Flau Flau: rock sinestésico que nasce no ‘extremo oriental’
Flau Flau estreia na cena musical com disco que mistura rock e xote paraibano.
Por Isaac Urano
É fato que a música brasileira hoje enfrenta um movimento crescente de uma estética nostálgica aos “grandes tempos”. Não sei ao certo se isso é tecido pela posição de agente da memória que o Brasil assume agora, mas talvez exista uma tentativa de nos fazer rememorar aspectos importantes da nossa cultura — e isso é super apreciado. O problema é quando, pasteurizado, vira apenas um pastiche. Em paralelo, há algo muito fresh sendo feito na cena e, sem um saudosismo sintomático para quem cresceu numa saudade do nosso “rock bedroom pop”, fica a pergunta: o que escuta a galera do rock pós-anos 2000?
O rock nacional é, com certeza, um dos gêneros mais fortes e importantes do país, ligado a uma vanguarda ácida que enfrentou o pior da censura e encaminhou, para as mais diversas gerações, mensagens que quebram a normatividade. No rock encontramos um lugar confortável para ser quem se é; no rock sentimos orgulho de sermos a ovelha negra no meio de lobos ocupados demais correndo atrás do próprio rabo; é no rock que buscamos um som “revolucionário” quando precisamos dele. E, quando se trata de conhecer e, melhor ainda, produzir esse espaço diverso do rock, o melhor mesmo é confiar em um jovem rockista.
Pensa naquela pessoa super legal que um dia você viu em algum lugar e pensou: “nossa, tem super pinta de artista”. Pois é, é quase certo que de artista essa pessoa tenha tudo. Seguindo o esperado, no extremo oriental há um som maneiro e cheio de acesso à sinestesia. Na ponta do extremo oriental brasileiro veio o rock de Flau Flau, que, quando se fala em voz alta, soa como uma onomatopeia de um som que se destaca no meio dos outros, antecipando uma certa iconicidade chique: uma artista que pôs no mundo um cult classic nordestino.

U: Primeiro quero saber quem é Flau Flau. Como nasce ela na Flávia Belmonte?
Ela vem nascendo conforme vou circulando e ganhando experiência, sabendo, profissionalmente, como é ser Flau Flau. Mas, subjetivamente, ela está ali desde quando eu sabia que queria transformar minhas angústias em música, mas não tinha instrumentos e meios — no sentido amplo da palavra. Então Flau Flau veio nascendo na medida em que entendi ter esses instrumentos de acesso e possibilidades de elaborar, na prática, o que estava no meu imaginário e no meu âmago. E, por elaborar, digo não simplesmente colocar para fora, mas expressar de forma estruturada. Pra mim, estar sendo artista tem a ver com isso: com algo que não é desestruturado nem inocente do ponto de vista de tornar pública sua obra.
U: Você já falou antes que passou um tempo experimentando no violão antes de chegar às faixas do álbum. O que ficou pra trás nesse processo? Tem material que você descartou que te diz mais sobre quem você é do que o que entrou no disco?
O material que descartei diz sobre mim, mas de uma maneira um pouco bagunçada. Talvez diga mais sobre Flávia do que Flau Flau. O que tenho agora guardado para Flau Flau ainda é muito abstrato e vai se concretizando na medida em que paro para mexer. Inseri transições entre as músicas no show que com certeza serão parte de alguma composição. Tentando recuperar algumas coisas, percebi que meu fluxo criativo vem da conversa entre intuição e tecnologia, tipo pegar beats e samples de um software de gravação e produção e ir juntando ideias aleatórias que tenho no violão; depois vêm as letras. Na verdade, pensando bem, acho que não ficou nada para trás — está tudo à frente.

U: Como começa tua formação como artista? Já li que seu pai escolhia as trilhas. Isso cria uma relação com música que é afetiva antes de ser estética. Como essa relação se desenvolveu?
Meus pais escutavam música alta em casa mais em época carnavalesca, música de festa em geral. Fora isso, as músicas que eu queria escutar eu mesma quis comprar em CD, principalmente músicas tristes de trilhas sonoras de novelas e girl groups dos anos 2000. Aí veio Avril Lavigne, fiquei fissurada, e começou uma trajetória de pequenas obsessões. Fiz aula de teclado e coral quando era pequena, mas não gostava. Queria ter outras ideias e batucar no meio do coral; queria fazer aula de bateria com uns oito anos, mas achava que não podia porque era coisa de menino/homem. Até que me liguei, com uns 14 anos, de que podia. Meu pai comprou uma mini bateria e, a partir daí, comecei a escutar música com mais cuidado.
Então é uma formação muito vagarosa, cheia de medos e limitações. Só levei a sério mesmo quando me vi, na pandemia, aprendendo a mexer em software de gravação e produção. Aquilo é um mundo, e eu me vi finalmente tendo acesso a fazer o que imaginava na minha cabeça, mesmo sem saber teoricamente como fazer. Tocava guitarra meio na doida e saía copiando e colando trechos que gravava em sequências que faziam sentido na minha cabeça. Aí me entendi como artista, tipo uma artesã do som, seja da maneira que for. Também não sabia como fazer letras; não tinha costume de escrever liricamente, nem para me expressar, nem tinha diário. Só escrevia coisa técnica, teórica e acadêmica de trabalho, que não tinha nada a ver com música. Mas, como sabia que queria expressar algo significativo com minhas músicas, me forcei a escrever — foram horas a fio escrevendo, apagando, me estressando e depois me alegrando.
U: Você diz que o ser sapatão te dá liberdade de transitar. Isso transparece na tua música de que formas? Tu acha que essa liberdade tem custo de recepção? O mercado musical brasileiro ainda lê obra lésbica como obra menor ou de nicho?
A parte da liberdade de transitar diz respeito a almejar, desde pequena, posições tidas como masculinizadas. Desejo por mulheres, androginia, tudo isso sempre fez parte da minha história. Então, quando percebi que podia fazer o que queria sem tantas limitações — descobrir que podia tocar bateria e, já mais velha, usar roupas menos femininas sem ser tão repreendida, além de poder namorar mulheres —, isso trouxe coisas boas porque eu nunca desejei posições ideais de feminino, e também não desejo ser homem. A questão é que queria poder fazer coisas que achava que só homens podiam fazer.
Não sei se tem custo de recepção porque também não acho que minha obra se encaixe só como “música de lésbica”, se é que isso existe. E também sou branca, não sou sapatão caminhão; sei que as pessoas têm uma leitura social mais suave sobre mim do que teriam sobre outras pessoas mais estigmatizadas e menosprezadas. Por causa disso, o custo de recepção é certamente mais baixo. E sim, acho que o mercado brasileiro lê obra lésbica como de nicho, apesar de haver um mercado cada vez maior para esse nicho. Principalmente quando artistas propõem sua obra especificamente como obra lésbica. Prêmios de música, editais para artista revelação, dificilmente vão favorecer uma narrativa lésbica porque ela é lida como algo particular, peculiar, que não representa uma identificação suficientemente “universal” para um grande público.
No meu caso, anuncio minha sexualidade porque faz parte das experiências que inspiram minhas músicas, mas também uso essa identificação de forma estratégica. Não quero ser lida sempre como artista lésbica porque isso, de cara, tem como consequência nichar excessivamente, identificar excessivamente, me colocar em quadradinhos. Sim, sou artista e sim, sou lésbica, mas isso não torna minha música inteiramente “lésbica”, porque as músicas indie das bandas dos caras por aí não são entendidas pelo público como músicas “cis-hétero”, apenas como músicas indie.

U: A cena paraibana hoje exporta muito pelo ângulo do regional como diferencial. O seu disco recusa isso? Isso é uma posição consciente ou consequência natural do que você queria fazer?
Existia uma culpa que reduzia um pouco minha força criativa: a necessidade de ser aprovada por fazer música que afirmasse minha identidade como pessoa paraibana, ou fazer algo que fosse “música brasileira”. Eu admiro muito o trabalho de Luana Flores, que traz a Paraíba nas narrativas de ancestralidade, no coco, nas representações visuais e ressignificações de maracatu, cangaço, no discurso feminista mais direto. Isso certamente está na intuição artística e nas vivências dela. É importantíssimo.
Mas minha vivência e minha intuição de criação vêm de um lugar de urbanidade, rock, coisas estrangeiras e anglófonas mesmo, que não posso negar. Não é natural para mim pensar em algo que soe diretamente “regional”, algo identificável em termos de “cultura paraibana”. Mas eu não recuso isso porque sei que a música Free To, apesar de ser em inglês, nasceu com um refrão tocado em ritmo de xote com palavras em português e se tornou um rock maluco que se aproxima de ciranda no refrão. Especialmente a música Johnny People diz muito sobre isso.
Esse nome vem de quando morei em São Paulo, em 2009. Colegas me chamavam de Johnny People porque era mais suave do que me chamar de “Paraíba”, mas ainda assim me reduzia a algo como a única pessoa da turma a vir do Nordeste e ter o sotaque que eu tinha. Esse título também se refere a uma modernização, neoliberalização etc. da cidade, um processo de internacionalização. Então ser paraibana, de João Pessoa, influi diretamente em fazer minha música ser paraibana por conta das minhas vivências. Não recuso esse diferencial do ângulo regional porque sei que não quero mimetizar um tipo de rock que já existe, e o fato de ser paraibana, ter referências tão diversas e gostar tanto de Carnaval e São João mexe com meu imaginário, principalmente em termos rítmicos e de conteúdo lírico. Mas também sei que estou muito distante de ser tipicamente regional.
U: João Pessoa como “extremo oriental” é uma imagem que funciona politicamente também, a cidade como margem do mapa. Isso implica alguma coisa para como você pensa distribuição, visibilidade e carreira?
Ultimamente tenho pensado no quanto vale a pena desejar estar no centro do mapa. Em termos de visibilidade é algo que quero, sim, porque dá oportunidades, recursos, te coloca em contato com gente, renova as forças criativas, te faz circular. Mas ultimamente tenho tido oportunidades, tocando no Banco do Nordeste, na Usina Cultural, que dão reconhecimento financeiro e simbólico ótimos, mesmo eu estando em início de carreira. Espero continuar tocando em lugares assim.
Além disso, todo o lance da influência musical única que tenho por morar em João Pessoa, por estar pertíssimo de Recife e Natal — onde há pessoas brilhantes com quem quero trabalhar — tem me feito enxergar, e posso estar errada dependendo do que acontecer num futuro próximo, que dependo menos do circuito “central” Sul-Sudeste do que imagino. Mas é óbvio que quero ir para lá, tocar muito etc. Essa percepção recente muda a forma como certas expectativas sobre reconhecimento me afetam, e isso é saudável. Ainda assim, diria que a resposta prevalecente para essa pergunta é a própria letra de “Johnny People”.

Íntimo Oriental, disco de estreia de Flau Flau, já entrega no título o que a artista faz com sua localização. O “Extremo Oriental” de João Pessoa vira matéria introspectiva, um ponto de partida que carrega o regional sem precisar performá-lo. Produzido por Paulo Emmery, nome que passa por Letrux e Jards Macalé, e com participação de Dinho Almeida, dos Boogarins, o disco carrega um mapa de referências que vai de Tame Impala a Cátia de França, das Spice Girls a Marina Lima. Um xote escondido dentro de um rock maluco.
Sinto que não podemos perder o nosso diferencial de “jovem rockista” para essa sociedade meio careta, né? Ora, a gente gosta de música boa, de se sentir jovem — e aqui não falo de idade —, porque ser jovem é super cool. Além disso, o mundo talvez esteja muito chato e percebamos isso; o rock dá sede de viver. Então o que iremos pôr no fone para viver os momentos em que essa sede precisa ser saciada? Aquela ida até a praia à tarde, ou aquela tarde ociosa e produtiva encarando o céu pela janela. Às vezes, uma boa trilha sonora salva aquele busão à noite, em que se sentir o jovem maneiro parece impossível.
Ainda existe aquela sensação maluca de borboletas no estômago agora que se ficou mais velho? Ou de sentir que todos os horizontes podem ser facilmente explorados e nada é impossível? Essa sensação é transformada em som no Íntimo Oriental, que representa algo novo e necessário: uma bússola, ou pelo menos as ondas que vão nos direcionar a alguma coisa. O que exatamente? Só dando play para saber. Pode ser que nos vejamos como num reflexo, que encontremos um amor perdido ou que achemos um lugar.
Há um diferencial. Fazer um som com identidade e que reflita a trajetória histórica de um gênero de forma descentralizada e sem se ater ao formal; estabelecer uma conexão com raízes de outros gêneros protagonistas dessa localização, mas sem se preocupar com validação alguma do mainstream em outras latitudes. Essa preocupação é perceptível e ecoa em todas as músicas. Você sente que cada decisão de produção, por mais simples que possa parecer, não é um floreio: há propósito e empenho. Isso permite que consigamos localizar referências e, ao mesmo tempo, conhecer melhor quem é Flau Flau. Um álbum de estreia que consegue fazer isso merece, sim, atenção geral. Um nome fácil de falar, rápido e nada ríspido, carrega o descolado; dando play, é mais fácil ainda se deixar levar. Me perguntem por que gosto desse “indie” — por mais que odeie essa classificação. Eu poderia responder pela minha afetividade com o gênero ou por achar muito foda uma artista que se propõe a fazer o que ela faz, mas, deslumbrado, digo após um gritinho animado: “ugh, she is so Johnny People!”.



