Era mais fácil acreditar na Seleção Brasileira em 1994?
O Brasil chegou aos Estados Unidos com elenco que, hoje, é o time dos sonhos de qualquer um, mas nem sempre foi assim
Por Samuel Fernandes – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Imagine-se em 1994. O rádio toca “Onde Você Mora?”, do Cidade Negra, e você acaba de abrir seu álbum da Copa do Mundo. Em mãos, você tem um pacote de figurinhas que pagou 250 cruzeiros reais (ou 16 centavos, se após o Plano Real). Chegando na página do Brasil, você se depara com os rostos de Taffarel, Cafu, Raí e Ronaldo. Hoje, 32 anos depois, pode ser difícil de acreditar, mas é bem possível que, na época, a sua reação para esses nomes fosse negativa.
Pelo menos, era como grande parte da população olhava para o elenco, um sentimento movido por uma mesma frustração coletiva: a Seleção Brasileira vinha de vexames recentes e já estava há 24 anos sem acrescentar uma nova estrela ao escudo.
Agora chegamos em 2026 e, mais uma vez, nos encontramos neste cenário. E mesmo com nomes que também serão lembrados, como Neymar, Casemiro, Endrick e Vini Jr., o sentimento de grande parte da população é de desconfiança.

O clima antes da Copa
O retrospecto não era bom. A Seleção Brasileira vinha de uma eliminação na Copa de 1990, sendo derrotada nas oitavas para a Argentina. Em 1992, não conseguiu a classificação para as Olimpíadas. Um ano depois, mais uma eliminação para a Argentina, dessa vez na Copa América. Ou seja, foram muitos baques em apenas três anos.
Para piorar, tudo vinha dando errado no caminho para a Copa de 94, com a derrota por 2 a 0 para a Bolívia logo no primeiro jogo das Eliminatórias. Esse não foi apenas um placar negativo, mas o primeiro revés do Brasil em toda a história das Eliminatórias.
No jogo seguinte, contra o Equador, a torcida vaiou veementemente o time e o técnico Carlos Alberto Parreira, e, em determinado momento do jogo, chegou a atirar bandeirinhas em direção ao campo. Mais protestos da torcida ocorreram quando, em um amistoso contra o Canadá antes da Copa, a seleção amargou um empate por 1 a 1.
Em 2013, em entrevista para o SporTV, o treinador Parreira relembrou como era o clima: “Tivemos que ser muito fortes para aguentar aquilo tudo e sobreviver. Nada na história foi igual. No momento em que mais precisava de apoio, parecia que algumas pessoas torciam contra.”

Precisamos de um herói
Se Carlo Ancelotti cansou de ouvir perguntas sobre a ausência de Neymar nas convocações, o treinador Parreira não passou por menos. “Por que não convoca o Romário?” era quase o jargão de jornalistas, torcedores e atletas de todo o Brasil.
Assim como Bonnie Tyler na música “Holding Out For a Hero”, o sentimento do brasileiro era um só: eu preciso de um herói!
E foi com essa expectativa que Romário chegou ao time. Deixado de lado por desavenças com Zagallo anos antes, o craque só conquistou a vaga na última rodada das Eliminatórias, partida que definiria a participação ou não da seleção na Copa.
Uma decisão que, segundo ele, foi pensada para dividir a culpa, como contou Romário em entrevista para a ESPN: “Fui porque o Ricardo Teixeira (presidente da CBF na época) deu a ordem direta de me convocar. Se o Brasil perde para o Uruguai, não indo diretamente para a Copa, a p****a ia entrar neles, no Parreira e no Zagallo”, disse o jogador, que ainda completou: “Vamos chamar ele para dividir essa p** se der ruim. Se o Brasil não chega naquela situação, eu não vou para a Copa. Se chega classificado, que se f**a o Romário”, contou.
E o resultado dessa decisão você já sabe.

Será que ficamos mal acostumados?
Em 1994, conquistamos o tetracampeonato. Em 2002, o pentacampeonato inédito. Até hoje, só o Brasil conseguiu. Porém, isso criou uma expectativa que nenhum outro país carrega.
Os ingleses inventaram o futebol e não ganham uma Copa há 60 anos. A Itália foi vista como carrasco por muitos e já há três edições nem sequer se classifica. A Holanda jogou três finais (1974, 1978 e 2010) e perdeu todas. O máximo que Portugal já conseguiu foi um 3º lugar na Copa de 1966.
Não é normal ser pentacampeão, nem ter um único jogador tricampeão da história ou um outro que é tetracampeão. São conquistas que só o Brasil conseguiu. Mas o futebol já não é mais o mesmo.

O número de países competitivos dobrou de 1994 para cá. Marrocos chegou à semifinal da Copa de 2022. O Japão eliminou a Alemanha e venceu a Espanha na fase de grupos de 2022. A Costa Rica eliminou a Itália na fase de grupos de 2014. Há 32 anos, esses resultados seriam impossíveis, mas hoje eles são o retrato de uma nova era do futebol.
A seleção atual enfrenta a mesma desconfiança de 1994, mas o futebol de 2026 não é o mesmo daquela época. O time precisa melhorar seu desempenho, isso é visível, mas o torcedor também precisa respeitar que o mundo evoluiu no esporte. Ou continuaremos sendo os mesmos e vivendo como nossos pais, como cantou Belchior.



