Eduarda Moiano: a ‘Gente do Mar’ em sensibilidade e nanquim
Eduarda Moiano usa nanquim para registrar a vida cotidiana de quem faz a Praia de Iracema existir
Por Isaac Urano
Há pelo menos 120 anos, existe, na Praia de Iracema, em Fortaleza, uma comunidade que carrega o coração à beira-mar. O Poço da Draga, formado quando pescadores, portuários e suas famílias se estabeleceram no local junto ao primeiro desembarcadouro da capital, estabeleceu, ao longo desses anos, uma das mais importantes partes da mística fortalezense: uma conexão com o mar que atravessa e constitui a emoção do cotidiano. Onde hoje fica a Ponte Metálica, estrutura de ferro que servia de ancoradouro para embarcações e ponto de embarque e desembarque, formou-se o núcleo original em torno do qual a Colônia de Pescadores Z-18 se organizou: a estrutura de um ponto de partida.
A partir da década de 1990, a comunidade passou a ser constantemente ameaçada por projetos de revitalização da Praia de Iracema, estimulados pela Prefeitura Municipal que, com o crescimento da cidade voltada ao lazer e ao turismo, passou a tratar o Poço da Draga como incompatível com a imagem que se pretendia projetar do litoral. A mais emblemática dessas ameaças foi o projeto do Acquário Ceará — hoje destinado à construção de um campus da Universidade Federal do Ceará —, que previa a remoção da comunidade para viabilizar um empreendimento milionário em uma área historicamente ocupada por ela.
Tratando-se de um local de extrema importância cultural, em reflexões de um debate lefebvriano, ou seja, de um espaço produzido, entra em nosso caminho a sensibilidade de Eduarda Moiano, artista visual cearense radicada em Fortaleza. Sua produção investiga as diversas relações de territorialidade que pairam sobre o corpo e a cidade, partindo de sua experiência como mulher negra e lésbica. Utiliza uma técnica de desenho em nanquim, feita risco por risco, em um processo lento de observação que orienta sua forma de pesquisar: as linhas da vida, como estabeleceria Tim Ingold, em sua descentralização e desaceleração temporal.
Nos últimos anos, sua investigação expandiu-se para a pintura, a escultura e outras linguagens, mantendo como eixo central a maneira como os espaços são transformados pelas relações humanas e, ao mesmo tempo, transformam aqueles que os ocupam. “Gente do Mar”, sua primeira exposição individual, é resultado de uma convivência prolongada com a faixa de praia que vai do Havaizinho ao Poço da Draga, onde fabula sobre território e pertencimento nas várias formas cotidianas de produzir cidade.
U: Você, observando as dinâmicas urbanas, pesquisou e reorganizou um caminho. O que te fez começar a procurar a praia como relação nessa tua pesquisa mais recente?
E: Na verdade, eu não comecei procurando uma pesquisa. Eu comecei procurando a praia. O mar sempre foi um lugar onde eu conseguia reorganizar meus pensamentos, descansar e voltar para mim mesma. Era um espaço ao qual eu recorria quando precisava me reencontrar.
Com o tempo, percebi que essa experiência não era exclusivamente minha. Muitas pessoas chegavam ali por motivos diferentes, mas encontravam naquele mesmo espaço uma possibilidade de descanso, convivência, liberdade e reorganização. Foi aí que a pesquisa começou a mudar.
Entendi que eu não estava pesquisando exatamente a praia. Eu estava pesquisando as relações que um território é capaz de produzir e como essas relações também transformam esse próprio território. A praia deixa de ser um cenário e passa a ser um agente que aproxima pessoas, cria formas de convivência e reorganiza experiências. Ao mesmo tempo, são essas pessoas que, por meio da presença cotidiana, dos encontros, dos mergulhos, das conversas e da permanência, transformam continuamente aquele lugar. Foi essa troca que passou a orientar toda a pesquisa.
U: Você chama a Ponte Velha de organismo vivo, e não de elemento arquitetônico. Isso desloca essa noção de estrutura como objeto fixo para fazer pensarmos em algo que tem memória e temporalidade próprias. O que muda na sua relação com o desenho quando você trata um espaço como corpo, e não como cenário?
E: Quando passo a olhar a Ponte Velha como um organismo vivo, deixo de desenhar apenas uma estrutura física. O que me interessa são as transformações que acontecem ali todos os dias. A ponte muda conforme as pessoas chegam, conversam, pescam, mergulham, descansam ou simplesmente permanecem. Ela carrega marcas de diferentes tempos, mas continua sendo reinventada pelas pessoas que a ocupam.
Isso muda completamente a minha relação com o desenho. Eu não estou tentando reproduzir um objeto com fidelidade. Estou tentando registrar as relações que fazem aquele lugar existir. É por isso que as sombras aparecem com tanta força no meu trabalho. Elas são evidências de presença, marcas temporárias deixadas pelos corpos sobre o espaço.
A ponte não está viva apenas porque continua de pé. Ela está viva porque continua produzindo encontros e porque esses encontros transformam continuamente o sentido daquele território. Meu desenho tenta acompanhar justamente esse movimento.
U: “Gente do Mar” se afasta da leitura turística da Praia de Iracema, dos cartões-postais, para ficar com quem vive ali todos os dias. Fortaleza tem uma imagem pública muito construída em cima do litoral como produto. O que essa exposição recusa, especificamente, dessa Fortaleza vendida para fora?
E: Não acredito que a exposição negue a beleza da cidade. O que ela questiona é uma imagem que transforma o litoral quase exclusivamente em produto turístico. Quando isso acontece, desaparecem justamente as pessoas que dão vida àquele território todos os dias.
Em “Gente do Mar”, a praia não aparece como um cenário pronto. Ela aparece como um espaço que está sendo continuamente produzido pelas pessoas que o ocupam. O lazer, os encontros, a pesca, os saltos, as conversas e a permanência também constroem a cidade.
Quando essas presenças desaparecem da narrativa, desaparece também a compreensão de que elas produzem território. Meu interesse é deslocar o olhar para essas relações cotidianas, porque são elas que fazem aquele lugar existir da maneira como existe hoje.
U: “Gente do Mar” é uma estreia individual depois de anos de observação acumulada. O que isso implica para você ao entrar em um espaço institucional como o Banco do Nordeste Cultural com uma pesquisa que nasceu da caminhada, da convivência e do tempo de rua?
E: Existe algo muito bonito nesse deslocamento. A pesquisa nasceu caminhando, observando, conversando e convivendo com as pessoas daquele território. Ela não começou dentro de um ateliê nem de uma instituição. Começou na rua, na praia e no tempo compartilhado.
Levar esse trabalho para um espaço institucional significa reconhecer que essas experiências também produzem conhecimento e merecem ocupar lugares de legitimidade.
Ao mesmo tempo, sinto uma responsabilidade muito grande. Não quero que a instituição transforme essas vivências em algo distante ou domesticado. Meu desejo é que, de alguma forma, essas relações também entrem junto com a exposição. Que o público perceba que aquelas obras não nasceram apenas da observação de uma paisagem, mas de uma convivência prolongada com um território vivo.
U: Você fala em saltos, encontros, conversas e permanência como aquilo que faz da ponte mais do que uma estrutura física. Esses gestos cotidianos e informais agora estão emoldurados, expostos, institucionalizados. Para você, o que se ganha e o que se perde nesse deslocamento do vivido para o exibido?
E: Toda exposição transforma aquilo que apresenta. O gesto que acontece na ponte é irrepetível. O salto dura poucos segundos, a conversa termina, a sombra desaparece. Nada disso pode ser transportado integralmente para dentro de uma galeria.
O que tentei fazer não foi substituir essa experiência, mas criar outra possibilidade de encontro com ela. O que se perde é justamente a presença do acontecimento. O que se ganha é tempo para olhar. A exposição desacelera esses gestos, permitindo que eles sejam percebidos como parte da construção da cidade.
Hoje percebo que meu trabalho não tenta representar a praia. Ele tenta tornar visível um processo que normalmente passa despercebido: a forma como um território produz modos de viver e como esses modos de viver devolvem novos sentidos ao próprio território.
Talvez seja por isso que “Gente do Mar” continue sendo uma pesquisa aberta. Porque, enquanto existirem pessoas transformando aquele espaço, aquele espaço continuará transformando pessoas.
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Ao conhecer o trabalho de Eduarda, voltam as lembranças do “batismo” fortalezense, as águas, que, pela sensibilidade afetuosa, atrelo de forma especial ao artista Leonilson. Esse batismo nada mais é do que o salto da Ponte Velha, uma das atividades de lazer características da comunidade.
Apesar de viver sob constantes propostas da Prefeitura para uma “requalificação”, a construção permanece especial, e qualquer uma dessas iniciativas soa como mera gentrificação, despertando desconfiança, principalmente pela falta de diálogo da gestão municipal com a comunidade. A distinção que Eduarda faz entre o cenário e a agência operacionaliza, a partir de Milton Santos, um contexto brasileiro: a noção de “espaço banal”, o espaço de todos, que se contrapõe ao espaço dos fluxos globais. A praia como lugar de convivência cotidiana, pesca, salto e permanência é espaço banal no sentido santosiano. A Praia de Iracema vendida ao turismo é o seu oposto.
O desenho, a cada risco, contraposto aos fluxos políticos que afetam o território, segue a correnteza do mar. Não são movimentos convergentes, porque aqui o protagonismo pertence à afetuosidade voltada para a comunidade, de uma mão queer e desacelerada, carregada de história e de uma pesquisa próxima, distante dos erros d’Outro. A sensibilidade ímpar da arte de Eduarda Moiano traz ao coração o sentimento do pulo de Ícaro que pode ser dado da Ponte Metálica, o frio na barriga que antecede a primeira vez, a conexão que se estabelece quando vamos ao encontro do mar.
A “Pêí”, com seu cheiro salgado e o pôr do sol tendo Maria Hope ao fundo, é vista através do nanquim, com esmero e abraçando todos os diálogos possíveis, do amor dissidente ao debate pela permanência da comunidade. Tudo isso acontece no canto da sereia do Nordeste. Tudo isso é a nata cearense. Da Terra da Luz, das águas leonilsianas, Eduarda Moiano nos lembra que o melhor mesmo é o entardecer e a vida da gente do mar.



