A Celeste também é Negra: a história dos afro-uruguaios no futebol
Da vanguarda nas leis de liberdade ao legado do candombe e de grandes ídolos nos gramados
Por Tácio Santos – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Os uniformes da seleção uruguaia para a temporada 2026/2027 foram apresentados pela Associação Uruguaia de Futebol (AUF) e pela Nike em abril deste ano. Enquanto a primeira camisa mantém o padrão azul celeste, a segunda difere dos habituais modelos brancos, que são os mais frequentes ao longo da história, e contínuos ao longo dos últimos 15 anos.
A camisa reserva é predominantemente azul marinho, facilmente confundível com preto, e tem três fileiras curvilíneas de retângulos verticais em tons mais claros. As formas geométricas ocupam toda a parte superior e dianteira da camisa, incluindo as mangas.


Rapidamente, publicações de vários nichos, e de diferentes portes, sugeriram uma semelhança entre o novo uniforme e a identidade visual do super-herói Pantera Negra. Assim, muitos passaram a assumir que a AUF e a Nike haviam se inspirado no personagem negro do universo Marvel.
Qualquer semelhança é mera coincidência, pois as referências para o design da camiseta são outras. Contudo, poderia muito bem ser uma referência intencional, pois, ao contrário do que paira no senso comum, o Uruguai não é um país sem população afro-descendente.
Afro-Uruguaios
Mesmo com a atuação de jogadores afro-uruguaios em clubes do Brasil, como Rodrigo Aguirre no Botafogo, e Nicolás De La Cruz no Flamengo, o brasileiro médio ainda costuma pensar que o país vizinho é composto somente por pessoas com origem e fenótipo europeus. Entretanto, de acordo com o Censo 2023, mais de 10% da população do país é negra. E, conforme o Atlas Sociodemográfico da População Negra, a proporção deste grupo populacional aumenta consideravelmente acima da média nacional nos departamentos mais ao norte, principalmente aqueles que fazem fronteira com o Brasil, como Rivera e Artigas – em ambos, mais de 17%.
Trata-se de uma transição espaço-demográfica que não ocorre por acaso, pois os brasileiros são os imigrantes mais frequentes no Uruguai, e pelo menos 15% dos nossos compatriotas que imigram para lá são negros. Um exemplo ilustrativo é o zagueiro do Barcelona Ronald Araujo, nascido em Rivera, negro, e com ascendência brasileira. Mas o fluxo migratório de afro-brasileiros para terras uruguaias não começou com a geração da mãe de Ronald, e sim na década de 1840, quando a ex-colônia espanhola determinou que qualquer pessoa escravizada se tornaria livre ao adentrar seu território, enquanto o Brasil só aboliu a escravidão quase meio século depois.
A presença de afro-uruguaios no selecionado nacional também não data de Aguirre, De La Cruz e Araujo, ou da geração anterior, mas pelo menos de sua época áurea. José Leandro de Andrade integrou o time bicampeão olímpico (1924/1928) que deu origem à alcunha “La Celeste Olímpica”, ainda hoje utilizada na versão simplificada “Celeste”, e a equipe que venceu a primeira Copa do Mundo de Futebol (1930). Ele também é conhecido como “Maravilha Negra” e “Pelé dos Anos 20”, e foi apontado como o primeiro ídolo negro do esporte em nível mundial.




Identidade Uruguaia e Cultura Afro-Uruguaia
Embora os afro-uruguaios representem uma fração populacional mais numerosa no norte do Uruguai, sua presença também é de grande relevância no sul do país, especialmente na capital Montevidéu. Lá, a população negra começou a ser formada com a chegada de pessoas escravizadas ao porto da cidade. Às margens do Rio da Prata, homens e mulheres trazidos à força da África, e seus descendentes montevideanos, desenvolveram alguns dos elementos que compõem o que é, e como é, ser uruguaio. Entre eles, o tango e o candombe, que são gêneros de música e dança declarados Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO/ONU.
As áreas de Barrio Sur e de Palermo, que foram ocupadas pelos ex-escravizados libertos na década de 1840, são as partes da cidade onde a identidade uruguaia é mais influenciada pela cultura afro-uruguaia, transpassando, inclusive, as pessoas brancas. Em ambos os bairros, as comparsas, que são grupos que tocam e dançam candombe, e as casas espiritualistas de matriz africana, são parte constituintes da paisagem urbana, e se destacam especialmente durante o mês de fevereiro, no Dia de Iemanjá e no carnaval.
Na parte 2, descubra a que remete a segunda camisa do Uruguai.



