Carta Manifesto denuncia avanço da mineração de terras raras e convoca defesa do Planalto Vulcânico no Sul de Minas
Manifesto em Poços de Caldas denuncia mineração de terras raras e defende arte, território e participação.
Moradores, artistas e coletivos culturais do Sul de Minas divulgaram um manifesto em defesa do território do Planalto Vulcânico de Poços de Caldas diante do avanço de projetos ligados à exploração de terras raras na região. O texto, publicado pelo Coletivo Terra Viva Água Rara de Poços de Caldas, denuncia os impactos socioambientais da mineração, questiona o modelo de desenvolvimento baseado na extração mineral e reivindica o direito da população de participar das decisões sobre o futuro do território. A iniciativa também anuncia o surgimento do “Vulcão Cultural”, espaço de encontro, arte e debate sobre os rumos da região.


No coração do Planalto Vulcânico,
a terra guarda uma história profunda.
Uma história de montanhas,
de águas,
de matéria viva acumulada ao longo de milhões de anos.
Um solo que guarda, sob a superfície,
as raízes das plantas,
as fraturas das rochas,
por onde a água da chuva encontra os lençóis freáticos.
Um território moldado por um antigo vulcão,
inativo há milhões de anos,
que conformou uma hidrogeologia rara.
Foi esse vulcão que, lentamente,
deu origem às nossas águas —
sulfurosas, termo-medicinais, águas de cura —
e foi também, lentamente, que esse vulcão produziu os
minérios que hoje despertam tanto interesse.
Mas sobre esse solo, que um dia foi fogo,
foram construídas cidades.
Hoje, milhares de pessoas vivem aqui.
Construíram suas casas, suas rotinas,
compuseram suas histórias.
É que um território como este não pode ser reduzido à sua geologia.
O território é a montanha,
é o rio,
é a floresta,
é a praça,
é a escola,
é a igreja,
é encontro.
O território é a gente.
Uma gente tão rara quanto as nossas águas
e as nossas terras.
Rara, nossa terra.
Hoje, sendo atravessada por disputas
que não começam aqui —
mas chegam até aqui.
O mundo demanda mais.
Demanda mais energia,
demanda mais consumo,
demanda mais poder e, de novo, demanda mais minério.
Do outro lado do planeta,
máquinas não dormem.
Dados circulam sem pausa.
Centros de processamento consomem o invisível
e nos bombardeiam com uma realidade cada vez
mais virtual e individualizada.
Carros elétricos prometem futuro —
mas seguem exigindo extração e provocando sua
inseparável violação socioambiental.
Armas se reinventam —
novas bombas, novos drones, novos mísseis — e, para todos eles,
novas guerras; e, para as novas guerras, novos minerais.
Mais uma vez, e de novo,
olham para terras como a nossa.
Territórios ricos,
tratados como vazios.
Territórios vivos,
tratados como recurso.
O Planalto Vulcânico de Poços de Caldas
tem o segundo maior “depósito” de terras raras do mundo.
Imagine só: o lugar onde a gente vive
reduzido a um depósito.
Teve o ouro, teve o ferro, a bauxita e o urânio.
Levaram tudo, estão levando, e agora querem, de novo, levar mais.
São críticos, dizem, os minérios.
Es-sen-ci-ais.
Querem o lítio, querem as terras raras, o níquel, todos esses minerais.
São críticos, dizem. Es-sen-ci-ais.
São críticos para quem?
Se o essencial exige que se destrua o lugar onde se vive,
que essencial é esse?
É o progresso, dizem.
Mas se o progresso precisa avançar sobre casas,
escolas,
hospitais,
o que exatamente está progredindo?
Prometem desenvolvimento.
Mas, como dizia Nego Bispo,
nós não queremos desenvolvimento.
Nós queremos envolvimento.
Envolvimento com a reflexão.
Envolvimento com a discussão.
Envolvimento com a decisão.
Porque um povo que vive num lugar
tem o direito de decidir sobre ele —
sobre a vida que quer viver nele.
Não queremos que decidam por nós.
Queremos nos EN-VOL-VER.
E não venham nos dizer que vocês criam espaços
para a população “tirar” suas dúvidas sobre os projetos.
Nós não temos dúvidas; nós temos a certeza de que cavas
gigantescas de mineração,
a menos de 300 metros das moradias,
produzirão impactos severos
sobre a vida e a saúde da população.
Nós não queremos tirar dúvidas,
nós queremos esclarecê-las.
Uma pesquisa constatou que apenas 3%
da população de Poços de Caldas entrevistada
é plenamente favorável à mineração de terras raras.
A dúvida é: por que insistem
em não escutar a voz da população?
Ignoram quem vive aqui.
Ignoram quem conhece a terra.
Ignoram quem sente no corpo o território.
Mas estamos aqui para lembrar:
o território não é vazio,
não é uma reserva,
não é um depósito.
O território é vivido.
O território fala.
O território responde.
E quando tentam silenciar a crítica,
quando tentam financiar o consentimento,
quando tentam transformar vida em recurso,
algo começa a se mover. Percebe?
Algo está entrando em erupção.
Foi assim que moradores e artistas do Vulcão se encontraram.
Não para dar respostas prontas sobre a exploração de terras raras
ou sobre o futuro da região,
mas para abrir espaço para nossas perguntas.
Não para perguntas nossas endereçadas às empresas.
Perguntas nossas endereçadas a nós mesmos.
O que nós queremos?
Como queremos?
Quando queremos?
E, principalmente, se queremos.
Queremos um espaço de [auto]escuta.
Um espaço de encontro.
Um espaço de imaginação.
Assim surgiu o Vulcão Cultural.
Um festival onde a arte se torna linguagem comum
para pensar o território.
Onde a música,
a poesia,
o corpo,
a imagem,
se tornam formas de dizer e de mostrar:
estamos aqui.
E queremos participar do futuro
que está sendo decidido por nós.
Porque o território é nosso.
Porque viver aqui não é detalhe.
Porque futuro não se extrai —
se constrói.
E porque, às vezes,
quando a pressão aumenta,
não é só o vulcão que entra em erupção.
A arte também.



