Anitta transforma espiritualidade, autoconhecimento e crítica ao extremismo em eixo de “Equilibrium”
Em coletiva sobre o novo álbum, cantora fala sobre religiosidade, polarização política, amor-próprio e afirma que projeto nasceu de uma busca por equilíbrio pessoal e artístico
Anitta apresentou oficialmente seu novo álbum, Equilibrium, em uma coletiva marcada por reflexões sobre espiritualidade, autoconhecimento e polarização social. Em vez de tratar o disco como um projeto centrado em religião, a artista definiu o trabalho como “um estado de espírito”, construído a partir de experiências pessoais e de uma transformação interna vivida nos últimos anos.
Ao longo da entrevista, Anitta descreveu o álbum como seu trabalho mais confessional até hoje e afirmou que a principal intenção do projeto foi traduzir artisticamente aquilo em que acredita. “Esse álbum não é sobre religião, ele é sobre um estado de espírito, é sobre coisas em que eu acredito, não apenas no sentido religioso”, declarou. Segundo ela, a proposta é provocar no público “essa sensação de se sentir inteiro por dentro”.
A cantora também comentou a presença de referências ao candomblé, à meditação e à espiritualidade plural nas músicas e nos visuais do projeto. Questionada sobre intolerância religiosa no Brasil, afirmou que não criou o álbum com a missão de combater preconceitos diretamente, mas reconheceu que a obra pode fortalecer pessoas que sofrem discriminação por suas crenças. “Minha intenção com o álbum foi, na verdade, só colocar em forma de arte uma coisa em que eu acredito muito”, disse. Ainda assim, completou: “Eu espero que sim, ajude nesse movimento de combater o racismo religioso, o preconceito”.
Durante a coletiva, Anitta explicou que o Equilibrium foi estruturado como uma espécie de trajetória espiritual. O álbum começa evocando a figura da Pombagira e termina com uma faixa meditativa chamada Ouro. Segundo ela, a ideia era conduzir o ouvinte por um percurso emocional e simbólico. “Eu poderia ver, sim, esse álbum como um grande ritual”, afirmou. “Ele começa numa energia, vai baixando, começa na desgraça pra te mostrar todo o caminho até você chegar a essa iluminação.”
A cantora detalhou ainda que buscou referências nos orixás, na cultura indígena brasileira e em práticas de autoconhecimento que passaram a fazer parte de sua rotina nos últimos anos. Segundo ela, o processo criativo nasceu de um período em que estava desmotivada com a indústria musical e cansada das pressões da carreira.
“Eu tava um pouco desacreditada de algumas situações que acontecem na indústria, no trabalho, na relação entre equipes, pessoas, o ego de pessoas”, afirmou Anitta.
Anitta contou que o projeto ganhou forma depois de um incentivo da diretora criativa Nídia Aranha, que a motivou a retomar o trabalho musical sem a pressão de alcançar números ou repetir fórmulas de sucesso. “Eu encontrei uma nova forma de trabalhar, que foi com prazer e sem pressão”, explicou. Essa liberdade criativa também impactou a estética do álbum. A artista afirmou que quis trabalhar com referências brasileiras em todos os aspectos visuais, dos figurinos aos conceitos dos clipes. “Eu quis trazer a coisa Brasil, quis trazer a coisa dos Orixás, da nossa natureza. Pra mim, isso é Deus”, declarou.
Entre os destaques de Equilibrium está a parceria com Shakira na faixa Choka Choka. Segundo Anitta, a colaboração aconteceu de forma espontânea, já que as duas mantêm amizade fora dos palcos. “Ela escolheu essa música pra gente gravar juntas”, contou. A cantora brasileira também elogiou a artista colombiana, chamando-a de “uma pessoa muito carinhosa”.
Além da espiritualidade, a coletiva foi marcada por comentários sobre política e polarização social. Anitta afirmou que o conceito de equilíbrio do álbum também dialoga com a necessidade de reduzir extremismos e recuperar espaços de convivência entre opiniões diferentes. “Eu acho que a gente tem sido muito extremista na nossa forma de se posicionar politicamente”, afirmou. Em outro momento, acrescentou: “Nada nunca vai melhorar enquanto a gente continuar nesse ódio para com o outro”.
A cantora criticou o funcionamento dos algoritmos das redes sociais, que, segundo ela, incentivam bolhas de pensamento e dificultam o diálogo. Para Anitta, a sociedade atual tem ridicularizado quem tenta ocupar “o meio do caminho”. “A única solução pra mim é todo mundo chegar num consenso cada vez mais próximo ali”, disse, ao explicar o significado do título Equilibrium.
O amor-próprio aparece como um dos pilares conceituais do disco, especialmente na faixa Pinterest, escolhida por ela para iniciar a divulgação do projeto. Segundo a artista, o autoconhecimento é essencial para que as pessoas consigam lidar com diferenças sem intolerância.
“Quando você se sente inteiro, quando você está com o seu amor próprio forte e firme, você é capaz de escutar várias opiniões e tirar a sua própria conclusão”, afirmou Anitta.
A cantora também comentou a recepção positiva do álbum entre crítica e fãs. Para ela, a variedade de sonoridades e propostas em sua carreira reflete transformações pessoais constantes. “Daqui quatro meses eu já estou totalmente diferente”, disse. “E eu não tenho vergonha disso.” Apesar das especulações sobre uma possível estratégia voltada ao Grammy Awards, a artista negou que o álbum tenha sido pensado para premiações. “Eu não fiz esse trabalho pensando nisso”, afirmou. “Fiz só pensando em gostar das músicas.”
Anitta revelou ainda que Equilibrium foi o disco mais caro de sua carreira. Segundo ela, os altos custos envolveram produção musical, viagens, visuais e estrutura de divulgação. Mesmo assim, descreveu o processo como prazeroso. “Foi o álbum que eu mais gastei dinheiro em toda a minha vida”, contou.
No campo dos shows, a artista afirmou que pretende realizar uma turnê mais intimista no Brasil, diferente do formato grandioso dos “Ensaios da Anitta”. A proposta, segundo ela, é criar apresentações mais conectadas ao conceito espiritual e contemplativo do álbum. “Não é um show tão popular”, explicou. “Pra você ir pra esse show, você tem que realmente ter escutado o álbum inteiro.”
Ao final da coletiva, a cantora reforçou que o projeto nasce de uma tentativa de viver com menos pressão externa e mais conexão consigo mesma. “Eu tô meio que fazendo só o que eu tô afim”, resumiu.



