Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai, é lançado com fundamental participação de Bartomeu.

Publicado em um canal do YouTube chamado “Culturapy”, o documentário tem apenas 10 minutos, mas traz ricas informações sobre as origens do futebol em San Ignacio Guazú, local onde se localizavam Reduções jesuítas.
O padre Bartomeu Meliá, em sua entrevista, vai ainda mais longe e argumenta que já havia registros deste esporte guaraní jogado com os pés desde 1639, encontradas no livro “Tesoro de La Lengua Guaraní“, do Padre jesuíta peruano Antonio Ruiz de Montoya (1585-1652), dicionário bilíngue Espanhol-Guaraní publicado em Madri. No dicionário em questão pode ser encontrada a palavra “Mangaí”, que aparece traduzida como: “Arbol que dá las pelotas que llaman de *neruio/nervio” (Árvore que produz as bolas conhecidas como nervo); “Mangaící”, la **refina de que hazen las pelotas.” (a resina da qual as bolas são feitas).
*No livro “El bilingüismo paraguayo: Usos y actitudes hacia el guaraní y el castellano”, Lenka Zajícová explica que o significado original registrado em 1639 para “árbol que dá las pelotas que llaman de nervio” refere-se, em termos modernos, a uma “pelota de caucho” (bola de borracha/látex).
**Linguístas e estudiosos do tema, a exemplo de Julio Cantero (historiador, escritor e pesquisador independente), Wilber Mendoza Figueredo (monge filósofo, teólogo, arquiteto e historiador) e León Cadogan (antropólogo e tradutor paraguaio) consideram, em suas citações da obra de Montoya, que “refina” na verdade é “resina”, provavelmente por erro de digitação.


Também em 2014, por conta da alta do assunto causada pelo documentário paraguaio, até a Conmebol fez publicações sobre o assunto.


Agora, em meio à Copa de 2026, o tema veio à tona novamente por conta de Diego José, argentino-brasileiro criador de conteúdo e professor de espanhol, quando postou um vídeo em sua conta no instagram (@espanholtranqui) contando um pouco da história do Manga ñembosarái. O vídeo postado dia 16 de junho já conta com mais de 110 mil curtidas.
Com essas evidências, uma pergunta fica no ar: foram os Guaranis os verdadeiros inventores do futebol? Bartomeu Meliá, no documentário de 2014, afirma positivamente: “Creio que sim, porque temos essa descrição do futebol guaraní, um esporte domingueiro por excelência, nas praças dos próprios missionários […] ninguém jamais havia visto jogar bola com o pé“.
Já o historiador Jorge Rubiani, em uma das postagens da Conmebol, discorda: “Na América Latina, os astecas e os incas também desenvolveram jogos de bola, sem ter tido vínculos com os guaranis, e muito antes da chegada dos espanhóis ao continente americano. […] Não creio que os guaranis inventaram o futebol, mas cada civilização acrescenta algo a este jogo”
Sabendo agora de todas essas informações, qual sua opinião sobre?
Agradecimento especial
Apesar de não ter encontrado as publicações originais dos artigos citados no site do L’Osservatore Romano, ao entrar em contato com o professor Gianpaolo Romanato, ele muito gentilmente enviou ambos artigos via e-mail, permitindo que este texto se tornasse ainda mais rico em informações. Reitero aqui meus agradecimentos e cumprimentos ao professor Romanato.



