Quando é ego e quando é eco?

Boa parte dos brasileiros estão indo contra as recomendações de isolamento social com o argumento de que não podemos parar nossa economia. 

De fato, o isolamento social está deixando muitas pessoas sem trabalho e renda já que muitas indústrias e comércios sofreram restrições de funcionamento ou até pararam completamente. 

Mas, afinal você sabe o que significa economia? 

Ao contrário do imaginário comum e da forma como imprensa, autoridades e até especialistas referem-se ao termo, Economia, em sua raiz etimológica, derivado do grego, “Oikos — Nomos”, significa, literalmente, “gestão da casa”.

E vamos combinar que gestão da nossa casa, planeta Terra ou Gaia para alguns, não estamos fazendo nada bem. As evidências são claras e essa pandemia que já tirou a vida de mais 10 mil seres humanos no Brasil é uma delas. O vírus Covid-19 chegou até nós porque não respeitamos os animais silvestres e muito menos seus habitats. Além da crise de saúde atual, basta respirar o ar de São Paulo num dia qualquer ou conversar com algum dos milhões que brasileiros que sofrem com problemas respiratórios. 

Este ar poluído que compartilhamos, independente de nossa cor, credo ou classe social, vem também por conta das péssimas escolhas econômicas que fazemos diariamente. Você escolhe ir para o trabalho de carro sozinho ou pegar um uber, a empresa escolhe beneficiar seus funcionários com carro à gasolina, a indústria “economiza” no sistema da chaminé, o prefeito da sua cidade não investe em transporte público e ainda sequer cogitou trocar a frota de ônibus por um com energia renovável. 

Essa completa má gestão da nossa casa abundante acontece também porque, ao contrário do que muitos pensam, Economia não é uma ciência com suas leis naturais, limites ecológicos e dinâmicas evolutivas. Economia tornou-se uma ciência social, cujo centro são instituições que estão focadas em bens ou serviços que são produzidos, comprados ou vendidos. E sempre vale lembrar que a Economia que conhecemos hoje foi feita por homens brancos refletindo predominantemente a desigualdade da Grã-Bretanha pré-vitoriana. Ou seja, muita gente já vem sonhando, escrevendo e executando uma nova economia baseada na confiança, na parceria e na co-responsabilidade. Todos somos responsáveis! Que tal de agora em diante do real significado da palavra economia, a gente pensar em fazer uma melhor gestão da nossa casa comum? 

Uma nova economia é colaborativa e considera a nossa interdependência. Uma Amazônia derrubada aqui no Brasil, altera o clima de todo o planeta. Seus rios respondem por quase um quinto da água doce que deságua nos oceanos, e a umidade de parte da Bacia Amazônica atinge e regula o clima de países como a Argentina e Uruguai.

Cientistas apontam que os efeitos do desmatamento na região são alarmantes e atinge níveis recordes desde o início de 2019. Se passarmos de 20 a 25% de desmatamento (nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2020 tivemos aumento de 51,45% em relação ao mesmo período de 2019), a Amazônia corre risco de se tornar uma savana degradada.

Um consumo elevado de ração de gado no China é que aumenta a demanda por produção de soja aqui no Brasil. Soja que desmata, envenena e mata milhares de pessoas em todo o mundo. 

Então que tal aproveitarmos que a velha economia “parou” para acelerarmos a transição para o paradigma da abundância. Tem pra todo mundo e se organizar direitinho todo mundo vive, e muito bem! 

E meus amigues, já existem tantos exemplos de novas economias rodando por aí. Inclusive ela tem vários nomes: solidária, inclusive, sustentável, regenerativa…. não importa o nome, se ela fizer uma boa gestão da nossa casa Terra, ela será uma verdadeira economia que precisa ser salva e entregue para as futuras gerações.

São esses negócios econômicos que devem ser salvos. Não são os bancos que precisam ser salvos para que o dinheiro continue a ser criado a partir da dívida e sofrimento dos outros. Não são os agrotóxicos que merecem isenção de impostos para continuar envenenando nossa terra e nossa água. Os negócios que precisam ser salvos, que precisam de investimento fiscal e direto dos governos, das empresas e nossos que aqueles que colaboram com a vida.

Você conhece esses negócios da nova economia? Amantes da língua inglesa podem o chamar de startups sociais, mas eles podem estar escondidos na rua da sua comunidade, na associação de moradores que há anos luta por seus direitos em algum território, nos movimentos sociais que estão sendo criminalizados ou na mente brilhante de uma jovem negra da periferia que ainda não teve oportunidade de estudar.

E se a gente conhecesse todos esses pontos luminosos brasileiros? Toda essa constelação de gente e organizações que trabalham pela vida?

Bota aqui a organização que você confia, as pessoas e os empreendedores sociais que vocês conhecem e confiam.  Não é por um, é por todos que devemos cocriar uma nova economia. 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Boaventura de Sousa Santos

A universidade pós-pandêmica

Juan Manuel P. Domínguez

“O lugar do artista é na luta”. Diálogos de quarentena com Rael

Renata Souza

Stonewall Inn.: orgulhar-se é transgredir

Cleidiana Ramos

O dia em que meu nariz me definiu como negra - notas sobre o racismo à brasileira

Gabriel RG

Netanyahu e a ânsia dos covardes por complacência

André Barros

Operações racistas nas favelas

Erika Hilton

Um projeto mais assassino que o coronavírus

Márcio Santilli

Bolsonaro decide cooptar a base social do Lula para sobreviver ao impeachment

Gabriel RG

A substituição do monopólio da violência pelo monopólio da delinquência

André Barros

Bolsonaro evapora

Jussara Basso

A cultura na periferia em tempos sombrios

Juan Manuel P. Domínguez

O demônio branco esteve infiltrado nos protestos pela morte de George Floyd

Márcio Santilli

Ratos ficam nus e podem detonar Bolsonaro

Daniel Zen

E o cerco vai se fechando

Ana Júlia

A queda de Weintraub