Por Ysadora Borges – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Quem assiste aos jogos antigos ou observa fotografias de Copas do Mundo percebe rapidamente uma diferença curiosa: os shorts dos jogadores eram muito mais curtos do que os atuais. O que hoje causa estranhamento foi, durante décadas, o padrão do futebol mundial. A mudança não aconteceu por acaso e tampouco foi resultado de uma regra específica. Ela reflete transformações na moda, na tecnologia esportiva e na forma como o futebol passou a ser consumido ao redor do mundo.

Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, os shorts curtos dominavam os gramados. Equipes históricas, como o Ajax de Johan Cruyff, e seleções marcantes, como o Brasil campeão de 1970 e a Seleção Brasileira de 1982,  utilizavam modelos que terminavam bem acima do joelho. Na época, os uniformes eram confeccionados com tecidos menos flexíveis e mais pesados do que os atuais. Para garantir maior liberdade de movimento aos atletas, os fabricantes optavam por peças mais curtas e largas.

Foto: Arquivo/Agência O Globo

Além da questão funcional, havia também uma influência estética. O padrão visual do esporte naquele período favorecia roupas menores. Modalidades como atletismo, tênis e até basquete adotavam uniformes mais curtos, o que ajudava a consolidar essa tendência também no futebol. Os famosos “curtinhos” dos anos 1980, eternizados em imagens de jogadores como Sócrates, Zico e Careca, não eram uma exclusividade brasileira. Clubes e seleções de todo o mundo seguiam o mesmo padrão.

A revolução dos anos 1990

A grande transformação começou na década de 1990. Com a expansão da indústria esportiva e a crescente influência das grandes marcas globais, os uniformes passaram a ser pensados não apenas para o desempenho dentro de campo, mas também para o consumo fora dele. O futebol tornou-se um produto cada vez mais internacional, aproximando-se da cultura urbana e das tendências da moda.

Nesse contexto, roupas mais largas ganharam popularidade. A influência do streetwear e do basquete norte-americano ajudou a impulsionar uma nova estética esportiva, refletida diretamente nos uniformes de futebol. Clubes como o Manchester United do final dos anos 1990 e seleções presentes na Copa do Mundo de 1998 já apresentavam shorts consideravelmente mais compridos do que aqueles utilizados apenas uma década antes.

Foto: Arquivo/Alamy.com

Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos na fabricação de tecidos permitiram que os uniformes fossem mais leves, respiráveis e elásticos. Dessa forma, não era mais necessário manter os shorts curtos para garantir conforto e mobilidade. A tecnologia passou a oferecer essas vantagens independentemente do comprimento da peça.

Mais do que moda

A consolidação dos shorts mais longos nos anos 2000 mostrou que a mudança ia muito além de uma simples tendência estética. O desenvolvimento de novos materiais esportivos, os estudos sobre desempenho atlético e as estratégias de marketing das grandes marcas contribuíram para criar um novo padrão visual para o futebol moderno.

Clubes como Real Madrid, Barcelona e Milan ajudaram a popularizar o modelo próximo ao joelho, que rapidamente se tornou dominante em competições nacionais e internacionais. Embora alguns jogadores ainda prefiram modelos ligeiramente mais curtos, o visual dos anos 1970 e 1980 tornou-se uma marca de outra época.

Ao contrário do que muitos imaginam, nunca existiu uma regra da Fifa determinando que os shorts deveriam ficar mais compridos. A mudança ocorreu de forma gradual, acompanhando transformações culturais, tecnológicas e comerciais. Assim, os famosos “curtinhos” não desapareceram por imposição, mas porque deixaram de representar o padrão desejado por atletas, fabricantes e consumidores.

Foto: Arquivo/Agência O Globo

Hoje, ao olhar para uma fotografia antiga de uma Copa do Mundo, a diferença chama atenção. Mais do que uma questão de moda, ela revela como o futebol evoluiu ao longo das décadas e como os uniformes também contam a história das mudanças que aconteceram dentro e fora dos gramados.