Por: Larissa Cristovão

Você já parou para pensar no que acontece com o papel que sobra depois que uma figurinha da Copa é colada no álbum?

Esquecido após a colagem da figurinha, um pedaço de papel que cabe na palma da mão pode permanecer no meio ambiente por até 100 anos. Apesar de parecer papel comum, o liner, material que fica atrás das figurinhas autoadesivas, possui uma camada de silicone que impede sua reciclagem pelos processos convencionais.

Com milhões de pacotes vendidos nas primeiras semanas da campanha da Copa do Mundo de 2026, cresce também a quantidade desse resíduo pouco conhecido pelos colecionadores. Somente pelo iFood, foram vendidos 3,85 milhões de álbuns e pacotes de figurinhas desde o lançamento dos produtos na plataforma, em 30 de abril. O número representa um crescimento superior a 1.500% em relação à campanha da Copa de 2022.

Em meio à febre das figurinhas, uma iniciativa busca evitar que toneladas de liners acabem em aterros sanitários. A Polpel Fibras, empresa de Guarulhos (SP) e única da América Latina especializada na reciclagem desse material, está recebendo liners de pessoas físicas e instituições até o dia 10 de agosto. Toda a renda obtida com a reciclagem será destinada ao Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (GRAACC), referência no tratamento oncológico infantojuvenil.

A expectativa para este ano é ambiciosa. Na Copa de 2022, a empresa recolheu 230 quilos de liners, quantidade equivalente a cerca de um milhão de figurinhas. Para 2026, a projeção é atingir 2,3 toneladas de material, dez vezes mais que na edição anterior do Mundial.

O que é o liner?

Quem completa um álbum da Copa costuma prestar atenção nas figurinhas raras, nas repetidas e nas que faltam para preencher a coleção. Mas um outro elemento acompanha cada pacote aberto e quase sempre passa despercebido: o papel descartado após destacar a figurinha.

Chamado de liner, esse material está presente no cotidiano muito além dos álbuns. Ele é utilizado em rótulos de shampoos, alimentos, bebidas e diversas embalagens. A Copa do Mundo é um dos poucos momentos em que o consumidor entra em contato direto com esse resíduo.

O liner recebe uma camada de silicone que facilita o descolamento da figurinha sem rasgar o adesivo. É justamente essa característica que dificulta sua reciclagem em cooperativas e sistemas convencionais de coleta seletiva.

Segundo a Polpel, o processo utilizado para reaproveitar o material é protegido por sigilo industrial, mas permite transformar os liners em matéria-prima para novos produtos de papel, como embalagens, papel-cartão e papel-toalha.

Campanha nacional

A campanha nasceu de uma inquietação familiar. A designer gráfica e gestora ambiental Patrícia Meirelles de Azeredo Coutinho começou a se incomodar com a quantidade de liners descartados pelos três filhos durante a montagem do álbum da Copa.

Seu marido, Sérgio Talocchi, gerente sênior de sustentabilidade da Natura, já conhecia o trabalho da Polpel por meio da destinação dos liners gerados pelos rótulos dos produtos da empresa.

A ideia inicial era simples: recolher o material no condomínio e encaminhá-lo junto aos resíduos já enviados para reciclagem. No entanto, após compartilhar a iniciativa em grupos de WhatsApp da escola dos filhos, Patrícia percebeu que o interesse era muito maior do que imaginava.

“Achei que meu celular tinha sido clonado. De repente havia centenas de mensagens de pessoas querendo participar da iniciativa”, relatou em entrevista à Folha de S. Paulo, publicada no início de junho.

O que começou como uma ação local rapidamente ganhou alcance nacional.

Como participar

Os liners podem ser entregues diretamente nos pontos de coleta da Polpel em São Paulo ou enviados pelos Correios para a sede da empresa, localizada na Rua Padre Marcos, nº 761, em Guarulhos (SP).

A campanha também conta com o apoio da Natura. Em publicação nas redes sociais, a empresa informou que, por meio do programa Recicle com a Natura, suas lojas estão recebendo os versos das figurinhas para garantir a destinação correta do material e evitar que ele seja encaminhado para aterros sanitários.

A ação ainda oferece um incentivo aos consumidores, com descontos em lojas parceiras e em compras. Os pontos de coleta estão em lojas da Natura espalhadas pelo país, ampliando o alcance da campanha para além do estado de São Paulo.

Logística reversa

Embora a campanha ofereça uma solução para o descarte dos liners, ela também levanta uma discussão sobre a responsabilidade ambiental dos fabricantes.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e prevê a implementação de sistemas de logística reversa. Na prática, fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes devem estruturar mecanismos para recolher e dar destinação ambientalmente adequada aos resíduos gerados por suas atividades.

Nos últimos anos, a legislação foi aprimorada com novas exigências de rastreabilidade, metas de recuperação de materiais e comprovação da destinação ambientalmente correta dos resíduos.

Nesse contexto, a campanha de reciclagem levanta uma questão que vai além do álbum da Copa: se existe tecnologia para reciclar o liner, por que a responsabilidade de encaminhar esse material ainda recai principalmente sobre o consumidor?

A discussão ganha ainda mais relevância diante da popularidade do álbum da Copa e do crescimento expressivo das vendas de figurinhas. Enquanto fabricantes não apresentam soluções amplamente acessíveis para a destinação desse resíduo, iniciativas como a da Polpel e dos parceiros da campanha surgem como alternativas para evitar que toneladas de papel siliconado terminem em aterros sanitários.

Ao mesmo tempo, a mobilização transforma um resíduo pouco conhecido em fonte de recursos para o tratamento de crianças e adolescentes com câncer, mostrando que uma solução ambiental também pode gerar impacto social positivo.