“O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop”. Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

“O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop”. Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

“Os toca-discos é meu instrumento, a forma de eu expressar os meus sentimentos, a minha musicalidade”. Foto: Izabela Cardozo

O paulistano DJ Erick Jay é primeiro e único sul-americano a ganhar um título mundial de DJ. Erick representa o Brasil em competições internacionais desde 2009 e já tem três no currículo: DMC World Supremacy 2016 (Londres), IDA World 2016 (Polônia) e, mais recentemente, o DMC Online 2019 (veja os detalhes no Estúdio I), além de dezenas de títulos nacionais e pódios em outras competições internacionais. Quando não está competindo, Erick ministra workshops, toca em bailes e festas e, ainda, se apresenta com Black Alien e Kamau (nesta sexta, 10, inclusive, participa da live com o rapper carioca a partir das 21h).

Erick é um amante da arte dos toca-discos e luta para que a classe seja mais valorizada. Por isso, sempre participa de eventos e faz lives para compartilhar conhecimento e experiências. Em entrevista antes da live que fará junto a Black Alien, ele fala sobre o impacto do coronavírus nas periferias de São Paulo, sobre o racismo estrutural no Brasil, sobre a desigualdade de oportunidades para quem quer ser um profissional da música no país, sobre suas influências musicais e muito mais. Conheça esse grande talento da música brasileira em entrevista exclusiva para a coluna de Juan Manuel P. Domínguez para Mídia Ninja!

Você nasceu na zona leste de São Paulo. Qual foi o papel que a música desempenhou na sua infância?

Sim, nasci e moro no mesmo bairro até hoje. A música sempre esteve presente desde cedo na minha vida. Meu pai era DJ de equipe do bairro. Por isso, cresci ouvindo e bisbilhotando os discos de vinil dele. Lembro que ele tinha do Marvin Gaye, James Brown, Michael Jackson, Tim Maia, entre outros. Eu gostava de ficar olhando as capas… A música me deu experiência e alegria.   

Como paulistano, como está experienciando o fato de ser a região com o maior impacto de mortes e casos de Coronavírus?

A gente sabe que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Isso acontece em tudo e com saúde pública, infelizmente, não é diferente. As regiões periféricas estão sendo mais afetadas em número de casos e morte pelo coronavírus. Sapopemba, aqui perto da minha casa, está entre os bairros com o maior número de mortes. É muito triste essa situação.

Muitos consideram a música electrónica, produzida por DJs, como uma música exclusiva para o lazer de elites e classes privilegiadas. Quanto há de verdade nisso?

Hoje em dia mudou bastante. É claro que a música eletrônica predomina em festas elitizadas, mas já está se popularizando e presente em outras festas também. O curioso é que um dos ritmos eletrônicos que prevalece nesta cena é o Drum and Bass, um estilo que nasceu no subúrbio da Inglaterra. Aqui no Brasil, esta cena também foi formada nas periferias. Os principais DJs e produtores que eu conheço vêm de quebrada.

Quanto se precisa de estímulos para que DJs periféricos possam ter as mesmas oportunidades de se destacar em igualdade de condições que outros Djs não periféricos?

Há um abismo social enorme. Creio que o primeiro ponto é que os equipamentos para tocar são caros demais no Brasil. Em segundo lugar, normalmente, quem vem de periferia precisa dividir o seu tempo entre trabalhar para ajudar em casa, estudar e, ainda, ter tempo para treinar, porque para ser um bom DJ é preciso muito esforço e dedicação. Eu mesmo, no início, trabalhava como office boy em uma empresa na região da Av. Paulista e tocava à noite. Muitas vezes, tocava a noite inteira e ia trabalhar direto. Portanto, se você é de periferia e quer ser DJ saiba que a correria é dobrada, mas vale a pena.

Outra coisa que vale citar, é que tem cada vez menos oficinas e workshops de DJ em periferias. Quando eu era convidado para algum evento deste tipo, eu ia com o maior prazer.  Mas agora é algo cada vez mais raro! Até em eventos de Hip Hop, o DJ está sendo deixado de lado, um erro muito grande. O DJ é um dos elementos e o pilar da cultura Hip Hop.

Há pouco tempo o assassinato de George Floyd nas mãos da polícia de Minneapolis suscitou uma série de protestos e ações solidárias de muitos artistas e músicos no Brasil e no mundo. Como percebe esse envolvimento atual dos artistas nas pautas sociais do seu contexto histórico?

O Will Smith disse uma frase muito importante: ‘Racismo não está piorando, está sendo filmado’. De uma forma geral, o mundo ainda é muito racista. Os Estados Unidos, onde aconteceu este episódio, é racista. Eu fui três vezes para lá e no aeroporto toda vez a abordagem é diferente, a fila é diferente, o tratamento é diferente, tudo é diferente se comparado com uma pessoa branca. Eu acho importante levantar essa discussão, debater o assunto. Vi vários artistas levantarem a bandeira e acho importante ter pessoas sérias e com propriedade para falar sobre o assunto. Mano Brown, Dexter, Thaide, Emicida e muitos outros estão na linha de frente.

O KL Jay, DJ que me inspiro muito, também disse uma coisa interessante: “o racismo foi inventado pelos brancos”, por isso, eles precisam entender que o racismo está enraizado na nossa cultura há séculos e séculos.

 

Foto: Arquivo pessoal

Você ganhou o DMC World Supremacy 2016 (Londres), IDA World 2016 (Polônia) e, mais recentemente, o DMC Online 2019. Quanto servem esses prêmios para visibilizar a América do Sul e o Brasil dentro do universo  da música de Djs?

Claro que ganhar esses prêmios foi uma realização pessoal e profissional muito grande. Porém o que mais me deixou feliz foi mostrar para o mundo inteiro que na América do Sul, em especial no Brasil, existe uma cena ativa com vários DJs bons. Eu me inspiro em DJ gringo, mas também me inspiro em muitos DJs daqui. Espero que os DJs brasileiros continuem se dedicando, competindo e que tragam mais títulos para o nosso país. 

Você se define como um amante da arte dos toca-discos. Poderia detalhar mais do que trata isso?

Eu sou apaixonado por música e acho que nós precisamos tratar a música com mais carinho. O toca-discos é meu instrumento, a forma de eu expressar os meus sentimentos, a minha musicalidade. Me considero um amante dos toca-discos, porque amo e respeito muito a cultura Hip Hop, os DJs que vieram antes de mim e abriram portas e amo tocar. Sou muito realizado e feliz na profissão que escolhi!

Que músicos brasileiros o influenciaram?

Vários. Vou citar alguns: Ivan Lins, Jorge Ben, Sandália de Prata, Seu Jorge, Marina Lima, Ed Motta, Gilberto Gil, Olodum, entre outros artistas.

Quais são os sonhos que ainda deseja realizar?

Graças a Deus já realizei alguns dos meus sonhos. Mas o que eu desejo realizar agora é gravar um disco com várias participações. Um disco de música brasileira, com participação do Olodum e outros nomes que eu citei na resposta anterior. Quero explorar toda a riqueza da música brasileira. 

Obrigado Eric!

Obrigado Juan pela oportunidade e convido a todxs para assistir a live do Black Alien e DJ Erick Jay na sexta-feira, dia 10, às 21h:

 

E no dia 17, sexta-feira, vou falar sobre os desafios de ser DJ Durante a Pandemia em uma live com a equipe do Cult Cultura.

Mídias Erick Jay: @erickjay / @amais_assessoria / @thipaleari

 

Felipe Neto: “Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, é hora de derrotar o fascismo”

Felipe Neto: “Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, é hora de derrotar o fascismo”

Diálogos de quarentena com Felipe Neto

Arte: Cris Vector

A cultura é sempre portadora de valores ideológicos, explícita ou implicitamente. Em alguns casos, são diretamente obras de propaganda que não apenas encobrem sua ideologia, mas a expressam expressamente, a fim de alcançar uma maior divulgação. Em outros, a ideologia é percebida apenas através da leitura simbólica de um produto cultural cuja embalagem é entretenimento. Uma interpretação extrema é a que atribui a todos os produtos culturais, mesmo aos mais inocentes, uma intenção ideológica ao considerar que o entretenimento impede que os destinatários pensem sobre os assuntos que realmente lhes interessam. Seria transmitir a ideologia dominante através da cultura, usando a mídia, a fim de alcançar maior controle social.

Na Escola de Frankfurt, Benjamin seguiu uma direção diferente da de Adorno e Horkheimer e considerou que a fotografia e o cinema, o jazz e a música popular poderiam servem para modificar a consciência da massa, justamente por sua possibilidade de transmissão em massa. Benjamin viu uma oportunidade de usurpar do capitalismo a ferramenta de controle social para ajudar a aumentar a conscientização entre as massas. Nesse sentido, as redes sociais seriam análogas ao cinema ou ao jazz enquanto potenciais transformadores de consciência. E parece ser nessa perspectiva que Felipe Neto vem trabalhando suas mídias sociais desde 2012, quando começou a criticar duramente o governo do PT.

Desde então, o youtuber tem se envolvido em todos os debates sociais e políticos de atualidade. Recentemente em entrevista no Roda Viva, Felipe assumiu uma autocrítica pelos seus posicionamentos durante as manifestações que acabaram com o golpe parlamentar no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. Para Felipe, errar é possível, enquanto exista a consciência do necessário que é continuar aprendendo. Pelo Twitter, Felipe Neto se manifestou sobre as críticas que tem recebido por parte da esquerda, pelo fato de ter criticado o PT e o ex-presidente Lula no passado. Apesar das críticas, o PT apoiou o levante do youtuber e compartilhou seu vídeo.

“É hora de unir forças, não há outro caminho. Obrigado à comunicação do partido, pela mensagem tão emblemática. E um aviso a todos da esquerda: eu não sou liberal no Brasil. Eu não defendo menos Estado e nem favorecimento aos detentores de capital. Sigamos”, disse ele.

A Covid-19 acelerou ainda mais o processo de introdução das redes sociais na intimidade e no cotidiano das pessoas. As redes tornaram-se hoje fontes de informação e interconexão. Vários autores e pensadores alertam sobre o perigo da concentração de capital de informação em poucas mãos (a corporação Google e o megapólio Facebook). Em entrevista, Felipe Neto se posiciona sobre esse assunto e, como de costume, sobre a atualidade social e política do Brasil durante a pandemia da Covid-19.

Entrevista com Felipe Neto:

Youtube forma parte do Google, que hoje está sendo acusada de criar um monopólio da informação dentro dos canais digitais de veiculação. Como você enxerga a plataforma Youtube, considerando que existem outras com uma abrangência bem inferior como Dailymotion e Vimeo? Qual você acha foi o segredo que disparou Youtube em relação às outras plataformas?

A ideia de monopólio, ao meu ver, não é verdadeira. A informação hoje está distribuída em inúmeras frentes diferentes no ambiente digital. Além dos inúmeros veículos de imprensa, os maiores propagadores de notícias e informações hoje não pertencem ao Google: Facebook, Twitter e Whatsapp. Quanto ao Youtube, podemos dizer que ele se consolidou como liderança absoluta no consumo de vídeos na internet, principalmente quando falamos de entretenimento, fidelização de canais e aulas (tutoriais). O Facebook e Instagram lutam por fora, mas possuem outra forma de consumo, assim como o TikTok.

Acredito que o grande segredo do Youtube ter disparado nessa liderança foi que a plataforma enxergou que precisava profissionalizar o mercado de produção audiovisual pra internet e criou o sistema de remuneração para os criadores. Foi isso que possibilitou o investimento e o surgimento de youtubers e empresas 100% dedicadas na criação de conteúdo para a plataforma.

Há uns anos atrás surgiu na Argentina e no Chile um projeto para criar uma mídia latino-americana que substituísse o Facebook. Qual o potencial que você enxerga na região para a criação de mídias digitais?

É impossível prever qual será o próximo grande hit da internet, mas hoje em dia é muito mais complicado de competir num ambiente de redes sociais do que era na primeira década do século. Criar algo novo precisa oferecer uma solução nova para algo que as pessoas ainda não sabem que procuram. Foi o caso do TikTok, que ainda assim levou anos para se consolidar. Eu não acredito que a simples oferta de uma rede social nova, baseada em geolocalização, vá resultar em grande sucesso.

Netocracia é um termo criado pelo tecnólogo sueco Alexander Bard. Basicamente o termo diz respeito do poder de concentração de capital simbólico que um “líder de opinião” (como você) pode possuir e que condiciona a opinião que outros atores das redes sociais poderiam ter. A crítica à netocracia é que ela pode acabar afastando esses líderes de opinião dos temas que verdadeiramente envolvem a população geral de uma nação. Ou seja, esses líderes de opinião, com tanto poder, poderiam acabar falando de coisas que não formam parte das problemáticas cotidianas do cidadão comum. Até que ponto você se cuida com isso?

Eu não sei como as coisas andam fora do Brasil, mas dentro do nosso cenário, o que aconteceu foi exatamente o oposto. Com um presidente fascista e um cenário de autoritarismo e opressão crescendo a cada dia no país, uma parte considerável de quem tem voz na internet estava em silêncio. Foi preciso que alguns “líderes de opinião”, como eu, fossem a público e cobrassem, exigissem que todos se posicionassem contra o fascismo, para as coisas finalmente começarem a andar na oposição digital do país. Eu acredito que carrego uma grande responsabilidade com o fato de ter tantos seguidores e essa responsabilidade é a de estudar o máximo possível para poder acompanhar o desenrolar político e social da nossa nação e influenciar, dentro dessa minha grande bolha, questões como: liberdade, combate ao preconceito, luta por mais igualdade social e justiça.

Uma crítica às mídias novas e às digitais é o da superprodução de informação. Parece como se todo dia tudo mudasse de uma forma muito rápida e nada fosse estável. Quais temas você acha que permanecem sempre na sua agenda? De quais temas você acha que precisa falar de forma recorrente? E quais temas ainda não abordou e acha que urgentemente precisam ser falados?

Nesse momento, a luta é pela manutenção da liberdade do povo brasileiro e o combate ao projeto fascista de poder que está em desenvolvimento. Quase toda a minha energia de enfrentamento está voltada para isso, mas o Brasil também tem gravíssimos problemas resultantes de um governo tão nefasto. Nossa ministra de Direitos Humanos e Família se recusa a criar campanhas de conscientização sexual para jovens e prefere investir em ações falando para que adolescentes não façam sexo. Nosso ministro do Meio Ambiente está vendendo e destruindo a Floresta Amazônica de uma forma aterrorizante. Os povos indígenas do Brasil estão seriamente ameaçados por um governo que abertamente diz que os odeia. A política internacional do Brasil está controlada por lunáticos que acreditam que a Terra é plana. Não temos ministro da Saúde no meio da maior pandemia do século e o presidente repete a todo momento para as pessoas saírem pras ruas como se nada estivesse acontecendo. Estamos enterrados em tantos problemas que é impossível combater a todos eles. O sentimento do brasileiro consciente é de puro desespero.

O filósofo Byung-Chul Han fala do perigo de jogar informação da nossa vida privada nas redes sociais. Que isto poderia ser usado num futuro (e já foi usado com fins políticos) para a criação de um “big data” com propósito de controle da população. Como você sendo alguém com tanta exposição pública lida com sua vida privada?

Meus seguidores reclamam bastante que eu mostro muito pouco da minha vida pessoal nas redes sociais. Eu sou um criador de conteúdo no Youtube, trato meu canal como uma emissora, uma empresa. Tudo que crio lá é pensado e tento ao máximo evitar essa linha de “reality show”. Acho que um dos grandes motivos de estar há tantos anos consolidado no Youtube é porque meu foco sempre foi no conteúdo que eu produzo e não em como mostrar minha vida pessoal pras pessoas. Quero que o público goste do que eu faço, não de quem eu sou no dia a dia.

Quanto ao “big data”, é algo de que dificilmente podemos fugir e que denota a importância de se ter governos atuantes e que intervêm para o bem estar da população. Não fosse a investigação americana sobre o Facebook e o envolvimento no vazamento de dados para empresas como a Cambridge Analytica, será que isso teria sido corrigido? É preciso que governos se comuniquem cada vez mais pela preservação e manutenção da segurança pública dentro do ambiente digital, pois já vimos que o total liberalismo resulta em venda de dados pessoais e até mesmo manipulação de eleições.

Marcia Tiburi, Jean Wyllys e Debora Diniz, entre outros, tiveram que sair do país por causa das ameaças das milícias bolsonaristas. Você já foi ameaçado? Como está sendo seu presente a partir de seus posicionamentos políticos?

Já fui ameaçado e já tive que tirar minha mãe do país, pois ela também foi ameaçada. Essa foi uma ameaça mais séria, mas lidamos com ameaças menos sérias o tempo inteiro. A militância orquestrada pelo Olavo de Carvalho e as lideranças que ele estabeleceu no país é extremamente violenta. Eles acreditam que estão numa guerra contra o comunismo, são reacionários da Guerra Fria. E, infelizmente, pessoas que acreditam estar batalhando numa guerra são capazes de fazer qualquer coisa para vencê-la. A situação no Brasil está piorando a cada dia e pode explodir a qualquer momento.

Como o Coronavírus tocou sua vida? Tem alguém conhecido que se contagiou da doença?

Por sorte, nenhum amigo ou familiar passou por isso, apenas conhecidos mais distantes. Eu estou sem pisar na calçada há mais de 3 meses, bem como a maioria dos meus familiares e amigos mais próximos. O mais importante, nesse momento, tem sido cuidar da saúde mental. O isolamento é um remédio amargo e com inúmeros efeitos colaterais, mas é o único capaz de conter o avanço da doença. Infelizmente o nosso presidente se recusa a aceitar isso e o Brasil segue batendo recordes de mortes no mundo. Já somos o segundo país com mais mortos e os números não param de subir.

O mundo vê com muita preocupação a forma como o Brasil vem lidando com a pandemia? Qual é sua avaliação da situação?

Temos um presidente fascista e louco. Ele demitiu o ministro da Saúde porque este era um médico e pediu para as pessoas respeitarem o isolamento. O presidente não queria isolamento, então o mandou embora. Em seguida, nomeou outro médico, mas este também se posicionou a favor do isolamento e ainda se recusou a colocar a hidroxicloroquina como tratamento oficial, justamente pela falta de amparo científico. Então, o presidente também o demitiu. Como solução, Jair Bolsonaro colocou o Ministério da Saúde para ser conduzido por militares obedientes, que colocaram a hidroxicloroquina como tratamento oficial e não falaram mais em isolamento. A situação é de caos. O Brasil está com o número de mortes crescendo a cada dia e todas as cidades começaram a abrir o comércio, shoppings, praças e eventos. Nós temos o pior presidente do mundo no combate à pandemia e os brasileiros conscientes estão em pânico. Não sabemos o que vai acontecer.

“Influenciador que não se manifesta agora é cúmplice. Estamos oficialmente contra um regime fascista e quem se cala contra o fascismo é fascista. Ponto final” foi um chamado seu a outros influenciadores. Esse chamado teve alguma repercussão? Soube de alguém que mudou seu posicionamento a partir dessa fala?

Diversos influenciadores começaram a se posicionar depois deste vídeo, mas não acredito que foi simplesmente por causa do meu vídeo. Não quero e não preciso desse crédito. Meu vídeo foi apenas um elemento no combate ao fascismo. Acredito que o Brasil inteiro está percebendo a realidade, abrindo os olhos e saindo para o combate contra o autoritarismo e a opressão. Só isso importa.

Em uma entrevista com Danilo Gentili você falou que as pessoas precisam ter a humildade de pedir desculpas. Como você sentiu o pedido de desculpas do ex-presidente Lula a respeito das suas falas sobre o Coronavírus e a importância do estado?

Eu não acho que seja hora de falar do Lula. O ex-presidente não exerce qualquer cargo público hoje e não estamos em um período eleitoral que tenha influência sobre sua posição. Estamos no momento de combater um fascista louco diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros nessa pandemia. Precisamos de união nesse combate.

Você defende a criação de uma frente antifascista, que envolva toda a esquerda de forma simultânea. Como vê o posicionamento de Ciro Gomes, de rejeitar qualquer aproximação ao maior partido de esquerda do país?

Na verdade, Ciro Gomes vem defendendo a união de toda a esquerda na frente antifascista e a esmagadora maioria dos políticos do PT hoje no Congresso estão juntos nessa frente. Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, a disputa entre Lula e Ciro, ou as consequências dessa união. A hora é de derrotar o fascismo, custe o que custar. Qualquer político que se recusar a enxergar isso, é porque é um politiqueiro que só consegue pensar em vitória e poder.

Quem o influenciou mais nos seus posicionamentos políticos dentro do seu mundo privado?

Eu sou progressista, então tendo a me comunicar mais com políticos progressistas. Contudo, eu ressalto, até mesmo aos meus amigos políticos, que não irei endossá-los publicamente. Talvez um dia isso mude, mas não é a hora.

Como você vê o futuro do Brasil daqui a dois anos? Consegue fazer esse exercício lúdico de futurologia?

É impossível prever, porque Jair Bolsonaro é uma bomba relógio. Nós sabemos que vai explodir, só não sabemos ainda onde ela vai explodir e quais serão as consequências dessa explosão. A única coisa que eu sei é que, sem uma frente ampla antifascista, sem uma luta firme contra esse lunático, o Brasil será derrotado.

Noam Chomsky: “A vitória do neoliberalismo destruiu a política como refúgio dos vulneráveis”.

Noam Chomsky: “A vitória do neoliberalismo destruiu a política como refúgio dos vulneráveis”.

Diálogos de quarentena com Noam Chomsky

Arte: Cris Vector

Noam Abraham Chomsky nasceu na Filadélfia (EUA) em 1928, especificamente em 7 de dezembro. Ele é lingüista (graças a seu pai, pois foi ele quem orientou seus passos no estudo da lingüística) e também filósofo-pensador.

A educação que recebeu em casa (ele cresceu em um ambiente judeu, aprendeu hebraico e ouvia constantemente, juntamente com seu irmão David Eli Chomsky, debates sobre política sionista, como sua família estava muito envolvida no sionismo de esquerda), ele dirigiu seus estudos e também suas preocupações com o mundo do pensamento.

Ele estudou na Universidade da Pensilvânia, onde foi influenciado por Zellig Harris. Concluiu seu doutorado em 1951, após o qual passou quatro anos em Harvard e, finalmente, em 1955, mudou-se para a Universidade da Pensilvânia, onde estudou para iniciar um intenso e longo ensino de carreira no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Chomsky é um grande crítico do capitalismo, especialmente da política externa dos Estados Unidos. Foi em 1967, quando ele iniciou sua incursão no ativismo político, opondo-se totalmente à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Daí derivou seu livro de ensaios intitulado “A Responsabilidade dos Intelectuais”, pelo qual recebeu grande reconhecimento.

Casou com Carol Schatz Doris em 1949, com quem ficou até 2008, o ano de sua morte. Com esse relacionamento, ele teve três filhos: Aviva, Diane e Harry. Em 2014, ele se casou com Valeria Wasserman.

Trump e Bolsonaro geraram em uma parcela da população de seus países uma espécie de idolatria messiânica. Estamos acostumados a culpar a ignorância e a manipulação da mídia por causar essa alienação em massa. Mas até que ponto não devemos fazer uma análise do vazio institucional que os períodos democráticos anteriores falharam em preencher?

Existem algumas semelhanças entre os países. Um é o papel extraordinário da religião. Nos EUA, cerca de um quarto da população é evangélica. Eles amam Trump porque ele lhes joga alguns ossos. Eu acho que tem algo parecido no Brasil. Os EUA passaram por 40 anos de prática e propaganda neoliberais, que, previsivelmente, aumentaram acentuadamente a riqueza concentrada e o poder econômico, enquanto a maioria estagnou ou declinou. A maioria vive agora do salário desta semana e não pode lidar com nenhuma emergência.

O ataque neoliberal à população foi acompanhado por um poderoso ataque ideológico: ódio ao governo, ódio às práticas próprias da política e transferência de políticas para um poder privado inexplicável. O respeito pelas instituições entrou em colapso e o programa neoliberal de destruição de associações e atomização de pessoas (“não existe sociedade”) deixou as pessoas desamparadas. A vitória do neoliberalismo foi destruir a política como refúgio para os vulneráveis. No Brasil, uma das grandes falhas do PT foi não se organizar na base. Alguns estudos mostram que a maioria dos destinatários do Bolsa Família não sabe de onde vem. Quando perguntada, a maioria diz “Deus”.

O que é necessário, em ambos os países, são sérios programas educacionais e organizacionais para reunir as pessoas para elas se comprometerem a assumir o controle de suas próprias vidas, prontos para superar os graves males de suas sociedades. Ao longo da história moderna, os sindicatos têm liderado esses esforços. Isso pode acontecer novamente e há muitas outras possibilidades.

Você sempre foi um grande crítico das corporações de mídia. Hoje se pensa que redes sociais como Instagram e Facebook democratizaram a informação. Mas como isso seria possível se o Facebook, Instagram, Whatsapp, Youtube e Google pertencem a poucas pessoas, menos de cinco, na verdade?

Esse questionamento é interessante e necessário. Isso não deveria acontecer. Em toda a economia, a monopolização e a concentração de poder aumentaram durante o período neoliberal e devem ser revertidas, como um passo em direção a uma sociedade mais democrática baseada no controle popular. Devemos buscar alternativas e evitar a concentração dos canais de informação se queremos uma sociedade mais equitativa e justa.

A ultra-direita chega ao poder e é possivelmente reeleita nos Estados Unidos com um forte discurso de ódio, segregacionismo e insensibilidade em relação aos outros. A linguagem deles é muito simbólica, messiânica e nacionalista. Em algum momento, eles assumiram o sentimento antiglobalização que sempre foi uma agenda forte da esquerda. Ainda é o nacionalismo que decide o voto popular?

O nacionalismo sempre será um gatilho afetivo muito forte na população, porém, não há regra geral. Depende das forças concorrentes na sociedade.

Tradicionalmente, o debate entre esquerda e direita era limitado à opressão do capital. Hoje, o debate sobre opressão também abrange racismo, sexismo, homofobia, gordofobia, meio ambiente. Você acha que nenhuma dessas opressões pode ser colocada na agenda enquanto prejudica as outras?

As pessoas naturalmente têm suas próprias prioridades, mas existem semelhanças suficientes nessas estruturas para interação construtiva e apoio mútuo (“interseccionalidade”). Todas as pautas têm uma ligação em comum, o desafio é costurar todas elas juntas em uma frente comum que vença o fascismo.

Você, como intelectual, esteve envolvido em debates coletivos a vida toda e apoiou movimentos populares inúmeras vezes. Sempre se fala da necessidade desses movimentos se alimentar das teorias desses intelectuais. Mas, na sua opinião e na sua experiência, quanto é necessário para um intelectual se enriquecer participando desses movimentos? Quanto está faltando que a intelectualidade “desça” até o lugar onde estão acontecendo as mudanças fundamentais desse período histórico?

Tanto os chamados “intelectuais” quanto os movimentos populares têm tudo a ganhar com essa participação. É necessária uma interação real e recíproca. Não se pode pensar no mundo intelectual como um olimpo afastado do mundo onde acontece a ação. É quando o mundo das ideias se mistura com o mundo da ação que acontecem as mudanças desejadas pelo campo progressista.

Um debate sobre um sistema universal de saúde é essencial durante e após a pandemia. Você acredita que este debate será bem sucedido?

Certamente é essencial. Mesmo em tempos normais, o custo anual do sistema de saúde privatizado dos EUA, altamente ineficiente e cruel, é estimado em cerca de US $ 500 bilhões de dólares e 70.000 mortes. O quão bem-sucedido será, novamente, depende do poder das forças em disputa.

Como é percebida a vitória do estado chinês sobre a Covid-19 nos EUA?

Por cientistas e pessoas que penetram na avalanche de propaganda, ela é considerada um sucesso considerável. Mas o medo e o ódio do “perigo amarelo” não são difíceis de gerar nos EUA. Tem uma longa história. É abalado pelos esforços desesperados de Trump para encontrar um bode expiatório por seus crimes contra o povo americano, matando dezenas de milhares durante a pandemia. Sua escolha é culpar a China e evoca o racismo tradicional.

Você acredita que os EUA insistirão em se posicionar como a nação escolhida para cuidar do mundo, considerando o desempenho que está dando para salvar seu próprio povo do Covid-19?

Trump está causando grandes danos aos Estados Unidos, mas mesmo ele não pode minar sua posição de enorme poder. As pessoas podem não gostar e até ridicularizar o sistema de poder dos EUA, mas ainda o temem. E com razão. Os EUA certamente não são admirados por cuidar do mundo, mas governar o mundo é uma questão separada. A classe conservadora dos EUA é cruel e gananciosa, eles não vão abrir mão do controle estratégico que eles têm em diferentes pontos do planeta. Os interesses são demasiado grandes e eles têm muito a perder com isso. Acho que teremos pela frente uma disputa estratégica entre China e EUA que vai determinar as relações internacionais pelas próximas décadas.

Hollywood versus Coronavírus. Entrevista de Christian Dunker e Alessandra Martins Parente

Hollywood versus Coronavírus. Entrevista de Christian Dunker e Alessandra Martins Parente

Ilustração: Cris Vector

Quem sabe qual será a nova estratégia da máquina cultural norte-americana chamada Hollywood agora que definitivamente EUA não é o protagonista forte, poderoso e determinante na luta contra essa tragédia mundial de saúde que é o coronavírus? Será que os roteiristas serão forçados a se render ante a realidade que mostra Cuba enviando equipes médicas em missão solidária a todos os cantos do planeta? Será que o protagonismo chinês, já não como agente conspirador e sim como potência reguladora do mercado, será considerado pela fábrica de cinema do país norte-americano?

Os filmes oferecem cartografias de notável precisão para diagnosticar o caráter psico político, cultural e sociológico de uma sociedade em uma determinada época. Segundo o filósofo e teórico cultural norte-americano Douglas Kellner, nos anos 2000, uma série de filmes hollywoodianos retratou catástrofes apocalípticas variando de desastres ambientais a cataclismos sociopolíticos nas formas de entretenimento de gêneros e filmes populares. O viés propagandístico desse filmes era alimentar o imaginário de que EUA é uma nação escolhida para ser a guardiã do mundo.

Kernell afirma que é nos momentos de maior diversão quando as pessoas mais facilmente absorvem ideologias. Essa seria a razão pela qual a cultura de massas produzida e veiculada pelas corporações de mídia tornou-se uma poderosa força dominante de socialização, identificação e formação ideológica.

Desde a instauração dos EUA como pólo dominante no período de pós Segunda Guerra Mundial, iniciou-se uma batalha cultural em que os Estados Unidos não economizaram investimentos na sua maquinária cinematográfica mundialmente conhecida como Hollywood. Com o fim da Guerra Fria, Estados Unidos se torna potência dominante num mundo unipolar, e com o avanço nas telecomunicações os indivíduos são submetidos a um fluxo sem precedentes, de imagens e sons dentro de sua própria casa; novos mundos virtuais de entretenimento, informação, sexo e política estão ordenando percepções de espaço, de tempo e anulando distinções entre realidade e representação.

Sem dúvidas, Hollywood é a máquina propagandística mais potente que o país do norte tem utilizado para levar em diante seu propósito de ser intitulado como a “nação escolhida”. Em sua análise do filme “Top Gun”, Kellner coloca o filme na fila de outros que têm o propósito de mobilizar uma série de representações culturais para conseguir o apoio a nível global da guerra que Bush estava iniciando no Oriente Médio. O filme celebra o heroísmo individualista, o denodo militar e os valores americanos conservadores. Assim como outros, o filme opera num universo binário de luta entre o bem e mal, no qual o inimigo é absolutamente mau e os norte-americanos representam a personificação da bondade. “Top Gun trata principalmente de competição e vitória: mulheres, honra militar, esportes e sucesso social” (Douglas Kernell, A Cultura da Mídia, 2001).

Quando perguntada pelas consequências culturais e políticas do cinema de Hollywood em sociedades fora dos EUA, Alessandra Parente, psicanalista, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo, onde também se formou em filosofia, responde: Essa análise minuciosa já foi feita por Theodor Adorno e Max Horkheimer depois da Segunda Guerra Mundial quando ambos estiveram nos EUA e escreveram a Dialética do Esclarecimento. O conceito de Indústria Cultural, cunhado e destrinchado pelos frankfurtianos, demonstra o viés totalitário da sociedade americana. [..] Como o projeto americano é claramente imperialista, a Indústria Cultural serve como máquina de guerra ideológica contra tentativas de oferecer outros modelos possíveis de sociedade ou contra formas de resistência – daí que no campo da Indústria Cultural haja sempre a dicotomia entre o bem e mal, o forte e o fraco, o mocinho e o vilão e assim sucessivamente.

O lado americano sempre é aquele que convoca uma identificação empática por parte do espectador. Há passagens da Dialética do Esclarecimento assustadoramente atuais. Por muito tempo, criticaram-se esses dois filósofos por serem tão contundentes e descartarem quase tudo – Adorno revê certas posições ali colocadas sobre cinema mais tarde – sob uma leitura crítica aparentemente unívoca. Walter Benjamin, por exemplo, reconhecia, ao contrário do que fazem Adorno e Horkheimer, alguns ganhos perceptivos com a advento do cinema. Mas acho que hoje, infelizmente, temos que conceder mais crédito aos dois velhos ranzinzas. Um trecho, entre tantos outros, que salta aos olhos de um leitor atual é o seguinte:  

Hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles. Obstinadamente, insistem na ideologia que as escraviza. O amor funesto do povo pelo mal que a ele se faz chega a se antecipar à astúcia das instâncias de controle. Ele chega a superar o rigorismo do Hays-Office[i], quando este, nos grandes momentos históricos, incitou contra o povo instâncias mais altas como o terror dos tribunais. (Adorno e Horkheimer, [1969] 1985: 125)

De qualquer modo, há filmes oriundos da indústria americana que também conseguem burlar essa lógica de consagração da ideologia americana. Os exemplos são muitos. Queria destacar um filme da década de 1980 que é extremamente potente e atual: “Eles vivem” do cineasta John Carpenter. Mas, claro, poderia citar muitos outros. Tenho a impressão de que essa ideologia está presente, mas que a crítica a ela também acaba sendo engolida pelos sistemas de distribuição, de propaganda, de mercado. Em geral, os filmes são obrigados a se renderem ao modelo de mercado para que o filme exista – isso o fortalece como obra de arte, mas o enfraquece como forma de resistência ao establishment capitalista. “Parasita”, o filme coreano, é um ótimo exemplo: ele adquire força ao ganhar o Oscar ou a crítica feita no filme entra como parte de um léxico aceitável no mercado que orienta a Indústria Cultural. Não sei dizer.

Então, voltando à sua questão, não são apenas os filmes hollywoodianos – até mesmo Brecht foi à Hollywood – que promovem a ideologia americana mundo afora. Esses filmes existem e são, em geral, ruins. Qualquer pessoa mais atenta é capaz de perceber o viés propagandístico em sua forma e em seus conteúdos. Entretanto, o problema maior é que até mesmo os bons filmes – americanos ou não – são compelidos a aceitar uma maquinaria de distribuição e propaganda que os coloca dentro de um modelo de funcionamento capitalista americano próprio da Indústria Cultural. Acho que aí tem um certo enrosco. Do ponto de vista da subjetividade, de uma psicologia social, brindamos a vitória de “Parasita” como obra de arte e ficamos apaziguados em relação ao que o filme traz como convocação profunda de transformação social.”

[i] Código de censura instituído em 1934 pela indústria cinematográfica de Hollywood.

Viradas nas narrativas

“A trincheiras das ideias valem ainda mais que as trincheiras de pedra” é uma frase escrita pelo escritor cubano José Marti no livro “Nuestra América”.  O imperialismo americano precisou desenvolver a imagem “paternalista” do guardião global. A construção do personagem do presidente americano, homem, pai de família heterossexual, seguro de princípios e valores cristão-conservadores, tornou-se recorrente nos roteiros de catástrofes naturais, intrigas terroristas, ficção científica e todos os gêneros possíveis que o cinema hollywodiano tratou, colocando EUA dentro de uma trama de crise mundial a causa de inimigos internos ou externos.

Na questão racial, presidentes negros estão invariavelmente associados a personagens cômicos ou a tragédias planetárias, o que levou o humorista Jon Stewart, durante a última cerimônia do Oscar, a dizer que, “normalmente, quando se vê um homem negro ou uma mulher como presidente, um asteróide está prestes a atingir a Estátua da Liberdade”. Em O Presidente Negro (The Man), lançado em 1972, um desastre mata o presidente da República e o presidente do Congresso, o vice recusa o cargo por problemas de saúde e cabe ao presidente do Senado assumir relutantemente o cargo. Interpretado por James Earl Jones, Douglas Dilman se torna o primeiro negro a ocupar o cargo.

Filme: Impacto Profundo

Em Impacto profundo, filme-catástrofe lançado há 10 anos, o “presidente” Morgan Freeman tem de decidir o que fazer quando um enorme meteoro ameaça dizimar a civilização. Nesse sentido poderia se dizer que Hollywood serviu para ir “semeando o terreno”, preparando a sociedade norte americana diante da possibilidade de ter um presidente negro, o que acabou acontecendo finalmente com a posse de Barack Obama. Hollywood, mais uma vez, vai moldando a cabeça e o coração do espectador cidadão. Não esqueçamos nunca que política é um ato intelectual e afetivo. E é no plano dos afetos, das emoções, onde o cinema influencia de modo mais contundente. Quem não se viu quase que forçado a chorar diante de aqueles recorrentes discursos moralistas dos filmes nacionalistas americanos? Com a trilha sonora sugestiva e as graves expressões dos figurantes e os atores de segunda ordem?

Para Christian Dunker,  psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo, o cinema americano sofreu duas viradas recentes, quando observamos o modo de produção, financiamento e distribuição, bem como as transformações do público consumidor. A primeira virada acontece depois de 1989 e ela se orienta para a redefinição narrativa das oposições constitutivas da trama. Isso envolveu, basicamente a busca de novos inimigos, seja no oriente médio, seja nos focos de resistência hegemônica dos falcões. Lembremos também que é um momento no qual os diretores começam a tomar contato com certas restrições discursivas de casting e dramaturgia, que visavam acomodar os novos movimentos de resistência cultural emergentes na esteira do fim das grandes narrativas teológico-políticas, cujo epicentro ideológico era o comunismo. Maior presença de homossexuais, em papéis menos caricatos, heroínas e diversificação da presença de negros, por exemplo, a advertência de que estes eram sempre os primeiros a morrer, nos filmes de ação, acionou um código pós-moderno que se encontrou na origem da expressão, depois revertida pela direita como politicamente correto. Nesta virada temos uma série de filmes que redescobrem o poder das catástrofes naturais para designar o lugar perturbador do inimigo. Nestes filmes, vigora ainda um resto sintomático do antigo star-system, ou seja, no final a família sempre vence e de preferência o pai herói a representa.

A segunda virada neste sistema ideológico acontece depois de 2008, com a crise do neoliberalismo e a entrada concorrencial dos sistemas de streaming e a consequente redução de custos de produção. O inimigo agora se interioriza, assim como precisa ser deformado na sua apresentação: em vez de imigrantes indesejáveis, zumbis em errâncias do tipo walking deads, tipicamente pessoas sem família, sem voz e que se repetem automaticamente na busca de corpos alheios. Eles são antípodas da família, mais porque a forçam ao movimento de recolhimento e resistência do que por uma ameaça externa. A segunda figura ideológica deste período são os filmes de ação com super-heróis que vivem em uma espécie de família comunitária, mais ou menos ampliada. Aqui preserva-se o lugar do pai, Dr. Xavier, por exemplo. Os inimigos ainda tem rosto, mas eles vão gradativamente se naturalizando. Curinga parece ter marcado o encerramento deste ciclo ideológico com a formação de um herói interiorizado e dividido, mas ainda assim capaz de inspirar um horizonte de redenção e epifania, gerado na desordem. A terceira figura da negação do conflito e reprodução das relações de poder é naturalmente a série de filmes sobre epidemias e sobreviventes, dele a série Saw até todos os mimetismos de jogos de eliminação, com destaque para Resident Evil, uma marca na integração da ideologia cinematográfica com o universo dos videogames. Aqui fomos nos acostumando com a necropolítica, ou seja, as vidas matáveis, desumanizadas, pós-humanas, que atacam a família e degeneram no indivíduo solitário e sobrevivente.

A epidemia do Novo Coronavírus chega, portanto, neste caldo ideológico de reação e escombros do neoliberalismo na economia e do pós-modernismo na cultura. Ela antecipa a noção de refúgio domiciliar, na esteira do trabalho domiciliar, previamente precarizado. Ele antecipa a xenofobia que deverá seguir-se a incerteza sobre os contaminados. Ele antecipa também a lógica da contabilidade de mortes sentidas como inevitáveis, anônimas e sem sentido. Tudo levaria a crer que Holywood seguiria seu padrão de defesa nacional, com reificação de heróis super-naturais, mas desta vez temos Trump como uma espécie de adversário interno, que colocará a narrativa do desastre americano perto demais para não ser pensada como uma crise de identidade”.

Uma nova era?

Quem sabe qual será a nova estratégia da máquina cultural norte americana chamada Hollywood agora que definitivamente EUA não é o protagonista forte, poderoso e determinante na luta contra essa tragédia mundial de saúde que é o coronavírus? Será que os roteiristas serão forçados a se render ante a realidade que mostra Cuba enviando equipes médicas em missão solidária a todos os cantos do planeta? Será que a China vai deixar de ser esse monstro gigante querendo perverter o mundo com seu maoismo, e derrubar igrejas e sexualizar a imaculada sociedade cristã e capitalista ocidental? Até que ponto não é nosso dever cidadão revitalizar as disputas pelos espaços de exibição de filmes, hoje monopolizados por uma maquinaria de produção cultural estrangeira, e colocar no debate das ideias, de forma séria e profunda, temas como racismo, patriarcado, políticas públicas, direitos humanos? Quanto temos pecado em aceitar de forma acrítica esse conceito de “indústria do entretenimento” que molda nossas vidas e banaliza nosso tempo de ócio? A tragédia do coronavírus mostra a extrema necessidade de batalhar em todos os campos, incluindo no campo das ideias (e talvez muito mais que em qualquer outro lugar), se realmente queremos para nossos filhos uma sociedade mais igualitária, mais preparada para resistir de forma coletiva ante qualquer cenário de crise por causa de fatores externos ou de inerentes vícios internos.

“As mulheres estão sub-representadas na política”. Entrevista com Gleisi Hoffmann.

“As mulheres estão sub-representadas na política”. Entrevista com Gleisi Hoffmann.

Arte: Cris Vector

“Só teremos uma sociedade justa, igualitária e democrática, quando toda sua população puder participar dos processos de decisão. Hoje, infelizmente, a política que decide os destinos do país é majoritariamente ocupada por homens. Basta dizer que aqui na Câmara dos Deputados, dos 513 parlamentares, apenas 77 são mulheres” disse Gleisi Hoffmann em vídeo postado no canal do Youtube “PT na Câmara”, no dia 8 de março de 2020, a propósito do Dia Internacional da Mulher. Em 23 de abril de 2018, Gleisi Hoffmann, como presidenta do Partido dos Trabalhadores, junto a ex-presidenta Dilma Rousseff, se faria presente no lançamento do projeto “Elas por Elas”, um projeto ideado por um coletivo de mulheres dentro do partido e liderado, entre outras pela Gleisi.

Gleisi Hoffmann já foi advogada, assessora na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), na Câmara Municipal de Curitiba e na Câmara dos Deputados no Congresso Nacional em Brasília. Foi secretária executiva de gestão financeira no Mato Grosso do Sul, secretária municipal de gestão pública em Londrina. Em 1989, filiou-se ao PT. Em 2003 foi nomeada para o cargo de diretora financeira da Itaipu Binacional, foi a primeira vez que uma mulher ocupou esse cargo. Logo, foi eleita secretária estadual do conselho de mulheres e membro do diretório nacional do PT. Em 2008 se torna a primeira presidenta mulher do PT no Paraná.

Em 2008, candidatou-se à prefeitura de Curitiba, obtendo 18% dos votos e ficando no segundo lugar. Em 2010, tornou-se a primeira senadora mulher eleita pelo estado de Paraná. Em 2011 foi nomeada ministra-chefe da Casa Civil durante o governo da presidenta Dilma Rousseff. Em 2013, foi aprovado seu projeto de lei que extingue o 14º e 15º salário dos parlamentares. Em 2017 foi escolhida pelos seus correligionários a liderar a bancada do PT no Senado. Também em 2017, foi eleita a primeira mulher presidente do Partido dos Trabalhadores, reeleita em 2019, e exercendo o cargo até o dia de hoje.

De formação católica, teve grandes influências da teoria da libertação, o que a levou também a formar parte da militância estudantil, chegando a ser presidenta da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES) e logo Diretora da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).

Em entrevista, Gleisi responde sobre a representatividade das mulheres na política, sobre a atuação da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), durante o governo do Bolsonaro, sobre sua viagem a Venezuela, sobre o posicionamento do PT diante da possibilidade de um impeachment do presidente Bolsonaro, e sobre conjuntura geral no meio a crise gerada pela pandemia do Covid-19.

Você teve uma forte influência da Teoria da Libertação e outras fontes teológicas do cristianismo que promulgam a igualdade, a solidariedade, o amor e a fraternidade como mecanismos de construção social. Que leitura faz dessas lideranças cristãs que apoiam um governo que defende os privilégios de classe, a acumulação da riqueza, o terrorismo institucional e a idolatria política?

G.H. São túmulos caiados. Limpos por fora e podres por dentro. Infelizmente, a história da humanidade está repleta de seres desse jeito. O próprio Evangelho do nosso senhor Jesus Cristo denuncia isso: “Aqueles que pregam algo que não acreditam e não praticam”. Eu, de fato, tive muita influência da teologia da libertação e dos ensinamentos cristãos no sentido de vivenciar as coisas a partir da lógica dos pobres, dos povos oprimidos e da necessidade de trazer os ensinamentos do Cristo Libertador. Não dessa religião, não desses preceitos que essas pessoas que falam em nome de Deus ou de princípios cristãos pregam ou fazem. Esses ai são verdadeiros túmulos caiados.

Você já foi ministra-chefe da Casa Civil durante o governo da Dilma Rousseff, foi líder da bancada do PT no parlamento, hoje é a presidenta nacional do partido. Acredita que é preciso de mais lideranças mulheres na política?

G.H. Com certeza, a representatividade das mulheres está muito aquém do que elas são efetivamente na sociedade. As mulheres são metade da população. E essa metade da população está sub-representada na política e nos processos decisórios. Portanto, não tem democracia que se sustente se isso persistir. Por isso é muito importante a presença das mulheres na política, nos cargos de representação, nos cargos executivos, ajudando a decidir os rumos da vida, do país.  A minha luta sempre foi por isso. É o equilíbrio o que nós precisamos para o fortalecimento da democracia.

Como alguém que já foi parlamentar e parte do executivo poderia descrever o sexismo e o machismo nos bastidores da política institucional brasileira? Quantas vezes se sentiu agredida ou diminuída pelo fato de ser mulher nos corredores das instituições governamentais?

G.H. Machismo e sexismo estão todos os setores da sociedade, não apenas os bastidores da política. Talvez na política ele se manifesta de forma diferente porque é um espaço onde disputa o poder, e as mulheres são ainda uma novidade, e não estão em massa, ou não estão pelo menos representando o que elas são de fato na sociedade. E como se disputa o poder, o jogo é mais duro, o machismo mesmo sim é velado. Ele é mais forte no sentido de combater as mulheres, e pega pela diminuição, pelo não reconhecimento de sua competência, por exagerar nas cobranças, pelas piadas de mau gosto, e principalmente pelo modo masculino de fazer política, de exercer, de exercer o poder e de tomar decisões, o que alisa muitas mulheres desse processo. Por isso a importância das mulheres entrar em grande número na política, nos cargos de decisão executivos. Estamos ainda sub-representadas. É a quantidade menor de mulheres o que dificulta o enfrentamento a esse estado de coisas que se perpetuam no mundo da disputa do poder e da política. Acho que quando as mulheres entrarem em massa nesse mundo, ou pelo menos representarem o que elas de são na sociedade, 50% das pessoas, tudo isso tende a mudar.

Sua viagem à Venezuela, um país que é claramente o principal alvo da direita na América Latina, para prestigiar a posse do presidente Maduro, foi muito criticada, sobretudo nos setores conservadores. Mas também houve críticas mesmo dentro do campo progressista. Temos visto o que aconteceu na Bolívia, onde teve um claro golpe de estado e hoje se exerce a perseguição ideológica e até o racismo, você acha que a esquerda talvez vai conseguir entender mais a atitude do governo bolivariano para proteger as conquistas sociais e institucionais da ultradireita naquele país?

G.H. Eu espero que sim. Aliás, se toda a esquerda respeitar o que aconteceu na Venezuela, que foi uma eleição legítima de um presidente (podendo concordar 100% ou não com ele), já seria um grande feito. Agora, o que nós temos na Venezuela é uma conscientização e organização popular para além do sistema democrático de eleição. As pessoas lá são conscientizadas sobre o que que é a luta popular, a organização, a importância de defender o país apesar de todos os boicotes, das dificuldades que a Venezuela enfrenta em um país que precisa muito ainda se desenvolver. Venezuela precisa muito fortalecer sua economia para melhorar suas condições. E hoje o país recebe ajuda de outros países. Eu acho que isso é importante. E o fato da Venezuela ter resistido, ter mostrado a farsa de Guaidó, e ter mobilização popular, fez com que ela pudesse enfrentar um poderio absurdo do imperialismo americano. Eles mostraram que estão sendo submetidos, e conseguiram estabelecer um processo de paz nas suas fronteiras. O Brasil, com sua pequenez política, jamais conseguirá enfrentar a organização que tem o povo venezuelano.

Num momento em que os dados da pandemia por Covid-19 mostram como o vírus tem maior impacto na população negra, como consequência do racismo estrutural da sociedade brasileira, como você vê a passividade da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir)?

Essa secretária hoje praticamente não existe. Ela existiu nos governos do Lula e da Dilma, que tinham um compromisso efetivo em ter uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Que tinha um trabalho de políticas públicas estruturadas para isso. Hoje a secretaria é mais um enfeite do governo, talvez mais um órgão para ter cargos para poder satisfazer os interesses políticos que tem o grupo do Bolsonaro. Mas de fato ela não tem nenhum poder, nenhuma ação política para efetivamente mudar a vida do povo negro no Brasil. As políticas que conhecemos com Dilma e Lula foram políticas importantíssimas, poderiam mudar, e muito, a história do nosso país. Pena que elas foram exercidas por um curto período de tempo.

Hoje se fala de interseccionalidade para entender que existem múltiplos sistemas de opressão, e tem quem defenda que a principal luta é a luta de classes, ou seja, de classes econômicas, e que a interseccionalidade só serve para dividir o campo progressista. Em que lugar você se coloca dentro desse debate?

Eu acho que a luta econômica é uma das mais importantes, porque ela define a posição do indivíduo na sociedade. Aquele que tem posse, aquele que tem dinheiro, aquele que manda, aquele que pode oprimir. Então ela é uma luta importante, é uma luta da sobrevivência das pessoas. O direito e o acesso à comida, ao emprego, e à renda. Mas é óbvio que ela está ligada a muitas outras lutas, até para que determinadas classes mantenham o poderio econômico, outras formas de opressão, por exemplo o machismo, o preconceito em relação às mulheres, o sexismo. Vem da ideologia do capitalismo, que é o patriarcado, que acaba atingindo todos os setores da sociedade, que são diferentes daquilo que o patriarcado coloca como normal, como o certo. Homens brancos ricos que mandam no sistema. E quem não estiver enquadrado dentro desse conceito passa a ser diferente, e o diferente tem que ser combatido. Mas o principal diferente é aquele que não têm acesso a um mínimo de dignidade, de sobrevivência. Portanto, a luta econômica ela é importante. Mas quando a gente faz a luta de classes pela perspectiva econômica, a gente também atinge a ideologia que a sustenta .

Que reflexão pode fazer das atitudes e as declarações do Ciro Gomes ao respeito do Partido dos Trabalhadores e do seu líder Lula?

Ciro Gomes é um homem perdido, frustrado e amargurado.

Como viu o afastamento do ministro de justicia Sérgio Moro do núcleo mais radical do bolsonarismo?

Sérgio moro tentou salvar a própria pele pulando do barco quando achou que o barco podia afundar. Ele ficou lá esse tempo todo, viu as barbaridades do Bolsonaro, os ataques à democracia, a falta de empenho em relação a esclarecer crimes como da Mariele. Aliás, ele não fez empenho nenhum.  Aceitou as pressões de Bolsonaro. Só saiu para tentar se salvar.  É tão criminoso quanto o Bolsonaro. Aliás, Bolsonaro só é presidentes porque Sérgio moro preparou o caminho.

Qual é o posicionamento do PT ao respeito de um possível pedido de impeachment do presidente Bolsonaro?

A favor do impeachment. Somos a favor de qualquer possibilidade prevista na constituição de afastamento de Bolsonaro.  O que nós estamos defendendo e queremos agregar nesse processo, é que ele é afastado, a sua sucessão se de com a participação popular, ou seja pelo voto do povo.  Por isso nós estamos defendendo uma emenda constitucional que prevê a chamada de eleições, ou realização de eleições 90 dias após o afastamento do presidente da república. Qualquer que seja a modalidade de afastamento vamos lutar por essa emenda constitucional. Mas não podemos mais ter acordos por cima, onde a democracia efetiva e concreta que interessa ao povo, onde a democracia que dá acesso a dignidade da vida, a comida, ao trabalho, ao emprego, a renda, não está efetivada. Nós queremos isso.

Como vê o futuro do país após a pandemia? 

Luto para que seja o desembarque do neoliberalismo. Que a gente tenha um outro projeto de desenvolvimento inclusivo que ataque a desigualdade, que melhore a vida da grande maioria do povo brasileiro.

Hollywood e Donald Trump vs Douglas Kellner

Hollywood e Donald Trump vs Douglas Kellner

Arte: @iimpirika_jones

Com a crise de saúde global provocada pelo coronavírus, se faz muito pertinente debater sobre o papel que as mídias corporativas desempenharam durante o apogeu do neoliberalismo para deslegitimar as iniciativas que tentavam desenvolver sistemas públicos de saúde que atendam a população mais carente. O filósofo norte-americano Douglas Kellner chama  atenção para um estudo minucioso dos efeitos sociais dos meios de comunicação em relação ao indivíduo, e, também, ao contexto social em toda sua extensão de atuação. Nesse sentido, o papel da mídia como poder normatizante não se circunscreve à área de atuação do jornalismo. Kellner vê a mídia como um todo, onde a publicidade, a propaganda, a rádio, as novelas, os filmes, toda a produção simbólica têm uma incidência destacada na construção do imaginário de uma sociedade específica e na construção de identidades.

Seguindo a linha de Susan Sontag, Noam Chomsky, Judith Butler e outros, Douglas Kellner é um intelectual atravessado pelo contexto político do seu tempo. Em seu livro de 2016 ”Donald Trump, o Pesadelo Americano, O Espectáculo das Mídias e o Populismo Autoritário”, Kellner trabalha sobre a tese de que foi a cultura do analfabetismo político instigado pelas mídias corporativas o que culminou na eleição de Donald Trump. Kellner continuou esse trabalho em 2017, publicando American Horror Show: Eleição 2016 e a Ascensão de Donald J. Trump, no qual critica o presidente, referindo-se a ele como “o Rei do Pântano” e “o cachorro de Putin”.

Em entrevista, fala sobre a idolatria dos eleitores de Donald Trump, sobre as fake news que a equipe de comunicação do presidente norte-americano espalha para poluir o cenário político, sobre Hollywood e sobre Brasil e o presidente Bolsonaro.

Hollywood sempre apresentou os Estados Unidos como a nação escolhida para salvar o planeta diante de qualquer catástrofe. Que análise poderíamos fazer considerando que hoje eles são a nação mais vulnerável e dizimada por causa da Covid-19?

DK: É trágico que os EUA tenham, em 4 de maio, quando faço esta entrevista, o maior número de casos de Covid-19 no mundo e o maior número de mortes. Isso se deve à ignorância, imprudência e total falta de empatia pelo povo americano e por outras pessoas que sofrem do vírus de Donald J. Trump e seu governo. Trump foi alertado sobre os perigos da pandemia no início de janeiro e, durante meses, pediu às pessoas que não se preocupasse e não fizeram nada. Quando chegou aos EUA da Ásia e da Europa, explodiu e era tarde demais.

Até que ponto a covid-19 mostrou o vazio criado por uma cultura de massas alienante que não preparou a sociedade para uma realidade concreta que é a necessidade de um único sistema de saúde? Seremos mais críticos e conscientes das necessidades básicas que toda sociedade precisa garantir após a pandemia? A cultura refletirá isso?

DK: De fato, a mídia nos EUA alertou o público desde o início e continuou a informar sobre os perigos da pandemia e a insuficiência do governo Trump desde o início – exceto, é claro, a mídia Trump como a Fox News, que mentiu sobre a pandemia desde o início. O governo Obama tinha agências preparadas para epidemias, pois haviam lidado com sucesso com a epidemia de Ebola. O governo Trump fechou agências governamentais dedicadas a combater pandemias, deixando os EUA vulneráveis. Os fanáticos de Trump apenas servem os interesses do capital corporativo, do Partido Republicano e do Donald Trump, e não dão a mínima para o povo americano ou qualquer outra coisa.

Além disso, os EUA não possuem um serviço nacional de saúde como o Canadá e os países europeus, portanto não estamos preparados para lidar com essa crise. Felizmente, a pandemia fará com que as pessoas acordem, vejam as falhas do governo Trump, a necessidade de um serviço nacional de saúde e a eleição de funcionários do governo dedicados ao bem público. Nas eleições de meio de mandato de 2018, os democratas ganharam o controle da Câmara dos Deputados e, esperançosamente, nas eleições de 2020 ganharão o controle do Congresso e da Presidência e causarão mudanças sociais radicais. Antes do que nunca, haverá demandas por um sistema nacional de saúde e um governo que atenda às necessidades básicas das pessoas.

Como você vê o futuro dos escritores de Hollywood após a pandemia? Como você acha que os novos heróis serão vistos logo após o término de tudo isso??

KD: É interessante refletir como a mídia e Hollywood refletirão a pandemia. A mídia de radiodifusão – exceto a mídia alinhada com Trump, como a Fox News – tem sido excelente em criticar o presidente e alertar o público sobre a pandemia. A produção cinematográfica de Hollywood foi interrompida por causa da pandemia, mas eu acho que as pessoas estão pensando em como responder à pandemia.

Ninguém na história dos EUA foi mais odiado que Trump, especialmente em Hollywood e na mídia liberal.

Eu moro em Los Angeles, perto de Hollywood, e posso dizer que todos que eu conheço odeiam Trump com paixão. A elite de Hollywood apoiará o candidato democrata e fará de tudo para derrotar Trump. A mídia liberal fará tudo para investigar e destruir Trump. É impossível exagerar quanto Trump é odiado. Quando ele ganhou pela primeira vez e eu fui no shopping e comprei todas as revistas que encontrei – a maioria das quais eu não conhecia – vi como todas elas reclamavam sobre Trump e que desastre ele é. Ninguém na história dos EUA foi mais odiado que Trump, especialmente em Hollywood e na mídia liberal. Acredito que no Brasil, o presidente Bolsonaro ocupa o mesmo lugar de afeição dentro dos liberais e dos progressistas.

Além disso, nas eleições para o Congresso de 2018, houve uma tremenda reação contra Trump e os republicanos, com os democratas conquistando o controle do Congresso e com muitas mulheres progressistas, pessoas de cor, gays e outras minorias vencendo contra homens brancos conservadores. O mundo inteiro está desconstruindo as tendências de voto. Espero que tudo isso continue nessa direção.

Você considera casual que, nos filmes de catástrofes, aventuras e super-heróis, de maneira recorrente, a resolução do conflito esteja nas mãos de personagens patriarcais, um pater familias provido de super poderes? Até que ponto isso influencia os padrões de conduta social e política?

DK: O filme de Hollywood cria desejos em massa de um salvador, então é claro que o povo americano adoraria um salvador de Trump, que o Brasil correria atrás de alguém como Bolsonaro. Bernie Sanders foi visto como um salvador por muitos e outros políticos são adorados. Com Joe Biden, ele é visto como seguro e confiável, tendo sido vice-presidente admiravelmente de Obama e senador por décadas. Não acho que ele seja visto como um salvador, mas como uma alternativa sólida a Trump, embora ninguém saiba o que acontecerá nas eleições em tempos tão perigosos.

Você acha que os filmes também são produções culturais que atendem às necessidades históricas de dominação, como a dominação de gênero?

DK: Os filmes de Hollywood durante décadas no período clássico serviram aos interesses de dominação de classe, gênero e raça e promoveram o classismo, o sexismo, o patriarcado e o racismo, mas desde a época da New Hollywood na década de 1960 até o presente, filme de Hollywood tem sido um terreno ambíguo. Com alguns filmes promovendo racismo, sexismo e classismo e outros filmes com representações mais progressistas de pessoas que trabalham, pessoas de cor, gays e lésbicas etc. Eu acho que haverá intervenções progressivas em todos os modos de política e cultura, exceto nos EUA. A cultura e a sociedade continuarão a ser um terreno ambíguo, cheio de contradições, por isso é impossível prever em que direção as coisas serão.

Até que ponto podemos responsabilizar a mídia por sufocar os debates sobre os sistemas públicos de saúde e pela demonização das políticas públicas que hoje deixaram os estados indefesos a enfrentar grandes tragédias sociais como a de Covid-19?

DK: Nos Estados Unidos, a grande mídia é a mídia corporativa, de propriedade de corporações gigantes. Naturalmente, eles são defensores da “livre empresa” (ou seja, capitalismo irrestrito), portanto não promovem a medicina socializada. E isto se repete no mundo todo. Quando Bernie Sanders promoveu assistência médica, educação e proteção gratuitas para trabalhadores, financiadas pelo governo, ele foi atacado ou ignorado pela maioria da mídia. É possível, no entanto, que a extensão da pandemia de Covid-19 force o governo a assumir a responsabilidade pelos cuidados de saúde, como no Canadá e na maioria dos países europeus, simplesmente como uma necessidade para o povo dos EUA sobreviver à pandemia.

Até que ponto a ideia de um super-herói clássico em Hollywood destruiu iniciativas de organização coletiva na sociedade de consumo contemporânea? Como a pandemia pode reverter essa lógica?

DK: Classicamente, o super-herói de Hollywood salva as pessoas do mal e é uma figura conservadora, protegendo o sistema contra seus inimigos. Algumas pessoas enxergaram Obama como um super-herói que resolveria os problemas dos EUA e ele simplesmente não podia por causa da oposição republicana no Congresso e em um país dividido. Trump se apresentou como um super-herói que poderia resolver todos os problemas: “Só eu posso te salvar”, ele proclamou. No entanto, a pandemia do Covid-19 mostra que ele é um perigo e incompetente, que não agiu decisivamente contra o vírus e que não tem solução para sair do controle. Portanto, a pandemia pode destruir as alegações de Trump de que ele é um super-herói, mas haverá outras quando Trump for destruído, já que o super-herói é fundamental para a ideologia política de Hollywood / EUA.

Há uma ideia de que hoje o acesso à informação é mais democrático. Mas é paradoxal que os proprietários das plataformas onde quase todas as informações circulam (Instagram, Twitter, Facebook, YouTube, Google) possam ser contados com os dedos de uma mão. É uma “democracia” encapsulada dentro de um monopólio da informação. Como enxerga essa situação?

DK: Democracia significa governo de, para e pelo povo. As chamadas mídias sociais dão a ilusão de democracia, mas, como você observa, elas pertencem a empresas gigantes que não são regulamentadas e têm seus próprios interesses e agenda. As pessoas podem usar essas mídias sociais para expressão democrática, mas, como mostra Trump, elas podem ser usadas para fins autoritários (isso provavelmente também é verdade no Brasil e em muitas partes do mundo).

Quanto você acha que precisamos incorporar o fenômeno “firehosing” (estratégia de divulgação de fake news em massa para atacar o adversário político) na análise da comunicação de massa, considerando que essa estratégia é amplamente usada hoje em dia por governos como Donald Trump, Jair Bolsonaro, etc.?

DK: É essencial defender a verdade e atacar o “firehosing”. O Washington Post dedica uma coluna diária para documentar as “Fake News” lançadas desde a equipe de comunicação de Donald Trump. É especialmente importante defender a verdade e atacar as mentiras em uma época em que políticos como Trump e Bolsonaro são mentirosos sem vergonha.

Vários problemas causados ​​pelo coronavírus atualmente (como quarentena e invisibilidade da doença) acionam o conteúdo de programas de TV e rádio. Hoje ainda existem poetas e escritores produzindo textos da pandemia. Diz-se que a doença popularizou o debate sobre a estrutura desigual da nossa sociedade. Que apropriação política poderíamos fazer dessa situação?

DK: Cabe aos poetas, escritores e artistas engajar nossas múltiplas crises hoje em seus próprios meios de comunicação e para críticos como nós engajar esse trabalho crítico. É irônico, mas nunca antes as pessoas tiveram mais tempo livre para ler e produzir textos críticos, grandes obras de literatura e discutir ideias, como estamos fazendo agora. Devemos usar esse período histórico de forma produtiva.

Você já escreveu que, na era do tecnocapitalismo, as pessoas são submetidas a um fluxo de informações sem precedentes. A era das redes sociais evidentemente aumentou esse fluxo, e a quarentena fez ainda mais. Até que ponto você estaria interessado em considerar a neurociência como uma ferramenta de estudo cada vez mais importante para estudar o “espectador” da cultura da informação e da mídia na era pós-coronavírus.

DK: Eu não sou especialista em neurociência, mas diria que precisamos estudar como o tecnocapitalismo está reagindo e se modificando nossa realidade, assim como o estado, a cultura, a religião e tudo mais. Estamos em uma época histórica que requer a renovação da teoria crítica e de novas respostas críticas, bem como artísticas, à nossa crise atual. Espero que nossa discussão tenha contribuído para o diálogo crítico sobre a pandemia.

O impeachment depende da união da esquerda e da direita democrática. Entrevista com Juliana Cardoso.

O impeachment depende da união da esquerda e da direita democrática. Entrevista com Juliana Cardoso.

Arte: Cris Vector / Design Ativista

Desde a chegada ao país, São Paulo tornou-se o epicentro da pandemia por coronavírus no Brasil. E assim como aconteceu e ainda acontece na cidade de Nova York, são os setores populares quem mais se expõem ao contágio e os que mais têm dificuldades para obter um atendimento rápido e eficiente em qualquer unidade de saúde. A falta de iniciativas para investir na área, afirmada no discurso neoliberal de menosprezo pelas políticas públicas e sociais, repercute hoje como uma alarmante falta de infraestrutura para conter as consequências da Covid-19 numa sociedade com tão alta densidade populacional.

Particularmente na metrópole, a última região a registrar caso confirmado de coronavírus foi a zona leste. Hoje, é a região com mais número de mortes da cidade. Juliana Cardoso, que está no seu terceiro mandato e é a única mulher da bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo, de origem indígena e criada na periferia, responde a vários questionamentos sobre a situação da pandemia na cidade e no estado.

Quais medidas poderiam ser implementadas para fazer frente ao aumento no número de casos de violência doméstica? E com quais recursos?

Primeiro, é preciso dizer que a questão do aumento da violência doméstica não deveria ser uma surpresa para qualquer governo, uma vez que foi amplamente noticiado o aumento da violência doméstica nos países que entraram em quarentena antes de nós. Foi assim na Itália, foi assim na China, na França, Espanha etc

A problemática da violência também foi abordada num documento da ONU Mulheres que teve ampla repercussão no Brasil. Nesse documento, já se sinalizava para o fato de que a violência doméstica aumentaria, mas que as mulheres, em razão do isolamento, teriam dificuldade de acessar os serviços. E que os governos deveriam se preparar para isso, investindo fortemente em campanhas, mantendo os serviços funcionando e fortalecendo os grupos de mulheres que trabalham com as mulheres, aumentando número de vagas de abrigamento, dentre outras recomendações.

Nada disso foi feito, exceto pela manutenção da continuidade da prestação dos serviços que atendem as mulheres e muito mais baseado no compromisso das trabalhadoras desses serviços, do que pelo apoio das secretarias. Há duas semanas, as trabalhadoras dos CDCMS (Centros de Defesa e Convivências das Mulheres ligados a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social), divulgaram uma nota em que denunciavam ameaças de corte nos salários e férias em razão do teletrabalho ou regime de rodízio adotados pelos serviços. Isso é sério! As técnicas estão bancando seus EPIs e sendo pressionadas a produzirem relatórios diários ao invés de poderem se concentrar na proposição de soluções para a questão do acesso das mulheres ao serviço.

E isso não sou eu quem está falando. O Ministério Público alertou a Prefeitura com uma série de recomendações administrativas, partindo do fato de que até o presente momento, não há diretrizes técnicas e outras normatizações específicas ao atendimento a ser prestado às mulheres em situação de violência, informações sobre os serviços são de difíceis localização no site da prefeitura, não existem campanhas de sensibilização sobre a temática para a sociedade, informando sobre os serviços, por exemplo.

E isso é algo que pautamos desde há pelo menos 40 dias, desde o início da pandemia, e só agora (dia 29 de abril) é que a CMSP aprovou uma série de iniciativas, dentre elas a questão da campanha e da ampliação das vagas em abrigos, por meio da contratação de vagas em hotéis.

Na minha visão, isso mostra que o tema da violência das mulheres não têm recebido a atenção que merece. Por isso, nosso mandato atuou muito para que a CPI da violência contra as mulheres, instaurada pouco antes de entrarmos em quarentena, fosse retomada para que pudesse ser um espaço para avaliação das ações, articulação de ações, enfim, melhoria dos serviços prestados. Isso porque a violência contra as mulheres não têm recebido a atenção que ela merece.

Por fim, ouvir e fortalecer as redes de enfrentamento à violência contra as mulheres na cidade, desburocratizar os fluxos de abrigamento, criando uma central única de vagas, garantindo a transparência e o encaminhamento imediato das mulheres em risco de morte, e dar condições de trabalho às trabalhadoras não tem grandes custos e são demandas históricas que o movimento de mulheres e especialistas têm apresentado ao poder público. 

A que poderíamos atribuir o fato da Covid-19 ter tido uma incidência tão grande no estado e na cidade de SP?

A cidade de São Paulo é o centro nervoso e financeiro do Brasil. Além de ser a cidade mais globalizada se constitui em pólo econômico. Aqui foi registrado o primeiro caso de contaminação, importado da Itália em 25 de fevereiro. Quer dizer, inicialmente o Covid 19 afetou a elite que viaja ao exterior. Esse paciente foi tratado num hospital de elite que é o Albert Einstein. Mas rapidamente, sobretudo desde abril, a doença se alastrou. Hoje as contaminações são as comunitárias e estão chegando com intensidade aos bairros de periferia. Em termos absolutos a cidade, pela sua densidade populacional, é a mais afetada. A região metropolitana de São Paulo já teve metade dos casos do Brasil e agora registra um terço. Essa é uma tendência, um retrato muito instantâneo dos efeitos na região, mas o fluxo está se espalhando pelas cidades do país.

Temos registros para avaliar a incidência da doença segundo a classe social da pessoa infectada? Poderíamos dizer que a pandemia repercute mais em setores sociais marginalizados? 

Com sua grandiosidade a cidade de São Paulo também é a que tem os maiores contrastes sociais. Apesar de atingir a todos, a doença tem efeitos diferentes nas classes sociais. Nem todos são iguais perante o coronavírus. A maioria de pessoas infectadas se concentra na zona oeste da cidade, mas os óbitos estão nas periferias. Das mortes registradas até 27 de abril nos 96 distritos da cidade, os 10 primeiros são de bairros da periferia. Se por um lado o Morumbi tem mais casos de pessoas infectadas, ele tem menos óbitos em comparação a Brasilândia com menos pessoas infectadas e que registra mais mortes. A pandemia tem repercussões diferentes. Nos bairros mais ricos as pessoas têm acesso rápido a hospitais, já os moradores da periferia enfrentam enormes problemas para receber atendimento. Está evidente que tem maior impacto na população mais empobrecida. Além das dificuldades até físicas para cumprir a quarentena nas favelas, o fator de contaminação é maior nessas comunidades com imóveis adensados e cômodos apertados.  E não há do governo do Estado e da prefeitura um plano de contingência para atender essas comunidades. E também porque são pessoas fragilizadas pelas suas condições socioeconômicas, pelas moradias precárias e por isso mais suscetíveis a contrair o coronavírus.

Em que condições de segurança estão trabalhando os agentes do estado e do município, tantos nas áreas da saúde, segurança, assistência social, etc?

Desde o começo da pandemia o mandato tem recebido constantes denúncias de falta de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e até de materiais inadequados para o trabalho para oferecer segurança aos profissionais de saúde e de outros serviços essenciais. As queixas são de falta de máscaras, aventais, toucas, etc. Até 27 de abril havia 713 agentes de saúde com Covid-19. E 18 profissionais da rede municipal de saúde foram a óbito, além de outros dois casos suspeitos na Assistência Social. No Hospital Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, zona leste, o Sindsep (Sindicato dos Servidores) junto com os funcionários já realizaram atos de protesto por falta de equipamentos. Em outros hospitais municipais também houve protestos como no Hospital do Campo Limpo e de Pirituba. Essa é uma dura realidade que temos denunciado, inclusive de sepultadores que, no início, trabalhavam sem proteção com enterros de pessoas sem causa de morte conhecida ora por falta de testes ora por exames à espera de resultados.  E as respostas protocolares da prefeitura são de que não há falta de EPIs. 

Você apresentou vários projetos de lei com medidas a serem tomadas durante a pandemia. Quais políticas públicas poderiam e deveriam ser implementadas com urgência?

São nos momentos de crise que os segmentos mais vulneráveis da sociedade precisam de proteção. Por isso apresentamos em março projeto de lei que autoriza a prefeitura a estabelecer ações práticas para minimizar os efeitos dessa pandemia. Para além das medidas administrativas e clínicas é necessário também ações efetivas do poder executivo. Uma delas isenta durante a quarentena mutuários dos programas habitacionais de baixa renda do Programa Minha Casa Minha Vida e programas da COHAB. O projeto também autoriza a Prefeitura a comprar e distribuir álcool em gel para a população de baixa renda e com alto índice de vulnerabilidade como os moradores em situação de rua. E estende para receberem a todos funcionários públicos.

Além dessas ações concretas, que não forma acolhidas, estamos dialogando na Câmara para apresentar moção ao Congresso Nacional para revogar a EC 95 que limita os investimentos na saúde até 2036 e já tirou R$ 22 bilhões da saúde pública. Também estamos dialogando para ampliar os leitos para atendimento dos pacientes, adaptando espaços municipais e cobrando a reabertura do Hospital Sorocabana, na Lapa. Não são apenas gestos de solidariedade, mas ações efetivas para superarmos esse difícil cenário.

Além disso, hoje estamos propondo a criação de centros de isolamento voluntários, principalmente próximos das comunidades, para receberem pessoas com Covid-19 para cumprir o ciclo de 14 dias, que não apresentam sintomas, mas que são transmissoras da doença. Essas pessoas, por causa das precárias condições de moradias, não têm como se manterem isoladas de seus familiares. É claro que isso deve ser precedido de testes em massa.

Também temos outro problema grave. Na cidade temos hoje (28 de abril) 340 pessoas em leitos de UTI, ocupando 72% deles. Logo, em 10 dias, vão faltar leitos. Por isso, é necessário que se adote fila única requisitando leitos de UTI de hospitais privados.

Que iniciativas o governo municipal está implementando para proteger os trabalhadores da cultura?

Com a interrupção de todas as atividades culturais (fechamento de salas de cinema, suspensão de shows e peças, fechamento de museus etc.) o setor necessita de medidas concretas para sobreviver ao período da pandemia. A área já se encontrava num cenário comprometida desde a posse do governo federal em 2019. No mundo inteiro a cultura é responsável por 30 milhões de empregos. E o impacto com a pandemia é o aumento do desemprego. O setor precisa de linhas de crédito e incentivos fiscais para empresas e produtores culturais.  Por essas razões nosso mandato apresentou projeto de lei autorizando a Secretaria Municipal de Cultura a implementar e divulgar apresentações artísticas com transmissões em vídeos com artes cênicas (circo, teatro, dança e ópera) e músicas de vários gêneros e estilos. Podem ser produções próprias ou com participação da secretaria. As gravações em vídeo serão selecionadas pela Secretaria para postagem na plataforma Youtube. As produções não podem ter cunho racista, xenófobo, sexista ou qualquer outra forma de preconceito ou estímulo à violência. Estamos atravessando um momento muito delicado. Estamos em isolamento social e isso significa que a vida das pessoas é prioridade. E a arte e a cultura podem e muito auxiliar para atravessarmos essa crise.

Enquanto atrapalha na crise o governo federal e as atitudes do presidente Jair Bolsonaro?

São flagrantes e beiram à insanidade as atitudes de desmobilização contra o isolamento social do presidente. Aproveito para fazer algumas ressalvas. Até 28 de abril o Brasil tinha 71.886 casos confirmados de Covid-19, mas esse número está subestimado, pois há subnotificação. E registrava 5.017 mortes confirmadas em todo território nacional. E fontes confiáveis projetam esse número cinco vezes maior. Nesse período o Brasil também registrou, por exemplo, aumento de 2.500% de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave. No Brasil o número de casos está dobrando a cada cinco dias, quando nos EUA leva seis dias e na Itália e Espanha são oito. E o que vemos. Não há uma estratégia do governo federal para o combate à pandemia. Antes com o ministro Mandetta o apelo contínuo era pelo isolamento social, necessário por sinal, mas com o presidente Bolsonaro indo na contramão da quarentena, politizando a questão e se blindando e se eximindo do seu fracasso econômico que vem antes da pandemia com altas taxas de desemprego e índices irrisórios de crescimento.

Agora, com o novo ministro Teich, o papel do governo federal é de mero repassador de equipamentos e de insumos com promessas não factíveis. Ele prometeu 46 milhões de testes rápidos. Mas, só entregou até o momento 2,3 milhões. Ele prometeu 13.660 respiradores hospitalares, mas só repassou apenas 272, ou seja só 2%. E por aí vai. Na realidade, esse ministro que repete a todo momento que a “curva brasileira está perfomada” está mais preocupado em descobrir uma fórmula matemática nas estatísticas da pandemia para justificar sair da quarentena. Olhe com tristeza o que ocorre em Manaus ou na cidade de Duque de Caxias com o colapso do sistema de saúde e funerário. E onde está o socorro do governo federal? O vice Mourão teve que ir lá em Manaus, mas e a ajuda federal? E o Bolsonaro, calcado em estudos científicos de quem acredita na Terra Plana, toma atitudes contrárias ao distanciamento social. E agora está preocupado com a fome e o desemprego. É muita desfaçatez de um governo que propôs somente 200 reais de auxílio emergencial e com os 600 reais aprovados pelo Congresso agora se apodera dessa medida como se fosse sua. Um governo que autorizou os cortes de salários e que primeiro foi socorrer o sistema financeiro.

Qual é a possibilidade real de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro?

Apesar dele ter a Rede Globo como oposição e ainda reforçada pela saída do ministro Moro do governo, apesar de ter cometido inúmeros crimes de responsabilidade, apesar da Câmara Federal ter recebido 29 pedidos de impeachmeant, apesar das investidas a favor da ditadura e ilegais nas mídias sociais contra o Congresso e o STF, o impedimento de Bolsonaro requer outras condições para se tornar realidade. É necessária uma construção política ampla para isso e é preciso superar certos obstáculos.

Bolsonaro está mostrando que além da sua caneta o cofre funciona no acordo com o chamado Centrão. Ele conta com grande respaldo dos militares que ocupam áreas estratégicas do seu governo. Tem apoio das Redes Record, SBT e Bandeirantes. E além da extrema direita raivosa que vai às ruas tem fiéis seguidores, sobretudo entre os evangélicos, nas mídias sociais e que lhe conferem 33% de aprovação segundo o Data Folha, apesar de todas as suas maldades. Mas esse cenário pode mudar sim. Uma deposição depende da capacidade das esquerdas e da direita democrática de sensibilizar essa parte da população que lhe apoia. Diante desse quadro, com o afastamento via Congresso hoje difícil, a saída é pelas ruas, pelas mobilizações populares. Apesar da luta popular nas ruas estar inviabilizada pela pandemia, por motivos óbvios, o estopim está no ar. As panelas estão repicando a insatisfação, principalmente da classe média. Se Bolsonaro tem na Covid 19 aliada momentânea que impede manifestações, essa também pode se voltar contra ele, caso a catástrofe seja enorme.

O sentir da periferia. Entrevista com David Miranda

O sentir da periferia. Entrevista com David Miranda

Arte: Cris Vector / Design Ativista

Por Juan Manuel P. Dominguez e Uesley Durães

Em tempos de pandemia, quando as opções de sobrevivência são menores e as vulnerabilidades se somam, ter referências de vidas que emergiram de cenários adversos é essencial. Uma dessas histórias é a do David Miranda, hoje deputado federal (PSOL-RJ), que já passou por situações de vulnerabilidade e marginalidade social extrema. Desde cedo, o amor foi um fator transformador na sua vida, passando pelo exemplo da sua tia, até o seu companheiro, com quem é casado há 15 anos e com quem constituíram uma família.

David Miranda é o mais novo dos sete filhos de Sonia, uma mãe solo que trabalhou como prostituta para sustentar sua família, e que acabou morrendo vítima de um tumor gerado no útero. A morte foi consequência da violência obstétrica sofrida durante o parto de um bebê que anos mais tarde se tornaria deputado federal. O pequeno David perdeu sua mãe com apenas 5 anos de idade, além disso nunca conheceu seu pai e nem os pais dos seus irmãos.

Após ficar órfão, o menino foi acolhido pela sua tia Eliane, irmã da sua mãe, que teve quatro filhos e acabara de perder o marido. Já seus irmãos tiveram outros destinos, alguns foram parar na Fundação Casa, outros simplesmente sumiram. Na infância foi da tia Eliane o papel de estimular o jovem David à leitura e a buscar nos livros uma saída para as dificuldades, e fugir dos caminhos em torno da criminalidade.

Ainda na juventude, o atual deputado federal trabalhou como engraxate, entregador de panfleto, faxineiro, office boy e atendente de telemarketing para se manter, mas em tempos conturbados chegou a dormir na rua. Nessas idas e vindas da vida, David conseguiu abrigo com alguns primos que moravam em outra região do Rio de Janeiro e decidiu voltar a estudar após um tempo parado por conta de suas ocupações para sobreviver.

Após conhecer o seu companheiro, com quem hoje é casado, David decidiu começar a estudar Marketing e Publicidade. Agora estudando, e ainda trabalhando como telefonista, o jovem traçou o objetivo de ajudar Glenn de alguma forma na sua carreira como jornalista. Em 2016, concluídos os estudos e acumuladas as experiências, David decidiu se candidatar a vereador do Rio de Janeiro. Com sua vivência diretamente ligada a realidade do Rio, o fruto da favela Jacarezinho conseguiu se eleger.

Durante sua atuação como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, David conheceu Marielle Franco, de quem se tornou um grande amigo e colega. Ambos representantes LGBTQI+, negros e vindos de favela logo se identificaram com as mesmas lutas. A morte da amiga é definido por David como um dos piores dias da sua vida.

Na capital carioca, em dois anos de mandato como vereador, David teve mais de 15 projetos e proposições aprovadas, entre as quais se destacam a que garante o direito ao uso do nome social nas instituições públicas por travestis, mulheres e homens transexuais; e projeto que determina prioridade ao pagamento dos servidores da Prefeitura, impedindo o congelamento ou parcelamento da remuneração ou, ainda, que outra despesa municipal seja paga antes do trabalhador. Projeto com o mesmo teor foi apresentado, posteriormente, na Câmara dos Deputados.

Após o seu colega de partido Jean Wyllys desistir do seu mandato de deputado federal, David foi empossado em 2019 por ser seu suplente. Já na Câmara Federal, o seu primeiro projeto de lei determina medidas protetivas para a população LGBTI, relacionadas à Lei Maria da Penha, com mecanismos para proteger pessoas em situação de violência. A medida apresenta também uma proposta que determina quais órgãos públicos devem afixar placas do Disque 100, para denúncias de violência especializadas em raça e etnia. O deputado também propôs o projeto que cria ações para combater o suicídio e o sofrimento psíquico de profissionais da segurança pública, como os policiais.

Como é a vida de uma criança órfã numa favela?

É muito comum nas favelas e periferias ter uma quantidade enorme de crianças que ficam órfãs muito cedo. No meu caso, eu tive a família da minha mãe, pude ter apoio emocional e estrutural. Minha tia que virou minha mãe, minhas primas e meus primos, então assim, é uma situação difícil, mas eu ainda tive muita sorte por ter essa família que me deu muita base.

Quanto pesam as vivências da sua infância e adolescência no seu presente como parlamentar?

A minha juventude e a minha infância pesam muito, porque hoje em dia eu quero fazer um trabalho para essas pessoas. Eu faço um trabalho no intuito de ajudar essas pessoas o tempo todo. Então é muito gratificante poder trabalhar para as pessoas que eu represento e uma camada da população que eu fui e sou dentro da sociedade. Minha família ainda mora nas favelas, os meus amigos ainda moram nas favelas, a comunidade negra continua sendo a que mais morre. Ser LGBT, representar a minha família e com todos esses fatores desse lugar onde eu tô é muito importante. A minha juventude e a minha Infância tem um papel primordial no que eu faço hoje com a política na minha vida.

Quão importantes são as políticas de defesa dos direitos humanos para quem mora na periferia?

São de extrema importância. Eu escutei uma frase de uma mãe dizendo isso: que só vai entender o que é direito e o que é um juiz, quando tá de frente com o juiz nos juizados. Então os direitos humanos são de extrema importância para a gente conseguir ter no mínimo uma justiça social para esses locais, porque falta saneamento básico, água, educação, saúde, segurança, lazer, falta tudo nesses locais, nas favelas, nas periferias. Os direitos humanos são essenciais para a política das periferias e das favelas.

Nas periferias do Brasil existe a presença incisiva do crime e da violência policial e pouco é feito pelo Estado para combater isso. Como foi para você, um jovem favelado, ter tido esse contato tão cedo com esses fatores?

É muito difícil. O primeiro corpo morto que eu vi eu tinha 8 anos de idade, saindo de casa para ir para escola. A violência policial nesses lugares é massiva. Existe a criminalidade, que é um fruto das periferias e de um caps social e econômico que é fruto do capitalismo, mas ao mesmo tempo a violência estrutural do Estado com as periferias e favelas é um fator decisivo político que é tomado pelos governos que a gente tem. No entanto, até agora os dados mostram que com a quarentena muito menos pessoas estão morrendo por causa das operações policiais. A gente precisa ter mais inteligência na polícia, menos operação e menos bala nas favelas. Isso me afetou muito, porque hoje eu quero fazer um trabalho em prol das favelas, como eu venho fazendo desde sempre, porque eu vivo essa realidade ainda. Por mais que eu não esteja morando numa favela agora, minha família mora, minha mãe mora, minhas sobrinhas moram, meus irmãos, todos eles moram. Então eu vejo no WhatsApp, vejo em todas as situações quando acontece algum tipo de crime. Quando tem operação eu fico com coração apertado, porque pode ser um sobrinho meu que pode ser assassinado, pode ser uma sobrinha minha, pode ser minha mãe tomando um tiro perdido. É muito complicada essa situação da violência policial. Por isso que eu trabalho bastante. Inclusive pelos policiais, fazendo projeto anti suicídio, conseguindo verba para polícia civil carioca, para assim poder investir mais em inteligência do que investir em aparato policial e em operações na favela. Com inteligência você consegue combater muito mais crime o organizado do que com um aparato violento do Estado.

Como você se sente quando um governador como Wilson Witzel é eleito e chega com um discurso de institucionalização da violência policial nas periferias?

É uma tristeza muito grande quando a população se volta para um discurso populista e que minimiza os fatos do grande problema social e econômico que nós temos. Falando que bandido bom é bandido morto, o Witsel surfa nessa onda do bolsonarismo, que é de extrema direita e vem ganhando espaço aqui no Brasil e no mundo inteiro. Essa onda é muito perigosa para humanidade, mas ao mesmo tempo é uma resposta ao progresso que o mundo vem vivendo nesses últimos tempos. Em questões de abrir os olhos da população sobre questões de gênero, raça, sexualidade, xenofobia e muitos outros. A qualidade social e econômica vem sendo debatida cada vez mais em filmes, revistas, jornais, e isso faz com que um conservadorismo extremo seja utilizado como massa de manobra para manter o poder daqueles que sempre estiveram no poder. Então, o extremismo chega para ser fator decisivo. E não vamos nos enganar, porque o fator que traz o extremismo de direita vem contemplado com fatores econômicos fundados por bases muito retrógradas, com líderes religiosos e grandes empresários. É isso que faz uma boa combinação para a extrema direita se manter no poder. É muito complicado quando a gente tem um governador desse no estado do Rio de Janeiro, assim também como um presidente.

Quão necessárias são para as pessoas marginalizadas as políticas de contenção e assistência social (políticas de cotas raciais, de gênero, bolsa família, etc)?

São de extrema importância. A cota racial, de gênero e Bolsa Família são essenciais. Hoje o mundo inteiro está debatendo sobre uma renda emergencial para a população. Esse debate deve continuar lá na frente para aquecer a economia. Para fazer uma distribuição mais igualitária. Eu acho que o mundo vai passar por uma revisão de valores, que é importante para entender onde a gente tá agora, porque tá muito clara a divisão econômica e social do mundo inteiro, e principalmente no Brasil. Essas medidas são extremamente necessárias e eficientes também. As cotas raciais provaram muito isso, só que elas ainda não são suficientes. O Estado precisa ter mais poder para dialogar diretamente com o setor privado e o terceiro setor, para que isso seja um acúmulo cada vez maior e a gente poder ter uma sociedade mais contemplada em todos os sentidos, com menos desigualdade econômica e social.

Quanto mudou sua vida a presença do Glenn Greenwald? Você vê o amor como uma potência transformadora?

A gente se conheceu quando eu tinha 19 anos. Oito meses depois o Glenn começou a escrever, ele sempre queria escrever, e ele se transformou num dos maiores jornalistas do mundo. Referência para vários intelectuais, que é difícil até de citar. E sim, o amor é uma das maiores potências. Faz você se transformar. Você olha para pessoa que está do lado e você quer ser uma pessoa que dá suporte, que vai sonhar junto, que vai caminhar junto, que vai fazer milhares de coisas juntos. Então o amor transforma porque existe cumplicidade e carinho. Existe toda uma base que se estrutura para você se transformar em várias coisas diferentes. Sem sombra de dúvida, um dos fatores que mudou bastante minha vida foi quando a gente se conheceu, há mais de 15 anos, e desde então a gente continua junto até hoje.

Neste ano de 2020 completam dois anos da morte de quem foi uma grande amiga e colega sua. De que forma a Marielle seria importante nesse momento tão delicado da política e da saúde no Brasil?

A Marielle estaria lutando em todas as fronteiras. Dando discursos, fazendo lives, fazendo política para população periférica, da favela, mas para a população carioca e brasileira também. Ela seria uma grande voz a se somar com a gente. Faz mais de vinte e cinco meses que a gente pergunta quem mandou matar, e temos suspeitas e tudo mais, mas Marielle estaria fazendo um grande trabalho. Ainda mais agora nessa situação política caótica que a gente tá vivendo.

Ultimamente, além da covid-19 e do processo de impeachment contra Jair Bolsonaro, o que também tem mexido com os sentimentos e emoções do brasileiro é o Big Brother Brasil. Você inclusive se posiciona constantemente nas suas redes sociais sobre o reality. Fato é que o BBB tem obtido audiências impressionantes, segundo o IBOPE a produção da Rede Globo desbancou as outras emissoras com média de 30 pontos na preferência dos brasileiros. Nas redes sociais acontece o mesmo, o assunto está sempre no topo dos mais comentados. Como um programa como esse pode servir para reflexão política e social sobre o comportamento do brasileiro?

O Big Brother é um espelho de vários cortes da sociedade, apesar de não acompanhar pela televisão, acompanho pelas redes sociais. Nós tivemos e ainda estamos tendo no programa deste ano, muitos debates sobre racismo, racismo estrutural, gênero, identidade de gênero, LGBTfobia, machismo, que foi uma das pautas fortes. Tivemos vários debates influenciando a sociedade. E o corte que é feito, eu não sei como a Rede Globo faz, mas tem um corte ali que você vê várias pessoas do país e de várias áreas diferentes, de situações econômicas ou não. Isso dá um grande impacto para a população. Eu acho que ver isso, e entender a reação das pessoas, é um prato cheio para todos os sociólogos e antropólogos para analisar a situação atual que a gente vive no Brasil e no mundo. O Big Brother mostra muitas classes diferentes, várias tribos diferentes. Assistir o programa não quer dizer que você tá assistindo totalmente a população brasileira, mas dá uma mostra do que um pouco da sociedade brasileira é e pensa. Então é muito interessante olhar por esse aspecto o Big Brother Brasil nessa última temporada.

Os ataques do presidente contra a classe jornalística do país têm se intensificado. Seja descredibilizando ou fazendo “piadas” com temas sérios, ridicularizando os profissionais e incentivando seus apoiadores a fazer o mesmo. Agora, em um período crítico da saúde e com o país ainda mais dependente dos veículos de informação, os ataques persistem. Para você, que além de deputado federal é jornalista e companheiro de outro jornalista que já foi muitas vezes atacado pelo Bolsonaro, como enxerga todo esse cenário, existe perseguição a classe?

Obviamente! O Bolsonaro persegue a classe jornalística há muito tempo. Não é de hoje. Antes ele já agrediu jornalistas fisicamente os empurrando, ele já insultou jornalistas, ameaçou jornalistas, já assediou. Ele se sente ameaçado pela exposição do que ele representa. O jornalismo na sua melhor fase, ou jornalismo na sua essência, é mostrar o que os poderosos estão fazendo. O jornalismo investigativo é isso, é expor, mostrar e questionar tudo que o sistema está fazendo. Jornalistas que fazem isso são uma ameaça ao que o bolsonaro significa, que é o atraso, a ignorância. Então sem sombra de dúvida ele faz ataques porque a classe jornalística é uma ameaça ao seu posicionamento de vida e a quem ele é, uma farsa que ele sempre manteve. Ele é um péssimo político, um péssimo líder. Agora ele tá isolado e com certeza vai ser impeachmado

Como você imagina um Brasil no futuro, como você imagina o Brasil para os seus filhos?

É uma das razões para que eu ainda não tenha desistido da política. Porque eu acredito que a gente pode melhorar metendo a mão na massa e fazendo as pessoas terem mais conscientização. Hoje em dia eu tenho uma plataforma que me dá a possibilidade de dialogar no congresso com amplos setores da direita, do centro, da esquerda, com presidente da Câmara, presidente do senado, propor a sociedade civil, a unidade, um montão de coisas. Mas isso tudo sempre construído com uma base de carinho, de afeto, de escutar os profissionais, as pessoas que têm a vivência de situações que eu proponho lá. Eu acho que nós vamos sair da pandemia no Brasil mais fortalecidos como sociedade, porque estamos prestando mais atenção nos políticos. Não teremos um messias para nos salvar, entenderemos que os sistemas do Brasil, de saúde, de educação, tudo isso precisa ser público e fortalecido. Vai ter um entendimento de classe social mais amplo, vamos ter mais afeto uns pelos outros. Então eu acho que o Brasil pós pandemia vai ser um Brasil melhor. Eu vejo diferente do que Cazuza cantava, vejo o futuro repetir o passado, não, eu vejo um futuro diferente, eu vejo um futuro que, não só no Brasil mas no mundo inteiro, nós vamos ter mais consciência do próximo, do que o próximo sofre. Todos nós estamos sofrendo com isso, com medidas diferentes, mas o olhar ao próximo nesse período vai ser essencial. Eu acho que o mundo vai passar por uma transformação muito grande. Eu como otimista, penso por um lado muito positivo para toda a humanidade.

Marcelo Freixo: “Precisamos da esquerda unida para enfrentar o fascismo”

Marcelo Freixo: “Precisamos da esquerda unida para enfrentar o fascismo”

Em menos de 15 dias e no meio da crise de saúde provocada pela pandemia da Covid-19, o presidente Bolsonaro demitiu seu ministro de Saúde, fez parte de manifestações que violam o isolamento social e apoiam uma intervenção militar para instaurar uma ditadura, demitiu seu ministro de Justiça e quem mais lhe somava apoio popular, se alia com o “Centrão”, o pior e o mais corrupto do espectro político dentro do parlamento, se mostra favorável ao afastamento da recentemente nomeada secretária de cultura e debocha abertamente quando perguntado sobre o recorde de mortes que fez o Brasil ultrapassar a China em número de óbitos por causa do Coronavírus.

É simplesmente inconcebível que exista uma pior forma de ter exercido o cargo de presidente nas últimas duas semanas.  O jornalismo do mundo, por unanimidade, o considera o pior governante a tomar decisões ao respeito da pandemia.

Um dos líderes da oposição ao governo no parlamento, deputado federal Marcelo Freixo, responde sobre todas essa questões em entrevista exclusiva: 

O que resta do Bolsonarismo sem Sérgio Moro?

Olha, isso está muito recente. O Sérgio Moro saiu do governo agora e ainda será muito difícil avaliarmos o impacto que a sua saída terá dentro do governo do Bolsonaro. Sem dúvida alguma, ele já foi seu principal ministro e com uma popularidade muito maior que a do próprio Bolsonaro. O Brasil vive um momento muito complicado.

Hoje (nesta terça-feira, 28) o ministério da Saúde publicou números oficiais. 474 pessoas morreram por causa de Covid-19, um recorde desde que iniciou a pandemia aqui no país. Vamos ver ainda números muito impressionantes. E sem dúvidas o Bolsonaro está contando com essa crise para que o efeito da saída do Sérgio Moro seja menor, porque o assunto sobre Sérgio Moro não vai ficar tanto tempo nas mídias e na fala das pessoas, quanto ficaria se não fosse a pandemia. Ou seja, nós vamos voltar a falar sobre os brasileiros mortos, da crise nos hospitais, da crise da saúde. E Bolsonaro conta um pouco, com essa crise para que a sua crise política seja menor.

Então, vamos precisar de algum tempo para avaliar o impacto da saída de Sergio Moro do governo. Temos que ver o que ele vai fazer, se ele vai ampliar suas denúncias ao governo do Bolsonaro. O agir dele, de alguma forma vai definir o nível do desgaste do governo do Bolsonaro. O presidente, segundo algumas pesquisas, ainda conta com mais de 30% de um amplo apoio dos brasileiros, o que é muito impressionante, diante de tantos erros e tantos absurdos sendo feitos pelo presidente.

Hoje tu entrou com uma ação na justiça para anular a nomeação de Alexandre Ramagem como Diretor-Geral da Polícia Federal. Como está essa situação? 

Eu precisava esperar a nomeação do Ramagem para acionar uma anulação do ato. Então ele foi nomeado hoje e eu entrei com uma ação popular imediatamente. Agora temos que esperar a Justiça se manifestar. Porque no meu entendimento e no entendimento de outros parlamentares que assinaram comigo, não há a menor condição do Ramagem ser o novo chefe da Polícia Federal porque fere o princípio da impessoalidade. Ele tem relações próximas, íntimas, com os filhos do presidente, que são pessoas investigadas. Então, não cabe a um chefe da Polícia Federal ferir o princípio de impessoalidade na hora de ocupar um cargo público. Está na nossa Constituição Federal. Então, por isso eu entrei na Justiça.

Os filhos do presidente são pessoas investigadas por relações com milícias, pela organização de atos criminosos, como aqueles que pedem por um AI-5, pela propagação de Fake News. Existem muitas investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente que estão sendo investigadas. Então, o que o presidente quer é controlar a Polícia Federal, ter acesso aos inquéritos e interferir politicamente. Ele quer fazer com que a Polícia Federal seja uma polícia do presidente e não uma polícia do Brasil, o que é muito grave e se torna mais um passo no caminho do fascismo. O presidente está criando uma polícia para perseguir adversários políticos.

Você assinou o pedido de impeachment feito recentemente pelo PSOL?

Não assinei o pedido de impeachment porque acredito que o pedido tem que ser feito por toda a frente de esquerda. Ele tem que ser um pedido unificado entre toda a esquerda, coisa que não aconteceu ainda. Eu luto pela unidade, precisamos da esquerda unida para enfrentar o fascismo. Eu acho que a esquerda não tem que ficar competindo entre ela, acho que todos temos que ter maturidade e capacidade de união, ainda nesse processo de pedido de impeachment.

E o triste fato é que hoje não temos votos suficientes para levar em frente um impeachment. O Bolsonaro hoje tem mais de 200 deputados. A esquerda inteira, somada, tem 134. Então, considero que hoje é mais importante assinarmos todos juntos um impeachment, e não fazê-lo rápido. Eu estou tentando unificar o campo da esquerda e, sim, seria favorável a um impeachment com a condição de uma unidade política de todo o campo da esquerda. O PSL se dividiu, e uma parte majoritária ainda apoia o Bolsonaro. O PT e o PSDB estão conversando sobre o impeachment e ainda não se decidiram sobre isso. Mas infelizmente, reitero, o Bolsonaro tem mais de 200 deputados hoje. Se for aceito um pedido de impeachment hoje, a gente corre o risco de perder a votação e o Bolsonaro se fortalecer. E isso é algo que a gente não pode permitir.

Como vê essa aproximação do Bolsonaro com o Centrão?

É muito grave. Por isso ele tem mais de 200 deputados. Ele está exercendo a velha política. O Bolsonaro hoje faz com que deputados do Nordeste recebam cargos para assim ganhar seu apoio. E aí tem duas razões. Uma delas é tentar derrotar a esquerda no Nordeste e a outra é tentar criar uma base sólida do governo no Congresso Nacional para que ele consiga governar. Tanto uma coisa quanto a outra são muito ruins. Por isso eu insisto em um chamado para a unidade da esquerda nesse momento. Porque o Bolsonaro já conseguiu reunir junto com ele um número muito grande de deputados.

Bolsonaro negocia com o centrão uma indicação para presidente do ambicionado Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do Ministério da Educação cujo orçamento é de cerca de R$60 bilhões por ano. Como pensas que isso pode afetar nas políticas públicas de educação no país?

O governo Bolsonaro representa já em si uma tragédia para a educação, começando pelo seu ministro Weintraub, que é talvez o mais fanático de todos os ministros. Weintraub utiliza o ministério de forma clara como uma ferramenta de perseguição ideológica e política, além de ser uma pessoa muito incompetente. Nesse momento ele não adia a prova do ENEM, continua levando em frente, e faz crescer ainda toda a estrutura de perseguição aos professores que ele montou. Não há políticas claras para o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). Então, entregar o lugar onde se desenvolve a política nacional de educação nas mãos do centrão, em troca de apoio no congresso, em troca de poder, é mais um retrocesso muito profundo. Na área da educação eu acho que vamos ter talvez o maior prejuízo da época Bolsonarista por causa dessa iniciativa.

Hoje se soube que Bolsonaro seria favorável ao afastamento da Regina Duarte como secretária de cultura, somando mais uma situação de instabilidade no meio da pandemia. Existe um ponto de comparação na história do Brasil de um presidente tão irresponsável para exercer seu cargo em frente a uma crise?

Acredito que não, acho muito difícil a gente encontrar algo parecido na nossa história. O Brasil viveu 21 anos de uma ditadura civil militar muito violenta. Mas era um período ditatorial. A gente agora está num período democrático, as eleições estão garantidas, as instituições estão abertas e funcionando. Nós não podemos dizer que vivemos um período ditatorial mas podemos dizer que temos um presidente com vocação de ditador, mesmo tendo sido eleito em eleições democráticas.

Temos um presidente que defende a tortura, um presidente que apoia manifestações que pedem pelo fechamento do congresso, do STF, por um AI-5, que foi o período de maior violência de toda a ditadura. Então nós convivemos com uma contradição, que é ter um presidente ditador, eleito. Que governa na base da força, com um alto nível de violência verbal e tenta ser um ditador. Não houve na história do Brasil nada semelhante a isso. Nós já tivemos a ditadura e já tivemos a democracia com todas suas variáveis. Mas um presidente ditador na democracia é uma novidade para nossa história, e a gente vai ter que aprender a lidar com isso para derrotar Bolsonaro, e eu espero que isso seja quanto antes.

“É preciso derrotar Bolsonaro agora”. Entrevista com Fernanda Melchionna

“É preciso derrotar Bolsonaro agora”. Entrevista com Fernanda Melchionna

Imagem: Cris Vector / Design Ativista

Fernanda é deputada federal pelo PSOL do Rio Grande do Sul. Como deputada, ganhou, pelo voto do júri popular, o 18º lugar no Prêmio Congresso em Foco 2019, um dos prêmios mais tradicionais da imprensa brasileira. É natural de Alegrete (RS) e a primeira parlamentar bibliotecária da história da Câmara dos Deputados. Esteve como vereadora de Porto Alegre durante 10 anos.

Nesses dias a deputada, junto a Sâmia Bomfim, Luciana Genro, David Miranda, intelectuais, artistas, movimentos sociais e outras organizações políticas e civis, protocolaram um pedido de impeachment de caráter emergencial contra o presidente Jair Messias Bolsonaro. As atitudes do primeiro mandatário, sobretudo no que se refere ao tratamento da pandemia no país, são consideradas crimes de responsabilidade por amplos setores da população. Em entrevista, Fernanda amplia detalhes desta e outras ações de caráter urgente hoje no meio da crise de saúde que o país e o mundo estão vivendo.

Entrevista com Fernanda Melchionna

De entre todos os que já conhecemos, poderia descrever qual foi fato que acabou reunindo várias lideranças do PSOL no pedido do impeachment do presidente Bolsonaro?

Não é nenhuma novidade que o Bolsonaro cometeu inúmeros crimes de responsabilidade ao longo de 2019. Um governo claramente protofascista que tenta a todo momento restringir as liberdades democráticas dos trabalhadores e, enfim, do Brasil. Tenta romper as ideias centrais da Constituição Federal e ao mesmo tempo implementar medidas econômicas antipovo. Entretanto, em 2020, teve alguns fatos extremamente graves. Primeiro o tema da convocação da manifestação com caráter claramente golpista, para o dia 15 de março, que já foi um sinal de start, que nos deu razões para começar a pensar no impedimento como um horizonte a ser construído junto com as forças democráticas do nosso país. E depois quando já, na crise de pandemia, com a entrada do Covid-19 no Brasil, não só ele divulgou nas redes sociais essa manifestação, como pessoalmente teve lá, apertando a mão das pessoas, logo que ele esteve em uma comitiva com mais de 20 infectados,  descumprindo todas as medidas sanitárias. Então, embora seja o pior momento do Brasil, que nós enfrentamos um vírus desconhecido, com muitas mortes já, há muitos infectados e uma uma prospecção ainda muito grave, o desregulamento do Sistema Único de Saúde e de perda grande de renda de salário por parte da população. Talvez esse seja o momento mais adequado para afastar o presidente.

O presidente hoje acaba sendo quem mais atrapalha no combater à pandemia, descumprindo e mandando descumprir as orientações da Organização Mundial de Saúde. Atrapalha os esforços que precisam ser feitos nesse momento de unidade Nacional contra o inimigo número um que é a covid-19. Eu ainda não tenho dúvida que o inimigo número 2 no clube para enfrentar qualquer dia 19 é o Jair bolsonaro. Portanto é preciso construir uma derrota dele, neste momento, o que resultaria numa vitória para o povo brasileiro. E na verdade no pedido não são só várias lideranças do PSOL, mais intelectuais, artistas, lideranças de diferentes grupos para a defesa dos direitos humanos, dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, das lutas anti raciais, também o Vladimir Safatle, Rosana Pinheiro Machado, Débora Diniz,  artistas como o Gregório Duvivier, Felipe Neto, Henry bugalho. Acho que tem um leque de mais de 200 personalidades que são importantes e que mostra que existe um grande movimentos social e político em defesa do Brasil, e contra um psicopata e um criminoso que é o Bolsonaro 

Como funciona esse pedido de impeachment?

Ele é protocolado. Ele não foi arquivado pelo presidente, mas ele precisa ser aceito. Por isso é que nós começamos a campanha “Recebe Maia” no sentido de ele que receba esse pedido de impedimento, à luz do abaixo-assinado que reuniu um milhão de pessoas e que nós entregamos pessoalmente no protocolo, pedindo que seja incluso, para fortalecer uma luta. E para que de fato se inicie o processo. A gente sabe que no parlamento e nas instituições de uma forma geral, vale a correlação de força. Então estamos chamando as pessoas para se somar nos diferentes tipos de luta possíveis.

A luta nesse momento é uma luta com panelaços, é uma luta nas redes, porque nós não somos irresponsáveis como Bolsonaro para chamar para uma mobilização de rua. Mas essas outras formas de mobilização de auto-organização precisam se expressar, nos ajudando a viabilizar a perda de apoio que o Bolsonaro e o bolsonarismo,como conceito de política do ódio e do achismo estão tendo. Eu não tenho nenhuma dúvida de que se tivesse a possibilidade de ocorrer mobilização nas ruas, nós seríamos milhões de pessoas nas ruas do Brasil contra o Jair Messias Bolsonaro e em defesa da vida. Mas como nós não podemos, nós somos responsáveis, nessa situação política temos que fazer muitos panelaços, muitas mobilizações em rede, muito abaixo-assinado, sermos criativos e insistentes na crítica, além de nos proteger e proteger às nossas famílias. Temos que ser solidários com os vizinhos. Porque nesse momento também entra no debate se o que vem será a barbárie ou a humanidade.

O cidadão comum pode apoiar de alguma forma? Quais são as plataformas para acessar mais informação sobre o assunto?

Cidadão comum pode e deve ajudar muito esse processo. Nas nossas três páginas dos deputados federais que assinaram o pedido de impedimento nossa querida Sâmia Bonfim, nosso companheiro David Miranda, e a minha própria, claro, em todas as páginas têm um abaixo-assinado que pode ser assinado pelo pessoal e pode ser compartilhado via WhatsApp, via redes sociais. A minha página https://fernandapsol.com.br/forabolsonaro sai direto um abaixo-assinado e nessa plataforma pode ter informações sobre pedido de impedimento, sobre quais são os crimes de responsabilidade que nós estamos apontando. Quem assina, ao mesmo tempo, nos ajuda nessa mobilização virtual para fortalecer esse pedido e de fato conseguir barrar esse criminoso.

Qual é hoje a adesão real que existe na totalidade do parlamento para que esse projeto seja aprovado?

Está em aberto. Porque o próprio processo de impedimento de luta contra o Bolsonaro tá aberto e depende da nossa correlação de forças, dás possibilidade das forças democráticas pautar no horizonte uma alternativa no nosso país. Estamos tentando ir pelo  caminho que for mais rápido, e que permita de fato afastar esse criminoso, nesse momento. Porque  precisamos proteger o nosso povo, garantir uma renda básica, garantir o salário, garantir o emprego, ampliar o SUS, proteger os profissionais de saúde. E qualquer caminho para nós é válido. Mas nós precisávamos botar um horizonte, né, porque é fato que tem um setor que acha que o importante é esperar 2022, quando temos um governo que a cada dia pode fechar ainda mais as liberdades democráticas.

Nós achamos que o Bolsonaro atrapalha para combater o Covid-19 e que a esquerda não pode se prender no calendário eleitoral de 2022. A cada dia que esse psicopata segue governando, a nossa população corre muitos riscos, por isso é no momento mais difícil da nossa história, em que precisamos enfrentar um vírus como Covid-19, que é o momento mais necessário para intimar o Bolsonaro. Porque derrubar o bolsonaro significaria defender imediatamente um governo comandado pela ciência, para combater a pandemia, e depois da pandemia, novas eleições para que o povo seja chamado a participar.

Por que pensa que Bolsonaro se nega a tomar alguma medida de política pública para conter o sofrimento da população diante da crise causada pela pandemia? É uma questão de ideologia ou de interesses encontrados?

O Bolsonaro está preocupado é com a saúde dos mercados. É  uma questão de ideologia, ele é um negacionista, ele não acredita na ciência, ele é um obscurantista, um propagador de fake news como DNA do projeto político dele, dos filhos dele, e do Olavo de Carvalho, que é um pseudointelectual guru desse projeto político protofascista no Brasil. Mas também ele tá preocupado para que as pessoas voltem a trabalhar para salvar a saúde dos mercados, dos capitalistas, enfim não importa o custo de vidas que isso vai causar. Ele não só faz esse tipo de política no discurso, também tentou via Secretaria de Comunicação chamar uma carreata para o Brasil voltar a abrir os comércios, tentou produzir a campanha “O Brasil não pode parar”. Mas ele teve que voltar atrás porque era escandaloso, era contrário a todas as orientações da Organização Mundial de Saúde.

Quando ele desautoriza governadores e prefeitos que estão tomando as medidas sanitárias não é só que ele é um entrave, ele é alguém que trabalha contra a ordem e a saúde pública e atrapalha a rapidez que nós precisamos para fazer que menos vidas corram riscos. Veja, a Câmara aprovou há mais de 12 dias a renda básica, e 12 dias depois apareceu um site em que muitas pessoas não conseguiram se cadastrar, e ainda os pagamentos não foram liberados. Para fazer o isolamento a gente tem que dar condições para que o povo faça o isolamento.

Está acontecendo que a fome está aumentando no Brasil. Sempre contou com índices altos. Agora, com as crises recentes, com a desigualdade que produz uma agenda ultraliberal, tudo vai piorando. Já eram 13 milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria, tu imagina agora, com o grau de informalidade e precarização do trabalho que aumenta devido às políticas deste governo. Nesse cenário, eles seguram um benefício como a renda básica, aprovado rapidamente pela Câmara dos Deputados. Um horror.  Ele na verdade faz chantagem. Usa o estômago das pessoas e pede para elas voltar a trabalhar.

Como vê o cenário atual para reativar um projeto de lei de taxação das grandes fortunas?

Dentro do cenário atual, uma parte enorme dos defensores da agenda ultraliberal está dizendo que é importante abandonar suas ideias e entrar com políticas compensatórias, fundamentais nesse momento. Que é o tema da renda básica, que é o tema da garantia do salário, de empregos. etc. E obviamente nós não temos nenhuma dúvida de que essas medidas são fundamentais nesse momento. Mas também é preciso já fazer o debate de quais são as alternativas para garantir que o Estado possa defender os trabalhadores, e salvar vidas, tirando de quem tem. Taxando grandes fortunas, suspendendo o pagamento da dívida pública, garantindo taxação de lucros e dividendos. É um escândalo!

Veja, tem um setor dos ricos que foi se refugiar em iates, para se refugiar do Covid-19. Eles não pagam tributos sobre essas embarcações, enquanto o pessoal aqui não consegue pagar aluguel que é óbvio, a crise tá muito pesada para a maioria das pessoas. Enquanto isso, os ricos seguem no seu mundo paralelo. Então não é aceitável que quando acabar a pandemia eles querem arrochar salário de servidor, demitir servidor público, atacar o direito dos trabalhadores. Mais ainda endividar sem discutir uma dívida pública que nunca foi auditada. Então é preciso começar a fazer sim esses debates.

Portanto eu desarquivei o projeto da Luciana Genro, da taxação das grandes fortunas, que foi assinado pelo Chico Alencar e pelo Ivan Valente também. Sâmia Bomfim tem trabalhado muito nesse tema também. A oposição tá fazendo um conjunto de medidas econômicas, com seis temas emergenciais, pra gente começar a debater desde já as alternativas econômicas, para que a gente garanta que os que têm muito mais paguem pela crise.

Não é normal que nos últimos anos tem aumentado o número de pessoas em situação de miserabilidade, tem aumentado o número de desempregados, tem reduzido globalmente a renda da classe trabalhadora brasileira, e que os milionários sejam mais milionários. E foi isso mesmo que aconteceu. Nós temos mais bilionários no Brasil agora. São duzentos e seis pessoas com uma renda de um trilhão e 200 bilhões de reais. Nós temos bancos com lucros no valor, no ano 2019, de 112 milhões, só de lucros líquidos. Tem muita gente que tá ganhando muito às custas do povo, e é preciso reverter isso. A desigualdade anterior à Covid-19 hoje se potencializa, então é preciso combater a Covid-19 agora e abrir um outro caminho para o futuro, que é um caminho de igualdade e de justiça de direitos para população.

Como operam as desigualdades sociais e a ausência do estado na luta contra uma pandemia?

Então, a pandemia acelera sua reprodução. Eu fiquei chocada com o primeiro óbito que eu tive contato nos primeiros dias de Covid-19. Foi uma empregada doméstica, uma trabalhadora doméstica, e contraiu a Covid da sua patroa. É um triste exemplo de como a desigualdade vulnerabiliza os menos favorecidos. Claro que nós não queremos que ninguém morresse, nem a patroa, nem a trabalhadora doméstica. Mas nesse exemplo a gente vê que o elo sempre estoura no polo mais frágil. Nós já temos um problema no Sistema Único de Saúde de falta de leitos, de uma quantidade de gente que não tem as cirurgias marcadas. De morte de pessoas esperando na fila. Da dificuldade dos nossos profissionais saúde de atender o conjunto de demandas do nosso povo, pela falta de estrutura do Sistema Único de Saúde, pelo corte de investimentos com emenda constitucional 95. Pela consequência dessa agenda ultraliberal. E é óbvio que essa desigualdade também é aumentada impactada no momento de 2019, seja no acesso aos serviços públicos de saúde, quando o rico vai poder se tratar no Albert Einstein, ou em qualquer desses leitos privados.

O povo depende da ampliação do Sistema Único de Saúde. Por isso a gente tem batido muito no tema da renda mínima, desde antes de ser aprovado eu já tinha projetos nesse sentido, o primeiro do PSOL. Depois nós construímos juntos com a oposição. Teve esse projeto que foi votado pela Câmara dos Deputados, que é um importante projeto. Então isso é fundamental porque as pessoas que não têm renda, não tem como escolher morrer de fome ou contrair covid-19. Então tem que dar condições para garantir o isolamento social, e isso ainda hoje não foi dado pelo governo Bolsonaro.

Quando o Bolsonaro faz a sua enorme quantidade de fake news dizendo ao Brasil “A Itália não se pode comparar porque ela tem muito mais idosos”, é verdade, mas aqui nós temos 30% das pessoas sem água, e a água é essencial nesse momento. Sempre é água é vida, mas agora que a gente precisa estar sempre lavando as mãos, as pessoas estão sem sabão, sem alimentos. 50% da população brasileira não tem saneamento básico. Imagine a Covid-19  nas periferias brasileiras em que as pessoas moram muito próximas uma das outras, onde as famílias são numerosas e muitas vezes compartilham a mesma casa. Como garantir o isolamento para que há transmissão descontrolada? Como garantir que um jovem que saiu para rua não passe para sua avó, que é do grupo de risco?

Falando nisso, já tivemos mortes de pessoas com 40 anos, nós tivemos agora a morte de um bebê no Rio Grande do Norte.  Nós tivemos mortes das mais variadas idades, embora letalidade seja maior para idosos. E mais grave ainda, os profissionais de saúde, que é gente que tá na ponta. São trabalhadoras e trabalhadores que estão arriscando a vida para proteger a população. Não podem estar trabalhando sem equipamento de proteção individual, sem as máscaras, sem o afastamento de quem tá em grupo de risco. É uma irresponsabilidade o que o governo está fazendo.

E aí tem o problema da importação de materiais e a pirataria que os Estados Unidos está fazendo. Mas também de uma incapacidade do governo de fazer uma reconversão Industrial. Nós temos uma indústria aqui como a Petrobras produzindo o álcool, a Universidade pode produzir álcool! Nós podemos reconverter a indústria têxtil para produzir macacão, equipamento de proteção individual em campo, e fazer ventilador pulmonar. Mas o que que ele faz? Ele não faz a reconversão industrial. Ele corta as bolsas dos pesquisadores que estão trabalhando na ciência para combater a covid-19, e ainda não dá condições para que a universidade e os nossos pesquisadores de ponta entrem com todo o seu conhecimento para enfrentar a covid-19. Não tem outra palavra para o Bolsonaro: “ele é um criminoso”.

Só que nós não queremos deixar para denunciar ele num tribunal penal internacional. Depois que a pandemia passar, porque a cada dia que ele segue, serão mais mortos e nós não queremos isso. Por isso precisamos fazer isso agora, fazer o impedimento desse presidente incompetente e criminoso. Por isso seguimos na luta, por medidas emergenciais para combater o Covid19, mas também sabendo da nossa responsabilidade histórica que é a necessidade de derrotar o Jair Messias Bolsonaro para salvar a vida da nossa população.

“Temos no poder um governo que não preza pela cultura”, critica o sambista Chico Alves

“Temos no poder um governo que não preza pela cultura”, critica o sambista Chico Alves

Foto: Marcelo Costa Braga

Embora seja muito respeitado entre os sambistas e músicos, o compositor Chico Alves ainda não é um artista tão midiático. Capixaba radicado no Rio de Janeiro, ao contrário de muitos só começou a circular na cena carioca já mais velho e a partir dos anos 2000. A música por muito tempo foi sendo levada em paralelo ao seu trabalho como administrador, mas está cada vez mais se consolidando. O lançamento do seu terceiro CD, Paranauê, gravado pela Biscoito Fino, estava previsto para março, mas com a pandemia do coronavírus deve ser adiado. Mais uma vez realizou seu projeto por meio das plataformas de financiamento coletivo e apenas uma música autoral não será inédita neste álbum.

Aos 52 anos, tem mais de oitenta músicas compostas, ganhou neste ano o samba enredo da Vila Isabel e tem parcerias com grandes nomes do samba como Toninho Geraes, Moacyr Luz (Moa) e Wilson das Neves. Se apresenta em todas as casas de samba da cidade, e já viajou a diversos estados e países para cantar e tocar. Organizou projetos famosos de rodas de sambas gratuitas nas ruas cariocas, como o Samba do Peixe e o do Castelo, ambos no centro da cidade.

Na entrevista à NINJA, que foi realizada antes da crise sanitária, ele fala sobre sua trajetória profissional, as dificuldades de se viver da música e a falta de incentivo do governo para o samba. Explica também por que hoje o artista tem que entender de mídias sociais para divulgar seu trabalho, e os desafios de colocar as rodas gratuitas nas ruas da cidade. Para ele, o governo atual não preza pela cultura e sua intolerância tem sido refletida de forma desastrosa em nossa sociedade.

Como a música entrou na sua vida?

Desde muito novo a música era uma das coisas que mais me tocava, mas nunca a encarei profissionalmente. Sempre foi um bloqueio, pois via minhas referências, principalmente no samba, não ter uma carreira para viver dignamente da música. Apesar do amor ela sempre foi uma brincadeira, até que foi tomando corpo. Saí de Vitória para o Rio em 1998, onde já frequentava desde moleque com uma ligação muito forte, daí fiquei em Niterói até 2013 e desde então estou aqui. Comecei a compor e a frequentar as rodas do Candongueiro, que eram maravilhosas. Vinham muitos compositores e fui conhecendo a turma. Depois ingressei num grupo chamado Unha de gato, que fez relativo sucesso, viajamos para países algumas vezes, tocamos em todas as casas de samba e acompanhamos o Wilson Moreira na turnê do disco Entidades.

No Rio fizemos o samba no Mercado das Pulgas, daí passei a ter mais contato com a cena e as parcerias foram chegando: Toninho Nascimento, Toninho Geraes, Moa, Wilson das Neves, etc. Hoje além de umas 80 músicas gravadas por outros artistas, estou indo para o meu terceiro disco, dois solos e um que recebi a masterização hoje (15/02). Gosto muito de compor e que as pessoas gravem minhas músicas, tenho já uma obra legal gravada pelo Moa, Toninho Geraes, Leila Pinheiro, Quarteto em Cy, Guinga. Agora estou me dedicando mais, direcionando mais energia e tempo ao meu trabalho solo de músico e cantor da noite.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas você sempre tocou um trabalho em paralelo de administração?

Sou formado com MBA em marketing e trabalhei em muitas empresas, como a Barcas SA, Shoppings, e há 16 anos sou gerente comercial do Menezes Cortes. Sempre me dividindo entre o artista e o administrador, um paga a conta do outro: o artista paga a do equilíbrio emocional e o administrador paga da feira e apartamento, etc. Devagarzinho a gente vai fazendo sem pressa, o trabalho está ganhando uma consistência.

Nessa preocupação de fazer algo por fora para garantir o pé de meia, como você vê o mercado? Porque tem expoentes, mas muito sambista aí na rua tentando viver disso…

Pouquíssimos conseguem viver dignamente da música, sempre uma vida muito instável financeiramente porque a cena está horrível. Falo mais do samba que é onde mais convivo, o salário foi regredindo ao longo do tempo. É claro que numa cidade como o Rio brotam músicas a cada segundo, então essa disputa por um mercado pequeno faz com que o contratante explore isso. Quem ganhava X há cinco anos vem outro para ganhar X-2, entende? Faz com que gere essa disputa ruim para a própria cena. Cansei de tocar no Rio Scenarium, Carioca da Gema, nas grandes casas do Rio, e a receita de dez anos para cá caiu muito, é impressionante.

Outras coisas contribuem, como a crise de uma cidade que parece retomar um pouco o turismo e a Lapa muito discretamente voltando. Mas nos últimos quatro anos foi muito difícil para esse pessoal se reformular, ao passo que cresceram os movimentos de rua também. As casas pela conjuntura foram aumentando seus custos e reduzindo o salário da turma, ainda estão se readequando.

O Beco do Rato na Lapa parece estar numa crescente, de uns tempos pra cá tem evento quase todo dia e fizeram uma obra também para melhorar o atendimento.

Foi a grata surpresa dos últimos anos. Como músico posso dizer que é um pouco injusto, mas cada um tem sua realidade. Tem casa que fica com 40% do couvert artístico e paga 60% ao músico. O Beco do Rato foi na contramão disso, o couvert é quase integral ao músico e os preços do seu cardápio também foram mantidos para a situação real atual. Com isso ganharam com os bons músicos, que foram migrando e abrindo mão de outras casas porque não dá pra sair de casa e voltar com menos do que foi. E lá paga no dia, porque em muitos lugares você recebe uma semana depois e tem que voltar para receber. O dinheiro dele fica no meio do caminho, no final não fecha a conta. Tenho tido dificuldade para arregimentar músicos para outras casas, porque no final estou pagando para trabalhar, é complicado.

Você citou essa questão do samba de rua, nas Pulgas não era pago no início e você já fez também o Samba do Peixe e o Samba do Castelo no centro do Rio. Como vê isso?

Começamos nas Pulgas de graça, ficamos sete anos com o Sambalangandã, grupo que eu fazia parte e gravamos um belo disco inclusive. Começamos passando o chapéu, porque o que movimenta mesmo é produzir, né? Adoro fazer samba na rua, democratiza porque todos podem ir. Mas o melhor cenário que vi até hoje foi o Mercado das Pulgas no começo, porque lá é um espaço fechado e quem ia consumia na casa num preço barato e a gente recolhia uma graninha solidária no chapéu consciente. Todo mundo entendia o valor da música e não tinha o assédio e a disputa com o camelô. Veja bem, não reprovo o trabalho do camelô na rua que é justo, o problema é que, por exemplo, no Samba do Peixe quem viabilizava o som e os custos do músico era o Marquinho, do bar Toca do Baiacu, com apoio da livraria Folha Seca. Mas quando o evento começa a dar certo, o camelô se instala e outro bar abre mas não quer contribuir com o evento. E as pessoas poderiam se conscientizar um pouco mais, ninguém consegue fazer uma roda de samba de qualidade com bons músicos com equipamento de som bom sem pagar. Então, se não consumir no bar quem paga a conta? É uma questão de consciência, e os outros só queriam colher os frutos desse movimento num domingo onde não existia nada ali. Tinha aquela infinidade de pessoas, mas poucos querem participar desse rateio de custo. Isso que acho mais injusto, sou incentivador e amo essa coisa da democratização do samba de rua, mas precisa de um pouco de consciência de que todos fazem parte disso também.

Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à renovação do samba, está gostando da qualidade e tem nomes a citar?

Tem muita gente muito boa fazendo música de qualidade. Tem esse movimento das mulheres que é muito legal e tem que crescer cada vez mais. Dá um equilíbrio bacana, no samba sempre tivemos muito homem tocando. Hoje não tem muitas mulheres instrumentistas de harmonia, mas vai motivando cada vez mais outras o que é muito legal. Torço para que daqui a alguns anos não tenha necessidade de fazer o samba só das mulheres ou dos homens. Vai ser uma coisa tão natural que terá músicos equilibrados no mercado tocando juntos sem precisar dessa afirmação, que hoje é necessária. Eu mesmo me coloco nesse hall dos que contratam poucas, mas é porque não tenho muita relação com elas do ponto de vista musical. Tenho várias musicistas queridas, mas tenho meu grupo há muitos anos e isso vai mudando devagarinho. Faço votos para que isso aconteça o mais rápido possível, mas sei que ainda é um processo. Na cena como compositores tem muita gente bacana, outros forçando um pouco a barra, porque parece um pouco obrigatório o cara que canta compor. Não é verdade, assim como não é obrigatório o contrário, mas também tem os compositores que são bons cantores.

O Paulo César Pinheiro não é considerado um grande cantor, mas por outro lado é um fenômeno de composição.

Exatamente, o Aldir Blanc também, eles gravam mas não se colocam como cantores de ofício. Tem os híbridos, que são bons nos dois e é maravilhoso. Eu me coloco mais como compositor que cantor, não sou o rei da voz como o Chico Alves antecessor. Mas acho que tem muita gente bacana, não vou citar nomes porque posso ser injusto com muitos amigos. Tem uma turma com qualidade musical que está bem pra caramba compondo coisas legais, e outra que ainda está em fase de aprendizado. O compositor precisa trabalhar com autocrítica em relação às suas referências, as minhas são: Chico Buarque, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Luiz Carlos da Vila,  Moa,  Toninho Geraes, etc. Então me cobro muito e sempre que faço uma música pergunto se minhas referências fariam algo parecido. Mas alguns têm ansiedade em ser compositor, daí a pessoa de repente faria um disco melhor se explorasse mais o canto. Ou o contrário, às vezes é bom melodista e não é bom letrista e força a barra. Tenho pouquíssimas músicas sozinho, faço melodia mas não gosto das minhas letras e vice versa. Dou para quem sabe mais e acho que ganho com isso. Quando recebo uma melodia do Toninho Geraes ou do Moa, ou uma letra do Toninho Nascimento ou mando uma melodia para ele, isso leva meu trabalho para outro nível. São compositores com obras muito timbradas no cancioneiro e é isso que eu estou buscando. Então devagarzinho vou colando meu nome, não tenho pressa de nada.

Você está lançando um CD, é um cara muito ativo nas mídias sociais por conta própria, como vê essa transição do mercado com as ferramentas tecnológicas atuais?

Está muito complicado e confuso, e tem também vários perfis porque eu, por exemplo, sou compositor. Tenho muita coisa, quero registrar, é o meu barato maior, acho que quando a pessoa, independente do sexo, quer fazer um disco de 13 músicas ela com certeza vai ter uma que vai tocar e as outras não se tiver um trabalho contundente de divulgação. É muito difícil, porque você não tem mais hoje o rádio ao seu favor. Não entrando no mérito de qualidade, mas é desproporcional você ter um estilo de música que toca 50 mil vezes a mais que outro. O samba virou um animal de zoológico, que fica preso em grade aberto à visitação no final de semana. Tem rádio que toca MPB mas o samba foi retirado, o ritmo mais brasileiro que existe. Então hoje o artista tem que se desdobrar e ser muito ativo nas redes sociais: quem tem condição de pagar uma assessoria  é melhor, mas não é todo mundo que tem.

Essa é uma tendência do mercado meio desproporcional…

Mas não dá cara, você tem que pagar pelo menos R$ 3 mil e mal tem dinheiro de cachê bicho, como que faz? Então uma parcela tem essa possibilidade e a outra tem que aprender. Quando ia tocar na casa tinha certeza que tinha público, hoje quando a casa contrata ela tem certeza que a gente vai levar o público. Quando muda o cenário, não adianta o artista achar que é só artista mais. Ele é divulgador, produtor, tudo, porque não tem dinheiro no mercado. Então tem que aprender, fazer um cursinho de mídia social. No meu caso com uma formação em marketing facilitou essa interatividade com o meu público. É muito incipiente mas me ajuda muito, fiz dois financiamentos coletivos nos meus CDs com sucesso. O público depois das redes se coloca como seu amigo, e nada melhor que você retribuir estando perto. Já vi artistas com trabalhos muito mais consolidados lançar projetos de financiamento coletivo e não conseguir, porque estão distante do público. Esse aprendizado é algo que o artista vai ter que buscar, porque é a relação direta. Você levar a música até o seu público do produtor ao consumidor, remontamos à jornada do rádio com o samba no boca a boca. O Facebook,  que era um grande aliado do artista para divulgar sua obra, migrou para o Instagram. O face virou um espaço de discórdia política, se você ralhar um político são várias interações, mas se postar uma música não tem o mesmo apelo mais. O insta ainda está mantendo isso, mas os espaços estão se restringindo. Então, quanto mais ativo o músico estiver na cena cantando e apostando no que faz a música vai ganhando mais espaço e sendo reproduzida por outros artistas. Hoje tem uma dificuldade muito grande para o compositor fazer com que o outro cante a sua música, quando a Dona Ivone Lara fazia uma no outro dia já estava todo mundo tocando. Todo mundo virou compositor, fica uma disputa quase ferrenha. Às vezes fica muita coisa boa sem reverberar, faz parte…

Você participou pela primeira vez e ganhou o samba enredo da Vila Isabel. Como vê o carnaval carioca?

Gosto de samba e percebo que ele ficou muito apartado das escolas. Da década de 90 até três anos atrás, se você pesquisar os compositores de samba enredo vai ver qual a relação deles com samba. São pouquíssimos, quando na verdade os sambas enredos eram feitos por sambistas, como Paulinho da Viola, Mano Décio, Roberto Ribeiro, Monarco, etc. Com o passar do tempo foram se criando escritórios do samba, muito dinheiro, investidores, e o sambista foi saindo até porque o samba mudou. Começou a acelerar muito, ficou muito pasteurizado, formatado. Em 2018 veio o Moa com um samba maravilhoso na Tuiuti, que você consegue cantar numa roda, o da Manu da Cuíca e do Máximo na Mangueira no ano passado e nesse ano num ritmo menos acelerado. No samba da Vila tentamos buscar essa pegada mais melódica fora daquele formato que parece uma colcha de retalhos. O próprio público não sabe cantar mais como antigamente, o samba vai se afastando da escola. A única que mantém evento de samba é a Portela por causa da velha guarda, a maioria toca pagode. Não que tenha algo contra, mas musicalmente muitos são ruins. Antigamente o compositor era reverenciado, o samba era a vedete da escola, agora são as bonitonas rainhas de bateria. Nelson Sargento vai lá na Mangueira e muita gente não sabe quem é o velhinho, que é fundador da escola. No Império Serrano ninguém sabe quem é o Zé Luiz, Wilson das Neves, interromperam um dia o próprio Aloísio Machado num evento. Não pode ser isso. Embora não faça parte da ala de compositores de nenhuma escola, eu e muitos amigos gostaríamos. Muitos artistas de uns anos para cá saíram das escolas, seria legal ter o Toninho Geraes da Portela, Chico Alves da Vila, João Martins de não sei de onde, etc. Demandaria sambas muito melhores, teria uma relação direta que poderia engrandecer muito mais a qualidade dos sambas enredos. Essa safra deste ano tem uns muito bons de melodia, letra, já buscando outra levada que não é a de quatro anos atrás de quase frevo.

Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à política nacional, você fez uma música recentemente chamada Sonho Estranho com o Moa que tem várias críticas. Como você tem visto o cenário atual?

O Sonho Estranho foi uma grata surpresa do meu encontro com o Moa, porque a gente já é muito amigo, somos vizinhos, e nas nossas conversas veio essa coisa de que tá foda e tudo mais. Não vou entrar no mérito do embate político partidário porque não leva a nada, mas é uma mudança muito grande de relacionamento com essa questão da intolerância que reflete na sociedade quando você tem no poder pessoas que são intolerantes. Um governante precisa ter responsabilidade com a fala, porque empodera os que já têm um desvio para a intolerância e coisas beligerantes. Se fala que índio não é gente, o que está ali do lado querendo tomar o território do índio vai se empoderar.  Flexibiliza as leis, não dá atenção, e você vê a questão das milícias e o crescimento exorbitante da violência. Como o cara fala em liberar arma num país desse, cara? Então tem tudo isso na sociedade, essa intolerância religiosa, e quando o Moa me mandou essa melodia achei muito alinhada ao que queríamos falar. Temos cantado e as pessoas têm se sensibilizado muito, e fica aquela sensação de missão cumprida ao acertar com uma mensagem bonita, triste, mas real e sem ofensa.

Esse tensionamento das relações não está fazendo bem para ninguém, divergir politicamente pode ser saudável mas virou uma praça de guerra. Tenho alguns amigos que não são de esquerda, mas não são fascistas e parece que botam todo mundo num campo só. O cara de direita é fascista e homofóbico, assim como na esquerda só tem ladrão, bandido, petralha, e isso virou um desastre no país. Uma polarização que não eleva em nada a política nacional. A gente vai santificar a esquerda? Não pô, sou de esquerda e sei que ela comete erros como qualquer campo político. As alianças às vezes são nocivas, mas quase inevitáveis nesse sistema político. As pessoas precisam se abrir mais ao diálogo sem apontar o dedo, porque isso afasta. É preciso entender o processo, não achar quem tem mais ou menos razão, ver os dois lados. Está muito complicado, o diálogo está muito difícil.

Qual sua análise no campo da cultura com o cinema ganhando prêmios, sambistas fazendo músicas de protesto, atores e atrizes da televisão se manifestando, etc?

Temos no poder um governo que não preza pela cultura, está usando a política como revanche e a coloca como coisa de comunista. Qualquer crítica acha que é ofensa pessoal, nós mesmos artistas que estamos expostos temos que saber ouvir críticas. Essa coisa revanchista de caçar apoios culturais de tudo que eles acham ser uma cultura de esquerda, comunista, marginalizando as pessoas, artistas e partidos é um desastre. E também nessa hora aflora mais a voz de quem faz arte, é nessa hora que a gente tem que ser mais combativo mesmo que sofra retaliação. Eu mesmo sofro direto.

Você diz em termos de contratação?

Sem dúvida, na contratação de shows e coisas governamentais. Conheço as pessoas e sei que são revanchistas, foram amigos de trabalho e por questões pessoais se afastaram. Tem muita perseguição, as escolas de samba são grandes exemplos disso, gente dizendo que vai tirar dinheiro do carnaval para botar na cultura e educação. Isso é balela! Escola de Samba é cultura e geração de renda, e botam na cabeça das pessoas que não tem nada disso. Um orçamento público não se faz tirando daqui e botando ali, mas jogar para a galera é a arma porque eles falam para pessoas que não vão atrás da informação. Isso é muito triste, tem uma turma das religiões pentecostais, embora não tenha nada contra nenhuma religião, que raciocina a partir do que o outro fala. Aceitam e reproduzem a mentira que o carnaval é só putaria, balbúrdia e aquelas coisas. Esquecem que gera emprego nos barracões o ano inteiro, que a rede hoteleira fica lotada nesse período, comércio, restaurante, todo mundo gerando receita para a prefeitura e os ambulantes desempregados vendendo na rua. Isso é um desastre, você pega um Teatro Rival que perdeu o apoio da Petrobrás porque teatro e música são coisas de comunista. Tem problema? Tem, então vamos mexer nas falhas, mas extinguir e direcionar só aos artistas que gostam deles não é legal nem para um lado nem para o outro. O bom é o equilíbrio. Não tenho nada contra o sertanejo universitário, cada um faz o seu trabalho, mas é justo você ter uma televisão, todos os veículos, tocando isso toda hora? E para a música brasileira, não só o samba, não sobrar espaço nenhum? Alguma coisa está errada nisso aí… Pode ser alguma falha nossa, mas mesmo assim é desproporcional demais preenchendo espaço com uma música descartável. A gente não faz música para acabar daqui a seis meses e vir outra, essa é a grande diferença da cultura para a música de consumo. Podia ter políticas públicas melhores para isso, a cultura é algo que passa de geração para geração.

Eduardo Suplicy: “A juventude sempre será a força motriz das grandes mudanças”

Eduardo Suplicy: “A juventude sempre será a força motriz das grandes mudanças”

Foto: Giuliano Salvatore

Eduardo Suplicy, com quase 79 anos, hoje é um dos pré-candidatos do PT para prefeito de São Paulo nas próximas eleições de outubro. Vale lembrar que Suplicy foi o primeiro candidato a prefeito pelo PT, também em São Paulo, em 1985, em uma eleição marcada pela retorno ao direito da população de eleger seu prefeito após 20 anos. A disputa foi entre Fernando Henrique Cardoso (PMDB), Jânio Quadros (PTB), Eduardo Suplicy (PT), entre outros. Aquela campanha será lembrada por um ato falho de FHC, que sentou na cadeira do então prefeito Mário Covas, antecipando uma possível vitória. Como resultado final FHC perdeu por pequena diferença para Jânio Quadros que logo declararia: “Estou desinfetando essa poltrona porque nádegas indevidas a usaram”. Eduardo Suplicy finalizou em terceiro lugar, com 827.563 votos e um percentual final de %19, 75. Luiza Erundina foi sua candidata a vice-prefeita.

Em janeiro de 2020, soubemos que Suplicy chamou Eliane Dias, advogada e empresária dos Racionais, para ser a candidata a prefeita e Suplicy ir como vice na chapa para a disputa eleitoral em outubro. Suplicy destacou o fato dela ser mulher, negra e de ter um histórico de luta para prevenir o racismo e promover a igualdade social entre mulheres e homens. Eliane acabou por recusar a proposta e por entender que seria melhor o partido se organizar com mais tempo para estimular mais mulheres de periferia a serem candidatas e disputar eleições.

Recentemente, Gleisi Hoffmann, presidenta nacional do PT declarou-se a favor de que sejam evitadas prévias para a definição do candidato a prefeito em São Paulo. Suplicy escreveu como resposta nas suas redes sociais: “Nos 40 anos de vida no PT, a experiência me mostrou que o intenso debate de ideias no processo democrático das prévias, previsto em nosso regimento, além de saudável, contribuiu para o fortalecimento do partido e nos levou a inúmeras vitórias”, completou em carta dirigida a Gleisi e publicada em seu perfil no Instagram. Recentemente o ex-presidente Lula anunciou-se favorável a uma candidatura do Haddad junto a Marta Suplicy como a chapa ideal do partido para disputar a prefeitura de SP. Haddad aparece nas pesquisas internas como o melhor nome para chegar num segundo turno na eleições e finalmente vencer.

No mês de janeiro de 2004, durante o governo do presidente Lula da Silva, foi sancionada a Lei 10.835, ou renda básica de cidadania, proposta por Suplicy e aprovada pelo Congresso. A lei estabelece que todos os brasileiros e estrangeiros residentes há pelo menos cinco anos no país devem receber um benefício monetário suficiente para atender às despesas mínimas com alimentação, educação e saúde. A renda básica tornou-se um ícone na trajetória do vereador. “Ela é uma renda suficiente para que todos possam prover suas necessidades vitais. Assim é que vamos reduzir as desigualdades no Brasil. É o direito de todas e de todos a participar da riqueza da nação”, escreveu recentemente nas suas redes sociais. “Nos EUA, em 1982, o Alasca adotou uma renda básica universal. Resultado: deixou de ser o mais desigual dentre os estados norte-americanos para se tornar um dos mais igualitários”.

Em entrevista, Suplicy comenta sobre a renda básica, sobre a juventude, Racionais, e a necessidade de um alinhamento da esquerda para as eleições de 2020. Confira:

Após mais de vinte anos, a renda básica segue sendo uma luta atual para você, como se encontra essa situação?

Brasil foi o primeiro país no mundo que aprovou uma lei nesse sentido, para que seja instituída, por etapas e a critério do poder executivo, começando pelos mais necessitados, como os beneficiários do “Bolsa Família” até que consigamos fazer dela um direito universal. Em 2019, na Câmara Municipal de São Paulo tivemos uma excelente audiência pública para tratar sobre o projeto de lei que o ex-prefeito Fernando Haddad encaminhou no último dia da sua gestão, em dezembro de 2016, para gradualmente instituir a implementação da renda básica na cidade de São Paulo.

A renda básica é a primeira chave que precisamos para reduzir definitivamente os níveis de desigualdade que existem no nosso país. Ela é hoje debatida em mais de 40 países ao redor do mundo. E não estamos falando só de países da periferia do sistema capitalista. Estamos falando de todos aqueles países, incluindo os do primeiro mundo que entenderam a importância que reduzir as brechas entre seus cidadãos, algo fundamental para construir uma harmonia e uma paz social sólida e permanente.

Durante toda sua carreira você teve um laço muito forte com a juventude, você percebe neles uma força política determinante?

Os jovens sempre têm enorme vontade de pensar, de conhecer e de tomar iniciativas. Eu acho muito bom e necessário ter interação com os jovens. Eles sempre têm afinidade e vontade de aprender as ideias de como melhorar o Brasil e o mundo. Como realizar justiça, fraternidade e solidariedade na nossa cidade (SP) e no nosso Brasil. A juventude sempre será a força motriz das grandes mudanças. Temos que seguir a direção que esses jovens estão tomando, ouvir suas inquietudes, pensar o porquê que estão pedindo o que estão pedindo. É um erro grave desse novo governo federal achar que você pode criar um dique para conter as reclamações das novas gerações. As novas gerações sempre serão as que nos marcam o rumo a seguir.

Você já foi visto em vários shows da banda Racionais e em outros festivais de rock e hip hop. O que poderia falar sobre isso?

Eu avalio que as canções de hip-hop e rap têm muito a nos ensinar porque elas transmitem exatamente o que os jovens de hoje, sobretudo nas áreas periféricas, sentem, e têm como ideais e objetivos. Acredito que seria difícil para eles se fazer ouvir de outra forma. A política tradicional só se aproxima daqueles lugares com fins proselitistas. Porém, nos shows de bandas como Racionais se respira um ar de fraternidade, é uma energia muito boa de ser experimentada. As letras são representativas das suas ansiedades, das carências e das vivências de toda uma classe social muito ampla no nosso país que sofre com a violência do Estado, com a estigmatização que se faz deles nas mídias e em outros setores conservadores. O hip hop, o rap e esses festivais, assim como outras expressões artísticas, têm sido para eles uma válvula de escape para essa história a que estavam destinados.

Como vê o futuro da esquerda nas próximas eleições?

É muito importante que os partidos progressistas e de esquerda venham a interagir, a se unir, na medida do possível, e até para essas próximas eleições, que cada um dos partidos: PT, PSOL, PCdoB, PDT e todos os outros do campo da esquerda progressista se alinhem para chegarmos unidos às próximas eleições. É necessária uma frente sólida, progressista e democrática. É a reclamação da sociedade hoje. De outro modo será muito difícil enfrentar a essa direita conservadora. É preciso uma revitalização das esquerdas, abrir os espaços cada vez mais.

A classe média não conhece o Brasil, critica João Martins, ícone da nova geração do samba

A classe média não conhece o Brasil, critica João Martins, ícone da nova geração do samba

Foto: Marcelo Costa Braga

A rapaziada da antiga, vários novos artistas e os pesquisadores apontam João Martins como um fenômeno da nova geração do samba. Cria da zona sul, do bairro do Catete, aos 35 anos já passou por todos os bairros do subúrbio carioca levando sua poesia. Subiu no palco com a nata do samba em todas as casas da cidade, e anda percorrendo o país fazendo shows. Chegou a fazer turnê nos Estados Unidos e na Europa nos últimos anos.

A partir da Lapa, coração da boemia no Rio de Janeiro, foi trilhando sua carreira. Passou pelas tradicionais rodas do Clube Renascença e do Cacique de Ramos, dentre outras, e hoje tem sua própria banda. Gravou no DVD do Samba Social Clube, iniciativa da então rádio MPB e hoje da rádio Tupi, que dá voz à nova geração. Participou recentemente do Rock In Rio com o coletivo Festa da Raça, que envolve um time de respeito da turma que tem se destacado nas rodas cariocas, com a benção da matriarca Leci Brandão. Tocaram no Palco Favela para milhares de pessoas entre os grandes artistas do mundo.

João Martins se destaca pelo seu talento com o banjo e pelas suas belas composições. As músicas dos discos Juízo que dá samba (2009) e Receita para amar (2012) estão nas plataformas digitais (Spotfy, Deezer, etc) e fazem parte dos repertórios das rodas de samba da cidade. Lançará em dezembro pela Deckdisc seu disco Suspiro com quatorze músicas autorais, contando com a participação de Diogo Nogueira, Sombrinha e Reinaldo, que faleceu no mês seguinte a gravação. Tem tudo para ocupar o espaço dos grandes nomes do samba que, infelizmente, a cada ano vão nos deixando.

Ne entrevista à NINJA, ele conta um pouco da sua história e dos seus trabalhos atuais. Fala também sobre a renovação do samba e a importância deste gênero para a cultura popular, além de elogiar o aumento da participação das mulheres neste movimento. Por outro lado, critica a falta de profissionalismo no meio e as dificuldades do artista viver da música. Não poupa críticas também ao cenário político atual, e não só ao governo mas também à classe média que, segundo ele, não tem consciência do que é o Brasil para além do sudeste e das grandes cidades.

Você se meteu no samba através do seu pai, né?

Meu pai [Wanderson Mantins] também é músico de formação, toca com o Martinho da Vila há 25 anos, tocou com a Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, viajou o mundo todo, tocou com o Paulo Moura. Então, desde pequeno em casa estive próximo de produção. Meu pai produzia muitos discos, não a ponto de ficar rico mas era um mercado mais justo para quem queria viver disso. Vi dentro da minha casa que era possível, além de me interessar pela música em si.

Sempre brinquei em casa com instrumento, arranhava um tantãnzinho, e depois adolescente comecei a me dedicar mais. Eu toco toda a percussão, mas profissionalmente é cavaquinho e banjo, além da composição. Agora me chamam também para cantar e eu vou sem instrumento. Canto as minhas músicas e as pessoas estão gostando, já é um reconhecimento.

Foto: Marcelo Costa Braga

Como você vê o samba de raiz hoje?

O foco do meu trabalho na verdade não seria um “samba de raiz”, porque raiz é uma coisa profunda e conota os antigos e as coisas antigas. Claro que durante muito tempo pesquisei os antigos, por curiosidade e demanda de trabalho, de repertório, para buscar inspiração. Ouvi muito Nelson Cavaquinho, Cartola, a velha guarda do Império Serrano, Dona Ivone Lara, Almir Guineto e Fundo de Quintal, Candeia, tive que ouvir isso tudo. Mas hoje em dia o meu trabalho não é reprodução desses grandes mestres: é a criação, não é nem renovação, é a continuidade do que eles ensinaram. Então tem toda uma responsabilidade poética, melódica e temática. Estou em lugares com tradição de ser berço da cultura mostrando uma coisa nova. Meu trabalho é movimentar o cenário.

Você está lançando seu terceiro disco neste mês, por que agora? Quais são as participações e qual é a pegada?

Desde o DVD do Samba Social Clube não gravava nada oficial, e esse disco faz uma releitura de quatorze músicas que pela primeira vez estou me permitindo trabalhar com outras pessoas. Os outros discos fiz com meu pai, produção dele, arranjos, mas agora é com o Leandro Sapucay, que possibilitou trazer outros arranjadores, como o J. Moraes, além de convidados. O produtor faz a concepção do disco, convida os músicos e vai reger o estúdio. O arranjador escreve os arranjos pra música, as introduções, o que o violão e a percussão vão fazer, que vem por trás do cantor. Dessas minhas quatorze músicas algumas já foram gravadas por outras pessoas, mas não por mim. Aí tem alguns parceiros como o Moacyr Luz, Fred Camacho, Leandro Fregonesi, Inácio Rios, Raul Dicaprio, Moreno, um monte de gente boa pra caramba. Reinaldo e Sombrinha também.

Muitos pesquisadores, músicos antigos e novos te apontam como um dos ícones da nova geração. Como você vê o samba atual e teu papel neste contexto?

Fico muito feliz pelas pessoas comentarem e estar vendo as coisas. Esse negócio do Rock In Rio, do alto escalão do samba a Leci Brandão foi crucial no processo, a única que falou alguma coisa fora os nossos amigos da nossa geração que torcem por nós. Nem as casas de samba onde a gente toca, parceiros com quem já cantamos, nenhuma citação do pessoal do samba. A gente achou que teria uma visibilidade. Talvez também a gente não tinha clareza do que queria que acontecesse. Aparecemos lá no Canal Bis com Nelson Sargento, foi legal mas o baile segue.

Na entrevista que fiz com o Moyseis Marques ele falou que teve música tocando em novelas, passou por programas de auditório, tocou em grandes casas na Europa e até hoje não tem um conforto financeiro e um maior reconhecimento pelo seu trabalho.

Exatamente. O nosso mercado, desses artistas que participam desse fomento, é foda porque as rodas de samba empregam muita gente, várias famílias tiram seu sustento nesses eventos. É um grande mercado, e às vezes nos indignamos passionalmente porque o samba merecia estar melhor. Nem me preocupo com outros gêneros que se destacam mais, o problema é que somos muito boicotados. Melhorou muito, mas é importante avançar também artisticamente nossas carreiras individuais, porque o músico hoje tem que fazer diversas atividades que não são da música exclusivamente.

Nem me preocupo com outros gêneros que se destacam mais, o problema é que somos muito boicotados.

O Rubem Confete, que já é um ancião, falou exatamente sobre essa falta de organização e profissionalização no meio do samba.

Não é culpa dos novos artistas. Tinha que ter uma organização melhor, a galera da antiga não tá ali vibrando com a gente, não tem aquele sentimento de torcida pelo nosso trabalho. E não soa como frustração não, acho que todo mundo podia participar daquela festa ali da forma que fosse… É um festival, de estrutura, de cachê exorbitantes, não é uma esmola para o samba, foi uma conquista que deveria ser vibrada, mais repercutida. Obviamente que seu Nelson Sargento terá mais holofote desse processo, porque é um senhor de 95 anos com uma história do caralho participando de um festival de rock. Mas nossa rapaziada também estava ali segurando a bandeira.

O que te comove e inspira para compor? O que é compor pra você?

Penso muito que compor é uma oportunidade, assim como se pode dizer que a inspiração é não sei quantos por cento de transpiração, mas o que gera a composição é o mote, o tema. Quando você vê naquilo uma oportunidade se empenha e faz. Buscar um tema já é uma coisa mais sofrida, mas se você força rola. Não é o recomendável né, melhor é você se sentir à vontade e sentir aquele momento, transmitir aquela mensagem com sentimento. O que me move para compor são os momentos, as próximas coisas que vão aparecer.

Em geral suas composições são crônicas então?

Pode dizer que sim, né? Do que acontece, do que a gente imagina, são os momentos. Em relação aos assuntos, faço letra e melodia, mas essas coisas nem sempre andam juntas. São dois caminhos, o com a melodia ou a letra separados, e tem com eles simultâneos com a música toda junta. Gosto de todos os processos: fazer melodia para letra e letra para melodia, ou os dois juntos. Ao fazer a letra de uma música você pode viajar, já na música você tem umas pistas para letra, como se a música já tivesse feita e você vai traduzindo ou tentando dizer.

Foto: Marcelo Costa Braga

Na história do samba tem várias linhas musicais, como o partido alto, o samba canção, dentre muitos outros. É possível caracterizar o estilo contemporâneo?

Essas correntes do samba é um assunto meio foda, vejo o samba como uma família: alguns brigam, alguns não se falam, uns brigam por heranças, outros são primos e só se veem uma vez por mês, ano ou década, tem quem não se veja nunca, aqueles que têm primo noutro estado, aquele (a) que sempre arruma problema, o que é ruim de dinheiro ou o que dá volta nos outros, etc. Toda família tem problema, tem de tudo ali dentro, o galinha, a mulher desimpedida, o viciado, o homossexual, etc. E nessa diversidade, as pessoas se assimilam com o seu gosto musical, sua afinidade de amizade, e por isso tem vários grupos. Não sei se tenho por essa ausência de fala, de chamar pra conversar, aquela coisa de poder, que as pessoas se aproximem dos mais novos, não sei como funciona para você ser um cara que tenha um livre trânsito para qualquer corrente dessa. Tem pessoas que têm, mas definir plenamente quais são essas correntes, onde elas ficam e como são, é difícil porque são como as correntes marítimas: é como no oceano, as correntes se misturam.

Você acha que a tradição se reinventa, no sentido que a rapaziada hoje tem outro jeito de se vestir, tatuagens, falar, comportar, mas ainda bebe ali na música de raiz?

A tradição se reinventa, mas por que o pessoal tem que andar de linho ou coisa parecida? Não tem uma objetividade, e te digo mais: a gente não tem nada de transgressor, é tudo pai de família. Não é mais um movimento de jovens; estou entre os mais novos com 35 anos. Se quem quiser vir depois se vestir de chapéu de palha ou linho que se vista, cada um tem sua identidade e não tem por que datar por estas vistas rasas. Em relação à mistura de músicas deve realmente incomodar, pela novidade do tipo de som que é emitido. Às vezes o barulho incomoda quem trata o samba como uma coisa muito sacra, como se só o popular antigo fosse bonito e o novo não. Aí já acham que vira um pagode, mas a gente mesmo às vezes se remete a alguns que não gostamos como “pagodeiro”. Então a gente é alvo e faz isso, temos preconceito com nós mesmos. (risos)

As mulheres têm ocupado muitos espaços no samba, há um movimento crescente com muitas novas musicistas e cantoras. Como você avalia essa ascensão?

O Brasil sempre foi o país das cantoras, as mulheres no samba sempre tiveram este específico papel, seja como grande artista ou pastora. Tem também a contação da feijoada da Tia Surica, que mistura a música com a comida e a mulher não quer mais estar só na cozinha. Mas desses anos para cá, o que é legal pra caramba e está fortalecendo, são as mulheres compondo e tocando também na roda que era um espaço tendencioso ao masculino. Talvez porque houvesse um imaginário de que precisava de um esforço físico maior ou uma adequação de tradição que seja, mas agora elas estão fazendo tudo. Acho ótimo, na minha banda tem a Jéssica Lany, uma percussionista fera demais.

Como é no mercado a relação do artista com as casas tradicionais de samba? Dá para viver profissionalmente com os acordos feitos, é justo?

Varia muito, depende de bairro, de evento, de um monte de coisa. Todos são meio que bares ou botequins, o que faz essas casas prosperarem temporariamente são as programações musicais. A comida não é melhor que outros lugares, a bebida não é a mais gelada, não tem nada de mais a não ser a qualidade das músicas, que temporariamente leva um público maior e depois aquilo flui por outros rumos e tendências da moda. Acontece que todos esses donos dessas casas chamadas tradicionais, porque tem clubes, quadras de samba e bares, esses caras que trabalham com evento não são tão justos. O que importa é você chegar com uma estrutura e fazer ou não.

Durante muito tempo fui um músico pegando o cachê acompanhando um cantor ou uma roda de samba. Fiz parte de um grupo, onde o dono dividia o dinheiro da forma que ele queria e a negociação era diretamente dele com o contratante. Depois virei artista e comecei a vender participação em outros sambas, que o contratante tratava direto comigo me pagando um valor diferente de outros músicos da roda que ele organizava. Agora estou começando a ter um contato com empresário e produtor que fecham meus shows, que é diferente, esses mesmos contratantes donos das casas tratam diferente com empresário de artista.

Em que nível de profissionalização se encontra o seu trabalho, você hoje tem uma produtora, um marketing terceirizado, etc?

Antes eu vendia meus shows, então tinha contato direto com quem queria que eu fosse cantar. Agora estou com o Pedro Vieira me ajudando e fizemos uma produtora nossa, que é a Quiabo Produções, atrelada a Muller, um escritório estabilizado por onde grandes artistas passaram. Então estamos com essa nova parceria com a produtora nova atrelada a um manager mais experiente e com mais atalhos. A partir deste nosso terceiro disco e com mais estrutura vai ajudar a chegar melhor numa rádio, cuidar das redes sociais, estruturar melhor a carreira.

O que você pensa sobre o direito autoral?

Mudou, não pegamos dinheiro com venda de disco ao gravar música porque não há venda. Agora, em relação a arrecadação é muito dinheiro que os caras pegam, entende? A editora come ¼ do que você recebe de direito autoral, e se você negociar adiantamento esse dinheiro não abate na tua conta. Ou seja, comem 25% do seu direito autoral, isso com ninguém gravando ou vendendo disco.

Foto: Marcelo Costa Braga

O samba representa algum papel no campo da política através da cultura?

A política que a gente acredita é a da inserção, não a excludente, autoritária ou que visa os interesses dos grandes. O samba é político, mas você tem que ver a política na ótica de como você acredita na política como um todo. Se você quiser aplicar a do opressor, do safado, do cara que tem muito dinheiro e explora os outros, é uma política, mas quando você vê a inclusão e olha esse Brasil… Tenho viajado muito, Cuiabá, por exemplo, terra de fazendeiro no Mato Grosso, você vai na periferia e vê toda uma resistência do pagode. O Pagode do Bilão, que é do caralho, uma resistência tremenda no Pará. Às vezes eu vou a Ananindeua, a quarta cidade pior em saneamento básico do país, um contratante que me leva com sacrifício para fazer show lá.

Uma cidade periférica, cujo público vê o meu trabalho e admira, e é um público da quebrada, da periferia, de classe média baixa, que me relata que teve uma ascensão social um pouquinho de um tempo para cá com um governo da forma que a gente acredita. De poder pagar uma passagem de avião, ter acesso a internet, não é só o ter e sim estar num ambiente melhor do que se viveu nos anos anteriores. Viajo e vejo que é foda, o cara que me contratou mora no condomínio do Minha Casa Minha Vida, e tem um montão aí que critica mas nunca entrou num lugar desse. São esses programas, como o Luz para todos, dentre outros, então quem não conhece o Brasil não pode dar pitaco. Se achar que o país se limita ao Leblon, Rio de Janeiro ou sudeste, está errado. São polos de visibilidade muito diferentes, tem que andar esse Brasil, e tenho andado e visto.

O samba perdeu a religiosidade e a negritude?

Não acho. Enquanto estiver todo mundo na sintonia e com o  mesmo sentimento, onde o samba é a espinha dorsal, são matrizes africanas, o negro é o principal agente das coisas que a gente faz. Às vezes nas redes sociais o cara fica aflito para dar uma opinião sobre tudo, que ele esquece de ler e ouvir algo que está muito próximo a ele sem ter muita noção da realidade do outro. A nossa luta nunca pode afagar a luta dos outros, mas invés de falar talvez seja a hora das pessoas escutarem quem está sofrendo com as mazelas sociais.

Se você não está pronto para ouvir, acha que em treze anos do governo do PT o Brasil foi quebrado, está sendo leviano. A gente fica reproduzindo pela proximidade ou pela cultura, um discurso próximo de amigos nossos, de gente que mora na zona sul. Muitos são inteligentes, tiveram acesso a um estudo de qualidade, mas estão passando um atestado de mal caratismo. Está faltando um pouco de Brasil para esses caras, que estão iludidos achando que a salvação será entregar o país nas mãos de perigosos e, afinal, despreparados.

Fizemos uma entrevista em 2013 quando estavam estourando as manifestações. De lá para cá você se informou mais e politizou bastante, como avalia o cenário atual?

Vejo um ataque às coisas que são brasileiras de verdade. E as mídias de comunicação são muito bem entrelaçadas na forma de polarizar. Os grandes conglomerados midiáticos ficaram muito tempo com esse coronelismo na mão, ganhando muito dinheiro e movimentando as coisas do seu jeito. Agora estão assustados com os evangélicos, tomando postura de botar pautas nas programações e até hoje sustentando que Lula tem que ser preso e acabou. Endeusaram o Sérgio Moro e agora estão com o cu na mão porque a Record está vindo pesada, e quando essa coisa do Moro estourar vão refletir sobre a propaganda que fizeram e o império vai desandar. O poder é tendencioso e abrange muitas coisas, mas eu chego em casa cansado e boto numa novela, um jornal, o que eu vou fazer? É cultural. É uma vida do cão, é o dinheiro amassando nossa vontade de viver, nosso tempo e nosso talento.

Marina Iris e Manu da Cuíca: a força da mulher no samba

Marina Iris e Manu da Cuíca: a força da mulher no samba

Foto: Marcelo Costa Braga

O movimento de mulheres no samba tem ganhado muita força nos últimos anos, e a cantora Marina Iris e a compositora Manu da Cuíca têm contribuído muito neste processo. As duas são figuras de destaque, a primeira por cantar em todas as casas de samba e com figuras renomadas no cenário artístico e a outra não só pela sua trajetória na percussão mas também com músicas de sua autoria que estouraram nas rodas cariocas. O samba vencedor da mangueira neste ano, História para ninar gente grande (na chamada da entrevista), que virou hino nas rodas é uma obra sua.

A primeira é nascida e criada no Méier, subúrbio do Rio e está com 35 anos. Já Manuela Trindade Oiticica, que também tem 35 anos, cresceu em Laranjeiras, na zona sul. As duas se conheceram na Faculdade de Letras da UERJ e desde então realizaram diversos trabalhos juntas, inclusive dando aula particular de português revezando seus clientes. Além das parcerias no samba, trabalham com comunicação. Declaradamente de esquerda, escolheram unir seus trabalhos artísticos à militância por uma sociedade mais justa e sem opressão.

Marina lançou no final de novembro seu terceiro disco, Voz da bandeira, e a Manu ganhou (após a entrevista) pela segunda vez seguida o samba na escola Mangueira para concorrer no próximo carnaval. Na conversa com a NINJA elas falam sobre a importância das mulheres ocuparem novos espaços no samba, a força que o movimento de sambistas está ganhando e o próprio papel político que este gênero musical representa. Só pelas suas origens desde a escravidão, ocupar espaços nas ruas e trazer narrativas dos excluídos, já é o suficiente para entender o seu papel histórico, afirmaram.

Como se deu o contato de vocês com a música?

Marina – A influência do meu pai foi muito forte, ele tocava e compunha samba no violão e eu cantava, mas nunca me entendi como cantora. Mais velha me encontrei, conheci a Manu na faculdade e comecei a pensar mais nisso. Passei a cantar em público com alguma regularidade, montei o grupo O céu do sobrado por volta de 2006 e ainda assim levava a coisa como um hobbie por mais que às vezes pingasse um trocado e uma cerveja. A coisa foi tomando forma e em 2010 comecei a pensar na música de uma forma mais profissional. Estimulada por amigos de Oswaldo Cruz fizemos campanhas e eventos para arrecadar fundos para gravação do meu primeiro disco em 2014. Aí já começo a cantar regularmente no Carioca da Gema e ter uma relação diferente com o repertório e banda. Antes era tudo informalmente, quando a gente fez o trabalho do Paulo Vanzolini que foi uma virada já no meu segundo grupo.

Em 2017 idealizei o projeto É preta, a partir de ideias que vínhamos discutindo sobre a falta de trabalhos horizontais com mulheres protagonizando. Temos trabalhos muito legais de composição que marcam gerações, mas na maioria tem poucas mulheres participando. Tem participação da Manu no disco, o Raul Dicaprio, o protagonismo das mulheres negras, mas também essa questão de coletividade de uma geração que produz, compõe, etc. Em 2018 eu, Manu e o Rodrigo Lessa lançamos o Rueira, que todas as músicas são da parceria deles, e aí já estou completamente vivendo para música mesmo trabalhando com jornalismo. A música ganhou um espaço na minha vida que não dá para excluí-la, tem que ser algo que complemente e potencialize isso.

Foto: Marcelo Costa Braga

Manu – Comecei a tocar pandeiro com meu pai aos 13 anos, nessa época jogava futebol no Fluminense e nas viagens estava ali sempre fazendo a bagunça nos trajetos. Fui castigando pandeiro até parar numa roda no bar do Seu Claudio, na Lapa, por volta de 1999, onde hoje é o Ximeninho em frente à escada Selarón. Também tinha o bar do JR, onde grupos como o Galocantô se encontrou ali, eram sambas informais na rua. Até que fui parar no Bip-Bip em Copacabana, do saudosíssimo Alfredinho, que nos deixou neste carnaval. Ali comecei a tocar outros instrumentos, conheci pessoas que hoje são meus amigos, vi compositoras (es) de carne e o osso com discos gravados. Dai aprendi a tocar cuíca, instrumento que mais gosto, toco no carnaval, etc. Não tinha tanta roda como hoje e muitas eram com caras mais velhos. Fazia esses trajetos de um samba para outro sozinha, às vezes deixava de ir por não ter companhia: menina, à noite, não tinha uber, etc.

Comecei a compor quando a gente faz O céu do sobrado, grupo onde fiz minha primeira música. Não faço melodia, não canto, então o meu processo de composição durante muitos anos ficou meio órfão porque escrevia e faltava todo o resto. Foi muito bom quando essas coisas começaram a ganhar vida, e fui trabalhando como percussionista até mais ou menos 2013, sempre dando aula no colégio e alunos particulares. Mas aí comecei a ver que tocar na noite, trabalhar de dia, dar aula, era muita coisa e aos poucos minha relação com a música foi mudando. Deixei a percussão, que me faz muita falta, porque hoje estou com uma filha pequena e não consigo mais estar tanto nas rodas. Nunca pensei que tinha de fato uma relação profissional ali, podia ter estudado um pouco mais, mas o instrumento sempre foi uma forma de estar numa roda de samba. Hoje voltou para uma relação mais de paixão amadora e a composição foi ganhando espaço.

Fui tendo mais parceiras (os), como o Rodrigo Lessa, que rendeu o disco Rueira. Ele já era músico e compositor conhecido e deu outro lugar, comecei a levar um pouco mais a sério, tinha gente que gostava, dava certo essa coisa de fazer a letra. Nos últimos anos fizemos também sambas de blocos, em 2013 teve um samba nosso no Simpatia quase amor, a gente vivia perdendo mas era uma diversão. Até que fui para as escolas e cheguei a finalista na Portela no primeiro ano, e ano passado ganhei na Mangueira embora assinando a posteriori.

Vocês citaram o É preta, como vocês enxergam a questão da participação e protagonismo das mulheres no samba e enquanto movimento também?

Manu – Estou distante da dinâmica dos sambas, mas tem uma quantidade de grupos hoje de mulheres que talvez não tinha antes. O que não significa dizer que não havia muitas mulheres cantando, compondo, tocando, produzindo, mas é muito difícil você chegar sozinha em espaços que já são meio marcados por certa presença masculina. Hoje tem acima de tudo uma tentativa de caminhar mais juntos com grupos de mulheres tocando e cantando juntas. Porque começar a tocar ou cantar numa roda que já está estabelecida você será empurrada para lugares mais complicados.

Marina – O samba está na sociedade, na rua, é influenciado também. Existe um acúmulo de debates sobre o crescimento e a onda feminista, e isso se reflete no samba. É um espaço bem popular e geralmente reduto mais confortável desse machismo e protagonismo masculino, como no futebol. As mulheres sempre estiveram presentes, mas muitas estão se reivindicando compositoras e instrumentistas e isso inegavelmente está mais forte hoje. É fruto também da trajetória de mulheres que abriram os caminhos, porque a gente já pega uma situação melhor. Há sete anos quando surgiram alguns grupos de mulheres as pessoas ainda brincavam: a roda de samba das cheirosas, etc. O Roda de Saia, da Ana Costa, já existia, mas não sei se tinha o debate, porque já é política e transformadora a própria iniciativa. Mas ainda era colocado no local do exotismo, fetichezado. Participamos em grupos de mulheres.

Manu – Hoje está muito marcado o papel de mulheres, sua função social, não se convida tantos grupos só pela fetichização. Está dada a importância e abertura desses caminhos. Aquele grupo vai representar às meninas chegando uma influência importante. Como as rodas, as escolas e os próprios blocos de carnaval têm esse histórico de em alguma medida ser reduto de reafirmação de masculinidades, é muito difícil por conta própria abrir espaços.

Em geral te dão duas possibilidades: o exotismo ou a tutela. É um pouco difícil fugir, ainda mais se você for para lugares que já estão demarcados para mulheres, como o da intérprete numa lógica mais de diva. É algo mais estrutural na sociedade, se você quiser driblar um pouco isso é complicado. Ter um grupo para tocar, ter um aprendizado, suas trocas, sem estar mediado por essas percepções. Se eu tivesse começado com esses grupos não teria passado por várias situações no mínimo desagradáveis. Acho que tem um pouco essa proteção, no sentido de acolhimento e referência, de uma mulher fazendo o que você gosta. Isso não é interditar debates, pelo contrário, você deixar mais gente confortável para estar naquele ambiente, que é de rua, música, com tudo que historicamente traz.

Marina – Participei de vários grupos e comecei a ficar avessa a grupo só de mulheres, mas depois isso muda porque os debates vão intensificando e percebo que tem um movimento forte rompendo com esse exotismo. Também achava que era criar uma realidade paralela, um lugar só de mulher, mas não existe no mundo. Você vê que existe lugar que só tem homem e nunca tinha questionado isso, então era um lugar asséptico, de proteção dos caras. Comecei a entender que tem papeis diferentes que podem coexistir: grupo só de mulheres, paritário e vários só de homens. Tenho optado pelo paritário, acho um barato essa construção, e respeitado muito o coletivo de mulheres porque tem muito crescimento ali e um olhar para as brincadeiras, o acolhimento, o estímulo. É importante que exista, assim como a mistura, e estão coexistindo e transformando os espaços. Na minha roda no Beco do Rato dizem que tem mais mulheres e mais lésbicas, que era algo que você não via no samba.

Foto: Marcelo Costa Braga

Alguns grupos de mulheres inclusive têm casais de mulheres, e acho que isso acaba se refletindo no público também com alguma identificação.

Marina – Estamos mais seguras para afirmar isso também, então esses grupos influenciaram também neste tipo de afirmação. Reflete no público e tenho gostado mais inclusive do clima da roda mais respeitoso e mais livre nesse sentido. A gente tem que ficar atento, porque os processos não são lineares e estamos vendo o que vivemos hoje. Essas conquistas não terminaram e precisamos ficar vigilantes, tornar as coisas mais concretas e sólidas antes que voltem para o mesmo lugar.

Para além do feminismo por dentro do movimento, o que o samba representa politicamente falando?

Manu – Pelo samba ser certo filho das ruas já tem um debate político colocado: você já está falando de ocupação dos espaços urbanos, de como ela é feita, quem são essas pessoas. Como é essa relação da mulher com a cidade nos espaços da rua, será que esse lugar historicamente é tão autorizado assim? Não, então que tipo de conquistas, reafirmações, proteções e reivindicações podem ser feitas a partir disso? O Rio que o Crivella pensa é a lógica de uma cidade que se encastela nas grades de condomínios em bairros sem esquinas, é um projeto de cidade que está avançando. Ao mesmo tempo você tem outro que envolve relações mais afetuosas, encontros, da rua como espaço criador, que é tão próprio no Rio, onde você tem várias manifestações nascidas disso. Muitos arquétipos cariocas são filhos disso, então essa é uma questão colocada e tem um embate.

Uma roda de samba numa esquina às 22h é um lugar que está sendo ocupado, então qualquer debate sobre segurança pública já vem junto naquele lugar ermo. Vivemos um mundo que transfere suas arenas para embates digitais talvez mais facilmente controlados por quem tem grana, é um pouco mais difícil equacionar os algoritmos da rua. Fico vendo absurdos no Twitter que não consigo visualizar numa discussão parecida acontecendo num botequim, porque não faz sentido. Nesse momento surreal que vivemos acho que na rua podemos reivindicar um pouco essa dinâmica mais presencial e de mais contato, a música e o samba estão nisso porque você cria relações a partir dali. Você não estará subvertendo classes sociais, privilégios, nada disso, a cultura não anula todas as coisas do mundo, dificilmente todo mundo é igual só porque você botou um acorde. Mas a partir do momento que você está numa roda são costuradas relações a partir de uma realidade sem negá-la, outras teias de relações que às vezes botam em contradição algumas coisas já pré-estabelecidas no mundo. Nessas novas sínteses que a música popular da rua te dá é algo muito político.

Marina – Por outro lado também reconhecer a potencialidade do samba, porque ele cria tudo isso só por existir sem precisar de nenhuma elaboração a respeito. Mas podemos também elaborar, criar movimentos, como o Movimento de Mulheres Sambistas. Ele parte de uma necessidade de se criar, mas não teve tempo hábil ainda para pensar na sua estrutura. Tem pessoas potentes tocando de lugares diferentes da cidade, mas ainda definindo algumas coisas, como a sua hierarquia. Enquanto isso vamos fazendo acontecer, o movimento surge como um evento de um projeto aprovado neste ano pelo mandato do Tarcísio (PSOL-RJ) de inclusão no calendário oficial da cidade o Dia da Mulher Sambista, no aniversário da Dona Ivone Lara, 13 de abril. Teve um evento de comemoração do legado dela na Cinelândia, e a partir daí resolveram reunir mulheres que tocam, compõem, cantam, empreendedoras que movimentam o samba. Elas ainda não têm o cadastro, uma associação, então é um movimento que pretende reunir todas as mulheres que vivem do samba. Tanto que elas oferecem co-parcerias, oficinas, a última que participei foi uma parceria do É Preta.

Trouxemos uma percursionista de Brasília para tocar no meu disco e ela ofereceu dentro da agenda corrida uma oficina de leitura rítmica para mulheres percursionistas. Tem oficina de moda para as empreendedoras que ficam nas barracas em volta da roda, com artesanato, culinária, etc. Ano passado quando estava muito acirrada a eleição, muitas pessoas ou pra fugir deste debate ou defender suas opiniões colocavam que samba e política não têm nada a ver. Por isso falo que temos de politizar e discutir mais essas questões, a existência já é forte e proporciona várias coisas mas precisamos entender que tem potencial para ir além. É urgente e está acontecendo quando você vê o movimento de mulheres sambistas, todos do meio se unindo para defender a democracia na rua e tantos outros debates. A galera do audiovisual propondo vídeos e debates, está no processo a possibilidade de construir um canal, porque samba e política não tem nada a ver é uma frase que não pode existir.

Foto: Marcelo Costa Braga

Conversando com os mais velhos dá a impressão que essa geração está mais envolvida, que proporcionalmente menos gente participava na política antigamente.

Manu – É difícil dizer isso, mas se você pegar o Império Serrano, que tinha tudo a ver com os estivadores, o sindicato, não era necessariamente um exercício político partidário mas fazia política diariamente. Há apenas um século um cara era preso com violão por vadiagem, esse cara sabe de algum jeito que está num lugar político ali. Ficava ainda mais claro, o samba depois passa por um momento que é absorvido por uma indústria cultural. São momentos diferentes, também não tenho acúmulo pra fazer esse debate, mas tem momentos no samba que ele é tão identificado como a música de uma classe trabalhadora recém ex escrava, que portanto assim vai ser tratada.

E você dizer que essa música não é expressão desse grupo é difícil, esse grupo inclusive se reafirma dizendo a grande piadinha que é o trabalho: salário, disso que dá pra viver? Eu vou é dar minha voltinha cantando dando meio jeito, porque será melhor que a vida desse trabalhador. Depois não vai faltar samba tentando se enquadrar até para poder ter seus espaços numa política que incorpora o samba como música oficial e uma ideia de Brasil. Se você pega a história do país e da cidade você vai vendo o seu papel, ora num lugar marginal ora oficialesco, ele está imbuído de política o tempo inteiro. O que não significa que por ele ter esse caráter político as pessoas vão estar reivindicando. São coisas diferentes, hoje você pode perceber a quantidade de tensões e criações políticas numa roda na rua colocada ali mas não significa que está sendo reivindicado. Você canta determinado samba ou vota em determinado candidato, ou você não entendeu nada de nenhum samba que foi cantado ou você vota no Bolsonaro. Porque é contra, não dá, no mínimo despreza a cultura popular para ficar na melhor das partes ou é declaradamente racista. Não sei dizer o quanto isso era reivindicado noutros momentos da história, basta ver de onde o samba vem, por quem é feito, como foi tratado. Não podemos acender uma vela pro samba e outra pra chibata.

Marina – Hoje também tem uma reação do samba colocado nesse local de entretenimento, que é também mas sem reduzi-lo a isso por uma imposição do mercado. Por isso temos a necessidade de uma geração afirmar o lado político do samba, mas não saberia comparar porque são momentos muito diferentes. Precisamos entender o que estamos vivendo, tenho conversado com produtores, é importante se preocupar com a temperatura da cerveja, o banheiro, mas o que está rolando ali? As pessoas estão dizendo que aquilo que elas estão cantando não tem nada a ver com política, é só pra samba, se emocionar, etc. Mas por que não podemos trazer um evento bacana com as pessoas se divertindo não perdendo de vista que o sentido das letras, sua história, etc? Perceber por que aquilo te motiva, não é à toa, conectar os elementos que já estão ali. Não é porque a pessoa não sabe do que aquilo representa para sociedade, é porque ela tem aversão à política também, que é num lugar tal, chato pra caramba, onde ninguém presta, etc. E o samba nesse sentido não tem nada a ver com a política, que é um lugar carcomido, embranquecido, corrupto, etc. Mas política é essa música cantada, basta estar ali na roda.

Você está lançando um CD, né Marina?

Marina – Fui convidada pelo projeto Joia ao vivo, da gravadora Joia Moderna, a partir de um edital da Oi. A ideia central do disco surge antes numa conversa minha com o Leandro Vieira, que é carnavalesco da Mangueira, com um show meu chamado Voz bandeira. Ele propôs dizendo que minha voz carrega muitas bandeiras. O convite vira o nome do disco, Voz Bandeira, com músicas realmente com bandeiras que a gente levanta conscientemente de forma direta elaborada num discurso ou somente existindo. São 8 músicas, três da Manu com parcerias, tem também prosas e poesias no meio. Foram convidadas para participar a Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves e Elisa Lucinda representando o time de escritoras, e Marcele Motta, minha parceira tem tempo, Fabiana Acoza e Leci Brandão. Gravo no disco o último samba da Mangueira, que virou um hino nas rodas, e cantar com a Leci foi muito emocionante pois o nome do disco tem tudo a ver com a sua história também.

Cantamos justamente a história que não é contada nos meios oficiais, e a Leci é essa figura combativa do samba desde antes de ser parlamentar e assumiu esse protagonismo de ter voz. Tem a produção da Ana Costa, que tem uma história bacana como cantora, compositora e arranjadora. São 8 mulheres de frente e será lançado no dia 28 de novembro, o Leandro está pensando o conceito do disco, está desenhando a capa, que será lançado nas plataformas digitais. Está previsto no edital um lançamento menor na sede da Oi, no Catete, e já estou pensando num lançamento maior.

Foto: Marcelo Costa Braga

Luiz Antônio Simas, um intelectual das ruas cariocas

Luiz Antônio Simas, um intelectual das ruas cariocas

Foto: Marcelo Costa Braga

Um intelectual orgânico seria a forma mais próxima de anunciar o historiador, compositor e escritor Luiz Antônio Simas. Aulas em praças públicas, botequins, palestras em universidades, na Academia Brasileira de Letras, em terreiros de religiões afro-brasileiras, são alguns dos territórios por onde transita. Sempre presente nas mídias sociais, divulga sistematicamente seus diversos trabalhos. Autor de dezoito livros, se mantém permanentemente em movimento.

Conhecedor profundo da cidade do Rio de Janeiro, fruto dos seus estudos acadêmicos e andanças pela cidade, lançou recentemente O corpo encantado das ruas. A obra se espelha de forma mais engajada na perspectiva do jornalista e escritor João do Rio, que publicou A alma encantada das ruas no início do século passado. Apresentar a cultura popular da cidade e seus costumes é uma das muitas propostas da narrativa.

Nesse mergulho multicultural, o samba acabou se tornando um objeto especial das suas pesquisas. Dentre algumas das suas obras sobre o tema, o Dicionário da história social do samba, produzido em coautoria com o sambista e historiador Nei Lopes, lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2016, um dos mais renomados da literatura nacional.

Na entrevista à NINJA, faz uma análise sobre o papel do samba na cidade e na cultura nacional, trazendo também algumas características contemporâneas deste gênero musical. Fala também sobre o impacto da ascensão do neopetencostalismo na cultura popular e no país, além dos embates do poder público com as expressões artísticas no Rio de Janeiro. Aborda ainda os desafios e atividades do escritor nos dias de hoje.

Você acabou de lançar o livro O corpo encantado das ruas, que remete à obra do João do Rio sobre uma época do Rio de Janeiro. Quais assuntos te inspiram?

Minha formação é em história na UFRJ e achei que fosse estudar o século XVIII e o barroco mineiro, a história da arte, mas fiz um curso sobre a primeira república e fiquei especialmente animado com a revolta da vacina, que não era muito falada e impressiona com o que ocorreu na cidade. Estudei também os efeitos da lei que penalizou a vadiagem em 1890 no Rio de Janeiro e comecei a me interessar profundamente pela história da cidade, eu que sou carioca de uma família de alagoanos e pernambucanos. Comecei a estudar culturas populares e minha primeira conclusão foi que do ponto de vista da cultura é uma cidade africana, porque se você tira do Rio essas referências não sobra nada: capoeira, samba, umbanda, candomblé, omolokô, jongo, etc.

Ninguém passa impunemente pela experiência de ser o maior porto de entrada de africanos escravizados na história humana. São quatro grandes polos: Rio, Salvador, Recife e São Luís. Mas aqui foi o mais intenso e recebeu muitos africanos bantos, diferentemente de Salvador que recebe um tráfico sudanês do golfo da Guiné Bissau, Costa da Nigéria e Benin. O Rio é Angola, Moçambique e Congo. No tráfico negreiro o escravizado que vem pra cá não é uma ferramenta só de trabalho, é um cara que possui saberes, tecnologias, conhecimento musical, portador de cultura. A diáspora não é só de corpos, é de sonoridades, sabores, etc. Tenho até lido sobre cultura popular brasileira de forma mais ampla, mas estudo as culturas da cidade. Você descobre que é uma cidade atlântica, profundamente impactada pela presença africana: samba, as suas escolas, as macumbas, a perspectiva de culturas urbanas, o botequim, é uma cidade rueira. E esse livro novo fala de tudo isso, porque o João do Rio escreveu a Alma encantadora das ruas, mas quero ver quais são os corpos que passam por elas. Existe uma questão de corporeidade, o corpo do samba, o que se desloca, da capoeira, do que vai a quitanda, encantado do zé pelintra e das pombas giras. É tomar a rua como uma entidade. Faço mais que uma atualização histórica, porque ele vê com certo estupor e preconceito a essas culturas da rua. Ele ama mas assusta, e eu tento enxergá-las como constituintes dos modos de vida da cidade.

E como se dá essa dinâmica cultural de rua em relação à política e ao Estado?

Em geral é um embate, a rua é um local de disputa na cidade. Com exceções os governos operam na lógica da disciplina e higienização. Então você tem uma rua vista muitas vezes pelos governos e por um recorte ocidental encarada como passagem e circulação de mercadorias, e a rua que me interessa é a do ponto de encontro. Existe uma tentativa por parte do poder público de disciplinar a rua, você tem por exemplo praças cercadas, o carnaval dentro de uma lógica que vai do discurso da segurança pública até o da viabilidade do mercado. Tem um comércio de rua que está desaparecendo e sendo engolido pelo shopping, a barbearia de rua vai sumindo, a quitanda característica de um Rio africano e português vai perdendo espaço para o hortifruti, o açougue desaparecendo, existindo apenas mais para os subúrbios e zona norte, perdendo lugar para as assépticas boutiques de carne. Há todo um comércio de sociabilidades de rua que vai desaparecendo, a rua vai sendo desencantada nesse sentido. Uma rua cada vez mais legitimada pela circulação de mercadoria e de carro ou ônibus, mas essa rua do encontro, da encruzilhada, da esquina, da roda de samba, do despacho, que é viva, entra em conflito. Hoje esse ataque é muito claro, você tem uma série de coisas ligadas às culturas de rua que estão desaparecendo. Nós somos uma cidade civilizada pela rua, que está sendo disputada, e existe uma lógica do poder público de discipliná-la.

Foto: Marcelo Costa Braga

Essas questões têm a ver com algo mais macro, no sentido da globalização, influências hegemônicas norteamericanas, estruturas econômicas etc?

Claro, algo mais amplo de um modus operandi. Você tem um bairro, por exemplo, como a Barra da Tijuca, que é uma espécie de simulacro de Miami. É pensada basicamente para carro, se você quiser fazer um despacho não vai conseguir porque quase não tem esquina. Os botequins estão dentro dos shoppings, assim como a barbearia, então tem uma lógica de cidade pensada a partir do paradigma do automóvel e essa cidade africana e também portuguesa vai sucumbindo a esses ditames. Você trabalha hoje com o que prefiro dizer globalitarismo, porque estabelece padrões culturais que trabalham na linha de homogeneizar tudo. É a Mc’ Donaldização do mundo, padronizar Burkina Faso, o Brasil, passando pela Islândia e por aí vai.

E como o samba se encaixa neste contexto de embate na cidade, levando em conta que tem muitas casas mas também rodas nas ruas?

O samba é uma construção de cultura diaspórica, de sociabilidade da diáspora, e por incrível que pareça vejo uma situação muito potente para ele. Tem muita coisa acontecendo no Rio, está melhor que na década de 80 e 90. Tinha rodas em lugares muito específicos e hoje tem um movimento que talvez seja uma reação a essa tentativa de disciplinar a rua, onde o samba está acontecendo com muita frequência. Tem roda todo dia e na cidade inteira. É curioso isso, acho que é bem reativo mesmo, porque a história do samba é de construção de sociabilidade no precário. Ele é filho da diáspora, e se toda diáspora estraçalha laços de identidade e redes de sociabilidade, toda cultura de diáspora é um empreendimento inventivo. O samba é isso, reconstrução de sociabilidade. O Roberto Moura, infelizmente falecido precocemente, diz num livro: não é o samba que dá origem a roda, é a roda que dá origem ao samba. Quer dizer que o samba surgiu do fato de as pessoas se encontrarem, a necessidade de você criar redes de sociabilidade, de proteção, construção de identidades. É um ato de reconstrução de mundo. Isso inclui a política, a sociabilidade, identidade. O samba não é um ritmo só, uma coreografia, um gênero musical, porque em torno dele circulam maneiras de viver, celebrar a morte, comer, beber, se vestir, chegar num lugar, se relacionar com o mistério. É um complexo cultural que vai muito além de ritmo e coreografia.

A política do ponto de vista não partidário, mas de narrativa, como se manifesta no samba? No sentido de figuras como um Candeia, por exemplo, e alguns outros.

Política também, no sentido de estar na polis, mas eu diria que o samba é exercício de cidadania que, em última análise, é interagir com a cidade. Pertencer e estar na cidade, os caminhos da cidadania formal no Rio foram fechados na maior parte do tempo aos pobres e afrodescendentes. Estou me referindo a direito de voto, durante muito tempo analfabeto não podia votar. Você vai recriando formas de atuar na polis, ou seja, fazer política, e interagir com a cidade, ou seja, ser cidadão. O samba entra nesse processo, no momento que você ocupa um território e o redimensiona a partir da experiência coletiva do samba você está fazendo política e exercendo cidadania. Já é político mesmo que aparentemente não tenha um samba político.

Como você avalia a transição geracional do samba?

Diversa. Tem o samba de raiz, que aliás é uma invenção recente, o termo não aparecia na década de 70 e 80, porque é complicado defini-lo. Se você pegar a raiz é batuque africano do Congo, não é o samba do Estácio. É o que transforma, pega o samba de roda e o maxixado, que era aquele da concheia, e muda para o adequado a cortejo, isso já é uma inovação. Por que o maxixe musical morreu e o samba não? Era um gênero que ficou ali na década de 20, o samba tem a capacidade de dialogar o tempo todo com a conjuntura que está inserido e uma capacidade rara de manter se transformando. Tanto é que tem diversos gêneros, o canção que dialoga com o bolero, o esquema novo pro lado do ieieiê da jovem guarda e rock in rol do Jorge Ben, o samba transformador da geração do Cacique de Ramos, que muda a pegada a partir da instrumentação quando bota o tantan no lugar do surdo, começa a usar repique de mão e o banjo, adaptando o braço de um instrumento norteamericano nas rodas do Rio, etc. Então o samba tem essa capacidade de dialogar, a Bossa Nova no nosso Dicionário da história social do samba com Nei Lopes está como samba num verbete.

Nesse livro vocês citam um período da indústria fonográfica em que ocorre uma mudança estrutural do mercado. O que mudou de lá para cá?

A indústria fonográfica basicamente quer vender e você tem a ascensão num determinado momento de um público de classe média que quer consumir disco. Ele não vai consumir o samba macumbado, africanizado, de uma pegada mais batuqueira, dos anos 20 e 30. Então, começa a ter um processo que vem com essa indústria desde os anos 40 com a rádio e tudo mais que chamo de desafricanização do samba. Vai tirando certos vínculos mais evidentes com a África para adequar a um padrão de consumo da classe média, que está sendo cooptada pela indústria do disco numa sociedade de consumo. A Bossa Nova, por exemplo tem toda a estrutura do samba mas o tambor foi escondido, então é um processo muito curioso e peculiar. O samba vive essas contradições, aí depois tem o surgimento de um Candeia que criticava isso e tenta a reafricanização do samba. São tensões que envolvem a história do samba o tempo todo.

Trazendo essa análise pro contemporâneo, como o samba pode ser entendido?

Está muito diluído, você tem o que é feito para o mercado com o pagode romântico numa linha mais popularesca e um pessoal que faz um samba mais contundente. Tem ainda a permanência de um estilo Cacique de Ramos, também uma geração que tenta buscar aquele repertório da década de 30 a 50, então a multiplicidade está presente. Não dá para encapsular o samba numa linha só, costumo dizer que ele é uma enzima que catalisa diversas coisas. Na química é quando você dá origem a um processo em que se mantém uma essência, mas ao mesmo tempo transforma aquilo numa coisa distinta. Então você tem o samba enredo, o partido alto, o samba bolero, pagode romântico, chula, duro, batuque de Pirapora de Bom Jesus, samba campineiro, o coco nordestino, etc. A multiplicidade do samba é muito grande, não podemos estreitá-lo na linha do paradigma do Estácio. Graças a essas variações ele está aí até hoje.

Foto: Marcelo Costa Braga

Dentro dessa dinâmica plural e diversa, tem tecnicamente falando uma qualidade renovadora com harmonia, poesia, etc?

Tem muita gente fazendo samba bom, uma geração de cantores de samba excepcional: Moyseis Marques é um grande cantor e compositor de samba, Pedro Miranda, Gabriel da Muda, uma geração de mulheres com uma pegada forte como a Nina Rosa, a Marina Iris, muita gente pesada fazendo samba.

Essa galera tem visibilidade como um Martinho da Vila ou Zeca Pagodinho lá atrás?

Eles pegaram o declínio da indústria do disco, porque os impactos da internet foram crueis. Martinho da Vila chegou a vender 1 milhão de cópias, enquanto hoje se um CD vender 20 mil cópias é muito porque cinco minutos depois você está baixando na internet. A maneira de consumir música mudou muito, foi tudo muito diluído. Tem vários fenômenos de massa hoje, como o sertanejo que é a cara do Brasil do agronegócio. A ascensão do agro tem sonoridade e aí tem jabá mesmo. Ainda tem o problema de divulgação, a mídia televisiva, o samba perdeu muito espaço neste sentido. O samba é cultura afro, é sempre bom lembrar que isso é um problema em se tratando de um país onde houve um avanço furioso do neopentecostalismo que vem acompanhado da demonização desses saberes. É um conjunto de medidas, tudo isso bota o samba numa situação complicada, a época dos grandes artistas com a projeção que tinham na década de 70 não existe mais. Não posso dizer que não vai mais acontecer, mas a perspectiva é outra. Tem uma garotada dialogando com o Cacique de Ramos, outra com o rap ou funk. O samba está vivo por causa disso, se ficasse aferrado a certa ideia de purismo teria o fim que o maxixe teve. Está dinâmico por causa disso, ninguém é dono dele. Dialoga com a contemporaneidade e a cidade, dialoga com tudo. É vivo porque tem uma capacidade incessante de se transformar mantendo. É preciso encará-lo como um complexo cultural, samba é um modo de viver.

Essa questão do neopentecostalismo tem muitas variáveis, incluindo dono de mídias, bancada evangélica, dentre outros elementos mais estruturais para além do Rio de Janeiro. Como você avalia isso?

É uma ascensão fulminante que está inserida no mercado da fé. Existe uma disputa nele que vinha se desenhando desde o início dos anos 80, e nela você trabalha com a ideia que vai ser forte se arrebanhar um número maior de fieis. Isso não surpreende porque quando a gente fala de racismo estrutural ele não se manifesta exclusivamente na impressão da cor da pele, embora ela seja o seu componente mais cruel, mas opera também no campo simbólico. Você pode perfeitamente bem não ser racista da pele, mas se você desqualifica um complexo de saberes está operando no racismo. Isso envolve o candomblé, umbanda, omolokô, samba, etc. Uma desqualificação dos bens simbólicos que as comunidades afrobrasileiras elaboraram, e isso volta com muita força. Hoje temos um discurso de demonização dos saberes africanos muito parecido com os da década de 1890, os cinco anos posteriores a abolição da escravidão.

E não é só uma questão de poder, porque isso se reflete na cultura popular basta ver uma evangelização massiva nas favelas.

Isso repercute no samba, tenho um artigo no Globo que deu uma confusão porque falei que as velhas baianas somem da passarela: como a evangelização das favelas impactou na ala das baianas. Algumas escolas com enorme dificuldade conseguiram o mínimo de baianas exatamente por causa disso.

Como você enxerga a atual conjuntura a partir do campo da cultura enquanto escritor?

Vivemos um cenário sincero, naquele sentido da etimologia grega: sinceros eram os atores que representavam sem as máscaras. As máscaras caíram, então você tem uma ascensão fulminante de um Brasil latente, de capitão do mato, capanga, senhores de engenho, bandeirantes genocidas, etc. Esse Brasil sempre pulsou e ele agora apresentou suas vísceras, saiu do armário. Isso pode ser uma depuração para o país, é difícil prever. O historiador tem a vantagem de dizer que só profetiza o que já aconteceu, e ainda assim erra. Mas é um contexto dramático, tenebroso, de desmonte, realmente de colonialidade. Há uma diferença entre colonialismo e colonialidade, aquele é um fenômeno datado quando ficamos independente de Portugal e este continua.

Mas não é mais aquela visão clássica europeia, as características mudaram.

Hoje é uma mistura de tudo, norteamericano, é mercado, a ascensão de pastores eletrônicos, que tem a ver com uma disputa. Está tudo muito fragmentado, mas dentro disso você tem um país com as vísceras expostas. O que vai acontecer disso eu não sei. É uma situação tenebrosa em que o mito da cordialidade vai para o beleléu.

Foto: Marcelo Costa Braga

E onde o Rio de Janeiro entra nesse cenário profundo nacional que você abordou?

É uma cidade colapsada, que sempre foi complicada e violenta. É importante lembrar que o mito da cidade maravilhosa é produzido num dos momentos mais violentos da história do Rio: reformas urbanas da primeira república, que vão expulsando as populações das regiões centrais para o loteamento das duas freguesias suburbanas, que eram Irajá e Inhaúma. Naquele contexto de uma violência simbólica e física muito pesada construiu-se o mito da cidade cordial. De certa maneira o Rio hoje é um tambor de ressonância desse Brasil que tem o embate do avanço desse neopentecostalismo, em que há uma disputa de organizações nacionais e transnacionais criminosas pelo domínio do território, que tem a ascensão de máfias nos velhos moldes da máfia italiana que são as milícias. É uma cidade em convulsão, a sobrevivência aqui tem de ser tática, tem comportamentos já introjetados e naturalizados que nem percebemos.

No meio da contemporaneidade em que o audiovisual e textos curtos nas mídias sociais imperam com as modernidades tecnológicas, aonde o escritor se encaixa?

De fato existem outras formas de conexão de uma garotada que está vindo com a informação que não passa pelo livro, mas quando falam para mim que ele é um produto em crise digo: está em crise desde Gutenberg, sobretudo numa sociedade com a quantidade de alfabetizados mínima e o número de analfabetismo funcional enorme. Como lido com isso? Não sou escritor, que trabalha com crônica, história, etc, limitado ao livro. Trabalho muito com aula pública, rede social, diálogo direto com a rua, porque o livro não se basta. Estou longe de ser aquele escritor encastelado e recluso para criar, um Salinger que escreve O apanhador no campo de centeio e ninguém entrevista. Pelo contrário, acho que o livro é parte de um processo mais amplo de interferência na cidade e que passa por uma série de conexões como twitter, facebook, instagram para usar como comunicação. Estou conversando contigo numa sexta no Bar Madrid, ontem estava no Museu Imperial de Petrópolis e no domingo estarei na Praça Agripino Grieco dando uma aula pública sobre o Zé Keti e autografando livro no coração do Méier, no sábado darei dois cursos no Centro da cidade e assim vai. Estou com uma agenda que vai da Academia Brasileira de Letras a terreiro de umbanda.

E como você vê o mercado do livro hoje com editoras em crise e livrarias fechando?

Hoje não dá para viver de escrever, a escrita é contraturno ao meu trabalho. Você tem um mercado editorial que um ou outro consegue viver de livro, quando você é um best seller ou uma coisa dessa, escreve uma auto ajuda, etc. Não glamorizo muito o livro não, tenho dezoito lançados mas é uma ferramenta de interação e interlocução. É produção de conhecimento e ao mesmo tempo interlocução com a cidade.