Ou, o que eu encontrei na Bienal do Livro em 2022

Foto: Mídia NINJA

Este texto vai falar sobre livros. E sobre o que eles estão falando. Eu já contei que eu fui criada pela tv quando criança. Agora quero falar que a minha adolescência foi guiada por livros. Foi a forma que encontrei de recarregar minhas baterias sociais, porque eu era extrovertida e adorava estar em eventos, mas eles eram extremamente cansativos (só depois fui entender que era porque eu era uma das únicas negras na maior parte dos meus rolês adolescentes, mas isso é pra outro texto).

Altamente influenciada pelo gosto de leitura dos meus pais, eu adorava aulas de literatura e lia todos os livros indicados com gosto (tirando uma vez que a minha arrogância juvenil achou que era melhor ler Dan Brown que os clássicos da literatura do romantismo europeu, em minha defesa o romantismo brasileiro é mais legal). Era a minha aula favorita e me rendeu o apelido de aluna barroca por um dos professores de literatura. Entendedores entenderão (e depois me contem).

Eu também devorava os livros de literatura infanto juvenil. Perdi madrugadas na minha fixação por toda e qualquer publicação do Harry Potter, e por isso me considero uma Slytherclaw, a junção das casas de Sonserina e Corvinal e ninguém nunca vai me provar o contrário. Tinha “Desventuras em Série” como meus livros de conforto e perdi a conta de quantas vezes li os títulos da Thalita Rebouças. “Fala Sério, mãe” e “Tudo por um Pop Star” não saiam do lado da minha cabeceira.

Eu competia com meu primo quem lia mais títulos da coleção Vagalume e tinha a forte opinião que “Aventuras no Império do Sol” surrava qualquer outro. Era uma mistura de “O Diário da Princesa”, “O Caçador de Pipas”, “Coraline”, “A Revolução dos Bichos”, “Crepúsculo”, “A Metamorfose”, entre outros da Ruth Rocha e Ziraldo, que eu lia pra ser criança mais um pouquinho.

Mas o bicho pegava mesmo era quando eu ligava meu pc, esperava o chiado da internet conectar e finalmente entrava nos sites das fanfics. Os livros eram ótimos, abriram minha cabeça, mas também eram insuficientes. Nas fanfics a gente fazia o que queria. Mudava gênero, raça, sexualidade… Coisas que fariam os fãs conservadores da Marvel se contorcerem em suas cadeiras de gamer hoje em dia. A gente ignorava plots inteiros e criava outros completamente fantasiosos, contestávamos os autores porque julgávamos saber mais sobre o íntimo do personagem que eles.

Foi nas fanfics que, antes de colocar em prática, explorei minha atração por mulheres, por homens considerados afeminados, por personagens fictícios que claramente eram negros – mesmo que tenha demorado para ficar com um cara preto na vida real. E na fanfic isso podia. Gina podia ser perdidamente apaixonada por Luna e os (raros) personagens negros que eu acompanha nos livros tinha conflitos realmente negros e não saíam da cabeça dos brancos não letrados racialmente.

Eu mais lia que escrevia, mas considero que essa foi uma das minhas raízes para gostar de escrever e me fez entender o impacto midiativismo – não importa se você atropela o português normativo, se usa gírias ou coloquialismo, o que importa é que seus personagens parecem reais e fazem coisas reais.

E a realidade é essa – na fanfic, o mundo era real. Diverso. Colorido e dramático. Personagens LGBTs, mulheres complexas, pessoas gordas, gente preta, nada disso existia na literatura juvenil mainstream dos anos 2000. E pior, qualquer sinal de “desajuste estético” era tido como desafio na vida da personagem. O desserviço que é a cena do alisamento no Mia Thermopolis é colossal. E isso causou uma grande confusão racial, sexual, identitária na minha cabeça de 15 anos. Se as coisas só aconteciam na vida de mulheres brancas, magras e lisas nos livros, na tv e no cinema, como a minha existência era de verdade? Eu vou morrer sozinha?

Mesmo que meus primeiros fakes fossem todos inspirados em mulheres Brancas com B maiúsculo como Michelle Trachtenberg ou Amanda Seyfried, nas minhas fic recs, Hermione já era negra antes do escândalo feito na escalação de Noma Dumezweni na peça de teatro de Harry Potter em 2015. Por isso Zendaya de MJ e Halle Bailey de Pequena Sereia não são uma surpresa para essa parte da minha geração – nossos fan castings estão se tornando realidade. Uma realidade, devo dizer, que sempre existiu nas publicações independentes, nos saraus e na literatura entendida como “marginal”, mesmo que fossem um retrato central da vida dos 99%.

E é esta realidade que vi em uma parte da Bienal do Livro neste último fim de semana. Quando vi a equação de país convidado: Portugal + o valor de ingresso se juntando ao mar de pessoas brancas que eram os corredores dos stands da Expo Center Norte, tive calafrios e medo de encontrar ali, justamente, as histórias que ignoravam a minha existência.

E graças a Oxalá, não. As filas que dobravam as esquinas, as multidões amontoadas no chão e a guerra às senhas estavam destinadas a outros autores. À Stefano Volp, Clara Alves, Maria Freitas, Pedro Rhuas, Íris Figueiredo, Elayne Baeta… Autores que estão na lista dos mais lidos, comprados, clicados e contando histórias que antes estavam confinados em sites como fanfic.net. A fanfic virou verdade e agora Gina e Luna podem finalmente andar de mãos dadas nas capas dos livros.

Foto: Mídia NINJA

Foi interessante notar que outros assuntos como a Amazônia e os povos indígenas também começam a ser introduzidos para as crianças através da leitura, saludando aqui especialmente a Companhia das Letrinhas por promover um debate sobre Democracia para Crianças.

Mas é claro o caminho ainda é longo – senti falta de conhecer novos autores negros e confesso que ouvi com vergonha minhas autoras favoritas da adolescência versarem tão rasamente sobre racismo e representatividade racial na literatura, assim como a pouca celebração de escritores negros com uma produção já expressiva. Eliana Alves Cruz e Jeferson Tenório merecem mais confeti, até porque não vejo esforço para acharem os mais novos para preencher seu lugar na literatura no futuro.

Fotos: Mídia NINJA

Falo o mesmo sobre autores trans e fico feliz que editoras e selos independentes deram o seu corre para garantir essas presenças, como a Se Liga que levou autores como Koda, Jonas Maria, Limão e Brenda Bernsau para o lugar de destaque que merecem. Mas a potência trans, como todas nossas potências humanas, não cabem em 1 stand e tem impacto cultural, técnica e linguagem o suficiente para estar presente nos espaços mais prestigiados do evento.

Ainda tem chão, mas quando saí dos pavilhões no domingo à noite, meu coração de fanfiqueira estava mais feliz. Agora sei que a menina que fui aos 15 anos tem mais livros para ler. Graças à determinação dos autores e o lampejo das editoras em entender que preto, bicha, sapatão, bi e pans também compram livros.

Enfim, nós estamos mais permitidos nas páginas. E se não, a preta-gorda de 15 anos está mais perto de, literalmente, escrever sua própria história.

Crédito: glitter-filled-teapot

 

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