Articulação Agro é Fogo e mais de 60 organizações enviam carta aos bancos sobre riscos de incêndio no cenário de El Niño
Documento cobra das instituições financeiras corte de crédito a quem usa fogo criminoso; além de maior apoio aos povos e comunidades para prevenção dos territórios
A Articulação Agro é Fogo e a Coalizão Florestas & Finanças, junto de outros 65 parceiros — entre movimentos sociais, coletivos, pastorais, organizações de povos originários e tradicionais, pesquisadoras, pesquisadores e ativistas socioambientais e climáticos — enviaram nesta segunda-feira (20) uma carta às principais instituições financeiras globais. O documento cobra medidas concretas para prevenir incêndios florestais diante da intensificação do El Niño prevista para este ciclo, com atenção especial ao financiamento de atividades ligadas ao agro-hidro-mineronegócio.
A mobilização se apoia em projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que indicam um El Niño de forte intensidade ao longo deste ciclo, com efeitos previstos até 2027. Segundo a rede de cientistas World Weather Attribution, apenas nos primeiros meses de 2026 mais de 150 milhões de hectares foram consumidos por incêndios no mundo — uma área próxima à extensão da Amazônia. No Brasil, a última passagem do fenômeno, em 2024, provocou a maior estiagem da história do país e espalhou fumaça de queimadas por dez estados da Amazônia e do Pantanal.
Para as organizações que assinam a carta, o sistema financeiro também integra essa cadeia de responsabilidades. Entre 2016 e 2025, bancos concederam globalmente US$ 429 bilhões em crédito para setores como madeira, soja, borracha, papel e celulose, óleo de palma e carne bovina nos trópicos — commodities historicamente associadas ao desmatamento das florestas tropicais.
Entre as medidas cobradas das instituições financeiras estão o fortalecimento de políticas de desmatamento zero e de não conversão de áreas naturais, com veto à concessão de crédito para quem utiliza o fogo de forma criminosa em atividades produtivas; maior pressão sobre clientes dos setores de maior risco florestal; o encerramento de relações com empresas que descumprirem essas exigências; apoio a corpos de bombeiros e brigadas voluntárias nas regiões mais vulneráveis aos incêndios; ampliação do crédito para produções agroecológicas e sistemas agroflorestais; e a suspensão de novos financiamentos a grupos empresariais responsabilizados judicialmente por incêndios florestais até que promovam a reparação integral dos danos causados.
“O sistema financeiro não pode seguir como espectador dos incêndios que ele mesmo ajuda a financiar. Cada crédito liberado sem exigência de rastreabilidade e responsabilização é uma brasa a mais nos territórios de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Os bancos têm nas mãos um instrumento poderoso de prevenção: basta usá-lo”, afirma Tarcísio Feitosa, coordenador operativo da Articulação Agro é Fogo e integrante da Coalizão Florestas e Finanças.
Entre as instituições financeiras que receberam a carta estão o Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Bank of America (Estados Unidos), BNP Paribas (França), Banco do Nordeste, Mandiri (Indonésia), Itaú, Safra e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O documento na íntegra, assim como a lista completa das organizações signatárias, está disponível neste link.
Sobre a Articulação Agro é Fogo
A Articulação Agro é Fogo é uma rede de defesa dos povos e terras-territórios impactados por incêndios criminosos na Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pantanal. Formada por mais de 40 organizações — entre pastorais do campo, movimentos sociais, organizações não governamentais, grupos de pesquisa, povos e comunidades tradicionais —, a articulação surgiu em 2020, no contexto do avanço dos incêndios criminosos nesses biomas.
A rede tem como objetivo construir estratégias de incidência política e comunicação popular diante das ofensivas do agro-hidro-mineronegócio, que se utilizam de práticas como incêndios criminosos, desmatamento e grilagem para ameaçar modos de vida ancestrais.
Sobre a Coalizão Florestas & Finanças
A Coalizão Florestas & Finanças é uma iniciativa internacional formada por organizações não governamentais (ONGs), pesquisadoras, pesquisadores e pessoas aliadas que monitoram e denunciam o papel do setor financeiro no avanço do desmatamento global e em violações de direitos humanos.
Reunindo grupos como Amazon Watch, Repórter Brasil, BankTrack e Profundo, entre outros, a coalizão acompanha os fluxos globais de crédito, títulos e investimentos destinados a commodities agrícolas e atividades de mineração em florestas tropicais.



