Por Analice Ruas, Ana Mayra , Lara Helena e Sofia Ricardo – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Copa do Mundo FIFA 2026 traz um diferencial histórico em comparação às edições anteriores. Pela primeira vez, a competição tem como sede três países: Estados Unidos, Canadá e México. A decisão pela FIFA surgiu com a intenção de ampliar a capacidade de  organização do torneio, equilibrar os impactos econômicos e aproveitar a infraestrutura dos três países.

Essa edição possui 16 cidades-sede distribuídas entre os três países anfitriões. Os Estados Unidos receberão jogos em 11 cidades, entre elas estão Nova York, Los Angeles e Miami. O México contará com três cidades-sede (Cidade do México, Monterrey e Guadalajara) e o Canadá, com duas cidades-sede (Vancouver e Toronto).

Os três países possuem em comum a sede da Copa do Mundo FIFA 2026, mas são completamente diferentes quando se trata de cultura, política e economia. O período de mundial também é uma forma de trocas culturais, união e celebração, mas com as atuais questões políticas e geográficas, também se torna um espaço em que posicionamentos diferentes se esbarram. 

TENSÕES ENTRE OS PAÍSES

Estados Unidos, Canadá e México são marcados por conflitos diplomáticos. A união proposta pela FIFA revela-se, na prática, um exercício de equilíbrio precário. Embora o Acordo Estados Unidos-México-Canadá sirva como espinha dorsal comercial da região, a cooperação é uma via de mão dupla frequentemente marcada pelo protecionismo e por disputas de influência. As tensões comerciais, agravadas por tarifas de importação e por um clima político de constante negociação, são amplificadas por retóricas nacionalistas. Representantes canadenses, por exemplo, têm se posicionado de forma veemente contra qualquer tentativa de deslegitimação de sua soberania, enquanto o México enfrenta a pressão constante das demandas de Washington, equilibrando-se entre seu papel de elo cultural do torneio e os desafios de ser o parceiro mais vulnerável às oscilações da política econômica estadunidense.

Os principais setores que sofrem impactos são o comercial e o de imigração. É importante lembrar que o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) está em um período de renovação, com prazo até 1 de julho, mas para isso, é necessário um consenso do acordo por mais 16 anos. Canadá e México já demonstraram que pretendem continuar com a cooperação. 

Apesar do acordo, o governo dos Estados Unidos vem pressionando comercialmente o México e o Canadá, que sofrem com as tarifas de importação de Donald Trump. Algumas regiões do Canadá retiraram bebidas norte-americanas das vendas em estabelecimentos e a população reduziu viagens para os EUA. 

No segundo mandato de Trump, mais conflitos surgiram, como o caso em que o México sofreu acusações de favorecer investimentos e a produção chinesa ao tentar contornar as tarifas do governo estadunidense.

Nas redes sociais, Donald Trump retomou o assunto de que o Canadá deve ser o 51º estado. Representantes canadenses, por sua vez, reforçaram o descontentamento com  a fala e se posicionaram contra. O primeiro-ministro da província de Ontário, Doug Ford, chegou a dizer: “Não consigo acreditar que tenho de dizer isto outra vez, mas o Canadá nunca será o 51.º estado. O Canadá não está à venda”, defendeu Ford.

POLÍTICAS DE IMIGRAÇÃO ENTRE OS PAÍSES  

Assim como os três países apresentam diferenças culturais, as políticas migratórias são pontos que geram conflitos entre eles. O Canadá e o México apresentam políticas mais flexíveis de emigração, com o Canadá priorizando a parte econômica e o México o turismo. Os Estados Unidos aplicam políticas mais restritivas e excludentes.

O aspecto mais sensível dessa experiência reside nas divergências das políticas migratórias, que transformam o deslocamento entre as sedes em uma jornada de contrastes acentuados. Os EUA colocam em prática restrições migratórias através do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), com o objetivo de combater a imigração ilegal. Durante o mandato do presidente Donald Trump, o movimento de fiscalização e deportação se intensificou, com diversos casos de violência pelo ICE registrados. 

Os Estados Unidos, operando sob uma lógica de fortaleza, mantém um sistema migratório em que a segurança nacional, vigiada pelo Serviço de Imigração e Alfândega, é colocada acima da fluidez diplomática necessária a um evento global. Essa postura tem gerado episódios de hostilidade, como interrogatórios prolongados, revistas minuciosas em membros de seleções e o veto a profissionais do esporte, criando barreiras que contradizem o espírito festivo da Copa. A seleção do Senegal, por exemplo, tinha participado de uma vistoria antes do embarque, para agilizar o tempo, porém, ao chegar nos Estados Unidos, tiveram que realizar novamente uma revista na pista do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte.

Em outro caso, após 11 horas de interrogatório, o árbitro da Somália Omar Artan, escalado para trabalhar na Copa do Mundo de futebol, teve sua entrada nos Estados Unidos negada pelo governo estadunidense. O México, por outro lado, fez uma recepção festiva aos jogadores.

Em contrapartida, o Canadá mantém uma política voltada ao crescimento demográfico e à integração de talentos, utilizando sistemas como o Express Entry,  o mais rápido para migrar até o país, para atrair mão de obra qualificada, o que resulta em uma interação com o estrangeiro menos marcada pela desconfiança. Ele gerencia as inscrições em três programas, como o Programa Federal de Trabalhadores Qualificados (FSW), criado para trabalhadores qualificados com experiência em profissões demandadas no Canadá. O Programa Federal de Ofícios Qualificados (FSTP) serve para aqueles com experiência em ofícios qualificados como carpintaria, encanamento, eletricidade, entre outros. E, a Classe de Experiência Canadense (CEC) é destinada a pessoas que já trabalharam no Canadá com visto temporário.

No México, nas vésperas e no próprio dia da abertura, o país registrou uma série de protestos notadamente liderados pela Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação e por grupos de familiares de desaparecidos, um contingente que soma cerca de 130 mil pessoas no país. Enquanto o governo busca capitalizar a imagem de anfitrião global, manifestantes utilizam a visibilidade do torneio para cobrar respostas efetivas sobre o paradeiro de parentes e reivindicar melhores condições salariais e educacionais. O Estádio Azteca, palco da estreia, tornou-se o epicentro de confrontos entre manifestantes e forças de segurança, evidenciando que a Copa, para a sociedade mexicana, é também um palanque de urgências sociais que a grandiosidade do esporte não consegue esconder.

No país, os estrangeiros são classificados em não imigrantes, aqueles que entram no país temporariamente com autorização do Ministério do Interior. Imigrante: pessoa que se encontra legalmente no país com a intenção de se estabelecer. E migrante, para quem adquiriu o direito de residência permanente no país. Além disso, no total são 6 tipos de vistos disponíveis: visitante sem permissão para trabalhar, visitante com permissão para trabalhar, visitante para processos de adoção, residente temporário, residência temporária para estudantes e residente permanente.

Essa fragmentação faz com que a promessa da FIFA de que estamos unidos para receber o mundo seja testada a cada visto negado e a cada revista minuciosa. Enquanto o turista transita entre três realidades distintas, ele se depara com um espetáculo que é, simultaneamente, uma vitrine de infraestrutura tecnológica de ponta e um registro histórico de exclusão. A ONU chegou a solicitar aos Estados Unidos uma flexibilização das normas de imigração durante o período do mundial, justamente para tentar atenuar o impacto dessas rigidezes no relacionamento entre as nações participantes. No entanto, o que se observa é que a política de Estado não se suspende apenas porque a bola começou a rolar, e as ações políticas rígidas continuam impactando diretamente o ambiente do jogo.

 Como disse Lindsay Sarah Krasnoff, escritora e professora de esporte global da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos: “Já se sabia desde o princípio que seria muito complicado, desde a definição dos países-sede”.

A organização dirigente do futebol mundial afirmou ainda que esse “é um momento em que três países e todo um continente afirmam em conjunto: ‘Estamos unidos para receber o mundo e oferecer a maior, melhor e mais inclusiva Copa do Mundo da FIFA já realizada”. Nesse sentido, o campeonato é uma oportunidade de unir e incluir diferentes cidadanias, no qual ações políticas rígidas podem impactar no jogo e no relacionamento entre as seleções.

O legado da Copa de 2026 será definido por essa dualidade. Por um lado, a capacidade técnica e o gigantismo do evento demonstram o sucesso da organização esportiva em ocupar um continente inteiro; por outro, a dificuldade de harmonizar três visões de mundo sobre o que significa pertencer, atravessar fronteiras e acolher o outro expõe as contradições do nosso tempo. O torneio deixa de ser apenas uma competição esportiva para se tornar um termômetro geopolítico, capturando o momento em que o futebol, em sua tentativa audaciosa de abraçar o globo, acaba esbarrando nos muros físicos, jurídicos e simbólicos que os países ainda insistem em erguer. No fim, a Copa 2026 ficará marcada não apenas pelos gols, mas pela persistência dessas divisões em um mundo que teima em se dizer globalizado.