Especialistas defendem novo modelo econômico para garantir o futuro da Amazônia na Feira do Livro de SP
Em debate sobre Amazônia, clima e desenvolvimento, Ricardo Abramovay e Luiz Villares defendem transformações estruturais para enfrentar a crise climática
A Amazônia não será salva apenas pela bioeconomia. Embora a valorização da sociobiodiversidade seja um caminho importante para a conservação da floresta, ela não é suficiente para resolver os desafios sociais, econômicos e ambientais da região. A avaliação foi compartilhada pelo pesquisador Ricardo Abramovay e pelo ambientalista Luiz Villares durante um debate sobre desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e os futuros possíveis para a Amazônia na Feira do Livro de São Paulo.
Ao longo da conversa, os especialistas defenderam que a preservação da floresta exige muito mais do que projetos ambientais isolados. Para eles, enfrentar o desmatamento, reduzir as desigualdades e responder à emergência climática passa, necessariamente, pela revisão do modelo econômico capitalista que orienta a produção e o consumo em escala global.
Segundo Abramovay, existe uma percepção equivocada de que o desmatamento é resultado da pobreza ou da falta de alternativas econômicas para a população local. Na prática, porém, o pesquisador explica que a devastação está associada a grandes interesses econômicos e à expansão de cadeias produtivas ligadas à pecuária e ao agronegócio: “o desmatamento não acontece porque alguém perdeu o emprego e decidiu derrubar a floresta. Desmatar é caro. Quem desmata tem acesso a recursos, máquinas e infraestrutura. O grande desafio é enfrentar o domínio do território por corporações que se beneficiam diretamente dessa destruição”, afirmou.
O pesquisador também ressaltou que a devastação florestal não representa desenvolvimento para a região. Pelo contrário, ela reforça ciclos de pobreza, violência e exclusão social. Atualmente, a Amazônia concentra alguns dos piores indicadores sociais do país, incluindo altas taxas de violência e desalento entre os jovens.
Apesar de reconhecerem o potencial da bioeconomia, os palestrantes alertaram para o risco de transformar o conceito em uma solução mágica para a Amazônia. “A economia da sociobiodiversidade florestal é muito importante, mas é impossível imaginar que ela será capaz, sozinha, de resolver os grandes problemas da Amazônia”, afirmou Abramovay.

Para Luiz Villares, iniciativas ligadas à floresta em pé precisam ser acompanhadas de políticas públicas robustas, programas de transferência de renda e mecanismos de pagamento por serviços ambientais. “A floresta presta serviços ecossistêmicos fundamentais para o planeta. Produz chuva, regula o clima e mantém a biodiversidade. As pessoas que vivem e protegem esses territórios precisam ser remuneradas por isso”, defendeu.
Em sua fala, Villares também citou experiências desenvolvidas na Fundação Amazônia Sustentável, como os programas Bolsa Floresta e Guardiões da Floresta, que combinaram geração de renda, educação e proteção ambiental em comunidades amazônicas.
Ao longo da discussão, também foram abordados os impactos das mudanças climáticas sobre o próprio modelo agrícola brasileiro. Abramovay lembrou que áreas do Cerrado historicamente utilizadas para a produção de grãos estão perdendo produtividade devido ao aumento das temperaturas e às alterações no regime de chuvas. Como resultado, há uma pressão crescente sobre a Amazônia. “O mesmo modelo que destruiu grande parte do Cerrado agora avança sobre a floresta”, alertou.
Para o pesquisador, a humanidade enfrenta hoje o maior desafio de sua história. Ele criticou a ideia de que o crescimento econômico contínuo, por si só, será capaz de resolver os problemas ambientais, ressaltando que: “Nosso grande desafio não é apenas aumentar a eficiência da economia. É discutir a suficiência. Crescer para quê? Produzir mais para quê? Essa é uma questão ética que precisa voltar ao centro do debate econômico”, afirmou.
Outro ponto abordado foi o avanço da financeirização da economia global e seus impactos sobre iniciativas sustentáveis. Segundo Villares, o crescimento da lógica financeira dificulta investimentos de longo prazo em atividades ligadas à conservação ambiental, à agroecologia e à bioeconomia. Para ele, “o capital exige retornos cada vez mais rápidos e elevados. Isso cria uma enorme dificuldade para projetos que dependem de tempo, regeneração ambiental e construção coletiva”.
Abramovay reforçou o diagnóstico ao lembrar que a maior parte dos recursos movimentados no sistema financeiro global não está vinculada à produção de bens e serviços. “Segundo estimativas citadas pelo editor do Financial Times, Martin Wolf, apenas 15% do dinheiro que circula no mercado financeiro está associado a investimentos produtivos. O restante é pura especulação”, destacou.
Os participantes também destacaram a agroecologia como uma das alternativas mais promissoras para a construção de sistemas alimentares sustentáveis. Villares classificou a agroecologia como “a resposta mais bonita para o relacionamento horizontal entre humanidade e natureza”.
“A agricultura agroecológica mostra que é possível produzir alimentos regenerando os ecossistemas. Ela representa uma relação de reciprocidade, em que a natureza também se beneficia da nossa presença”, afirmou.
Abramovay acrescentou que o conhecimento acumulado por povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais precisa deixar de ser tratado como algo periférico e passar a ocupar um papel central nas estratégias de desenvolvimento. “As populações tradicionais não são apenas beneficiárias de políticas públicas. Elas produzem conhecimento. E esse conhecimento é indispensável para enfrentar os desafios do século XXI”, afirmou.
Ao final do encontro, os participantes convergiram em um diagnóstico comum: enfrentar a emergência climática exige muito mais do que soluções tecnológicas ou ajustes pontuais. Exige uma revisão profunda das formas de produzir, consumir e se relacionar com a natureza. “A economia do futuro precisa responder a uma pergunta simples e fundamental: para quê estamos produzindo?”, resumiu Abramovay.



