Por Ana Mayra Oliveira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Dentro das inúmeras desigualdades que as mulheres sofrem continuamente desde a sua existência, temos o esporte compondo um dos pilares para a distinção entre homens e mulheres: a má distribuição de oportunidades no meio esportivo. A Copa do Mundo, o maior torneio de futebol entre nações do mundo, é um exemplo disso, não só fora das quatro linhas, mas dentro delas um detalhe chama a atenção: a arbitragem, que constitui o regramento e a disciplina dentro de campo, sofreu mudanças evolutivas para as mulheres dentro de um lugar ao qual elas deveriam pertencer há séculos.

Infelizmente, essa evolução ocorreu apenas depois dos anos 2000. Nos anos 90, nas Copas de categoria masculina de 1990, 1994 e 1998, apenas homens compuseram o time de arbitragem do torneio. Somente em 1991, na primeira Copa organizada oficialmente pela FIFA, seis mulheres foram selecionadas para trabalhar como auxiliares de linha em alguns jogos do torneio. Entre elas estava a brasileira Cláudia Guedes, que relata, em inúmeras entrevistas, a dificuldade de permanecer nesse meio por falta de incentivo e reconhecimento das estruturas administrativas que comandavam o campeonato. Cláudia Guedes foi a primeira mulher a apitar um jogo de Copa do Mundo, no confronto entre Suécia e Alemanha, que terminou em uma goleada de 4 a 0 para as suecas. Ela foi auxiliada pela Linda Black, neozelandesa, e pela chinesa Zuo Xiu, ocasião que se tornou um marco histórico para as mulheres inseridas no meio esportivo daquela época.

Dos anos de 1995 a 2003, as mulheres foram recebendo oportunidades com mais frequência na modalidade feminina da Copa Mundial. Ingrid Jonsson tornou-se, em 1995, a primeira mulher a apitar uma final de Copa do Mundo feminina, destacando em uma entrevista: “No futuro, acredito que muito mais mulheres estarão envolvidas no futebol masculino, não apenas por serem mulheres, mas sim pela qualidade da arbitragem em geral.” Já em 2003, a FIFA adotou um regulamento pelo qual toda a arbitragem do torneio seria composta exclusivamente por mulheres. Mesmo sem obter ainda o reconhecimento necessário para participarem da modalidade masculina, onde o machismo permanecia forte, para toda a comunidade esportiva feminina a evolução acontecia pouco a pouco, e havia esperança de que mais sonhos e oportunidades surgissem dentro do campo.

Foto: Ingrid vid VM-finalen på Råsunda 1995

Aqui está o trecho revisado:


Foi apenas em 2022 que a quebra de barreiras foi finalmente alcançada — um momento de papel fundamental para reafirmar a ideia de que o lugar da mulher é onde ela quiser. Um sonho que parecia distante, mas que a certeza de pertencimento e o amor pelo esporte sempre mantiveram vivo, havia chegado.

Após 92 anos de história, as mulheres participariam pela primeira vez da arbitragem de um campeonato mundial masculino. Seis mulheres formaram o time para comandar a arbitragem no Catar: as árbitras Stéphanie Frappart (França), Yoshimi Yamashita (Japão) e Salina Mukansanga (Ruanda), e as auxiliares Neusa Back (Brasil), Karen Díaz (México) e Kathryn Nesbitt (Estados Unidos). Mesmo sendo sediada em um país onde as mulheres ainda enfrentam diversas formas de desigualdade, a Copa de 2022 foi um ano histórico, marcado pela brilhante atuação dessas mulheres, que deixaram sua marca na história do futebol mundial.

Em 2026, a evolução deveria continuar — e continuou.

As mulheres foram reconhecidas em um espaço do qual nunca mais deveriam ser excluídas. As árbitras Tori Penso (Estados Unidos), conhecida por ter apitado a final da Copa do Mundo Feminina de 2023, e Katia Garcia (México), uma das principais referências da arbitragem na CONCACAF, além das auxiliares Brooke Mayo (Estados Unidos), Kathryn Nesbitt (Estados Unidos) e Sandra Ramírez (México), e da árbitra de vídeo Tatiana Guzmán (Nicarágua), foram selecionadas para seguir fazendo parte desse avanço contínuo. Reconhecimentos e oportunidades como esses precisam ser oferecidos com mais frequência e em maior número ao redor do mundo — marcos essenciais para o crescimento e o fortalecimento das mulheres dentro e fora dos estádios.

Foto: Estadão-Arquivo