Por Rodrígo Olivêira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Trionda atravessa fronteiras do Canadá, Estados Unidos e México. As pessoas, nem sempre.

Enquanto a FIFA promove a Copa do Mundo como uma celebração global da integração entre povos, os Estados Unidos intensificam políticas migratórias restritivas e reforçam o controle sobre quem pode cruzar suas fronteiras. O contraste expõe uma das principais contradições do torneio: um evento que se apresenta como mundial, mas tem a porta de entrada submetida às decisões soberanas.

Eleito o melhor árbitro africano de 2025 e escalado pela FIFA para a Copa de 2026, o somali Omar Artan foi barrado ao desembarcar em Miami. Mesmo possuindo documentação aprovada para participar do torneio, as autoridades dos EUA alegaram “questões de segurança” e, posteriormente, a FIFA lavou as mãos e o retirou da arbitragem da competição.

Quando questionado sobre a situação do árbitro, durante uma coletiva de imprensa na semana passada, Gianni Infantino, presidente da FIFA, disse que a ausência de Artan é “lamentável” e que a federação não pode interferir nas decisões migratórias de países-sede do torneio.

Além desse caso, o Mundial coleciona outros episódios da mesma natureza praticados pelos Estados Unidos, como o “ataque” contra a Seleção do Irã. Membros da delegação da equipe foram proibidos de entrar no país. Apesar de autorizados, o elenco e a comissão técnica só podem permanecer em solo estadunidense durante o torneio, em dias de jogos. Ao final das partidas, o grupo precisa retornar imediatamente ao México, seu local de concentração e treinos.

O que acontece nesta edição é uma verdadeira “caça às bruxas” promovida pelos EUA. Situações como essas, que barram imigrantes e criam um cenário de guerra contra seleções participantes, nunca aconteceram nas 22 edições anteriores.

Em entrevista exclusiva ao Ninja Esporte Clube, a advogada e especialista em Direito Internacional Germana Pinheiro afirma que a Copa do Mundo de 2026 escancara uma contradição estrutural do torneio: enquanto a FIFA promove uma narrativa de integração entre povos, a entrada física no evento continua condicionada às políticas migratórias e aos interesses soberanos dos Estados.

“É preciso deixar muito claro que a FIFA não detém poder soberano. Portanto, não é ela que emite visto ou que faz controle de fronteiras. Isso realmente é parte do exercício soberano de cada Estado”, afirma.

“O Estado é soberano no aspecto de regular as suas entradas e saídas de pessoas, mas também de proteger e criar regras ali que podem, de alguma forma, proteger o seu espaço de território”, acrescenta a especialista.

Ainda que a competição seja tradicional no mundo todo e disputada desde 1930, situações polêmicas como as deste mundial protagonizado pelos EUA, fazem com que surjam novos debates a cerca dos Direitos Humanos.

Desde a sua última reeleição, Donald Trump tem sido implacável com a população latina dentro do país. Enquanto o EUA sedia um evento esportivo que vende a ideia de “celebração entre os povos”, o governo do país permanece exercendo sua soberania e adota uma política que perpetua violências.

Diante disso, Germana pontua que o exercício de limitação de fronteiras não deve ser “manejado para perpetrar outras violências contra o ser humano”.

À medida que a Copa do Mundo acontece, a disputa ultrapassa as quatro linhas. Aeroportos, consulados e postos de imigração também são “campos” em que se decide quem poderá viver presencialmente o maior espetáculo do futebol. 

Em um torneio que se apresenta como símbolo da integração entre nações, a permanência de barreiras migratórias, critérios seletivos de entrada e denúncias de discriminação expõem uma contradição difícil de ignorar. 

O debate não se resume exclusivamente às fronteiras ou segurança nacional, mas também abrange questões sobre os limites éticos do exercício da soberania em um mundo cada vez mais conectado, integrado e plural.

Afinal, se a Copa é de todos, quem está sendo deixado do lado de fora?