Seis meses após a realização da COP30, em Belém, os especialistas Philip Yang, Renato Anelli e Rubens Filho se reuniram, sob mediação de Terra Budini, no segundo dia da Feira do Livro de São Paulo, para fazer um balanço dos resultados da conferência, discutir os desafios da descarbonização dos transportes e refletir sobre os caminhos necessários para transformar compromissos climáticos em ações concretas.

Em um debate marcado pela urgência da crise climática, os participantes destacaram a importância histórica das Conferências das Partes (COPs), relembrando que a trajetória dessas negociações globais teve como marco inicial a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro. Para Rubens Filho, apesar das limitações e da lentidão dos acordos internacionais, esses encontros continuam sendo fundamentais. “Na cabeça de muitas pessoas, isso parece algo muito vago: países se deslocam todos os anos para discutir o que será feito dali para frente. Mas, se não existissem as COPs, seria muito pior. Elas são fundamentais e responsáveis por não estarmos vivendo uma catástrofe climática ainda mais perversa do que a atual”, afirmou. O especialista ressaltou ainda que, embora o cenário já seja extremamente preocupante, a articulação internacional continua sendo uma das poucas barreiras capazes de conter um agravamento irreversível da crise climática.

Foto: Safira Bezerra

O professor Renato Anelli destacou que a questão climática não é apenas ambiental, mas profundamente social. Segundo ele, os impactos recaem principalmente sobre populações em situação de vulnerabilidade socioambiental, justamente aquelas que menos contribuem para as emissões de gases de efeito estufa. Ao comentar o aumento das temperaturas, chamou atenção para os efeitos concretos do aquecimento global em cidades brasileiras. “No Cerrado brasileiro, a realidade já é outra. Cuiabá, que era conhecida por registrar médias próximas dos 40°C, hoje alcança 42°C ou 43°C. Dois ou três graus fazem uma diferença enorme. São Paulo tende a se tornar uma estufa cada vez mais intensa. Na verdade, já é, mas a tendência é piorar”, alertou.

Ao revisitar o Acordo de Paris, firmado em 2015, os especialistas lembraram que o compromisso global estabelecia limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Dez anos depois, com a COP30 recolocando essas metas em debate, os resultados demonstram que o mundo está distante desse objetivo. As projeções atuais apontam para um aquecimento entre 2°C e 2,5°C ao longo do século. Para Rubens Filho, o cenário é alarmante porque “já estamos ultrapassando aquilo com que nós mesmos nos comprometemos enquanto países, enquanto Brasil e enquanto planeta”.

Anelli complementou a discussão destacando que o setor econômico também possui responsabilidade direta no enfrentamento da crise climática. “As pessoas precisam estar empregadas, produzindo, construindo e gerando conhecimento. Portanto, todo o setor econômico tem responsabilidade nesse processo de desacelerar o aquecimento global”, afirmou.

Ao abordar os desafios da adaptação das cidades às mudanças climáticas, o urbanista defendeu que as soluções exigem escolhas complexas e nem sempre consensuais. Segundo ele, embora a verticalização e o adensamento urbano sejam frequentemente criticados, é preciso considerar os impactos da alternativa. “É fácil criticar o adensamento e a verticalização, mas a alternativa é o espraiamento urbano. Se você não adensa as áreas centrais, a cidade avança para as bordas, ocupando florestas, mananciais e áreas fundamentais para o abastecimento de água”, explicou.

Para o especialista, o planejamento urbano deve se apoiar em três pilares principais: o adensamento orientado das áreas já urbanizadas, a ampliação das áreas verdes e das soluções baseadas na natureza e o fortalecimento da infraestrutura urbana. Nesse último aspecto, destacou a importância do transporte público de massa e da mobilidade ativa. “Você não vai optar pela bicicleta se não existir uma ciclofaixa segura. Mudanças de comportamento dependem de uma estrutura mínima que permita escolhas mais sustentáveis”, observou.

Foto: Safira Bezerra

Ao longo do debate, ficou evidente a necessidade de políticas públicas capazes de repensar os espaços urbanos diante da emergência climática. Mesmo grandes metrópoles, como São Paulo, ainda não estão preparadas para enfrentar eventos extremos. Como exemplo, Anelli citou estudos que compararam as temperaturas registradas entre a Casa de Vidro, projetada por Lina Bo Bardi, e a comunidade de Paraisópolis, localizadas a menos de um quilômetro de distância. “As medições apontaram diferenças de até 10°C entre os dois locais. É uma variação brutal e que demonstra como a desigualdade urbana também é uma desigualdade climática”, destacou.

Já na reta final da conversa, Rubens Filho chamou atenção para o papel das escolhas individuais e dos hábitos de consumo. Segundo ele, a preservação das florestas não é apenas uma questão ambiental, mas também de sobrevivência coletiva. “Existe uma cadeia que interliga a nossa existência e nos alimenta todos os dias. Quando defendemos a floresta em pé, não é apenas porque isso é bonito ou desejável. É um direito das populações que vivem nesses territórios e também uma condição para a manutenção da nossa própria vida”, afirmou. O especialista observou ainda que uma parcela crescente da população passou a considerar critérios socioambientais em decisões de consumo, embora reconheça que nem todos tenham o privilégio de fazer essas escolhas.

Encerrando a mesa, Philip Yang destacou a importância da participação cidadã e da ação política coletiva. Para ele, enfrentar a crise climática exige envolvimento permanente da sociedade. “Precisamos ter cuidado com o nosso voto, porque, quando elegemos negacionistas, abrimos espaço para retrocessos. Também é fundamental consumir de forma consciente e participar dos processos políticos, acompanhando audiências públicas e ocupando os espaços de decisão. A transformação depende da presença ativa da sociedade”, concluiu.