Por Elizabete de Jesus

A região Norte enfrentou, no mês de abril, episódios de inundações provocados pelo volume de chuvas acima da média registrado em diversos estados da região. No Pará, moradores dos bairros da periferia de Belém foram os mais afetados pelas enchentes, situação que levou a capital a decretar estado de emergência.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a capital paraense ultrapassou o volume esperado para o mês, de 450 mm de chuva.

A capital paraense enfrenta problemas de alagamentos e enchentes, agravados pela ausência de saneamento básico e pela falta de planejamento na infraestrutura urbana. O impacto não é apenas resultado de um fenômeno natural, mas também de decisões políticas segregacionistas.

O projeto arquitetônico de Belém teve forte influência europeia, sobretudo durante a Belle Époque, quando a cidade buscava se tornar a “Paris na Amazônia”. Para alcançar esse ideal, além das mudanças na infraestrutura urbana, a cidade passou por um processo de “higienização”. Tudo aquilo que não se enquadrava na imagem idealizada de modernidade e civilização foi empurrado para as margens da cidade, formando, então, as periferias de Belém.

Os rios e igarapés que integravam a paisagem urbana — e poderiam ter sido utilizados como vias de tráfego — foram aterrados e substituídos por longas avenidas. Hoje, muitos desses cursos d’água foram reduzidos a canais que, em muitos casos, servem como depósito de lixo em bairros onde o saneamento básico não chega, sobretudo nos bairros periféricos da grande metrópole. As consequências são vividas por dona Leandra Oliveira, moradora do Guamá há 55 anos, que vê o bairro alagar toda vez que chove.

“Atrapalha na nossa locomoção, né? Para a gente sair, tem que tirar o sapato, tem que enrolar a roupa. Se estiver de calça, até mesmo de vestido. É complicado. A gente pisa nessa água contaminada, né? Com urina de rato, essas coisas aí. Então, a gente corre o risco de pegar uma doença, seja lá qual for”, comentou.

O bairro do Guamá fica às margens do rio homônimo e é o mais populoso de Belém, conforme informações do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Composto majoritariamente por pessoas de baixo poder aquisitivo, o local foi formado no século XVIII a partir da segregação de pessoas com lepra, hoje conhecida como hanseníase.

Apesar da população numerosa, o bairro sofre severamente com enchentes, inundações e alagamentos devido à falta de saneamento básico.

“Aí foram aterrando, foi chegando o aterro, o asfalto e por aí foi. Mas chegou um tempo, né, de uns tempos para cá, começou a alagar quando chove, porque nós não temos saneamento. Eu moro numa vila, né? Nós não temos saneamento. Então, quando chove, alaga a vila. Tudo enche. Sempre encheu”, pontua Leandra.

Conforme dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Belém é a capital com a maior proporção de habitantes vivendo em favelas ou comunidades urbanas — territórios que, comumente, ocupam as margens de canais e rios da cidade. Um cenário de vulnerabilidade que se agrava quando observamos os índices do Painel Saneamento Brasil 2026, do Instituto Trata Brasil, os quais apontam que cerca de 30,8% da população não possui acesso ao abastecimento de água e outros 76,7% vivem sem esgotamento sanitário adequado, com descartes impróprios a céu aberto ou em rios.

O descarte irregular em ruas e canais obstrui a passagem da água, impedindo a vazão durante chuvas intensas. Com o acúmulo de resíduos e a ausência de serviços de dragagem e drenagem, canais e vias de escoamento transbordam e os moradores, além de serem obrigados a se deslocar por conta das inundações e alagamentos, ficam vulneráveis a doenças de veiculação hídrica.

Especialistas apontam que a ausência de saneamento básico e a falta de planejamento urbano afetam também populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas próximas dessas áreas, uma vez que a contaminação dos rios — fonte de subsistência dessas populações — prejudica a biodiversidade.

“A mudança climática já é uma realidade, e pesquisas indicam que a frequência de eventos extremos deve se intensificar nos próximos anos. No cenário de grandes enchentes, a grande quantidade de lama e a drenagem das cidades podem transportar grandes volumes de poluição, esgoto, lixo e agrotóxicos para os rios”, explica Vinícius Kutter, pesquisador de oceanografia.