Por Kelly De Conti Rodrigues – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

França e Senegal se enfrentam, nesta terça (16), às 16h (de Brasília), carregando uma história que não ocorreu nos gramados do futebol, mas no campo de guerra.

Em dezembro de 1944, centenas de soldados africanos aguardavam em um campo militar nos arredores de Dakar, capital do Senegal, então colônia francesa. Muitos haviam atravessado oceanos, sobrevivido a batalhas na Europa e retornado à África depois de lutar pela França durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns carregavam medalhas. Todos carregavam cicatrizes.

Apesar disso, havia uma promessa que trazia esperança para esses soldados: receber os salários, bônus e indenizações prometidos pelo governo francês. Mas os pagamentos não vieram.

Instalados no campo de Thiaroye, os veteranos começaram a cobrar seus direitos. As reivindicações cresceram, as negociações se arrastaram e a tensão aumentou.

Diante desse cenário, na manhã de 1º de dezembro de 1944, soldados franceses abriram fogo contra os homens reunidos no local. O número exato de mortos permanece objeto de disputa até hoje. 

Para muitos senegaleses, Thiaroye tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da história colonial francesa na África. Mas quem eram aqueles homens?

Os homens de Thiaroye

A França os chamava de tirailleurs sénégalais. Na tradução literal, “atiradores senegaleses”. O nome, porém, escondia uma realidade mais complexa.

Criado em 1857 por Louis Faidherbe, general e administrador colonial francês, o corpo militar reunia soldados recrutados em diferentes territórios da África Ocidental controlados pela França. Embora muitos fossem senegaleses, outros vieram de regiões que hoje correspondem ao Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Guiné e Costa do Marfim.

Para a administração colonial, as diferenças importavam menos do que a necessidade de homens para defender o império.

Muitos daqueles soldados jamais tinham visto a Europa. Alguns deixaram aldeias às margens do rio Senegal. Outros partiram de cidades e povoados espalhados pela África Ocidental. Em comum, carregavam a convocação para lutar em guerras que aconteciam do outro lado do mar.

Quando desembarcaram na Europa, encontraram um mundo que poucos imaginavam existir. O sol que costumava castigar as planícies africanas deu lugar à lama das trincheiras, aos invernos rigorosos e ao som constante da artilharia.

Ao longo da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, centenas de milhares de homens passaram pelas fileiras dos tirailleurs sénégalais. Lutaram em algumas das principais batalhas travadas pela França. Muitos morreram longe de casa.

Quando a maior guerra de todos os tempos caminhava para o fim, acreditavam que o sacrifício seria reconhecido, mas a história seguiria outra trajetória.

O massacre ainda não terminou

Durante décadas, a versão oficial francesa sustentou que 35 soldados haviam morrido em Thiaroye. Entretanto, historiadores apontam que o número real supera 400. E o tema voltou ao centro das atenções nos últimos anos. 

Em 2024, quando o massacre completou 80 anos, o governo do Senegal divulgou um relatório elaborado por historiadores com o objetivo de reconstituir os acontecimentos de Thiaroye e ampliar o acesso a documentos sobre o episódio.

“Esse relatório é um passo decisivo pela reabilitação da verdade histórica”, disse Bassirou Diomaye Faye, presidente senegalês, durante uma cerimônia com a presença do primeiro-ministro Ousmane Sonko e membros do governo.

No mesmo período, o presidente francês Emmanuel Macron reconheceu oficialmente que os acontecimentos de 1º de dezembro de 1944 configuraram um massacre, um gesto visto por muitos como um passo importante no processo de reconhecimento histórico.

A França deve reconhecer que, naquele dia, o confronto entre soldados e fuzileiros que exigiam o pagamento integral de seus salários legítimos desencadeou uma série de eventos que resultaram em um massacre”, diz uma carta do presidente francês Emmanuel Macron ao presidente senegalês, citada pela agência de notícias AP.

História dentro de campo

Nesta terça-feira (16), França e Senegal voltam a se encontrar. Desta vez, na estreia das duas seleções na Copa do Mundo de 2026. O confronto já produziu um dos resultados mais marcantes da história dos Mundiais.

Foto: Dylan Martinez/Reuters

Em 2002, na estreia do torneio disputado na Coreia do Sul e no Japão, Senegal surpreendeu a então campeã mundial e venceu por 1 a 0, em uma das maiores zebras da competição.

O gol dos senegaleses foi marcado por Papa Bouba Diop aos 30 minutos do primeiro tempo. O jogador morreu na capital da França em 2020, aos 42 anos, após longa batalha contra a esclerose lateral amiotrófica.