LGBTQIA+Tech: big data, mapa e diversidade 

LGBTQIA+Tech: big data, mapa e diversidade 

Combater preconceitos e construir ambientes seguros para con(viver). Mesmo que o mundo pareça ter avançado em alguns debates identitários, estamos longe de vivermos em mundo que respeite a diversidade. A cada 19 horas, uma pessoa LGBT é morta no Brasil. A cada hora, uma é agredida. Foram 445 assassinatos por LGBTfobia no ano de 2019 no Brasil. No caso de pessoas trans, que têm expectativa de vida de 35 anos, uma pessoa é assassinada a cada 26 horas. Os dados são do Grupo Gay da Bahia, Rede Trans e Mães pela Diversidade.

Como podemos combater e reverter esta realidade? A tecnologia tem sido responsável por proporcionar soluções frente a determinados desafios civilizatórios. Os recursos tecnológicos também podem ajudar os publicos que precisem de algum tipo de ajuda ou intervenção. Como é o caso de plataformas, aplicativos entre outras ferramentas voltadas à comunidade LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênero, Queer, Intersexo, Assexuais, Pan e Polissexuais e mais). A boa notícia é que o número de recursos aumenta gradativamente. No entanto, a má notícia é que o público LGBTQIAP+ continua precisando desses serviços, já que o preconceito e a violência não estão nem perto de deixar de existir. 

Para abordar este tema, entrevistei Hóttmar Loch, CEO e Cofundador da Nohs Somos, uma startup de impacto social que se dedica a trazer bem-estar para a comunidade LGBTI+ e auxilia as empresas a melhorarem sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão.

Imagem: Divulgação Nohs Somos

Recentemente a startup lançou o Mapa Lgbti+, um mapa de ranqueamento de lugares amigáveis que mobiliza os usuários LGBTI+ para avaliações. Dessa forma, através da ferramenta, é possível fornecer informações e avaliações confiáveis de lugares como restaurantes, bares, academias, empresas e entre outros que sejam amigáveis à comunidade de pessoas LGBTI+. A métrica de avaliação foi criada em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina. A Nohs Somos também é signatária das ODS 5,10 e 11. 

Além disso, também trazem o tema diversidade e inclusão para as empresas. Por isso, a startup criou uma solução para auxiliar o meio corporativo a melhorar sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão. Hoje, a Nohs Somos atua com consultorias para clientes como Liberty Seguros, Whirlpool, Pulses e Ambev.

Qual o problema que vocês identificaram e que levou vocês a desenvolverem esta plataforma e solução do Mapa LGBTI?

A Nohs Somos foi criada em 2018, do desejo de um grupo de amigos de fazer alguma coisa para combater a forte onda de violência à comunidade LGBTI+ durante o processo eleitoral. Foi organizado um movimento com mais de 150 pessoas LGBTIs, para criar uma solução que prezasse a segurança e o bem-estar da comunidade, usando a tecnologia como aliada.

Quais as funcionalidades que os usuários terão acesso e o que eles podem fazer na plataforma?

A partir de um cadastro, a plataforma disponibiliza a funcionalidade do mapa, ranqueando os lugares amigáveis próximos e mobilizando o usuário LGBTI+ a avaliar. Quando a pessoa avalia, os lugares são inseridos no mapa. Nos locais que tiverem pelo menos 10 avaliações, é publicada uma média da nota. Além disso, é possível fazer comentários sobre os estabelecimentos, no primeiro momento, por questões de segurança, essas informações passarão por uma moderação antes de serem publicadas no site.

Para um lugar ser considerado amigável, ele terá que ser classificado com notas acima de 4 estrelas. Também os usuários podem filtrar locais de acordo com as letras da comunidade. Dessa forma, é possível filtrar lugares que são amigáveis às pessoas lésbicas, gays, bis, ou trans. Isso porque existem lugares que são gay friendly, entretanto são transfóbicos. As tags podem ser avaliadas pelos usuários incluindo os espaços que são LGBTIs+, Antirracistas e Trans Amigues que tenham um atendimento acolhedor, público respeitoso e um bom custo benefício. 

Nesse momento de pandemia, o objetivo da funcionalidade é mapear os lugares já conhecidos pelos usuários. A comunidade LGBTI+ pode participar dessa transformação sem sair de casa. O Mapa Lgbti+ está em construção e além de avaliar e ajudar nessa transformação social, as pessoas usuárias podem ganhar recompensas, com cupons exclusivos. E assim que o isolamento acabar, a funcionalidade poderá impactar na decisão da escolha na busca por lugares amigáveis. 

Ilustração: Divulgação / Nohs Somos

Qualquer lugar do país pode participar?

O mapa pode ser utilizado em todos os lugares do Brasil, já que usa sua tecnologia utiliza API do google maps. Assim que uma pessoa usuária procura um local, esse lugar passa a ser inserido no mapa amigável. Contudo, só será possível gerar uma nota, com o mínimo de 10 avaliações.

Como estão sendo estas primeiras semanas de divulgação e trabalho? Quais são os desafios que estão enfrentando?

Estamos muito contentes com o desempenho do projeto, desde o lançamento, no último dia 14, já estamos em mais de 233 cidades ao redor do país, com mais de 700 avaliações de lugares amigáveis. Contudo, ainda temos muito trabalho pela frente. A Nohs Somos é uma startup lgbti de impacto social, não temos divisão de lucro e nosso objetivo é ser um marketplace que aproxima o mercado amigável da comunidade LGBTI+, alinhado a valores. Com isso, o principal desafio é continuar o trabalho de marketing, para popularizar a plataforma, angariar recursos e dar sequência no desenvolvimento das outras funcionalidades, como o aplicativo com rotas seguras, funcionalidade de denúncia entre outras. 

Como vocês veem o papel da tecnologia neste contexto atual? Qual desafio enquanto organização vocês enfrentaram neste setor? 

A tecnologia é neutra: ou seja, há pessoas por trás que tomam a decisão de como essa ferramenta impactará na vida das pessoas que a utilizarão. A Nohs Somos é um bigdata lgbti, que  organiza os dados da comunidade LGBTI+ com objetivo de informar de maneira segura e confiável, promovendo o bem estar da comunidade lgbti+. Em relação aos desafios, o principal vai de encontro ao mercado: segundo o relatório da Brasscom, seriam necessárias 70mil pessoas com perfil tecnológico por ano, contudo, o Brasil só forma 46mil. E hoje a Nohs Somos conta com parte do seu trabalho de apoios voluntários, o que torna a competitividade de mercado ainda mais difícil. 

O projeto foi desenvolvido em Software Livre e esta aberto para a colaboração de pessoas da área de desenvolvimento?

Infelizmente o projeto ainda não está com o código aberto, contudo é um dos objetivos da Nohs Somos e esperamos em breve poder abrir. 

Vocês realizaram várias parcerias para a criação da Plataforma. Quantas pessoas estão envolvidas no projeto e como foi feita a mobilização, tanto para o desenvolvimento quanto para a divulgação?

Atualmente contamos com uma rede de mais de 50 parceiros, entre organizações e pessoas, sendo 90% pessoas LGBTIs+, 30% pessoas negras, 15% pessoas com deficiência e 40% mulheres cis e trans, espalhades pelo país, que apoiam produzindo para o projeto principalmente nas áreas de Marketing e Mídias, Produto e desenvolvimento, Administrativo e Jurídico. 

Clique aqui para acessar o mapa!

 

 

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Design e Tecnologia. Estudos de casos de “role models” femininos brasileiros

Design e Tecnologia. Estudos de casos de “role models” femininos brasileiros

O estudo e o cumprimento de ações a favor de mulheres em tecnologia deve ser visto, cada vez mais, sob um prisma trans e multidisciplinar. O impacto de algumas disciplinas das Ciências Sociais (como História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Comunicação, Linguística etc) nas Ciências Exatas (sobretudo da Computação) provocou mais do que novas perguntas e respostas em temas como inclusão, empoderamento e diversidade feminina em TI.

Em um processo simbiótico e vertiginoso nos últimos 30 anos, marcado pelo lançamento da Web, o advento de novos dispositivos de interação e conhecimento como móveis e wearable, programas computacionais antes considerados complexos e restritos a ambientes universitários e corporativos de elite, tornaram-se populares ao alcance massificado de uso doméstico. Se hoje estamos ocupando um espaço virtual em uma plataforma da Mídia NINJA para falar sobre a tecnologia como um meio de realização profissional e pessoal femininos, é necessário compreender que muito da literacia informacional desenvolvida por e para este público deu-se, ainda, pela intercessão de domínios como o Design de Interação, a Ciência da Computação, a Psicologia e a Comunicação, por exemplo.

Acompanhamos hoje um fenômeno crescente e constante por mulheres em migração de carreira para a tecnologia, seja para ciência de dados, games, ou pelo direito de autonomia para programar. Muitas destas desbravadoras obtiveram uma formação em Ciências díspares das Exatas, mas encontraram em comunidades femininas tecnológicas e ainda pela oferta de cursos e formação pela Web, caminhos próprios para obter realização e sucesso em TI. Aquelas que tiveram uma formação essencialmente em Ciências Exatas, como Engenheiras, percebem a necessidade de complementar a formação indo ao encontro das Humanas e outras áreas, para a maior assertividade e efetividade em atividades como testes de software, desenvolvimento de produtos, estudos comportamentais e de interação humano-tecnológica.

Decidi na coluna deste mês apresentar dois modelos (role models) femininos bem sucedidos brasileiros que exemplificam esta breve introdução. Certamente, em próximas colunas, voltarei a debater aspectos desta simbiose entre disciplinas as quais orbitam dentro e em torno da tecnologia. Por agora, quero trazer como inspiração duas mulheres cuja trajetória profissional e acadêmica eu tenho acompanhado de perto. Uma designer com formação em programação, que desenvolve projetos próprios e nas empresas as quais trabalhou, Karina Tronkos, premiada quatro vezes pela Apple. Uma engenheira da computação a qual se especializou em design e se tornou referência como empreendedora no Brasil, agora em Portugal (minha companheira de doutorado, inclusive), em teste de software e no desenvolvimento de tecnologias para pessoas com deficiência, voltadas sobretudo à inclusão no mercado de trabalho, Virgínia Chalegre. Entrevistei ambas para tentar compreender motivações que as fizeram escolher estes caminhos, assim como mapear quais foram as escolhas e ações investidas as quais contribuíram para se tornarem referências, para além do gênero, no mercado profissional de tecnologia.

Karina Tronkos

Karina Tronkos tem 23 anos, é estudante de Ciência da Computação e vencedora do Scholarship da Apple nos últimos 4 anos. Trabalha como UX Designer no Hurb e já trabalhou em empresas como Globosat e Globo.com. Entusiasta e apaixonada por design e tecnologia, criou o @nina_talks para compartilhar essa jornada e tudo que a empolga e inspira nesse universo.

Foto: Arquivo / Karina Tronkos

Considera seu trabalho como designer um trabalho feminista? É possível desenvolver interfaces e plataformas com características de inclusão feminina, ou o design para você é universal?

Acredito que a forma que designers feministas e a geração mais jovem fala e vê o mundo influencia na forma que nós projetamos. São inúmeros os produtos que são desenvolvidos sem foco nenhum em diversidade porque no desenvolvimento não havia pessoas para trazer esse olhar. Um olhar questionador, um olhar que busca abraçar o máximo de pessoas possível, que busca entender de verdade o seu público. Para mim o design deve ser sim universal, mas isso só será possível se tivermos pessoas com experiências de vida diversas trabalhando juntas.

No clássico de 1988, O Design do Dia-a-dia, Donald Norman afirma que “o design preocupa-se com a forma como as coisas funcionam, como são controladas e com a natureza da interação entre as pessoas e a tecnologia”. Na medida em que uma infinidade de novas tecnologias e plataformas foram criadas, sobretudo nos últimos dez anos, associadas a aplicações de inteligência artificial, poderia dizer que a importância do design se tornou maior, ou menor em função da opressão dos algoritmos?

Eu enxergo o design como sendo cada vez mais importante, principalmente no sentido de humanizar tecnologia. Estamos cada vez indo mais para um caminho de algoritmos mais profundos e complexos e isso precisa ser muito transparente e honesto com as pessoas que vão interagir ou vão ser impactadas por eles.

Para mim o ponto principal do design é que são pessoas projetando para pessoas e que a tecnologia deve ser meio e não fim. O design centrado no humano/usuário busca colocar as pessoas no centro das decisões de produto e através desse pensamento a gente consegue repensar produtos, processos, serviços de uma forma muito incrível.

Cada vez mais os algoritmos influenciam interações e a maneira como consumimos informações, marcas, produtos indo ao encontro de nossos dados disseminados por mídias sociais e web. Como é hoje conceber e projetar o desenvolvimento de um projeto de design considerando estes contextos?

Pode parecer contraditório ter de projetar produtos e serviços que sejam cada dia mais precisos ao mesmo tempo que teremos cada vez mais restrição de acesso a dados, mas essas leis estão aí para buscar garantir transparência e honestidade. Claramente muitas empresas estão precisando reestruturar drasticamente seus negócios, mas estava ocorrendo muita displicência e abuso em relação aos dados das pessoas. Pensar sobre privacidade deve acontecer durante o processo de design, que é a própria ideia do conceito de “Privacy by Design”.

Quais foram as maiores conquistas de sua carreira como designer? Credita este sucesso a role models femininos? Caso sim, poderia citar alguns?

Com certeza foi ter sido vencedora do Apple WWDC Scholarship durante 4 anos seguidos por conta de aplicativos que eu desenvolvi e que eu acredito que foram escolhidos por conta desse meu foco na experiência do usuário (UX).

A pessoa que mais me inspira a acreditar nos meus sonhos é a minha mãe. Ela está sempre ao meu lado me apoiando, não me deixando desistir ou achar que não sou suficiente.

Mas também não posso deixar de citar mulheres incríveis que marcaram a nossa história e abriram as portas para mais mulheres em tecnologia: Ada Lovelace, Grace Hopper, Margareth Hamilton e muito mais!

Foto: Arquivo / Karina Tronkos

Dedica-se a algum tipo de trabalho de design inclusivo, desde dando aulas, ou projetos? Caso sim, quais?**

É uma área que eu tenho buscado estudar cada vez mais e que eu busco sempre atentar e evangelizar tanto as pessoas a minha volta como quem me acompanha sobre o tema.

Um tempo atrás eu fiz um post no Instagram sobre “Como produzir conteúdo acessível no Instagram” e foi incrível a repercussão! É um assunto que necessita urgentemente ser mais disseminado. Vou compartilhar alguns nomes de projetos incríveis: Surdos que Ouvem, Deficiência Tech, Movimento Web para Todos, Redesign for All.

Quais foram os maiores avançados percebidos por você em relação ao tema mulheres em tecnologia e mulheres em design? E quais são ainda os maiores desafios?**

Tenho visto mais comunidades lindas de mulheres em design e tecnologia crescendo, programas de incentivo em cursos e empresas, mas esse é apenas o início!

Sobre desafios, um dos principais é: como podemos dar a essas mulheres as habilidades para que se sintam confiantes para seguir uma carreira em tecnologia?. Não é apenas sobre aumentar a quantidade de oportunidades na área, mas também sobre apresentar o que significa trabalhar com tecnologia hoje em dia, o que as pessoas nessas funções fazem no dia-a-dia e o impacto que podem ter na sociedade. Além disso, ajudarmos a resgatar essa confiança dentro das mulheres de que o lugar delas é na tecnologia sim!

Todo o designer imprime uma marca a partir de um ponto de partida teórico clássico. Qual é sua marca no mundo? De que forma gostaria de influenciar jovens a serem designers?

O Nina Talks, meu projeto para trazer mais pessoas (principalmente mulheres) para a área de tecnologia, possui 3 pilares principais que são o meu norte e que definem a marca que eu quero deixar no mundo: inspirar, empoderar e educar. Os meus projetos e ações que eu tomo estão sempre alinhadas com esse propósito!

O design activista é “o pensamento, imaginação e prática do design, aplicados consciente ou inconscientemente, para criar uma contra-narrativa destinada a gerar e equilibrar mudanças sociais, institucionais, ambientais e/ou econômicas positivas”, segundo Fuad-Luke. Você defenderia práticas de design ativista desde a escola? De que forma valores de diversidade, inclusão e solidariedade podem ser ensinados com o design?

Sem dúvidas! O nosso objetivo como designers deve ser tornar as coisas melhores do que eram antes e nada melhor do que desde cedo projetarmos soluções que vão gerar impactos sociais, econômicos e ambientais.

Empatia é peça chave no processo de design, que é sobre ver com os olhos do outro, ouvir com os ouvidos do outro e sentir com o coração do outro. Quando a gente se coloca no lugar de outra pessoa e busca enxergar as coisas da perspectiva dela, o nosso horizonte se expande e a gente passa a vivenciar de verdade valores como diversidade, inclusão e solidariedade.

Você foi premiada por quatro vezes pela Apple em projetos de design. Como avalia o trabalho de designers e programadoras brasileiras em relação a outras mulheres com a mesma atuação em outros países?

Eu enxergo que muitas vezes o(a) brasileiro(a) enxerga o trabalho dos estrangeiros como muito melhor do que temos aqui. A nossa competência intelectual e técnica aqui no Brasil é enorme e deve ser cada dia mais valorizada! Nós temos incontáveis profissionais de tecnologia brasileiras incríveis e que merecem ter o seu trabalho reconhecido. Precisamos olhar para fora sim, mas não podemos deixar de olhar para dentro também.

Virgínia Chalegre

Autora do livro Teste e Acessibilidade – NEA Ediçoes. Aluna do Programa Doutoral ICPD da Universidade de Aveiro/Universidade do Porto. Mestre em Testes de Acessibilidade- UFPE. Especialista em Gestão e Qualidade de Software – Universitat Politécnica de Catalunya – Barcelona, 2008. Especialista em Engenharia de Software, FBV/Qualiti – 2007. Bacharel em Ciência da Computação, UNICAP – 2003. Sócia-Fundadora e CEO da t-access, empresa que trabalha com testes de software, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Coordenadora e Formadora do curso de Empreendedorismo para Pessoas com Deficiência – Projeto Vencedor do Orçamento Participativo de Lisboa. Professora da disciplina de acessibilidade e orientadora do Mestrado de Design do CESAR School. Já trabalhou como Engenheira de Testes em várias empresas do Brasil e na NTE- Espanha. Palestrante, com artigos publicados em conferências nacionais e internacionais. Em 2018, Virgínia recebeu um voto de aplauso da Câmara Municipal do Recife, pelo título de Mulheres Influentes em Testes de Software na América Latina.

Foto: Arquivo / Virginia Chalegre / Marco Zero

Por que escolheu este caminho profissional, seguindo da Ciência da Computação para Engenharia de Software? Como foi este percurso em termos de desafios não apenas técnicos, mas também ligados ao fato de ser uma mulher em tecnologia?

Naquela época, final dos anos 90, se você gostasse de matemática, física e química, “deveria” seguir a área de exatas. Assim o fiz. Me deparei com uma sala cheia de homens, eu e mais quatro colegas mulheres. Apesar de saber que seria assim, na prática a teoria é outra. Segui e, dentro das minhas possibilidades, escolhi a Ciência da Computação. Realmente, não me via fazendo outra coisa. Estava mesmo feliz com a minha escolha. Aos 16, entrei na Universidade e fiz parte de uma turma que era considerada mista por ter, por volta de doze mulheres e quarenta homens, dentro deste curso. Quando comecei a trabalhar, a realidade das empresas também não era diferente. Os homens prevaleciam. Eu, por vezes, me impunha uma couraça de durona, para ocupar o meu espaço, para ter o meu trabalho reconhecido, para que não houvesse possibilidade de julgamento de gênero ou, minimamente, uma ameaça de assédio.

Você é especializada em testes de software, autora de livro sobre o tema, empreendedora de empresa que realiza este trabalho voltado à acessibilidade há mais de 20 anos. Por que e como também voltou sua formação e carreira profissional para este campo, de pessoas com deficiência? 

Eu comecei a trabalhar com desenvolvimento e em 2005 entrei na área dos testes, num grande projeto internacional, onde envolvia empresas do Brasil, da Itália, da Rússia e da China. Em 2009, iniciei o mestrado em Ciência da Computação, com um tema para elevar a  produtividade das engenheiras e engenheiros de testes. Não estava feliz com a minha pesquisa. Acreditava ser muito mecanizada, para ser aplicada em pessoas. Neste mesmo ano, meu chefe da época me pediu para fazer testes com pessoas com deficiência visual. Trabalhávamos num portal governamental e, por lei, precisava ser acessível. Tentei preparar os testes, mas não sabia por onde começar, porque encontrei poucas pesquisas na área. Chegado o dia, duas pessoas cegas e eu, numa sala, pedi para eles iniciarem os testes.

Corta para: as pessoas cegas utilizam uma ferramenta assistiva, chamada sintetizador de voz, em que lê o conteúdo digital e transmite em áudio para o usuário.

Quando eles iniciaram o programa leitor de telas, eu não conseguia acompanhar, visto que a velocidade da leitura era muito mais rápida do que a minha audição estava adaptada a compreender. Neste momento, percebi que a única pessoa com deficiência daquele ambiente era eu.

A partir desta experiência, mudei o tema do mestrado, comecei a trabalhar com acessibilidade. Fundei, junto com duas sócias, a t-access, para trabalhar com testes e acessibilidade de software. E, desde então, a acessibilidade segue me levando para caminhos inimagináveis.

Teste com vendas. Exercício de empatia.

Quais são os requisitos mínimos, ou mais importantes, que um software precisa ter para ser acessível a qualquer pessoa? 

De pronto, eu indicaria 3:

  1. Descrever conteúdos não textuais;
  2. Publicar textos simples, objetivos e inteligíveis;
  3. Pensar em diferentes formas de comunicar, como alternativas para o áudio, por exemplo.

Porém, há mais de sessenta diretrizes de acessibilidade contidas no WCAG 2.1 (Web Content Accessibility Guidelines), padrão internacional, que serve de referência para a legislação e a validação da acessibilidade de vários países, inclusive, do Brasil. Criado pelo WAI (Web Acessibility Initiative), grupo de trabalho do W3C, contém várias diretrizes para garantir a acessibilidade digital a todas as pessoas. Se quiser conhecer melhor os requisitos, para tornar a sua plataforma/conteúdo digital acessível, pode consultar a página da WCAG 2.1: https://www.w3.org/TR/WCAG21/

A experiência do usuário é um dos campos do design de interação a ter crescido em importância científica e profissional nos últimos 15 anos. Como professora também em design, como é possível desenhar e testar o uso de uma plataforma para pessoas com deficiência?

Antes de mais nada, diria que o melhor caminho é envolver os usuários, de diferentes perfis, desde a concepção do produto até a sua publicação. Outro ponto é desenvolver empatia. Como professora, vejo que as técnicas e diretrizes de acessibilidade são muito melhor percebidas pelos estudantes, quando antes, há alguma atividade que possa fazê-los sentir o que as pessoas com deficiência sentem. Mesmo que por alguns minutos. Quando percebi que esta atividade mudava completamente o mindset das pessoas, passei a aplicá-la em todas as aulas.

Qual a sua visão sobre a evolução destes campos profissionais no Brasil e fora do país dentro dos campos profissionais que são suas expertises: desenvolvimento, teste de software e tecnologias para pessoas com deficiência? Poderia falar sobre conquistas em aspecto não apenas técnico, mas ainda de oportunidades, sobretudo para mulheres?

Ainda existe um longo caminho a percorrer. Sabemos que ainda há diferenças salariais e menos capital investido para empreendedoras na área de tecnologia, por exemplo. Porém, já vejo um mercado muito diferente, comparado ao dos anos 2000. A aceitação da acessibilidade também está maior e o leque de trabalhos, que podem ser realizados por pessoas formadas (ou interessadas) nesta área, é enorme.  Já conseguimos quebrar o paradigma de que as pessoas que estudam computação ou áreas afins só podem trabalhar com desenvolvimento de software. Adicionado a isto, temos muitos movimentos e coletivos femininos que trabalham para incluir mulheres na área de tecnologia. E acho que este é também o nosso papel, como privilegiadas numa sociedade desigual. Sonho em ver mais mulheres com e sem deficiências, empreendendo, trabalhando com TI e tendo, acima de tudo, liberdade de escolha.

Testes com pessoa com deficiência visual

Os testes de software que você realiza abrangem pessoas com qualquer tipo de deficiência? Como tem sido o retorno deste público quando se sente contemplado como usuário de uma tecnologia que deveria ser universal? Quais são as dinâmicas de teste que realiza com estas pessoas?

Abrangem pessoas de qualquer deficiência sim. As pessoas se sentem, normalmente, muito acolhidas e chegam, muitas vezes, a se fidelizarem ao produto, visto que o normal é não incluí-las, apesar de fazer parte da legislação de muitos países. Mais do que lei, vejo a acessibilidade como uma questão de responsabilidade social. Se eu tenho direito de acesso às informações, qualquer pessoa deve ter também.

Se somos chamadas para executar um serviço de acessibilidade, analisamos as diretrizes que melhor se adéquam à plataforma, executamos testes, tentando reproduzir um pouco do contexto, utilizando também as ferramentas assistivas , para validar a qualidade do software e buscamos contemplar os conceitos de user experience, envolvendo os usuários com deficiência desde as primeiras fases da pesquisa até os testes de lançamento do produto. (A Foto: Teste com Vendas – Exercício de Empatia, representa um pouco o que estou falando).

Fale um pouco sobre seu projeto europeu de desenvolver ferramentas tecnológicas de acessibilidade para pessoas com deficiência.

Como falei, comecei trabalhando com testes e acessibilidade digital. Ao longo destes anos, fomos abraçando os projetos de inclusão de pessoas com deficiência. Em 2015, criamos o projeto: Qualificar para Incluir, com a meta de qualificar as pessoas com deficiências nas áreas de testes de software, desenvolvimento, empreendedorismo e tecnologias colaborativas, suprindo também uma necessidade latente das empresas de contratar pessoas qualificadas. Já participaram deste projeto pessoas com deficiência visual, auditiva e intelectual, no Brasil e em Portugal. A próxima turma será para pessoas com deficiência motora, projeto que foi submetido para o orçamento participativo de Lisboa e que será executado no primeiro semestre de 2021.

Foto: Arquivo

Para jovens interessadas em ingressar em tecnologia, quais seriam os conselhos hoje em termos de escolhas de carreira, o que você recomendaria daquilo que fez e o que acha que hoje escolheria, em virtude da evolução do mercado?A primeira pergunta que faço às minhas alunas e alunos do curso de empreendedorismo é: “Qual é a mudança que você quer ver no mundo?”. Pode parecer até clichê, mas noto que muitas pessoas possuem ideias abstratas de respostas e que só enxergam caminhos muito longínquos, para chegar neste lugar. Vejo também que se houver movimento, por menor que seja, esta mudança começa a acontecer e, muitas vezes, têm um impacto que não conseguimos mensurar. Portanto, eu começaria fazendo esta pergunta e pedindo para que as jovens pudessem ver a escalabilidade que as plataformas digitais possuem. Gostaria de complementar esta resposta com a célebre frase de Mary Pat Radabaugh: “Para a maioria das pessoas, a tecnologia torna as coisas fáceis. Para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis”.

Você é mãe de uma menina de 7 anos. Costuma estimulá-la a se interessar por tecnologia? Caso sim, de que forma? 

Fiz esta pergunta à minha filha. A resposta foi que sim, porque ensino como funcionam as tecnologias colaborativas e como elas podem ser acessíveis a qualquer pessoa. Outro dia ela estava no quarto e eu na sala. Recebi um e-mail dela, convidando para uma videochamada. Entrei e ela me pediu uma bolacha para lanchar. Muitas vezes o estímulo acontece tão naturalmente, que você nem sente no dia a dia.

Aula de Inovação Maker, em Recife

O experimento e o dilema dos corpos nas redes. Entrevista com Polly Oliveira

O experimento e o dilema dos corpos nas redes. Entrevista com Polly Oliveira

Na minha coluna “Um papo descomplicado sobre algoritmos de redes sociais” questionei os vieses existentes nos algoritmos do Instagram que o torna o reflexo da nossa problemática sociedade. E no que diz respeito às mulheres, nota-se que existe uma desvantagem em diversos fatores nas redes sociais, enquanto existem perfis de homens de diversas áreas, diversos assuntos, diversos lugares, para a mulher só sobra o conteúdo de beleza e comportamento. Para as influenciadoras mulheres há muitos desafios para conseguirem engajamento e seguidores, é preciso jogar o jogo do algoritmo, senão o conteúdo não é entregue. 

No Brasil, os perfis de mulheres mais seguidos no Instagram são aqueles perfis que quase sempre são entregues aos padrões, são patrocinados por marcas que vendem produtos em geral e que indiretamente vendem mentiras: o corpo ideal, a dieta, o chá que emagrece, o exercício que emagrece em 10 dias, entre outras. Não são perfis que contam as verdades, como por exemplo as dificuldades de ser mulher no mercado de trabalho dominado pelos homens, as dificuldades de ser mãe e provedora ao mesmo tempo, sobre os relacionamentos abusivos que são quase inevitáveis, informações sobre assédio, abuso, violência doméstica, estupro e tudo o mais, todas essas informações que emancipam mulheres são boicotadas. 

Uma dessas mulheres que sigo que me trouxe essa realidade que eu não tinha conhecido antes, das influenciadoras que não são recomendadas, são censuradas, têm suas contas excluídas por serem verdadeiras, serem gordas, serem pretas, serem mulheres trans, denunciarem o machismo, gordofobia, transfobia e racismo diariamente. Você muito provavelmente não conhece esses perfis porque o algoritmo não levou até você como tem levado a perfis de influenciadora fit, maquiadoras e etc. Já parou pra pensar se você segue alguma influenciadora mulher gorda, preta, trans?

“Responsabilizar o seu corpo de todas as mazelas que está acontecendo na sua vida, quando na verdade não é sobre nosso corpo, não é sobre nós, é sobre as pessoas que estão adoecidas ao nosso redor”

Foto: arquivo pessoal

A Polly Oliveira é essa admirável mulher influenciadora e escritora, que está conscientizando as pessoas em relação ao funcionamento das redes, mostrando as facetas do mesmo utilizando o método O Experimento, que está escancarando muitos vieses algorítmicos, que ao meu ver, simulam os preconceitos e as violências que vivemos que são os pensamentos gordofóbicos, racistas, sexistas, transfóbicos, e muito mais. Leia a seguir a entrevista:

Mariane: Eu comecei a acompanhá-la depois que você perdeu sua primeira conta, não tive acesso ao que você postava antes, gostaria de saber como você começou a usar o Instagram para falar sobre corpo, autoestima, padrões de beleza, etc.? Quais eram os conteúdos e qual é o seu objetivo enquanto influenciadora e escritora? 

Polly: Eu tô no Instagram há mais de 5 anos e eu sempre falei sobre a liberdade do corpo, sobre libertar as mulheres,  autonomia da mulher. Eu vim de um relacionamento abusivo, 10 anos de relacionamento, onde eu passava por agressões físicas e psicológicas também. E uma das agressões psicológicas que mais me afetou por muito tempo foi a questão da consciência corporal, de não conseguir me olhar no espelho, de achar que meu corpo não agradava aos olhos dos homens  e que isso poderia ter contribuído sim para tudo que passei. E quando eu me vi passando por tudo aquilo, por essas mutilações mentais eu comecei a procurar ferramentas dentro das redes sociais para me ajudar, que fizessem com que eu não me sentisse sozinha. E quando comecei a usar e vi que tinha pouquíssimas pessoas falando disso, de algo semelhante ao que tinha passado, eu comecei a me questionar porque que não tinha mulheres falando disso, será que eu realmente tinha sido sorteada? Eu imaginava. Não é possível que só eu passo por isso, não é possível que isso seja um problema unicamente meu. 

Vou começar a compartilhar minha história, vou começar a falar sobre isso, escrever sobre isso e quem sabe trazer mulheres que tenham histórias parecidas com a minha. E foi isso que aconteceu, comecei a falar sobre relacionamento abusivo, comecei a mostrar  algumas partes do meu corpo, de como eu me sentia quando eu olhava o meu corpo, eu comecei a narrar a minha história, sempre contando coisas que tinham acontecido, como eu tinha sobrevivido a esse relacionamento, como que eu me encontrava após esse relacionamento e isso começou a conectar pessoas, essa minha vulnerabilidade dentro das redes sociais, essa necessidade de falar o que é real. Toda vez que eu falar algo real dói em mim, porque não é legal mostrar suas fraquezas e suas vulnerabilidades nas redes sociais. Porque a gente aprendeu que as redes sociais é um local pra você ser quem você quiser, menos você. E a minha proposta foi diferente, foi mostrar quem eu era, e eu sabia que aquilo não ia agradar muitas pessoas, eu sabia que aquilo não ia aproximar muitas pessoas mas ia aproximar as pessoas certas. E foi aí que eu comecei a falar sobre esses padrões, a questionar, a fazer as mulheres também a questionarem, entende? Então meu objetivo enquanto influenciadora e escritora era sempre questionar, fazer as mulheres  se questionarem, a se perguntar porque estavam nesse lugar, porque elas aceitaram esse lugar, porque elas se odiavam. Eu costumo dizer que a gente está fazendo a pergunta errada, a pergunta não é “por que a gente não se ama?” a pergunta certa é “por que a gente se odeia tanto? por que a gente não permite se amar? por que a gente está sempre se odiando e se culpando pelos erros dos outros? por que a gente acredita tanto nos outros e não acreditamos em si mesmas” 

“Cada mulher vai viver o Mito da Beleza de sua maneira”

Foto: arquivo pessoal

Mariane: Como as mulheres recebem suas críticas aos padrões de beleza irreais da internet? 

Polly: Eu tenho tentado “treinar” essas mulheres a questionarem, todas as minhas críticas não são com os dedos apontados, pois cada mulher tem o seu tempo, cada mulher vai viver o seu mito da beleza de alguma maneira, no seu próprio tempo. Então eu nunca fui de estar na internet como juíza, sempre levei para a internet questionamentos, fazendo as mulheres se perguntam, então talvez pelo fato de eu instigar essas mulheres a se questionarem, levando informação e sempre finalizando meus post com o questionamento “Será que é isso mesmo que a gente quer? Será que somos nós que estamos escolhendo?” . Então  sempre trazendo os vídeos como um questionamento meu, como uma dúvida minha e quando essa dúvida não é só minha, isso ganha uma força muito grande. As mulheres também começaram a se questionar: por que a gente está fazendo isso? O que está acontecendo? Como que eu sei quando estou escolhendo por mim. Eu acho que essas mulheres acabam recebendo essas críticas como um afago também. Obviamente, tem mulheres que vão atacar, e é um ataque muito dolorido porque não estou ali para lutar por um grupo só de mulheres, estou na internet para lutar por todas, inclusive por aquelas que escolheram se mutilar em uma mesa de cirurgia. Mas como falei antes, cada mulher tem seu tempo, cada mulher vai viver o Mito da Beleza de sua maneira. E eu escolhi encher essas mulheres de questionamentos, eu acho que o questionamento trás mais respostas do que o próprio apontamento, do que a própria certeza, até porque não sou dona da verdade absoluta. Eu sou uma mulher cheia de questões com meu corpo, as pessoas acham que “a Polly fala sobre empoderamento feminino, fala sobre liberdade do corpo, então ela olha pro espelho e ama tudo que vê“ Não! Só que eu enfrento esses meus desafios internos todos os dias, acho que isso me torna diferente, eu reconheço, me olho no espelho e sei que estou sofrendo sequelas e consequência de um relacionamento abusivo, estou sofrendo sequelas de viver em uma sociedade que impõe um padrão a todo tempo. Mas eu questiono isso, e eu tento ressignificar o meu olhar pro meu corpo todos os dias, não é só uma vez por mês, não é só uma vez na semana, são todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia eu estou ressignificando o meu olhar, eu to olhando pro espelho e tô tentando entender o porquê de eu estar com uma barriga feia se ela não é feia? Por que me ensinaram a olhar pro meu corpo dessa maneira?

“As redes sociais é um local pra você ser quem você quiser, menos você”

Foto: arquivo pessoal

Mariane: Você já recebeu algum relato de seguidoras sobre como os seus conteúdos tem ajudado elas de alguma forma sobre como elas enxergam o próprio corpo?

Polly: Eu recebo milhares de mensagens diariamente sobre isso, esses questionamentos trazem muitas mais respostas do que a gente pode imaginar. Mensagens de mulheres que realmente perceberam que estavam vivendo em um ciclo sem fim de autojulgamento, de autopunição, de não-aceitação. De mulheres que voltaram a enxergar belezas em seus corpos, a enxergar o quão merecedoras são de estarem em um relacionamento saudável, do quanto elas estavam se punindo por culpas que não eram delas, porque o relacionamento abusivo ele te coloca nesse lugar, de não merecimento, de você olhar o seu corpo e achar que seu casamento acabou porque você engordou, de olhar pro seu corpo e responsabilizar o seu corpo de todas as mazelas que está acontecendo na sua vida, quando na verdade não é sobre nosso corpo, não é sobre nós, é sobre as pessoas que estão adoecidas ao nosso redor. 

Mariane: Quando você percebeu que estava sendo vítima de uma censura algorítmica? Qual foi sua primeira reação?

Polly: Foi no final do ano passado que eu comecei a perceber que estava sim havendo uma censura, e que eu estava sendo punida por um conteúdo. Eu comecei a perceber que meu conteúdo não era nem bem vindo e bem visto no Instagram. Percebi que tinham palavras-chaves que eu usava que fazia com que o algoritmo não entregasse as minhas publicações e quando isso começou a ficar mais escrachado, eu comecei a me ver recuando, a  me ver modificando palavras, e as vezes quando você está falando com uma mulher que está em uma situação de vulnerabilidade, você não pode trazer palavras genéricas, não pode trazer termos científicos, você tem que falar a linguagem da mulher, a linguagem que ela vai entender. Então eu comecei a ver que meu conteúdo estava se adaptando às condições do instagram. Aí pensei “Tem alguma coisa de errado, meu corpo está ofendendo as redes sociais” Eu comecei a perceber que todas as imagens que tinha o meu corpo eram excluídas, Instagram tirava do ar e me mandava uma notificação como se eu tivesse ferindo as diretrizes do Instagram. E eu comecei a perguntar “o que eu estou fazendo a ponto de ser  notificada de que eu estou infringindo essa lei do Instagram, que lei é essa? o que tem nesta diretriz do Instagram que me torna esse alvo constante?” Porque começou a parecer uma perseguição, a cada 10 posts que eu publicava, 6 eram excluídos. E muitos desses posts eram críticas muito fortes a esses padrões, eu comecei a postar vídeos estilo Tiktok, eu peguei um vídeo da Mayra Cardi (blogueira fit) que ela estava falando sobre angulo, ela estava nua, de lateral, e ela mostrando o quanto a barriga dela era chapada, e eu dublei a Mayra Cardi e fiz um vídeo exatamente igual, idêntico, sem tirar nem pôr, inclusive usando a voz da própria, o vídeo da Mayra Cardi até hoje está no ar, ele nunca foi tirado do ar, nunca foi penalizado e o meu em menos de 1 minuto, eu fui notificada que eu ia perder minha conta, que aquele vídeo continha um conteúdo sexual e que eu infringi as diretrizes. Eu postei esse vídeo dia 30 de dezembro, acordei dia 31 de dezembro sem a minha conta.

“Muitas pessoas acham que O Experimento é uma arma contra o algoritmo, na verdade não. Se a gente passar o resto da vida usando o Experimento para que o nosso conteúdo seja entregue, a gente estaria realmente se moldando ao que o Instagram quer, percebi que estou jogando o jogo deles, tudo bem que eu estou mostrando para as pessoas como as coisas funcionam, mas ainda estou jogando o jogo.”

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Mariane: Conta como você começou “O Experimento” e como ele funciona? Como outras influenciadoras que passam pelo mesmo problema que você podem usá-lo para ter engajamento mesmo trazendo pautas importantes que normalmente o Instagram boicota?

Polly: Eu passei 20 dias sem Instagram, e foram os 20 dias que eu mais estudei o Instagram, estudei o perfil das mulheres que mais fazem sucessos nas redes sociais que “são exatamente” mulheres muito parecidas, com conteúdos muito parecidos e com falas e roteiros exatamente iguais, então eu comecei a perceber que essas mulheres tinham um padrão não só físico mas de comportamento, elas tinham um padrão de estilo de vida, até as marcas que patrocinam  essas mulheres são as mesmas, e aí comecei a perceber que as coisas estavam começando a se encaixar. Muitas pessoas acham que O Experimento é uma arma contra o algoritmo, na verdade não. Se a gente passar o resto da vida usando o Experimento para que o nosso conteúdo seja entregue, a gente estaria realmente se moldando ao que o Instagram quer, percebi que estou jogando o jogo deles, tudo bem que eu estou mostrando para as pessoas como as coisas funcionam, mas ainda estou jogando o jogo. Então não faz sentido as mulheres seguirem à risca o que o Experimento propõe que é usar essas palavras-chaves, que é ter o seu corpo sexualizado, que é vender produto milagroso que não funciona. Então o Experimento é isso, ele mostra para as pessoas que o que vende é o chá que promete secar a barriga, que é o gel redutor de celulite, ou seja, o Experimento prova que a mentira vende muito mais que a verdade, ser padrão te abre muito mais portas do que ser você mesma, viver uma vida fantasiosa faz muito mais sucesso do que você mostrar o seu dia-a-dia, o seu cotidiano, sua verdade. então como que eu posso usar o experimento que é uma arma a favor deles (pois estamos jogando o jogo deles), como que eu posso usar isso como uma solução? ele não é uma solução, ele é uma prova de como as coisas funcionam, porque sim, se você mentir, se você se tornar infantilizada e burra (o Instagram me provou isso), tem uma personagem que eu criei dentro do Experimento, que é baseada na Juliana do Bonde, que é uma mulher muito linda mas completamente infantilizada e sexualizada, então quando eu comecei a usar esses estereótipos, o Instagram me entregou muito, e me entregou para um público masculino. ou seja, isso provou que eu era um produto para consumir. Todas as vezes que eu usei minha plataforma para vender uma mentira, eu tive o meu conteúdo impulsionado, entregue, tive meu alcance pelo menos 4x ou 5x maior do que quando eu falava sobre feminicídio, sobre liberdade, sobre libertação, então eu dizer que o Experimento é uma solução eu estaria mentindo, ele é apenas uma prova.

Prints dos anúncios e propagandas nos stories do perfil da Polly. (Fonte: arquivo pessoal)

Prints dos anúncios e propagandas nos stories do perfil da Polly. (Fonte: arquivo pessoal)

Prints dos anúncios e propagandas nos stories do perfil da Polly. (Fonte: arquivo pessoal)

Prints dos anúncios e propagandas nos stories do perfil da Polly. (Fonte: arquivo pessoal)

Mariane: Conta como você se sente enfrentando esses algoritmos usando o Experimento? Quais foram os resultados que você conseguiu enxergar desde o início dessa pesquisa?

Polly: Eu acho que de todas as ferramentas que eu usei durante o Experimento, o teste mais dolorido foi quando eu mudei o meu perfil de mulher para homem. Eu tive meu alcance 3x maior. As propagandas mudam drasticamente, enquanto o meu gênero era feminino e eu falava sobre gel redutor, chá emagrecedor e as propagandas eram relacionadas a tudo isso, diretamente ligadas a esse padrão de beleza inalcançável, quando eu mudei o gênero para masculino e encarnei um personagem usando um filtro de barba comecei a dar dicas sobre como conquistar o homem perfeito, as propagandas que apareciam era de faculdade, de educação financeira, de estudo, de coisas intelectuais, então você fica pensando: por que que os homens merecem ter esse tipo de propaganda? por que a sociedade ainda estimula os homens a estudarem, a serem inteligentes e a serem superiores mesmo? E por que para a gente é tanta infantilidade? E infelizmente os resultados são surpreendentes, acho que o Experimento já provou o que tinha que provar, todos os testes foram feitos e eu compartilhei isso nas minhas redes sociais. É triste ver que as redes sociais não foram criadas para você, mas foi criada para que você sustente elas. 

Mariane: Você acredita que esses vieses dos algoritmos são gordofóbicos, racistas, machistas, etc. ou você acha que ele é acionado a partir de denúncias de pessoas e falta um tratamento mais humanitário desse algoritmo em relação aos posts? Qual seria uma solução para que as redes sociais sejam um lugar bem vindo a mulheres fora do padrão irreal da internet?

Polly: Imagina que o algoritmo é um robô, uma criança de 10 anos, que é o tempo do Instagram, as pessoas educaram essa criança né? Durante a vida toda dela, o primeiro ano dela foi dito o que é bonito, o que é legal de olhar, o que é prazeroso, o que dá mais visibilidade. Então essa criança, ela aprendeu desde muito cedo o que é belo, então de certa uma forma, nós usuários, consumidores educamos essa criança, essa criança sabe e aprendeu com a gente. Tudo de positivo e negativo foram os usuários que ensinaram, ele foi muito bem treinado, então sim, os vídeos e os vieses dos algoritmos são todos gordofóbicos, e a gente tem que entender que existe um consciente coletivo por trás disso, como fomos nós que treinamos o algoritmo, nós também temos responsabilidade. Mas acredito que essa criança de 10 anos ainda pode ser reeducada, temos inteligência artificial o suficiente para mudar isso, se a gente tá vendo que essa criança foi educada de forma errada, acho que é de responsabilidade da ferramenta reeducar, recalcular a rota, dar um passo atrás, impulsionar conteúdos de mulheres reais, negras, gordas, trans, já que conscientemente esse algoritmo foi ensinado de forma errada. Será que é interessante para eles mexerem no time que está ganhando? Já que essa ferramenta está fazendo gerar trilhões de dólares, bilhões de dólares todos os anos? Eu acho que não. Então é chegada a hora de fazer uma grande revolução mesmo, e a revolução começa em você não seguir alguém que não se parece com você, a você não alimentar esse campo do desejo, no sentido ruim. Não to dizendo que você não vai seguir uma pessoa que você tem vontade de se parecer com ela, que você admira as conquistas dela, mas a gente consegue, a nossa parte humanitária consegue reconhecer quando uma vida não é real ou quando é de mentira. Por que a gente tá se deixando levar por esse desejo? Por que a gente não consegue de uma maneira racional excluir isso da nossa vida? Porque quanto mais tempo nós alimentamos esse tipo de conteúdo, mais eles vão dominando. Então eu acho que a solução nesse primeiro momento é fazer uma grande revolução de consciência, é trazer o Experimento pro campo consciente de: nós fizemos merda ou a gente para agora ou a próxima geração do futuro vai pagar um preço alto por isso. Já passou da hora, na verdade, de fazer essa revolução. 

“Eu comecei a realmente mostrar o que eu estava fazendo nas redes sociais, que eu não estava disposta a pegar atalhos ou procurar a melhor palavra pra falar, mas para falar uma linguagem acessível a todas as mulheres, para falar com as mulheres”

Foto: arquivo pessoal

Mariane: Eu não conhecia o seu trabalho antes do Instagram, sei que você é escritora e me interesso muito pelo tipo de leitura que você escreve. Conta um pouco do teu trabalho fora das redes? Você pensa em lançar livros sobre esse experimento? 

Polly: Eu sempre escrevi para as mulheres, o meu primeiro livro é um romance que eu acho que reescreveria ele totalmente porque o meu processo de libertação começou após esse livro. Então eu resetei isso da minha história e recomecei com o livro chamado “Mulheres  Gozam” que é um relato de mulheres que tiveram seu prazer negociado, que tiveram seu prazer negado, que viveram uma vida sem saber o que é um orgasmo, então esse livro trás vários depoimentos de mulheres que passaram uma vida inteira sem conhecer o próprio corpo, sem entender como funcionavam o próprio corpo. E esse livro foi também o que abriu as portas para mim nas redes sociais, foi a partir dali que eu comecei a realmente mostrar o que eu estava fazendo nas redes sociais, que eu não estava disposta a pegar atalhos ou procurar a melhor palavra pra falar, mas para falar uma linguagem acessível a todas as mulheres, para falar com as mulheres, para foi ali que falei “meu público é esse, eu quero falar com essas pessoas e abrir os olhos dessas pessoas”. Sim, eu penso em lançar livros sobre o Experimento, mais do que isso, eu penso em criar palestras ensinando as mulheres a usarem isso ao seu favor, ensinando como funciona. Eu não acredito que a curto prazo as redes sociais possam estar ao nosso lado, vai ser preciso uma revolução muito grande, um barulho muito grande para que eles olhem pra gente e escutem o que queremos falar, sentar e mudar isso, acho que vai levar muito tempo para que eles tenham essa consciência, acho que isso só vai acontecer quando o prejuízo financeiro apontar isso. 

“É nós por nós”, ultimamente tenho falado muito isso “nós por nós”. Nós precisamos começar a se reunir em grandes células na internet, nas redes, nas nossas tribos e falar sobre isso, para que a gente faça uma revolução e comece a mudar tudo isso. E minha proposta é sair pelo mundo palestrando, infelizmente a pandemia está acontecendo, e isso só vai ser real quando tudo isso acabar, eu gosto muito desse olho no olho mas a curto prazo estou com alguns projetos on-line de falar sobre Experimento para mais grupos de mulheres porque sim, o Instagram, as redes sociais estão matando muita gente, literalmente, às vezes mortes de outras maneiras, mas muitas mulheres estão  se perdendo e estão sendo mortas por causa desses algoritmos, por causa dessas vidas fakes, por causa de tanto de mentira que é vendida nas redes sociais. E isso não é justo. E já que somos nós, as mulheres que financiamos e que mantemos esse gigante de pé, nada mais justo que sejamos nós que derrubemos ele.

Livro Mulheres Gozam de Polly Oliveira (Fonte: arquivo pessoal)

“Animalidades Híbridas”, com Lino Arruda

“Animalidades Híbridas”, com Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Por Amanda Olbel para a Mídia NINJA / FOdA

O entrevistado da semana para o #ArtistaFOdA, seção da Mídia NINJA dedica a dar visibilidade a artistas LGBT+ no Brasil, é o artista plástico, quadrinista e transmasculino Lino Arruda. Nascido em Campinas, atualmente vive em São Paulo, onde espera ansioso o lançamento de seu novo livro “Monstrans: experimentando horrormônios”, com patrocínio do Itaú Rumos, que acontecerá em julho desse ano.

“Acredito que o desenho tenha sido uma das ferramentas mais importantes que me ajudaram a elaborar sentimentos e ideias, ou seja, foi um elemento chave para articular processos subjetivos: fui uma criança introspectiva, que sentia a necessidade de criar mundos internos alternativos, em parte devido às dificuldades de me inserir socialmente.”

Lino é Bacharel em Artes Visuais pela Unicamp e Universidade Politécnica de Valencia, mestre em História da arte pela ECA-USP, e doutor em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina- University of Arizona, e nos conta que sua trajetória na arte iniciou-se cedo, muito por influências de sua mãe, que também é artista. Logo, obteve na expressão artística um apoio e refúgio para os ataques alheios que sofria na adolescência, e encontrou assim uma vivência paralela, na qual se identificava com personagens, cenários, e relações, onde se sentia acolhido pela atmosfera de segurança e conforto dos desenhos.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Participou também de diversos eventos acadêmicos nacionais e internacionais no México, Colômbia, Paraguai, Equador e Estados Unidos, palestrando sobre arte feminista e representação  sudaca e deu diversos workshops sobre edição de memória, contação de histórias e produção de zines para comunidades dissidentes. As mais significativas foram durante o doutorado sanduíche, no qual foi a primeira pessoa trans brasileira a ganhar uma bolsa Fulbright para estudar nos EUA.

O primeiro quadrinho que fez foi inspirado em uma amiga, com a qual se identificou na época, e que falava sobre lesbianidade no cotidiano, fora da articulação da relação sexual/romântica. E por sentir que era um relato pertinente a realidade de corpos LGBTQIA+, decidiu compartilhá-la com  outras pessoas.

“Até então nunca tinha me interessado pelos quadrinhos, mas comecei a fazê-los porque era uma técnica barata, fácil e viável (conseguia fazer sozinha, sem precisar de nada mais do que caneta e papel). O resultado era bem precário, mas foi um zine muito querido e importante, que circulou bastante naquele momento e com o qual pude criar vínculos que mantenho até hoje.”

Em 2010 entrou no mestrado na linha de arte política da ECA- USP, onde estudou arte feminista. E vale ressaltar que boa parte de sua caminhada artística, se identificou como uma mulher lésbica, passando pela transição quase aos 30 anos e hoje até brinca com os termos, se autodenominando “transmasculésbico”. Portanto, nesse período, sua produção artística foi totalmente canalizada para o ativismo em coletivos feministas autônomos: fazia estampas para camisas (como as dos festivais Vulva la Vida), ilustrações para cartazes de diversos eventos e shows, capas de zines e de CDs de bandas punk feministas, etc. E conta que nenhum desses trabalhos era remunerado, sendo seu trabalho oficial ter sido sempre a pesquisa acadêmica com foco nos estudos de gênero, mas o ativismo era o ambiente que mais o estimulava afetiva, artística e intelectualmente.

Foto: Arquivo / Divulgação

Arruda compartilha também que foi nesse período de dedicação ao ativismo autônomo que surgiram os zines de quadrinhos colaborativos dissidentes, com foco em autorias lésbicas. O primeiro deles foi o zine Sapatoons, que diz ser um dos seus projetos preferidos. É um zine colaborativo que surgiu em 2011, feito por amigues lésbicas, bissexuais e transmasculinos. Com proposta despretensiosa, sua função principal foi disseminar cultura dissidente imaterial (histórias, piadas, receitas de comidas, trocadilhos, etc), criando redes e fortalecendo laços de amizade, principalmente pelo fato de que a representação de lésbicas na cultura hegemônica sempre foi muito precária, e ausente nos filmes, novelas, etc.

Quando questionado a respeito de suas referências revela ter sido inspirado pelo trabalho de Alison Bechdel, Jennifer Camper, Edie Fake e Diane Dimassa ( da qual cita a publicação “Hothead Paisan” como grande inspiração para as colaborações nos zines Sapatoons – infelizmente a autora se identifica hoje com um movimento transfóbico contra mulheres trans. E em âmbito nacional, cita os trabalhos de Diana Salú e Monique Moon.

Todavia, suas principais influências de início de estrada, eram Paula Rego, Oskar Kokoschka, Egon Schiele e as gravuras do Goya, além dos artistas que construíram o imaginário da ilustração de fábulas, com animais antropomorfos feitos em traços finos e aquarela, que entram em total acordo com a figuração incrivelmente visceral e um tanto grotesca de seu trabalho, com corpos fantásticos e retorcidos.

Representações que nos remetem a história clássica kafkaniana de Metamorfose, em que subitamente, de um dia pro outro, o personagem acorda como uma barata, fazendo alusão à visão deturpada que a sociedade tem da classe trabalhadora. De certa forma, Lino utiliza desse artifício dos seres que supostamente nos causariam repulsa, (como ratos, lobos e lagartas), ao falar de sua experiência dentro desse “não-lugar” estigmatizado, que é a ausência de identificação com o gênero imposto a nós.  Artaud diria que os corpos estão em incessantes processos de Devir: num eterno vir a ser, entre mitos, danças e delírios, e para ele interessam as microssensações e a consciência que deve mergulhar nos campos da angústia, abdicando da certeza. Diria ainda que o corpo é “uma multidão excitada”, e portanto, o denomina como Corpo sem Orgãos, por ser coletivo, político e biológico, e permitir a desterritorialização, juntamente dos pontos de fuga.

Foto: Arquivo / Lino Arruda

Dentro dessa mesma conversa poderíamos citar os corpos foucaultianos, capturados dentro da estrutura de biopoder vigente, em que esse lugar de transgressão da norma, foi introjetado e ocupado pela sexualidade. Então fica a pergunta sobre o trabalho de Lino: Será que estes corpos são de fato monstruosos e deveriam obrigatoriamente se sentirem diferentes e dissociados, ou será que vivemos na ilusão de que os corpos deveriam ser equiparados, mapeados por um processo sistemático, mesmo fora da não-binariedade para serem aceitos?

Seu projeto com quadrinhos autônomos e acervo de zines cresceu sempre nos bastidores da sua vida acadêmica, até que no doutorado resolveu estudar autorrepresentação trans em zines latino-americanas. Foi então que descobriu a frequência com a qual a figura do monstro é evocada para falar sobre experiências trans, e começou a desenvolver narrativas também na chave da monstruosidade:

“Foi nesse momento que criei o personagem ‘lobisomem trans’ e comecei a desenhar um caderno de estudos de animalidades híbridas que comunicam sobre dissidência de gênero”

No doutorado diz ter, finalmente, conseguido inserir sua prática artística em diálogo com o conhecimento acadêmico. Desenvolveu o último capítulo de sua tese em quadrinhos, com o pretexto de que, enquanto primeiro doutorando trans do programa, precisava produzir algo que de fato fosse interessante para a comunidade, tendo em vista que poucas pessoas se interessam pela escrita acadêmica e que temos pouquíssimas/os pesquisadoras/es trans nas instituições de educação formal. A ideia é que esse capítulo se desprendesse da tese e virasse um zine, para que circulasse fora da academia e mais próximo de outras pessoas trans, que acabou por ser contemplado pelo Itau Rumos 2017-2018, e hoje integra o livro “Monstrans: experimentando horrormônios”, em que publica as HQs autobiográficas que vem desenvolvendo nos últimos 2 anos, e será publicado em Julho de 2021. Lino enfatiza ainda que toda a equipe trabalhando no livro, com exceção da gráfica, é formada por lésbicas cis e pessoas trans.

Nele desenvolve três histórias sobre deficiência, lesbianidade e transmasculinidade utilizando a figura do monstro. Na primeira história relaciona a masculinidade lésbica aos tratamentos pelos quais passou desde a infância para “corrigir” uma deformação congênita nos ossos – por ter diagnóstico de doença do colágeno, com suspeita de síndrome de Ehler Danlos. Faz também uma observação para a relação muito próxima entre ser “simétrica/bonita” e ser “menina”, e que a deficiência acentuava outros lugares “tortos” e indesejados de seu corpo, como a masculinidade.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Na segunda HQ do livro, traça pontes que conectam lesbianidade a transmasculinidade, contando sobre o desconforto de acessar privilégios de passabilidade.

Na terceira história tenta criar uma temporalidade dissidente para abordar a incoerência da subjetividade trans, usando as relações de família para explicitar e acolher as fragmentações de ter sido uma menina, uma filha, uma neta, e depois tentar ser inteligível como uma pessoa transmasculina,  num mundo onde “mudar de gênero” é praticamente inconcebível.

“Também há um estereótipo na forma como se anuncia personagens trans, com a aposta na revelação da genital ou da representação da hormonização. A ênfase no sofrimento também é uma constante muito limitadora, tanto no diagnóstico da transexualidade como na representação mainstream das nossas experiências. Essas imagens têm efeitos reais na nossa comunidade.

Por isso acho que a produção autoral trans tem um potencial singular. O que eu descubro observando o que a comunidade trans tem produzido, são formas de tocar temas complexos (como a solidão estrutural, a violência, o suicídio, etc) com humor inteligente e através de uma perspectiva criativa. O que eu tento fazer no meu trabalho é desviar das narrativas clássicas (a exemplo de: “eu nasci um homem preso no corpo de uma mulher”) e procurar o interstício das experiências de gênero, os lugares onde as identidades não estão tão sólidas, onde as narrativas se contradizem e não tentam “se explicar” para um público cisgênero. Para isso percebo que o emprego de figuras monstruosas e animalescas é uma aposta interessante da autorrepresentação, pois é capaz de dar contornos mais borrosos e múltiplos ao corpo trans.”

Demonstra sentir o desafio e o fardo da representação, sem querer delimitar “o que é transmasculinidade”, por estar correndo o risco de virar uma descrição genérica. Contanto, frisa bastante que essa é sua experiência autobiográfica, e que portanto comunica sua trajetória particular, mas são assuntos que o preocupam num momento politicamente polarizado, retrógrado e conturbado pelo qual estamos passando atualmente.

 “O meu objetivo com a publicação é pluralizar as narrativas sobre transmasculinidade em suas intersecções com outros marcadores sociais. Me interessa produzir algo que alimente a minha comunidade, ou seja, algo que possa reverberar na experiência de outras pessoas trans, mas que também as beneficie socialmente de alguma forma. Acredito que tenho um compromisso com a comunidade justamente por ocupar lugares privilegiados, ainda inalcançáveis para a maioria das pessoas trans, especialmente as negras. Por isso, ao ser contemplado com um prêmio importante como o do Itaú Rumos, me sinto compelido a dividir materialmente essa conquista com pessoas trans vulneráveis, como forma de reparação.”

Ocorrerão eventos de lançamento do livro, que devido à pandemia não poderão ser presenciais, entretanto, através de plataformas online acontecerão lives com diferentes ativistas e artistas para falar sobre o HQ, semanalmente no mês de julho. Uma porcentagem das vendas do quadrinho também será redirecionada a uma casa de acolhimento travesti/trans.

Lino Arruda compartilha fotos e informações sobre seus trabalhos através de sua conta no instagram @monstrans_hq e em seu site www.linoarruda.com. Para ficar por dentro dos próximos #ArtistaFOdA , siga nossa página @planetafoda, onde serão publicados novos artistas LGBTQIA+ todas as quintas-feiras.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Foto: Arquivo / Divulgação

Luis Arce, o candidato presidencial socialista boliviano: “o golpe de novembro foi para saquear os recursos da Bolívia”

Luis Arce, o candidato presidencial socialista boliviano: “o golpe de novembro foi para saquear os recursos da Bolívia”

Foto: Ricardo Carvallo

Para Luis Arce Catacora, candidato presidencial do Movimiento al Socialismo (MAS) na Bolívia, devido aos protestos e bloqueios dos movimentos sindicais e sociais, o regime autoproclamado de Jeanine Añez se viu obrigado a sancionar a lei que garante as eleições gerais para o dia 18 de outubro. Mais importante, as manifestações e bloqueios em massa que paralisaram quase todas as 9 regiões da Bolívia foram um sintoma de um problema muito maior: o colapso socioeconômico da economia mais vibrante da América Latina.

Com Jeanine Añez, o país tem retrocedido efetivamente à época liberal, com o desemprego disparado ao 11,8% em julho (desde 3,9% em 2019), já se projeta a pobreza com um aumento menor de 7% este ano, ao passo que a pobreza extrema aumentará 4,5%, e o crescimento econômico despencará 5,9% até o fim deste ano. Por mais que isso se deve, em parte, aos efeitos da COVID-19 na Bolívia e região, o regime tem sido duramente criticado por não iniciar programas sociais para ajudar financeiramente a população, assim como por suas contínuas tentativas de privatizar setores chave da economia, anteriormente recuperados pelo governo de Evo, especialmente a empresa de comunicações ENTEL e o produtor de hidrocarbonetos YPFB.

O mais chocante de tudo foi o Caso Respiradores, que envolveu a compra de centenas de respiradores da Espanha, China e outras nações a preços muito acima dos custos de fabricação, o que resultou em milhões de dólares em subornos para os membros do regime autoproclamado. O caso é só um exemplo de uma rede massiva de corrupção e nepotismo que se estende desde novembro de 2019.

Neste contexto de flagrante da má gestão econômica, a figura de Luis “Lucho” Arce Catacora contrasta fortemente com a do regime golpista e seus aliados. O economista é mais conhecido na Bolívia e no mundo como o arquiteto do “milagre boliviano”: os 14 anos de crescimento econômico constante, combinado à redução massiva da pobreza, da desigualdade e dos programas de industrialização do gás natural do país, das indústrias de petróleo e do lítio.

Como ministro da Fazenda no governo de Morales desde 2006 até o golpe de Estado de novembro de 2019, ele supervisionou a nacionalização da indústria de hidrocarbonetos, o estabelecimento de uma série de programas sociais, o reconhecimento do setor “social-popular” da economia e o aumento significativo do salário mínimo do país. O companheiro de chapa do Lucho, David Choquehuanca, representa o outro lado do MAS: os formidáveis movimentos sociais do país, assim como a tradição política de Suma Qamaña, a variante aymara da filosofia indígena do “Bem Viver” que também forma a base do Movimento Revolución Ciudadana do Rafael Correa no Equador.

Lucho se sentou com Denis Rogatyuk e Bruno Sommer Catalan para discutir os desafios que enfrentam no caminho até a vitória nas eleições de outubro.

DR: Com a presença de Evo o país avançou enormemente e, lamentavelmente, tudo isso mudou durante os últimos 10 meses da gestão do Governo autoproclamado com a aplicação das medidas neoliberais e a volta do FMI. Quanto dano econômico tem causado este Governo desde novembro de 2019?

LA: Sobre o retorno do neoliberalismo nós temos muita experiência. Bolívia teve 20 anos de neoliberalismo como muito países da região e os resultados não demoraram a aparecer, são catastróficos. Antes da pandemia, porque é importante mencionar, o período de novembro a março, já vemos o Produto Interno Bruto cair no último trimestre ao 1,1%, uma caída desastrosa que puxou o crescimento da Bolívia para baixo no último trimestre. Estávamos crescendo bem, acima do três e meio por cento, despencamos ao 1,1 no quarto trimestre o que nos possibilitou alcançar apenas o 2,2% do crescimento médio de janeiro a dezembro. Isso é um exemplo fundamental que já nos mostra o efeito do neoliberalismo e o primeiro trimestre deste ano a economia caiu em -5,6%, de um dado que ainda é positivo devido ao último trimestre, mas muito baixo já que a queda foi a um número negativo já nos primeiros quatro meses da presente gestão.

Isso tem a ver com a mudança do modelo econômico, destruíram o modelo econômico social, comunitário, produtivo que nós elaboramos e implantamos desde 2006 na Bolívia, com êxitos econômicos e sociais muito reconhecidos, inclusive por órgãos internacionais e, além disso, por exemplo, no que diz respeito a alguns sintomas indigestos do neoliberalismo, como a redução e praticamente a eliminação dos investimentos públicos, que é uma das ferramentas mais importantes para reativar a economia boliviana, a paralização das nossas empresas públicas.

Somado a isso, se encontra o fato da receita do Estado ter sido destruída por uma política muito generosa de devolver favores do Golpe a alguns empresários concedendo-lhes benefícios de não pagamento de impostos, condições muito mais favoráveis que repercutiram para que o serviço tributário da Bolívia não arrecadasse os mesmos níveis de receita de impostos de antes e, portanto, fiquemos com sérios problemas econômicos para o Estado boliviano, para os municípios, para as províncias, para as universidades públicas que gozam de coparticipação desta receita.

Então, esses são elementos que eu claramente observo que têm sido muito contrários com o que nós fazíamos porque nós arrecadávamos dinheiro para redistribuir a renda entre os bolivianos, gerávamos superávits econômicos nas empresas públicas e nos recursos naturais para os redistribuir à população. Em contrapartida, o que estamos observando agora é uma política verdadeiramente regressiva de concentração da receita em poucas mãos, típico dos governos neoliberais. Isso tem gerado, portanto, uma diminuição inclusive dos depósitos das pessoas aos bancos, as pessoas foram aos bancos sacar seu dinheiro, a população já não tem a quantidade de renda que tinha antes, a pobreza tem aumentado, o desemprego está aumentando, está aumentando mais uma vez a distância entre ricos e pobres que nos custou tanto diminuir na Bolívia com muitas ações de política econômica e social.

Enfim, estamos retrocedendo, nesses nove meses de governo neoliberal, autoproclamado, de direita no nosso país, temos retrocedido em arrecadações para as pessoas, em pobreza, em desemprego, em variáveis econômicas. O povo boliviano está sentindo no bolso, no estômago, as medidas que têm se tomado desde novembro do ano passado e a isso se acrescenta a incapacidade do governo para lidar com a pandemia, onde tem se deixado os bolivianos à sua sorte, onde os bolivianos devem se proteger entre eles mesmos e se cuidar na pandemia com medicina tradicional porque nem sequer foi garantido o abastecimento dos principais produtos para combater a pandemia nas farmácias, mas, obviamente nas clínicas privadas foi garantido tudo o que é necessário para poder enfrentar a pandemia. Isso é um elemento que nos tem chamado a atenção e o outro é a incapacidade de gestão do que diz respeito a educação. Somos o único país que decidiu encerrar o ano letivo na metade do ano simplesmente pela incapacidade de poder dar aulas de outra forma. Como foram criados problemas com sua política de educação virtual, decidiram encerrar o ano letivo mostrando sua completa e total incapacidade para administrar uma questão tão simples como a educação, porque existem experimentos na Bolívia de tele-educação, de alfabetização por rádio, que tem feito várias emissoras locais, mas este governo tem mostrado sua total incapacidade.

DR: O senhor propôs um novo imposto sobre a riqueza com o objetivo de arrecadar 400 milhões adicionais para o projeto da industrialização. De que níveis exatos de riqueza estamos falando aqui?

LA: Primeiro temos que entender alguns planejamentos, porque são vários os que temos feito para esta campanha em função de melhorar as receitas do Estado boliviano. Por culpa deste Governo estamos ficando sem muitas arrecadações, teve uma má negociação dos volumes e preços do gás com o Brasil. A Petrobras está dentro da administração da nossa empresa estatal, enfim, há muitos problemas com a questão petroleira e aí se releva que um dos participantes ativos do golpe de Estado foi o governo atual brasileiro, como revelou, não o MAS, mas o Conade (Comitê Nacional de Defesa da Democracia) através de seu representante Waldo Albarracín que era o reitor da Universidad Mayor de San Andrés, que mostrou que, nessa reunião onde foi eleita a (Jeanine) Áñez como presidenta e que aí se somaram todos os que haviam dado o golpe no governo do MAS, estava o embaixador do Brasil presente e agora se entende o motivo, porque basicamente o que eles queriam era tirar em uma só tacada mais de 70 milhões de dólares anuais com a questão da negociação do transporte de gás até o Brasil.

É certo que, beirando essas questões que eu mencionava, a Bolívia está sem arrecadações, nos deixaram com pouquíssima receita, e há que buscar uma maneira de arrecadar recursos para reativar e reconstruir a economia boliviana, o que nós temos planejado, e para isso há duas medidas importantes, entre outras, uma é o não pagamento do capital e juros da dívida externa por dois anos aos nossos credores de órgãos internacionais, estamos falando de capital e juros ao BID, Banco Mundial, e ao CAF, a todos os órgãos internacionais que somos acionistas, queremos que nos perdoem por dois anos para que todos possamos suportar a crise de uma maneira mais ou menos justa.

Além disso, nós propomos um imposto às grandes riquezas, um imposto às grandes fortunas, que já saiu um dos envolvidos no Governo atual, o senhor Samuel Doria Medina, que é candidato à vice-presidência pela coligação Juntos do atual governo autoproclamado, que quer que isso não se leve adiante, obviamente, o que nos indica que estamos seguindo um bom caminho ao planejar um imposto às grandes fortunas. Não vamos afetar o pequeno empresário, nem as pessoas que têm sua casinha, seu carrinho, não nos interessa isso, porque estamos todos nessa linha de ter um bem na vida, mas tem pessoas que estão enriquecendo, que têm muito dinheiro, e como fazíamos com a política distributiva de renda que nós implantamos desde 2006, queremos continuar com um sistema tributário mais justo e, portanto, implementar um imposto aos que têm muito dinheiro.

Em termos de porcentagem, vamos afetar o 0,01% da população boliviana, quer dizer, muito pouco. O 99,99% da população boliviana não está nesse patamar de grandes fortunas. Os bolivianos normalmente têm acumulado riquezas como estas, que se resumem a uma casinha, um carrinho, mas tem gente que tem muito dinheiro e que o arrecadou, grande parte, foi graças ao Estado e aos recursos naturais do país, e portanto, acreditamos que apenas essas pessoas que enriqueceram em nosso país paguem um imposto mais alto para ajudar àqueles que não têm, porque o que o Estado vai fazer é arrecadar todos esses recursos para fazer políticas sociais que beneficiam aos pobres, isso é o que vamos fazer.

Portanto, é uma política que temos visto também em vários países que implementaram, tem a ver com uma política tributária mais justa, mais equitativa.

Foto: Wikimedia Commons

DR: O senhor acredita que o país passaria por um processo de renegociação de dívida semelhante ao que aconteceu no caso da Argentina recentemente?

LA: Nós, como a Argentina, temos uma moratória com os órgãos e bancos internacionais. A Bolívia tem seu pagamento em dia, pagamos sagradamente, não temos nenhum problema com o pagamento. O que queremos é que as organizações internacionais dos quais Bolívia e outros países, que também estão sofrendo este problema da pandemia, somos acionistas, somos donos da CAF, do BID, do Banco Mundial, do próprio FMI, enfim, de muitas organizações internacionais que se formaram com nossos próprios recursos, então é justo que essas organizações também contribuam com seus proprietários, seus acionistas, com parte dos ganhos e aliviem os países que se endividaram por conta dessas mesmas organizações internacionais para deixar de pagar capital e juros somente por duas gestões, que é nossa proposta: isso para a Bolívia significaria uma economia de 1.600 milhões de dólares que bem poderiam ser utilizados para reativar a economia, para gerar melhores condições e, portanto, pouco a pouco sair da crise.

DR: E que papel terá o lítio no processo da industrialização? Porque essa também foi uma das questões do golpe de Estado do ano passado.

LA: A questão do lítio é muito clara, nós somos o único partido político que garante que os recursos naturais, incluindo o lítio, não serão privatizados e não vão para nenhuma transnacional. Somos a garantia, por isso sofremos o golpe de Estado, evidentemente o objetivo econômico era o controle do lítio. O mesmo senhor Samuel Doria Medina disse que seria muito bom que viesse a Tesla para industrializar o lítio boliviano, já revelando, muito claramente, que eles estavam por trás do golpe de Estado também, em novembro do ano passado.

Nós não vamos negociar com transnacionais desta maneira, temos princípios muito claros. A industrialização se faz na Bolívia. Já tínhamos avançado com uma empresa alemã que viria à Bolívia, e estavam de acordo que é na Bolívia que se faria a bateria de lítio. Eles se encarregariam da comercialização e a Bolívia teria, obviamente, a maioria absoluta nos ganhos deste negócio, o lítio é boliviano. Estava avançando, porém este governo, evidentemente, o parou. Eles o congelaram e já estavam anunciando o que queriam fazer sobre essa questão do lítio, mas acredito que a população já está alerta sobre esta questão e não vão permitir que venha uma transnacional dessa natureza à Bolívia, para explorar nossos recursos naturais.

Portanto, a questão do lítio e de todos os recursos naturais, estamos falando do gás, dos minerais, com a gente, está garantido que ficará nas mãos do Estado. Somos o único partido político que garante ao povo boliviano que nenhum grama dos recursos, nem uma molécula dos nossos recursos será transferido tão alegremente às empresas transnacionais. Trata-se de fazer acordos com o Estado onde o Estado detenha a maioria absoluta sob o controle e sob os lucros desses negócios.

BS: Entendo que a Bolívia, inclusive, já está desenvolvendo, com a gestão do MAS, carros elétricos em pequena escala. É isso mesmo, isso está parado, em que plano ficou?

LA: Sim, já estávamos produzindo em muita pequena escala, produzíamos 19 veículos mensais com baterias de lítio bolivianas. Já estávamos produzindo, e a planta de lítio que estávamos fazendo na Bolívia estava nesta pequena escala porque a grande fábrica de baterias de lítio ainda não estava funcionando na Bolívia, tínhamos basicamente plantas piloto para poder ver a qualidade do lítio e a qualidade dos nossos veículos para que a população conhecesse o que estávamos fabricando em Cochabamba, precisamente, com baterias de lítio bolivianas.

Então estava funcionando e agora, é claro, foi congelado, porque com certeza não somos concorrência para Tesla, mas acredito que já estávamos mostrando que a Bolívia poderia sim ter uma grande oportunidade daqui pra frente, um grande futuro no mercado de lítio.

DR: Pelo que temos visto, este governo autoproclamado parece ser o mais inapto e corrupto em toda a América Latina. Também temos visto uma repressão sem precedentes contra os trabalhadores em Senkata e Sacaba e perseguição contra os ex-ministros do MAS, contra os ativistas e contra as pessoas que criticam o regime de Áñez. O senhor acredita que seria necessário criar uma comissão da verdade, justiça e reconciliação para liberar o país da corrupção, para castigar aos perpetuadores dos abusos contra os direitos humanos e indenizar as vítimas da repressão?

LA: Creio que seria muito saudável. Nós pedimos ao Tribunal Superior Eleitoral que foi designado pela presidenta autoproclamada, que colocassem não só observadores para o dia da eleição, como também queríamos que a União Europeia e as organizações internacionais especializadas na questão eleitoral viessem desde já ver o que está acontecendo na Bolívia. Lamentavelmente, na Bolívia existe uma violação aos direitos humanos, especialmente o direito à livre expressão. Existem jornalistas que denunciaram os atos de corrupção e estão sendo ameaçados, perseguidos, intimidados pelo atual ministério do Governo deste regime autoproclamado. Então, realmente não se pode fazer nada, nas redes sociais ninguém pode falar de nada, eles estão seguindo a todos, e isso se chama cyber patrulha. Enfim, estamos dentro de uma ditadura moderna na Bolívia com um governo que está perseguindo não apenas os Masistas e os jornalistas que estão denunciando atos de corrupção, mas estão perseguindo os dirigentes sociais que tem protestado porque não há solução para vários problemas econômicos e sociais no país e as pessoas protestam e estão criminalizando o direito ao protesto, violando direitos humanos e violando a Constituição política do Estado.

Por isso, queremos que venham observadores ao nosso país desde agora, para que vejam como se faz o uso indevido de bens, como existe tanto nepotismo, como há tanta grosseria nas ações contra algumas pessoas humildes por grupos subversivos armados financiados pelo atual governo como nas épocas paramilitares, dos anos oitenta nos nossos países onde haviam grupos de choque que amedrontavam a população.

Lamentavelmente, é isso que estamos vivendo com os motoqueiros da resistência em Cochabamba, aqui em La Paz também querem fazer o mesmo. A Unión Juvenil Crucenñista de Santa Cruz voltou a essas aventuras. Enfim, realmente estamos em situações muito complicadas para fazer política, não se goza de todas as garantias para fazer política, e nem é possível fazer uma campanha transparente que garanta os direitos de todos aqueles que estão na campanha, e as próprias organizações sociais que não podem fazer nenhum protesto porque os colocariam na cadeia. Os estão colocando em julgamento, esse tipo de coisas nos fazem lembrar, lamentavelmente, da época da ditadura de Banzen, a época da ditadura de Pinochet, imagino eu, no Chile, de Videla na Argentina, enfim, tudo isso que voltou, mas de forma muito dissimulada, sem militares nas ruas, mas com Governos absolutamente abusivos com o uso do poder que vai mais além de simplesmente fazer uma gestão de Estado.

Foto: Ricardo Carvallo

BS: O senhor sentiu sua vida em risco porque tomou a decisão de ir em frente, de assumir uma candidatura presidencial?

LA: Com certeza, eu, chegando na Bolívia, somente para participar das eleições, descendo do avião, nem sequer havia feito Migração, ou seja, que legalmente eu ainda não estava na Bolívia, já estavam me notificando que eu teria que me defender em um julgamento no Ministério Público no dia seguinte. Eu já tenho três ou quatro julgamentos que me colocaram, minha família também foi intimidada, foram pressionados, eles realmente não poupam esforços para poder intimidar, fazer essa perseguição política a todos, para que nos arrependamos de vir à Bolívia e querer disputar o poder com eles. Mas acredito que o povo boliviano compreendeu que viemos e estamos decididos a levar adiante este processo.

Enfim, em outubro do ano passado, muita gente se mobilizou e não só bloquearam o país por 12 dias, como por mais de 21 dias, e o slogan era recuperar a democracia porque diziam que o presidente era ditador e agora já estamos nove meses sem democracia, em plena ditadura e claramente vemos que o slogan da democracia foi somente esse: um pretexto para assaltar o Estado, tomar todas as riquezas que havíamos gerado durante todo esse tempo, redistribuí-las, entregar nossos recursos naturais mais uma vez e colocar toda a família para trabalhar no Estado como temos visto em todo esse tempo.

DR: Nos preocupa que exista uma fraude nessas eleições do dia 18 de outubro. De que forma a comunidade internacional e as organizações políticas, de direitos humanos, deveriam atuar ou tomar medidas para que o processo seja transparente e democrático?

LA: A melhor maneira de fazer isso é que venham ao meu país o quanto antes e sejam testemunhas do que vai acontecer, que haja uma boa fiscalização por parte do Tribunal Superior Eleitoral em todas as tarefas que estão fazendo porque eles mesmos demonstraram, ao haver adiado do dia 3 de maio ao 2 de agosto ao 6 de setembro e agora ao 18 de outubro, que eles não têm a predisposição de fazer as eleições no nosso país, que têm outro mandato. Portanto, nós pedimos à comunidade internacional que possa vir justamente validar tudo o que está acontecendo no nosso país sobre as eleições, que possam se constituir em verdadeiros garantidores de que o processo eleitoral acontecerá adequadamente e que se garanta o direito político de cada um dos bolivianos de poder comparecer às eleições e também daqueles que participarão neste processo. Isso deve acontecer desde agora porque hoje já estamos vendo uma série de atropelamentos nesta campanha eleitoral, que seria imprescindível que todas essas organizações, imprensa internacional, não esperem até o dia 18 de outubro para estar no país, que venham o quanto antes para que sejam testemunhas do que nós, bolivianos, estamos vivendo aqui, e que a comunidade internacional possa ter uma informação verídica, porque esse é outro problema que nós tropeçamos. Nós bolivianos não nos informamos através dos meios de comunicação tradicional, nós estamos nos informando através das redes sociais.

Entrevista original publicada em Jacobin
Tradução: Dafnes Moneim

Maria Emília Pacheco: “A agroecologia tem uma proposta extremamente atual, urgente e necessária”

Maria Emília Pacheco: “A agroecologia tem uma proposta extremamente atual, urgente e necessária”

Foto: Alex Garcia via MST

O direito à alimentação saudável, a sustentabilidade ambiental, as questões de gênero e das populações tradicionais são algumas causas ameaçadas pelo atual governo. Com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, as políticas para a agricultura familiar continuam sendo desestruturadas, as leis ambientais flexibilizadas, as mulheres perdendo voz no governo e os povos indígenas e quilombolas, dentre outros, tiveram seus direitos ainda mais violados.

Para tratar destes temas, conversamos com a antropóloga Maria Emília Pacheco, que está há muitos anos nas mais diversas trincheiras de luta e resistência junto aos movimentos sociais. Ex-presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que foi extinto no primeiro ato do atual governo. Além de ser uma das fundadoras da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), é assessora na ONG FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) e integra o Núcleo Executivo do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN).

Na entrevista, ela alerta para a necessidade de se criar uma Política Nacional de Abastecimento Alimentar no Brasil devido aos sinais de retorno do país ao mapa da fome. Aponta a agroecologia como uma proposta estrutural alternativa ao agronegócio, de modo a harmonizar a produção agrícola com a diversidade, os povos dos territórios e o meio ambiente. Defende ainda os saberes dos indígenas, políticas públicas para a agricultura familiar e a defesa da nossa constituição para a garantia da democracia.

Quais as principais pautas da segurança alimentar e nutricional hoje no Brasil? Corremos o risco de voltar ao mapa da fome

Já em 2018 no final do governo Temer tínhamos 6,5% da população abaixo da linha da pobreza, isso significava 13,5 milhões de pessoas. Tem estimativas de que em 2019 chegamos a 13,8 milhões, e a projeção é de 7% da população nessa situação ao final de 2020. O governo está sonegando informações da Escala Brasileira da Insegurança Alimentar (Ebia), colhidos desde 2018 e tudo indica que já voltamos ao mapa da fome. Sabemos que tem aumentado de forma assustadora a pobreza e a extrema pobreza. Mesmo com o auxílio emergencial a situação é grave. É preciso lembrar que o direito humano à alimentação adequada significa ficar livre da fome e ter também a garantia de uma alimentação saudável. Não podemos dissociar essa dupla dimensão.

Estamos organizando a I Conferência Nacional Popular Autônoma por Direitos, Democracia e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. O coletivo elaborou um documento com aspectos fundamentais nessa agenda e se torna mais importante por ter sido feito durante esse momento tão grave e dramático da pandemia. Garantia do direito à alimentação e combater a fome em tempos de coronavírus – a vida e a dignidade humana em primeiro lugar. São prioridades em defesa da alimentação saudável, das políticas públicas agricultura familiar, da proteção aos povos indígenas e comunidades tradicionais, do abastecimento alimentar, dentre outras. Os estoques públicos de alimentos estão quase a zero. Em 2005 o Consea elaborou a proposta de uma Política Nacional de Abastecimento Alimentar. Retomar este debate público é importante.

Uma das primeiras medidas do presidente Jair Bolsonaro foi extinguir o Consea, no qual você foi presidenta. Quais implicações tem isso e qual a sua avaliação sobre o atual governo?

A extinção do Consea com a MP 870 foi o primeiro ato do governo, a chamada reestruturação administrativa, e foi uma medida extremamente autoritária. Uma imposição do silêncio à participação e controle social das políticas públicas. A cidadania foi golpeada, porque o Consea era um dos pilares do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). Era uma expressão dos ecos da cidadania e de movimentos e organizações sociais da cidade, do campo e da floresta. Expressava a sociedade pluriétnica com as suas demandas e propósitos, onde importantes conquistas ocorreram: A Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o aprimoramento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), os programas de convivência com o semiárido ( P1MC e P1+2). No Consea também debatemos a proposta da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), e a proposta de um Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos.

Você se refere muito ao valor cultural dos alimentos, poderia nos explicar sua importância?

Comida não é mercadoria. É muito recente na história o significado de patrimônio cultural, porque até a década de 90 era composto dos grandes monumentos. O critério que regia a excepcionalidade e monumentalidade era bastante elitista. Só em 2003, foi aprovada na Conferência da UNESCO a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio da Cultura Imaterial. Passaram a integrar os rituais, as produções artísticas e artesanais, a culinária, os fazeres das populações. Os sujeitos de direitos que eram discriminados passam a ser reconhecidos como portadores de cultura. É importante destacar que a Constituição Brasileira de 1988 se antecipou, porque nela os bens materiais e imateriais são portadores de referências às identidades e memória dos grupos formadores da nossa sociedade.

A agricultura industrial intensiva dos monocultivos tem produzido uma simplificação nas nossas opções alimentares, além de provocar a erosão genética e das culturas alimentares. Essa homogeneização da dieta alimentar, que é acompanhada pelo aumento do consumo dos produtos alimentícios ultra-processados, vai gerando uma mudança do sistema da produção ao consumo. Então, falar da importância cultural dos alimentos é ao mesmo tempo insistir que não podemos perder essa memória. É urgente valorizar as diferentes tradições culinárias e ter em conta o seu valor cultural. Assegurar o direito humano à alimentação adequada implica assegurar o direito ao gosto nas diferentes nas regiões e ecossistemas do país. É preciso defender práticas alimentares que promovem a saúde e respeitam a diversidade cultural, que se articula com a conservação da biodiversidade e o direito à terra e ao território.

Os povos e comunidades tradicionais também são sempre falados por você, qual o cenário?

Temos muito a aprender com esses povos. Há uma contradição profunda, que é parte das formas de exploração e apropriação do sistema capitalista. Ao mesmo tempo que há uma negação do saber prático acumulado por esses povos sobre a complexidade dos ecossistemas e formas de trabalho, muitas vezes chamadas de improdutivas, além do preconceito e uma visão etnocêntrica sobre eles, por outro lado há uma apropriação deste saber pelo mercado. Há o interesse das empresas no patrimônio genético e nos conhecimentos tradicionais. Durante o debate no Congresso Nacional sobre o Marco Legal da Biodiversidade (Lei 13.123) formou-se uma coalizão das empresas do ramo da farmácia, da química e dos cosméticos. Com essa lei a repartição de benefícios passou a ser quase que exceção para as comunidades tradicionais, e por isso chamada de Lei da Biopirataria. Uma quebradeira de coco exemplificou: dependendo da quantidade de matéria prima no produto elas ganham 0,05% de toda a venda. E pergunta: quem sabe a quantidade de venda dessas grandes empresas? Qual a prestação de contas para a negociação? É uma apropriação privada e injusta.

E a questão das mulheres, que você também tanto aborda nas suas falas. O que destacar?

Foi também a Constituição que em 1988 consolidou a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Garantiu às mulheres rurais o direito à titularidade de terras, serviu de base para outras regulamentações dos nossos direitos, da tipificação dos crimes contra nós, etc. E as mulheres têm um papel histórico na defesa dos bens comuns. Nos primeiros cercamentos no início do capitalismo, elas procuraram resistir e eram as principais interessadas nos bens comuns que passaram a ser cercados. No tempo da colonização há vários exemplos sobre a maneira como elas reagiam, defensoras de culturas mais comunitárias. No dia 25 de julho foi lembrado o Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha, que no Brasil desde 2015 homenageia a Teresa de Benguela, que se organizou uma espécie de parlamento no Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso.

Se olharmos hoje a defesa do babuçu livre, o protocolo biocultural das raizeiras do cerrado, as guardiãs de sementes das redes e casas de semente, são lutas e ferramentas que estão intimamente relacionadas à defesa dos bens comuns. São práticas e formas de relação social e convivência que exprimem a economia da reciprocidade.

As mulheres chamam a atenção para o seu trabalho no artesanato, que é uma forma de conservação da natureza e de renda integrada às dinâmicas de produção nos diferentes ecossistemas. É preciso analisar o papel econômico, social, político das mulheres, para enfrentar o sistema patriarcal. As mulheres estão ressignificando a agroecologia. Exercitam o direito à autonomia e à auto-organização, trazem à tona os sentidos da reprodução da vida e do cuidado baseados nos princípios da economia feminista. Por isso o lema “Sem feminismo não há agroecologia”.

Em relação à pandemia, cujo contágio tem se interiorizado, como pode afetar os agricultores e principalmente os povos tradicionais como os indígenas?

Foi aprovada a Lei nº 14.021 no Congresso com plano emergencial aos povos indígenas e comunidades tradicionais, mas sofreu 16 vetos. Isso é uma desumanidade. Nega-se o direito à vida, pois entre os vetos incluía-se um capítulo sobre segurança alimentar e nutricional com oferta de alimentos e implementos agrícolas, assim como o acesso a água potável. Nosso papel como sociedade é aprender com a história, porque são povos que estão resistindo desde os efeitos nefastos da colonização. São eles que conservam a nossa biodiversidade e a diversidade dos nossos alimentos.

Estamos vivendo uma tragédia de civilização. São vidas interrompidas pelo estado violador de direitos. Um verdadeiro etnocídio. Nas primeiras medidas anunciadas pelo governo já estava implicado um desmanche da Funai, a retirada de responsabilidade na identificação e demarcação de terras, uma pressão muito grande para autorizar a mineração em terras indígenas, o enfraquecimento do Ibama e do ICMBio. O PL 2633, que ganhou o título de PL da Grilagem, é um ataque ao patrimônio de terras públicas para a transferência ao setor privado.

Quais as contribuições da agroecologia para o país? Há a possibilidade dela ter escalada como alternativa ao agronegócio?

A agroecologia é uma proposta extremamente atual, urgente e necessária. Possui uma perspectiva de mudança dos sistemas alimentares que é uma exigência. Na última década vários documentos internacionais chamaram a atenção para a encruzilhada da agricultura. Em plena pandemia em que aumenta a fome ou a falta do alimento de qualidade, o agronegócio cresce junto com a destruição. As notícias mais recentes falam dos seus resultados econômicos. Mas o agronegócio produz commodities para exportação e não a nossa alimentação. E suas externalidades como a destruição ambiental, a poluição, expulsão da terra, não são levados em conta. Por isso a agroecologia combinada com a perspectiva da soberania alimentar se apresenta como alternativa hoje e no futuro. Não é uma questão de escala e sim de perspectivas distintas que encarnam modos de vida, defesa da qualidade de alimentos, práticas produtivas que se relacionam com a natureza. No sistema dominante da agricultura, a natureza é vista para ser subjugada e dominada, enquanto na agroecologia é a busca da adaptação e harmonia com a natureza, considerando os fluxos de energia e de sucessão natural. Os princípios ecológicos regem a produção.

O relator da ONU sobre o direito à alimentação, Olivier De Schutter, apresentou há alguns anos um estudo sobre o aumento da produtividade com a diversidade. A agroecologia contribui para nutrição, reduz a pobreza rural, tem formas de adaptação à mudança climática, e traz à tona algo extremamente importante que é o diálogo de saberes.

E as políticas públicas à agricultura familiar, você pode falar sobre os últimos anos e hoje?

Um estudo da Catia Grisa (UFRGS) chama atenção para a década de 2000 quando tivemos o início de uma terceira geração de políticas públicas pautadas na construção social de mercados para a segurança alimentar e nutricional e sustentabilidade ambiental. Alguns são os que me referi, como o PNAE, PAA, PGPMBio, PNAPO, além de várias iniciativas para as mulheres, que expressam princípios e diretrizes e dialogam com o respeito à diversidade de culturas, tradições e hábitos alimentares. Mas esses programas ou foram interrompidos ou tiveram uma redução drástica de orçamento.

E durante a pandemia, a proposta do Projeto de Lei 735 com “Medidas emergenciais de amparo aos agricultores familiares do Brasil para mitigar os impactos socioeconômicos da Covid–19” teve 14 artigos vetados pelo presidente, de um total de 16 na Lei 14.048, sancionada em 24 de agosto passado. Uma rejeição praticamente integral, mostrando a coesão do executivo na violação de direitos e na contramão das urgências e emergências que vivemos. As propostas foram fruto da articulação dos movimentos sociais que construíram uma plataforma em diálogo com organizações, redes, articulações da sociedade civil e parlamentares comprometidos com a justiça social, direitos humanos e a soberania alimentar.

Mas é preciso destacar o vigor dos movimentos agroecológicos e sociais durante a pandemia. A mobilização das organizações e movimentos sociais com redes de solidariedade e resistência têm tido um papel extremamente importante para chegar o alimento saudável em muitos lugares deste país. Um mapeamento do projeto Ação Coletiva que reúne várias organizações e articulações trará à tona seu significado e abrangência.

Há também as campanhas. Na mobilização pela retomada do PAA, proposta pela ANA, tivemos uma conquista, embora insuficiente. Foram liberados R$ 500 milhões enquanto quando em 2012 foi executado mais de 1 bilhão nas várias modalidades. Uma outra campanha também da ANA juntamente com o FBSSAN para que os governos comprem alimentos da agricultura familiar para a alimentação escolar tem um sentido estratégico dada a capilaridade do PNAE no país.

E no contexto das eleições municipais, A ANA está realizando um levantamento para identificar as propostas no âmbito do poder local. Conhecer programas que revitalizem a economia local, mas também compreender quais são as formas de regulação no âmbito municipal que ao ser implementadas apoiam a agricultura família e camponesa é extremamente importante.

Teatro e pandemia. Entrevista com o diretor e dramaturgo Márcio Abreu

Teatro e pandemia. Entrevista com o diretor e dramaturgo Márcio Abreu

Quando convidamos Márcio Abreu para um diálogo, o primeiro propósito é que pudéssemos explorar sobre as experiências cênicas que têm transferido os palcos para os meios digitais. Afinal, que teatro é esse que dispensa o contato físico com o público? “Nós fomos impedidos”, reforça Márcio, posicionando seu lugar contra os discursos que se aproveitam de um momento frágil do país e do mundo para defenderem um “novo normal” nas artes cênicas. “Isso nos fragiliza”.

Márcio Abreu é dramaturgo, diretor, ator e coleciona prêmios e indicações nas artes cênicas à frente da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba. Prêmios como a Bravo!, Shell, APCA. Não à toa, seus trabalhos têm conquistado crítica e públicos cada vez maiores para além da capital paranaense. Até a chegada do vírus da Covid-19 ao Brasil, a Companhia fazia em São Paulo sua temporada do espetáculo “Por Que Não Vivemos”, uma adaptação de texto de Tchechov. Também se preparava para uma nova estreia no semestre que já passou.

Hoje, contudo, em meio às mudanças de rumo, é possível ver o nome de Márcio Abreu em várias experiências que se lançam nas redes durante o nosso confinamento. Trabalhos como, por exemplo, os Ao Vivos que o SESC vem realizando, um deles trazendo a atriz Renata Sorrah às telinhas do computador para uma leitura cênica de uma mescla dos trabalhos feitos com Márcio: “Esta Criança”, “Krum”, “Preto”.

“A arte tem uma dimensão pública ou não é nada”. Márcio Abreu reforça a indissociabilidade entre arte e estética quando questionado sobre teatro e resistência, reforçando sobre uma arte que se produz diante de um contexto de opressões e retrocessos, como o que vivemos atualmente. Qual seria o papel do artista diante disso tudo e o que esperar do futuro? Confira abaixo a entrevista completa:

Foto: Divulgação / Nana Moraes

Nesses tempos de quarentena, a gente tem visto muitas experiências cênicas e festivais sendo preparados para exibição online, incluindo trabalhos com sua direção e dramaturgia. De imediato, como você poderia avaliar este momento? Será que estes tempos podem trazer ao teatro outros modos de relação com o público, uma nova experiência estética?

Nesse momento, o que eu percebo é que estamos todos diante de uma realidade que não se conhece, diante de uma profunda falta de perspectivas, vivendo com muita nitidez uma ruína de estruturas institucionais de democracia e de como se organizam os poderes e a circulação de bens materiais e imateriais. Tudo isso está frágil, está posto em questão, está ruindo. Então a partir disso e, dessa situação que ninguém sabe muito bem como lidar, começa a acontecer uma série de movimentos, muitos deles em relação a realizar atividades artísticas e culturais, a tentar encontrar vias de contato com o público mesmo à distância, todas elas muito legítimas de um modo geral.

Mas acho que vale a pena refletir um pouco sobre uma coisa que me pareceu um ponto de atenção. No início da quarentena, começou a haver uma certa euforia com esses meios virtuais como se eles fossem uma novidade. Eles não são novidade! Antes da gente ser impedido de realizar nossas atividades no teatro, por exemplo, na dança, na performance, nas artes vivas que dependem da presença do público, essas plataformas já eram utilizadas de outras formas. Eu mesmo fiz um processo de trabalho entre o Brasil e Alemanha com apresentações ao vivo, com cenas virtualmente distribuídas, por exemplo. Então isso não é novo. Pegar carona no discurso da novidade, toda essa ideia de novo normal e começar a proferir e defender esse lugar como sendo o lugar agora me parece muito complicado. Eu me oponho vivamente a isso e fiz muitas críticas, inclusive.

Isso não significa que eu me negue ou que eu me recuse a usar esses espaços e manifestar através deles, a tentar reinventar ou inventar novas maneiras de realizar coisas enquanto estamos impedidos de encontrar as pessoas e o público. Tenho feito algumas coisas, mas me oponho à euforia e aos discursos que se apropriam de um momento frágil para defender essas ideias de novo normal.

A arte tem dimensão pública ou não é nada.

Um dos motivos é que, evidentemente, a gente se torna, nós artistas que já somos alvo, nós nos fragilizamos e continuamos sendo alvo. Então as instituições, os meios de financiamento e de fomento, ficam fragilizados diante dessa ideia, porque é muito fácil dizer “bom, não precisa de dinheiro, fica em casa, faz com os meios que tem e é isso aí”. Então toda ideia de política cultural, de continuidade de políticas públicas para o fomento das artes fica fragilizado diante desses discursos. A gente tem que tomar muito cuidado com isso. A gente tem que entender a dimensão pública das nossas atividades. A arte tem dimensão pública ou não é nada. Tendo dimensão pública, a arte precisa de fomento e de política pública. É simples pensar isso. A questão é como que a gente cultiva essa consciência em uma sociedade que transforma os seus artistas em criminosos.

É muito grave o período em que a gente está vivendo, então eu tenho muito cuidado quando eu ocupo esses espaços virtuais nesse momento em que somos alvo, neste momento em que o país vive uma necropolítica.

Eu acho importante defender o discurso da provisoriedade desse momento. Não é que a gente vai voltar como era antes, mas como que a gente pode usar a provisoriedade deste momento para estabelecer paradigmas de vida coletiva e de implicação das dimensões públicas daquilo que a gente faz na sociedade de uma maneira mais vigorosa e potente do que estava antes.

Você fala muito sobre dramaturgia expandida e reforça o teatro na relação com o público, sobre encontro e presença, palavras que ganham outras dimensões quando se pede pra não sairmos de casa…

Sim, é claro que tudo que a gente faz, todos os movimentos do mundo ao longo da nossa história influenciam como a arte reage e o que a gente consegue materializar através das nossas ações artísticas. Então é evidente que um período como esse, em que a maioria de nós realmente faz o confinamento, e nós das artes vivas fomos impedidos inteiramente de realizar nossos trabalhos, nossas atividades, é óbvio que essa realidade, essa condição de agora, influencia e influenciará os nossos modos de fazer.

Mas isso também não é novo porque, como eu disse no início, todos os movimentos do mundo influenciam nesse fazer porque as artes vivas elas são necessariamente em conexão, em relação, em profundo vínculo com os movimentos do mundo. Então de algum modo há vasos comunicantes, uma coisa influencia a outra, uma instância se transforma a partir da outra e influencia a outra. É um vai e vem.

Então assim como o teatro muitas vezes ilumina as ideias e possibilidades de vida e de pensamento sobre as pessoas, o contrário também acontece. O que acontece na sociedade também influencia o teatro, sem falar dos modos de produção, como os modos de produção também são vinculados consciente ou inconscientemente aos modos de criação. Existe uma ética na estética. Essas duas instâncias são indissociáveis no meu ponto de vista, mesmo que inconscientemente. Essa é uma das dimensões políticas, aquilo que a gente pode pensar a respeito de produção artística: essa indissociabilidade entre ética e estética, entre modos de produção e modos de criação.

O que me parece fundamental colocar como questão agora e que já era algo muito presente no trabalho que venho fazendo nos últimos anos, é entender justamente a dramaturgia como campo expandido, em que a afirmação desse lugar como gerador de acontecimentos com texturas de real, mesmo que estruturas ficcionais, é uma afirmação de que a arte também é uma realidade. A arte não pode ser apartada de um contexto da vida social. Mesmo tendo a consciência de que historicamente a arte é um lugar de privilégio.

Como que a gente inverte essa curva? Como que a gente expande nas linguagens para expandir a presença das nossas ações na sociedade amplamente em muitos âmbitos. Então aí vem a pergunta: para quem a gente fala e para quem a gente quer falar? Todas as linguagens que eu venho pesquisando, produzindo em termos de dramaturgia, escrevendo, inscrevendo nas encenações – porque encenação e é uma forma de escrita -, os campos também indissociáveis entre dramaturgia e direção, tudo isso busca essa expansão que possa chegar nas pessoas. E é com as pessoas, para as pessoas, e quem, para quem, essa é a pergunta.

Existe um tom de resistência forte nessa agenda por parte dos grupos teatrais. Como vocês têm sobrevivido a esses tempos?

Sem dúvida, esse é um tempo de resistência. O que eu acho importante é que a gente, junto com essa necessidade fundamental de resistir a essas forças retrógradas, opressoras, assassinas, que nos oprime diariamente, é como afirmar modos de existência. Porque se a gente permanece apenas na chave da resistência, isso dura muito pouco. Então para continuar existindo a gente tem que nutrir os nossos novos modos singulares de existência. E como isso pode se dar nesse dia a dia duro, difícil, árduo, precarizante que a gente tem vivido?

Uma das coisas que tem ajudado a gente, por exemplo, na Companhia Brasileira de Teatro – e eu percebo com outras pessoas, outros parceiros artísticos e amigos – é se juntar. Mesmo à distância, saber que você não se acha sozinho. Eu percebo que existem muitos movimentos que estão agindo, que estão se fortalecendo, se apoiando nessa nutrição diária dos sentidos coletivos. A gente não resiste e não pode existir sozinhos. Isso parece óbvio mas não é. A gente está numa sociedade em que a dimensão do indivíduo do sujeito, que se afirma na perspectiva do individualismo, é tão devastadora que a gente quase perdeu a referência do que é ser em relação, do que é ser multidão.

Então caminhar em direção à ideia das multidões que se movem, criam movimentos, geram pensamento nos movimentos, na sociedade… isso eu percebo que muitas e muitos de nós do teatro, por termos a vivência e até a tecnologia da convivência no coletivo, temos usado com uma certa inteligência. E, claro, no âmbito da micropolítica acho que a gente vem agindo bastante. Isso nos tem ajudado a sobreviver nesse momento duro, e a inventar ações e possibilidades de gerar também trabalho nesse momento em que tudo foi retirado de nós.

 A gente não resiste e não pode existir sozinhos. Isso parece óbvio mas não é.

Claro, existem algumas ações fundamentais, poucas mas que são simbolicamente  e efetivamente importantes, como todas as ações que o SESC São Paulo vem fazendo no sentido de se juntar ao movimento dos artistas e reconhecer a importância. Mas isso é muito pouco. Existem também ações individuais, de grupos e coletivos que estão começando a se organizar e entrar em contato com o público gerando uma certa economia. Mas isso ainda é muito pouco e a gente precisa de ações mais robustas, com a consciência da importância desse setor para a sociedade como um todo, pra economia, mas também para o nosso sentido de existência e de humanidade.

Em Por Que Não Vivemos, você nos trouxe um Tchekhov que denuncia essa nossa imobilidade. Você acredita então que, especialmente no setor da cultura e do teatro, vivemos um espírito de proatividade diante de tudo o que está acontecendo?

Eu acho sim que uma das características da nossa sociedade nesses tempos em que vivemos, mesmo antes dessa pandemia, é uma certa apatia. A gente no Brasil foi capaz, por exemplo, de permitir a eleição dessa figura indigesta, inaceitável, obtusa, funesta, como Bolsonaro e uma série de outras pessoas. Nós somos corresponsáveis porque a gente faz parte disso. A gente permitiu, de algum modo, que essa circunstância se tornasse concreta, se materializasse.

Então essa paralisia, essa certa imobilidade que permite que isso venha à tona, por exemplo, revela aspectos da nossa história que a gente não conta, as histórias que a gente não foi capaz de contar do nosso país, as vozes que foram apagadas, os corpos que foram sistematicamente eliminados, as existências que foram recusadas ao longo de toda a história do Brasil. A gente vive, digamos, os estertores de uma história oficial que já não se sustenta mais.

Trecho do espetáculo Por Que Não Vivemos? / Foto: Nana Moraes

Eu acho, e tenho até um certo otimismo, que a gente está no último capítulo dessa história de hipocrisia, porque no fundo está tudo revelado. Caberá a nós fazer com que a consciência sobre a nossa verdadeira história, as nossas verdadeiras histórias, permaneçam iluminadas sempre. Cabe a nós carregar esses faróis, que iluminem as nossas verdadeiras histórias e cabe a nós contar, cabe a nós essas narrativas. en

Quando eu imagino o futuro, eu imagino a partir da ideia de que a gente lance mão das nossas histórias e das nossas narrativas. Essa imobilidade que a gente vê hoje e que está muito retratada na adaptação que eu fiz do Tcheckov, do Platonov, em Por Que Não Vivemos, e essa pergunta “por que não vivemos”, por que não vivemos como deveríamos ter vivido, por que não vivemos aquilo que temos a potencialidade de viver, por muitos motivos não vivemos. Essas perguntas são um chamamento e uma proposição a se colocar na vida em outra perspectiva, na perspectiva do movimento, do impulso, do cultivo, da cultivação da vida, da vida em relação, da vida em convivência, da vida também na perspectiva do outro, da vida em integração com planeta, da vida entendendo que todos somos seres vivos e não deveríamos estar em relação aos outros tendo o homem como centro.

Eu acho que o teatro, as artes vivas, informam, provocam, iluminam a sociedade e às vezes até antecipam e prevêem determinadas situações que a gente acaba vivendo depois. A gente deveria confiar muito nos nossos artistas.

E como você visualiza o futuro? “Onde foram parar as ideias?”, para parafrasear o diálogo com Renata Sorrah. Nós jogamos o trecho do espetãculo na Mídia NINJA e alguns leitores deram suas soluções para o futuro, imagino que o mesmo tenha acontecido durante o espetáculo. 

Sim, depois dessa experiência que eu fiz com a Renata, o Em Companhia no Sesc Ao Vivo, a gente tem recebido muitos retornos, muitos agradeceram essas provocações que a gente colocou ali e além de agradecidos e generosos, foram propositivos.

Renata Sorrah Em Companhia. Foto: Nana Moraes

Quando você me pergunta como eu visualizo o futuro, a única resposta que eu tenho é que eu não visualizo o futuro porque não existe futuro. Não há futuro para além daquilo que a gente possa criar, inventar. É a Rita Von Hunty quem diz isso: não haverá século 22. Isso é profundamente tchekhoviano, né? Tchekhov diz: daqui a 200 anos os que virão depois de nós… Eu tenho esse compromisso, a gente precisa trabalhar sim na vida para os que virão depois de nós.

Se a gente quiser futuro nós precisamos devir futuros, o futuro precisa ser o que a gente faz agora. As nossas ações nos tornam em devires do futuro. Então, qual é o meu devir futuro, meu devir amanhã, é a ação que eu faço hoje, é como meu corpo se inscreve no agora e isso propõe possibilidades de futuro. Esse é o compromisso: o futuro é o que a gente faz agora para que o amanhã exista e não precisa ser o amanhã que parece longínquo, como o século que vem, mas o amanhã imediato. A gente está ameaçado inclusive neste amanhã imediato. Muitos de nós artistas não sabem como comer amanhã, como pagar os seus aluguéis amanhã, como criar meios de produzir, de se manifestar através da sua arte amanhã. A urgência de inventar o futuro é também de inventar um futuro imediato, não só um futuro longínquo, o futuro distante.

É esse devir que está e que deveria estar em nós e que a gente pode fomentar nas nossas próprias existências. É a única possibilidade de futuro na minha opinião, porque ele não existe. Esse futuro romântico, esse futuro também objetivo, cronológico, foi retirado da gente. Não existe mais, acabou. Então qual é o futuro que se inventa? É sendo devir, tornando-se um devir futuro ou encontrando em nós, em cada uma ecada um de nós esse devir futuro.

O que podemos esperar da Cia Brasileira de Teatro para os próximos dias?

Nós estamos vivos. Estamos na mira. Estamos sim sendo impedidos, atacados e no foco do extermínio como todas e todos nós artistas mesmo comprometidos com o país e com o outro, com o sentido coletivo e com a dimensão pública do que a gente faz e com as possibilidades de transformação do mundo.

Todos nós estamos no alvo de extermínio, mas a gente está vivo. A gente está se encontrando virtualmente, a gente está produzindo coisas. Uma semana antes da quarentena a gente estava na primeira residência de criação da peça nova que se chama “Sem Palavras” e que no seu título já anuncia, de uma certa maneira, a falência dos discursos de poder, assim como o estupor diante do horror. Mas também há a necessidade de inventar novas palavras ou novas formas de vibrar conhecimento e sentido pro mundo, quase que como a invenção de outras línguas e linguagens.

A gente continua trabalhando de algum modo. no início da quarentena foi mais difícil mas a gente tem conseguido manter uma certa regularidade de criação de encontro. Essa peça deveria ter estreado em São Paulo no dia 3 de julho, era pra gente estar em cartaz agora em São Paulo. Mas a gente tem esperança estrear essa peça até o fim do ano de algum modo. O “Por Que Não Vivemos” estava em cartaz em São Paulo, no (Teatro) Cacilda Becker e teve sua temporada interrompida. Assim que for possível a gente retorna com a temporada em São Paulo e também viajaremos para Recife para outros lugares.

A gente também tem organizado ações formativas. Realizamos essa ação com Renata (Sorrah) e deve realizar algumas outras. Estou dando um curso on-line chamado Dramaturgias do Hoje e do Amanhã. Estamos na segunda turma e vai até o dia 10 de setembro. Estamos tentando, buscando, inventando se mantendo ativos, conectados e sabendo que a gente está numa batalha que faz parte de uma guerra maior. A consciência de que a gente está, de certa maneira, numa guerra é importante para que a gente não fraqueje, para que a gente saiba da nossa função como artistas, para que a gente não abra mão do combate nesse lugar, que é o lugar da criação e da partilha.

Sapapos

Sapapos

por Lígia Ziggiotti e Rafael Kirchhoff

Armários e direitos. Efeitos da racialização e da gendrificação dos corpos e dos desejos. Tensões e potências fora e dentro do movimento LGBTI+. Com todo este acervo, as inspiradoras mulheres por nós entrevistadas formam a coluna deste mês dedicada à visibilidade lésbica. Presenças sapatônicas revolucionárias dos espaços que ocupam, elas nos respondem sobre militância, desafios presentes e futuros para as suas pautas e atravessamentos de opressões múltiplas que recheiam de sentido a data de 29 de agosto.

ANAJUDH-LGBTI: Quais violências específicas podem ser destacadas como pautas importantes para conduzir os debates no dia da visibilidade lésbica?

Ananda Puchta: A violência psicológica e o assédio moral nos afetam cotidianamente, seja pela tentativa de invalidar nossos relacionamentos e afetos, seja pela tentativa de invisibilizar nossa existência nos espaços públicos e privados. No dia da visibilidade lésbica ainda é necessário marcar nosso protagonismo e ocupar todos os espaços possíveis para que, mesmo violentadas, continuemos resistindo e demarcando a existência dos corpos e corpas lésbicas.

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Ananda Puchta: Advogada, Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-PR (2019/2021), co-fundadora do Coletivo Cássia. Foi finalista no 24º Prêmio Claudia na categoria políticas públicas e participou como Fellow na Out & Equal Workplace Advocates.

ANAJUDH-LGBTI: Considerada a arena política, o movimento LGBTI+ tem conseguido disputar narrativas e obter alguns avanços dentro do sistema de justiça. Como ativistas e militantes lésbicas têm atuado nesse espaço e em que medida suas demandas são contempladas nas proposições do movimento?

Ana Carla da Silva Lemos: Menciono movimentos no plural por compreender que esses espaços são diversos e têm vários caminhos políticos. Nas últimas décadas, os movimentos têm ampliado os olhares, articulando as imbricações de gênero, raça, classe e sexualidade, especialmente porque a sexualidade é o cerne da opressão que direciona fortemente as ações, mas os demais marcadores têm saído, por assim dizer, do armário e dialogado mais interseccionalmente. Através desses amadurecimentos e organizações dos movimentos pelas de militâncias individuais, em grupos, redes, atuação nos espaços de controle social e gestão, tem-se ampliado as articulações políticas, o que contribuiu para o acesso ao sistema de justiça nos últimos anos, como doação de sangue, adoção, casamento. No entanto, sabemos que ainda precisamos avançar muito, pois no cotidiano ainda encontramos muitas LGBTfobias institucionalizadas. Para os casais lésbicos, considero a Lei Maria da Penha 11.340/206 um dos avanços, pois reconhece como violência doméstica as violências cometidas nas relações de conjugalidade.

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Ana Carla da Silva Lemos é lésbica feminista, negra, poeta, cientista social e mestra em Antropologia, pela UFPE. Integra o Instituto PAPIRO – Pesquisa Antropológica e Social, o FAGES – Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade da UFPE, a Rede Nacional de Ativistas e Pesquisadoras Lésbicas e Bissexuais – Rede LesBi – Brasil.

ANAJUDH-LGBTI: Como o atravessamento racial é sentido junto aos movimentos lésbicos e como o atravessamento lésbico é sentido junto ao movimentos negros?

Giorgia Prates: Para a comunidade lésbica eu sou negra e para a comunidade negra eu sou lésbica. Mas nem sempre percebo que existe mesmo essa significação. Os movimentos, ainda que estejam lutando para modificar, transcender, as questões que afetam os nossos direitos humanos, ainda não conseguiram unificar essas questões. Toda pluralidade tem suas subjetividades. Ser lésbica na comunidade lésbica, por exemplo, significa entender que, embora não se trate de uma hierarquia de opressão, existem as singularidades. E entender que as lésbicas negras nem sempre vão ter as mesmas “facilidades” para se colocar na luta de maneira equânime. Esses atravessamentos precisam ser pensados porque, para além de tudo, existem muitas coisas em relação ao campo da afetividade e do amor que foram alteradas nas mais variadas violências desde o período em que as nossas ancestrais foram escravizadas. E, sendo uma mulher negra lésbica, o racismo, a misoginia e LGBTfobia são os pesos que nos consomem diariamente.

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Giorgia Prates é fotógrafa, fotojornalista e pré-candidata a vereadora na Mandata Coletiva das Pretas, em Curitiba.

ANAJUDH-LGBTI: Como você percebe o campo jurídico para a sua existência, como advogada lésbica, e para as pautas coletivas, como um espaço de concretização de direitos?

Andressa Regina Bissolotti dos Santos: Nos dois sentidos, o campo jurídico pode ser descrito como um desafio e um espaço de atuações que possibilitam a construção de direitos e de uma percepção social mais acolhedora de nossas existências. Um desafio, por ser mulher, e especialmente ser lésbica, é, em alguns casos, ainda razão de exclusões e invisibilizações. Isso força aquelas de nós que tem a dor e o privilégio de não serem imediatamente identificadas como lésbicas a constantemente fazer a difícil escolha de se revelar ou não, tendo em vista os riscos e/ou oportunidades que podem daí advir. Esse aspecto se mostra cotidianamente em nossa atuação profissional, como advogadas, professoras, pesquisadoras. No sentido da construção de direitos, o campo jurídico tem sido um relevante espaço historicamente na construção de uma sociedade mais acolhedora, construção essa que se está ainda por fazer. Atualmente, os direitos têm sido centrais para resistir a uma negação contundente de nossa existência, vinda de diversos espaços sociais e institucionais. Mas o direito é, ele mesmo, paradoxal. Assim como na escolha de revelar-se ou não, a decisão por mobilizar o aparato jurídico ou não requer também sempre um questionamento, no sentido dos riscos e possibilidades que podem daí advir.

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Andressa Regina Bissolotti dos Santos é Doutoranda e Mestra em Direitos Humanos e Democracia pela Universidade Federal do Paraná, professora da Universidade Estadual de Maringá e da Faculdade de Pinhais, secretaria da ANAJUDH-LGBTI e da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/PR, integrante da Rede LesBi. Advogada.

Sugerimos harmonizar esta leitura com as obras “Controle”, de Natalia Borges Polesso, e com “Nimona”, de Noelle Stevenson. Lésbicas, as duas autoras apresentam, através de romance e de quadrinhos, respectivamente, expressões de vivências de gênero e de sexualidade fora do padrão hegemônico. Para assistir, são favoritos da ANAJUDH-LGBTI os filmes “Secreto e Proibido” e “Retrato de uma jovem em chamas”, ambos tematizando relações homoafetivas entre mulheres. E se o caso é sambar, Leci Brandão é uma boa pedida para o sábado.

Lígia Ziggiotti é doutora em Direitos Humanos e mestra em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná, professora de Direito Civil da Universidade Positivo e vice-presidente da Associação Nacional de Juristas pelos Direitos Humanos LGBTI – ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

Rafael Kirchhoff é advogado, militante de direitos humanos e presidente da ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

Movimentos pressionam pela execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)

Movimentos pressionam pela execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)

Foto: Conab

Revisão: Viviane Brochardt

No final de abril, a Medida Provisória nº 957/2020 destinou R$ 500 milhões ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Os movimentos reivindicam, pelo menos, 1 bilhão de reais até o final de 2020, pressionam por maior velocidade na contratação dos projetos.

De acordo com o estudo “O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): instrumento de dinamismo econômico, combate à pobreza e promoção da segurança alimentar e nutricional em tempos de Covid-19”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a destinação de 1 bilhão de reais atenderia 208 mil agricultores e agricultoras familiares que forneceriam 420 mil toneladas de alimentos. Mostrou também haver, nos anos de 2011 e 2012, auge da execução do programa, um percentual maior de crescimento do PIB nos municípios que acessaram o PAA em relação aos que não acessaram. O aumento médio de crescimento do PIB foi de 1,51%, para 2011, e 1,88%, para 2012.

Para a antropóloga Maria Emília Pacheco, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), o PAA promove justiça a quem produz comida de verdade e conserva a biodiversidade. O anúncio deste aporte emergencial é, no entanto, uma vitória “pequena, parcial e insuficiente” pois uma parte considerável deste recurso já está comprometida pela paralisação do programa nos anos anteriores.

“Além de lenta, a decisão do governo é duplamente insuficiente, pois nem corresponde ao montante de recursos para alavancar efetivamente o PAA e nem incluiu os ajustes necessários para responder às demandas contidas na campanha dos movimentos. A proposta do aporte emergencial, de R$ 1 bilhão para esse ano e a meta de R$ 3 bilhões para o próximo ano (2021), rapidamente ecoou no país com a adesão de cerca de novecentas organizações e movimentos sociais do campo e da cidade”, afirmou.

No ano de 2012 o PAA atingiu o ápice do seu funcionamento chegando a quase R$ 1,2 bilhões (valores corrigidos pela inflação), com atendimento a 180 mil agricultores e agricultoras, incluindo 1.652 famílias de comunidades quilombolas; 1.058 de famílias agroextrativistas; 754 famílias de povos indígenas e 2.362 de famílias de pescadores artesanais. Só a Conab executou entorno de R$ 840 milhões naquele ano, de acordo com as informações fornecidas pelo órgão.

Ao realizar uma rápida retrospectiva, Maria Emília destacou a fundamental e inédita inserção dos povos indígenas no PAA, de modo a garantir renda e conservação de alimentos locais. No entanto, a partir de 2013, a modalidade de formação de estoque com pagamento em produto foi extinta, prejudicando não só os indígenas, mas também os extrativistas e camponeses. A luta das mulheres se traduziu na conquista da Resolução nº 44 do Grupo Gestor do PAA, que assegura um mínimo de 5% da dotação orçamentária para organizações de mulheres e 45% mulheres participantes como produtoras fornecedoras do PAA. Esta resolução precisa ser aplicada, segundo a antropóloga.

“A retomada do PAA, não apenas na emergência, mas como um programa estruturante, é uma questão de justiça social. As avaliações mostram resultados favoráveis para a vida das agricultoras e agricultores com a diversificação dos sistemas produtivos, conservação e manejo da biodiversidade e a valorização dos alimentos regionais, garantindo renda e melhores condições de autoconsumo; impulsiona a transição da agricultura convencional para agroecológica; dinamiza os circuitos curtos de mercado com repercussão positiva nas economias locais; expande o tecido associativo e a participação das mulheres, dentre vários outros benefícios”, concluiu.

Os recursos extraordinários para o PAA serão utilizados para a execução de três das seis modalidades do Programa, cada uma delas com seu fluxo e cronograma. Após mais de uma semana em contato, o Ministério da Cidadania não informou em que estágio está a execução dos projetos destinados à modalidade PAA Leite (R$ 130 milhões) e PAA Estados e Municípios (R$ 150 milhões). De acordo com os dados do Portal Transparência, os projetos de 2019 desta última modalidade estão sendo executados em 100 municípios.

Foto: Conab

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é responsável, através da modalidade Doação Simultânea, pela execução dos R$ 220 milhões restantes. De acordo com a superintendente de Suporte à Agricultura Familiar da Conab, Kelma Cruz, as contratações de 2020 foram divididas em duas etapas. A primeira atendeu os projetos recebidos em 2019, que ainda não tinham sido pagos por falta de recursos, contabilizando uma demanda de R$ 113 milhões, de 1026 projetos. Destes, foram pagos até o dia 28 de julho R$ 11,5 milhões em treze estados, enquanto os outros R$ R$ 81,5 milhões foram descentralizados para as superintendências regionais da Conab e esperam os procedimentos finais de contratação para finalização dos pagamentos.

“Na segunda etapa recebemos a demanda de R$ 203,5 milhões, 1528 projetos. Estamos finalizando o ranqueamento, pois serão pagos os mais bem colocados nesse ranking, a partir de critérios definidos pelo Grupo Gestor do PAA (…) Vamos executar os R$ 220 milhões e, caso haja alguma disponibilidade extra de recursos, temos projetos em carteira. Nesse caso, é só seguir o ranking e pagar até o limite dos recursos”, afirmou a gestora.

Os movimentos cobram a liberação imediata de R$ 100 milhões para contemplar os projetos apresentados à Conab na última chamada pública. No ano de 2019, a Companhia operou, por meio do PAA modalidade Compra com Doação Simultânea, 337 projetos, atendendo 4.792 agricultores familiares, com aproximadamente 12 mil toneladas de alimentos. Ao todo foram disponibilizados R$ 32,3 milhões pela Companhia, dos R$ 285 milhões totais destinados ao Programa.

PL 735 Emergencial para Agricultura Familiar

Após uma articulação intensa dos movimentos com os parlamentares no Congresso Nacional, o PL 735/2020 foi aprovado no Senado Federal e aguarda a sanção e regulamentação da presidência da República. Existe o indicativo da aplicação de um PAA Emergencial, mas até o momento não há nenhuma sinalização do montante de recursos. Embora tenha sido uma vitória no Congresso, há a preocupação dos movimentos populares do campo com a morosidade do governo federal em efetivar as medidas.

Em estudo recente, o prof. Mauro DelGrossi, da Universidade Brasília, analisou os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, e constatou que 50% dos agricultores familiares tiveram redução da renda durante a pandemia. A perda de renda é estimada em 30%. Neste contexto, o professor na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Sílvio Porto, que foi diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, ressalta a necessidade de agilidade nos procedimentos. Para ele, os próprios dados da Conab mostram uma morosidade pelo formato atual do Programa.

“O PAA seria o grande instrumento, mas não só os recursos são insuficientes como a própria execução está sendo de uma forma inadequada. Propusemos que fosse feito em outro formato, para viabilizar e facilitar que esse processo de compra e distribuição dos alimentos fosse realizado com a maior celeridade possível, atendendo os preceitos legais. Seria até possível fazer uma flexibilização, por conta do decreto de calamidade pública que vivemos no país. O PAA é uma grande política que viabiliza a compra da agricultura familiar de um lado e de outro as pessoas em insegurança alimentar”, esclareceu.

O histórico do PAA

Foto: Rede Ecovida

Instituído no âmbito do Programa Fome Zero, em 2 de julho de 2003, o PAA é a principal política defendida pelos movimentos sociais e entidades da sociedade civil no combate à fome. Após algumas alterações, desde 2011 é regido pela Lei nº 12.512 e regulamentado pelo Decreto nº 7.775, de 2012. O Programa é executado por estados e municípios em parceria com o Ministério da Cidadania, de onde vem seus recursos, e pela Conab.

É através do PAA que agricultores, cooperativas e associações garantem a venda dos seus produtos para órgãos públicos. Promove o acesso à alimentação de qualidade e incentiva a produção da agricultura familiar. Os alimentos são comprados pelo Estado diretamente da agricultura familiar e destinados às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, à rede socioassistencial, aos equipamentos públicos e à rede pública de alimentos.

O Programa pode ser acessado por meio de seis modalidades: Compra com Doação Simultânea, Compra Direta, Apoio à Formação de Estoques, Incentivo à Produção e ao Consumo de Leite, Aquisição de Sementes e Compra Institucional. Esta última, por exemplo, abastece por meio de chamadas públicas os hospitais públicos, quartéis, presídios, restaurantes universitários, creches e escolas, entre outros.

Alguns dos benefícios oferecidos pelo Programa são: constituição de estoques públicos de alimentos da agricultura familiar, fortalecimento dos circuitos locais e regionais e de redes de comercialização, valorização da biodiversidade e da produção orgânica e agroecológica, incentivo de hábitos alimentares saudáveis e do cooperativismo e associativismo.

Experiências agroecológicas nos territórios

O trabalho realizado pela Cooperativa Agrícola Santo Anjo (Copergesa), em Três Cachoeiras (RS), é um dos exemplos de compra e doação de alimentos agroecológicos pelo PAA. Tudo iniciou em 2003 por três agricultores na região e acabou desencadeando o processo coletivo que culminou na consolidação da Copergesa, em 2013, que hoje conta com mais de 100 sócios. Desde 2016, vem realizando projetos no PAA e tem verificado uma drástica redução nos recursos disponibilizado e muitas dificuldades devido à crise no país. O projeto contempla 37 agricultores, sendo 15 mulheres, e entrega bananas à unidade recebedora do Mesa Brasil, do Sesc-RS, que contempla 274 entidades com mais de 43 mil pessoas.

Com a situação de pandemia, segundo Renato Leal, de 55 anos, presidente da Cooperativa, foram liberados pela Conab os R$ 289.080,00 pleiteados pelo projeto com o objetivo de remunerar o excedente de produção dos agricultores da Cooperativa. A entidade recebedora tem sido de vital importância, já que as pessoas necessitadas só vêm aumentando por causa da pandemia.

“O PAA incentiva a agricultura local e nossas atividades rurais, bem como complementa, com bananas orgânicas, o rol de alimentos disponibilizados pela Mesa Brasil às entidades atendidas. Entregamos 132.000 kg de bananas orgânicas, devidamente certificadas pela Rede Ecovida – uma certificação participativa. São 3000 kg semanais, quantidade considerada adequada pela unidade recebedora, tendo em vista o número de pessoas atendidas, a disponibilidade de pessoal pela entidade, bem como a perecibilidade da fruta”, afirmou.

A Rede Ecovida atende mais de 4 mil famílias agricultoras certificadas, informais ou organizadas em associações e cooperativas, cerca de 25 ONGs e seis mercados em parceria com grupos de consumidores. De acordo com Laércio Meirelles, coordenador do Centro Ecológico e integrante da coordenação da Rede, o PAA é imprescindível para popularizar e democratizar o consumo de alimentos produzidos com compromisso social e ambiental.

“O Programa aponta para resolver um problema emergencial, a fome, através de uma ação estruturante de irrigar comunidades rurais com recursos e remunera de forma justa a produção familiar. Os poucos recursos financeiros disponibilizados e as crescentes exigências burocráticas afastam o Programa do seu objetivo inicial de conectar quem mais precisa vender com quem mais precisa acessar os alimentos. Temos que inverter a curva e ter cada vez mais recursos disponíveis e regras mais acessíveis”, observou.

“Discriminação e racismo se tornaram uma política de Estado”, diálogos de quarentena com Adriana Salvatierra

“Discriminação e racismo se tornaram uma política de Estado”, diálogos de quarentena com Adriana Salvatierra

Arte de Gabriela Tornai

por Araceli Carrizo Richelet e Juan Manuel P. Domínguez 

Adriana Salvatierra é uma cientista política e política boliviana-chilena. Em 2015 ingressou no cargo de Senadora pelo Movimento ao Socialismo em representação do Departamento de Santa Cruz. Os jovens de seu partido a elegeram candidata a senadora em 2014 por seu profissionalismo e trabalho de base com organizações sociais, civis e camponesas. Salvatierra foi a mais jovem presidente do Senado na história da Bolívia, desde que assumiu o cargo aos 29 anos. Vale destacar que, com apenas 29 anos, Adriana Salvatierra se torna a quarta mulher da história a presidir o Senado. Hoje atua como legisladora e membro do partido, acompanhado por Evo Morales, na campanha de Luis Arce e David Choquehuanca

Qual é a sua atuação atual e militante após a renúncia à presidência do Senado e após vivenciar assédio e ameaças das milícias da extrema direita?

Fui uma das que ficaram no país, não que tenha transformado isso em uma demonstração de coragem, porque todos nós, colegas, vivemos situações absolutamente diferentes. Continuo como legisladora, neste momento do Movimento ao Socialismo, como membro do nosso partido, da nossa estrutura e da Bolívia, acompanhando a campanha em condições muito adversas. Condições em que o estado de emergência não iniciou ações sobre a crise de saúde, mas ao contrário, vive-se desde novembro da impunidade do exercício da violência pelas Forças Armadas, e até agora não houve investigação a respeito desses acontecimentos. Impunidade em relação aos acontecimentos ocorridos na Bolívia em 2019 e que culminaram no golpe que todos conhecemos. Mas aqui como militante, ainda como servidora pública, claro que na Assembleia Legislativa, mas fundamentalmente continuo a acompanhar a campanha do nosso candidato Luis Arce e David Choquehuanca. Mas é verdade que existia um quadro estrutural de violência, em múltiplas facetas, a primeira coisa que todos nós temos que entender é que tem muita gente que fala que não foi um golpe, porque participaram dele, desde o bloqueio em seu bloco, em sua casa, etc e que parece estar tentando calar algo que realmente aconteceu e que as Forças Armadas pediram a Evo Morales que renunciasse. O mesmo comandante das forças armadas. A polícia se amotinou nos nove departamentos e absolutamente nada foi feito quando a casa da irmã de Evo Morales foi incendiada, quando a casa do presidente Evo Morales foi destruída ou quando sequestraram e espancaram à prefeita de Vinto, a companheira Patricia Arce, que também é uma mulher de enorme dignidade, que depois de ser torturada afirma sentir orgulho de sua filiação ao movimento socialista.

Patricia Arce, prefeita de Vinto, foi espancada e torturada durante as revoltas que culminaram no golpe ao presidente Evo Morales, em 2019.

Pois é, incendiaram a casa do presidente da Câmara dos Deputados, sequestraram e torturaram seu irmão por mais de 3 horas, na cidade de Potosí, e o mesmo aconteceu com outros dirigentes, houve sequestro de parentes e os obrigaram a renunciar as lideranças. Todo esse contexto de violência ocorreu em nosso país e é fato inegável que até agora está em absoluta impunidade porque não é investigado. O assédio e a violência continuaram mesmo após o golpe, não apenas no fato da margem de impunidade que se abriu nas Forças Armadas com a promulgação de um decreto que as isentava de responsabilidade criminal por ações conjuntas, que se desenvolveu a polícia com as forças armadas na rua, contendo os protestos dos cidadãos. Discriminação e racismo se tornaram uma política a vontade do Estado. Nossos camaradas, para reintegrar as sessões da Assembleia Legislativa, tiveram que enfrentar a violência policial da Polícia, que impediu o acesso dos deputados ao Congresso. É claro que também tem assédio político, perseguição policial e a morte de muitos e muitos colegas. A discriminação e o racismo passaram a ser a vontade do Estado. E o Estado, com base nessa discriminação e nesse racismo, operou com forças repressivas, perseguindo parceiros. Dois dias depois do golpe, um policial estava do lado de fora do apartamento onde morava. Eles não precisam tirar um policial do apartamento onde morava, porque você sabe que eles o estão perseguindo, é claro. Mas era a vontade que se soubesse que essa perseguição existia. Foi um cenário complexo, mas devemos continuar lutando sempre pela democracia.

O golpe reacendeu as tensões raciais e étnicas que a figura de Evo Morales havia apaziguado. Em que medida a direita é responsável pelo ressurgimento das tensões raciais e do endoracismo no país?

O quadro a partir do qual saiu a oposição, ou seja, o seu quadro ideológico, foi justamente o uso de instrumentos opostos da fé, da religião, com a Bíblia à sua frente para conduzir as ações de Luís Fernando Camacho, como ajoelhar-se no pés do Cristo Redentor, um monumento simbólico em Santa Cruz. Ou a figura de Jeanine Añez, dizendo que a Bíblia volta ao Palácio. Mas o retorno da Bíblia, não com um olhar romântico, ou a mensagem de “o catolicismo retorna”, “a fé retorna”. Mas sim, como cortina de fumaça, e também como elemento civil, buscando civilizar os “selvagens” contra os quais lutou. A Bíblia se opõe à Whipala, por exemplo, várias organizações foram em defesa da Wiphala, como um símbolo da integração dos povos e resgate da memória. E a resposta foi impor uma violência civilizadora, contra o que Jeanine Añez chamou de “os selvagens das terras altas”, “os selvagens dos trópicos”, e sempre houve uma estigmatização e uma criminalização dos movimentos sociais, que resistiram ao golpe de estado com um heroísmo impressionante, e fundamentalmente motivado, porque o motor do golpe foi a normalização da violência e a vontade do governo de exercer violência sobre os mais humildes.

Qual foi o papel das organizações indígenas durante o governo do MAS e qual é o seu papel neste momento de crise democrática?

Acredito que o papel dos povos indígenas e do movimento camponês obviamente não começa com o processo, eles são construtores do processo de mudança, construtoras e construtores desta revolução democrática e cultural, a partir de um fato que é ter compreendido plenamente sua situação durante a República e de ter convertido a compreensão de sua situação e de sua condição de classe, não apenas em vontade mas em uma vocação de transformação, e também na transformação de slogans universais, como a nacionalização dos hidrocarbonetos, a convocação da Assembleia Constituinte, a valorização dos recursos naturais de empresas estratégicas, o reconhecimento do estado, da diversidade cultural, que deu origem ao Estado Plurinacional e ao reconhecimento da terra e do território. A necessidade de mudar a estrutura da posse da terra. Tudo isso foi a agenda de outubro, com a qual entra o governo do nosso camarada Evo Morales, o nosso governo. A partir daí, a atenção mais importante é desdobrada também em termos de transformação profunda, que é a Assembleia Constituinte.

Quais são os retrocessos em questões institucionais que mais se destacam na Bolívia hoje?

Desde o impacto do golpe na Bolívia, embora eu insista, são dívidas que nós também carregamos e ainda estão pendentes. São para mim os direitos das mulheres e dos grupos LGBTIQ. Devemos ver como podemos avançar no aprofundamento dos direitos das mulheres, pois ainda temos enormes lacunas de desigualdade. Há uma lacuna significativa de desigualdade, por exemplo, em questões como salários ou violência institucional. Temos normas que protegem as mulheres, mas precisamos avançar como sociedade nisso, e o problema do golpe foi esse, com aquele arcabouço que veio da racialização da discussão política e social, e as tensões que o golpe de Estado abriu, tudo o que veio por trás disso foi o que eu estava dizendo a vocês no início, a discriminação e o racismo viraram vontade do Estado e o uso da violência do Estado para violar os direitos humanos.

A principal reclamação de nossos colegas é a justiça para os massacres ocorridos em Senkata e Sacaba, e denunciar que o Estado estigmatiza regiões e criminaliza a pobreza neste momento, e que usa o que é de fato um Estado de exceção para combater a pandemia, e a sua única resposta à crise da saúde neste momento tem sido colocar todo o país em quarentena, sem que isso seja acompanhado por um aprofundamento do exercício dos direitos dos cidadãos. Essa é a maior ferida que temos na Bolívia, em termos de direitos, é justamente a maior fratura social que existe, baseada na vontade do Estado de discriminar certas regiões e exercer o racismo, o que leva a uma tremenda erosão democrática.

Em que ponto a religião influenciou o crescimento da extrema direita na Bolívia?

Não sei se a religião influencia o crescimento ou é a instrumentalização da fé como elemento de contraposição e oposição a um projeto político. É a instrumentalização da fé, no sentido em que a Bíblia e as crenças religiosas são utilizadas, ou as emoções geradas pela prática da fé, para justificar e esconder em segundo plano o que são racismo e discriminação. Insisto, a Bíblia foi usada como ferramenta e como instrumento “civilizador” contra os setores sociais mobilizados, acusando-os de selvagens, era a mesma coisa que fazia a colônia, a Bíblia na frente, quando a espada estava atrás, o padre na frente, quando atrás o exército armado estava lá para destruir e privar os povos indígenas do governo autônomo. E aqui era o mesmo.

Como o MAS e os setores populares propõem a reconstrução da ordem democrática no país e como a Bolívia se recupera após o golpe?

A Bolívia vive atualmente uma crise, igual a que o mundo atravessa: econômica, sanitária, financeira, com a interrupção dos ciclos produtivos que a tornam uma crise alimentar, mas uma crise democrática, social, política, uma crise multidimensional. E nesta crise, acho importante começar por compreender que as pessoas não esperam vingança do Movimento pelo Socialismo, quando regressam. O Movimento ao Socialismo contribuiu para transformar a realidade deste país, para transformar a história deste país. E acho importante voltarmos às melhores coisas que as pessoas lembram de nós, que foram os anos de crescimento e estabilidade econômica, que permitiram que as pessoas acomodassem suas vidas. O exemplo que mais me mobiliza, como vi na festa juvenil do MAS, é que muitos colegas foram os primeiros profissionais da família. Por exemplo, tem uma colega que é acusado de terrorismo, ele tem 26 anos, está na Argentina, no exílio, é filho de uma mulher que só fala quíchua, sobrevivente do terremoto, indígena, que provavelmente ao contrário, sua herança familiar não foi diferente, ela provavelmente também era indígena, provavelmente não teve acesso ao ensino fundamental, a mulher não é graduada do ensino médio, e acontece que seu último filho, o mais novo de todos, estudou engenharia de sistemas, se profissionalizou e também foi candidato a senador. Imagine todo o orgulho baixado para um menino de 26 anos, que não é só o orgulho de sua mãe, mas de gerações atrás. São muitos os exemplos, toda a história por trás disso, que nos dizem que com o nosso governo eles poderiam ter um profissional na família. Esse é o nosso processo de mudança, são as verdadeiras oportunidades que as pessoas começaram a ter. Insisto, Bolívia quando entramos no governo com o camarada Evo, 10% da população era analfabeta, minha avó morreu analfabeta, é daí que viemos. Essa é a medida do que éramos e com base nisso devemos comparar nosso progresso. Esta é uma geração que viu muitos direitos conquistados e que talvez milite muito mais atenta a isso, por isso é ativa no nosso partido. Mas essa é a nova Bolívia, são gerações inteiras que começam a conquistar direitos, que durante a República eram negados a toda a família. Tenho uma colega deputada, a Anacleta Murrío, de 60 anos, do Chaco, uma mulher de saia, uma camponesa, quíchua, que me diz que só estudou até o segundo ano. Porque as famílias camponesas naquela época tinham que escolher qual filho poderia estudar, o homem e o mais velho sempre estudavam, porque custava muito para os outros fazer isso, ou para evitar diminuir a força de trabalho que a família tinha para sobreviver, ou por causa do machismo, etc., imagine a lacuna acumulada ao longo dos anos, apenas em um direito que era o acesso à educação para as mulheres. As netas de Anacleta Murrio estudam hoje na universidade. Isso para nós faz parte do processo de mudança.

Você também chegou à presidência do Senado bem jovem.

Sim, eu tinha 29 anos naquela época e isso foi uma causa e também parte do processo, nossa revolução democrática foi a que permitiu que com a mudança da constituição a partir dos 18 anos você pudesse ser legislador e assumir todas as responsabilidades que isso implica. Antes de termos que esperar para entrar no Senado, era preciso fazer 30 anos para ser senador, eu não podia nem ser senadora. Isso foi possível graças ao processo de mudança, e há muitos exemplos de colegas que assumiram ministérios, como Manuel Canelas, ou a companheira Mariana Prado, Valeria Silva em La Paz, outra colega senadora, Anderson Cáceres, o atual presidente do Senado também tem um, se não estou enganada, de 33 anos, agora. Muitos jovens assumiram a responsabilidade do Estado, essa foi a abertura democrática que teve que transformar a nossa constituição política do Estado e a vontade política dos nossos colegas.

Adriana Salvatierra e Evo Morales, Reuters.

Por que foi importante incluir as vozes das mulheres na política boliviana?

Para começar, é uma demanda construída coletivamente de muitas organizações de mulheres, o movimento de mulheres camponesas, a organização de mulheres camponesas Bartolina Xixa. Somam-se também as companheiras da Organização das Mulheres Juana Azurduy e múltiplas organizações, além de grupos feministas que também têm sido um importante construtor dos referenciais teóricos da despatriarcalização. As camaradas se uniram na compreensão de algo que era central, tratando de questões não só do feminismo, mas da igualdade. Este exemplo simples significa que, se somos metade de cada povo, devemos ser metade de cada representação e somos iguais. Isso teve um impacto sobre nós termos a primeira conquista importante, que é a constitucionalização dos direitos das mulheres e a abertura de uma agenda de desenvolvimento, dos direitos das mulheres. Portanto, a nossa constituição política de Estado, por exemplo, incorporou especificamente que todos os bolivianos, a partir da língua, que toda e qualquer pessoa, e em particular as mulheres, e eu coloco ênfase aí, têm o direito de viver sem violência. Isso resulta em nossa lei abrangente de combate à violência contra as mulheres. Por exemplo, tendo constitucionalizado a paridade de gênero nas instâncias de representação legislativa, alcançamos a metade de mulheres e metade de homens na Assembleia Nacional, na Assembleia Departamental, nos conselhos municipais, nos menores territórios. Tem sido possível constitucionalizar, por exemplo, a estabilidade no emprego dos pais, principalmente das mulheres, até o filho completar um ano. Foi possível constitucionalizar, por exemplo, a incorporação desse princípio muito discutido, que é o reconhecimento do trabalho de casa, nos cofres nacionais do produto interno bruto. Reconhecer que é tarefa do Estado construir condições de equidade e igualdade no desenvolvimento dessas tarefas. Nossa conquista mais importante é ter deixado na constituição, não digo escrita na pedra, mas não submetida à vontade de um político, de um partido ou de uma liderança x, os nossos direitos. Mas constitucionalizada, conquistada, consagrada e essa é a nossa bandeira mais importante. A Bolívia tem 53% de participação feminina na política, afirmam várias fontes. Sim, e não só no campo da representação legislativa, mas também no campo judicial. Aconselhamos que haja paridade também nas instâncias judiciais, no Supremo Tribunal de Justiça, no Tribunal Constitucional, a representação também deve ser igual. A eleição dos membros do Tribunal Supremo Eleitoral e do órgão eleitoral, ou seja, esta se estabelece como política transversal de representação nas instituições do Estado, não apenas na esfera legislativa. Falta-nos executivos dos governos locais.

Como a presidência de Jeanine Áñez está lidando com a pandemia do Coronavirus, em relação aos casos de violência de gênero e à saúde pública em geral?

O principal problema para nós é que o discurso inicial é “o MAS não se preocupava com saúde há 14 anos”. Mas também não foi apresentada uma resposta alternativa para enfrentar a crise de saúde, que não passe pelos ditames de um estado de exceção que restringe direitos, ou seja, as quarentenas são estados de fato de exceção, além do fardo ideológico que pode-se depositar nisso, e a mobilidade fica restrita etc, mas aqui isso não foi acompanhado de um fortalecimento do sistema de saúde. A crise da saúde praticamente deixou sistemas de saúde muito mais robustos de joelhos, como na Itália ou na Europa. Mais robusto que os sul-americanos. Mas aqui a quarentena não é acompanhada por uma medida real do número de infecções, não apenas porque há mais infecções do que as registradas, mas porque os resultados de hoje são os mesmos de duas semanas atrás. Os testes de laboratório estavam saturados, e há testes não lidos, e desde 1º de junho há testes acumulados. O que existe é um sub-registro da mortalidade. Aqui em Santa Cruz, 50 corpos de pessoas são levantados todos os dias e cemitérios já desabaram. Era possível prever esse colapso, sim. O que não pode ser permitido é que uma pessoa seja obrigada a ficar em casa com uma pessoa que morreu de coronavirus, por mais de cinco dias, dentro de sua casa. Não é possível que não saibamos realmente quantas pessoas estão morrendo de coronavirus, ou que tivemos a possibilidade de salvar vidas, trazer respiradores, etc., e que o dinheiro foi roubado.

No contexto das próximas eleições, quais são as garantias para que Luís Arce possa concorrer à presidência de forma transparente?

São muito baixas, mas aqui estamos, não há outra forma de apostar na democracia a não ser através de um processo eleitoral. E é estranho, porque se gabaram de que houve uma fraude monumental, quando as urnas hoje nos dão números semelhantes aos que tínhamos em 2019, e as urnas hoje falam claramente que Arce, David e o Movimento ao Socialismo ganhariam a presidência na primeira rodada. Mas insisto, creio que espaços como este, que contribuem para tornar visível a situação e o contexto da Bolívia, nomeadamente devido à confluência da crise da saúde, da crise econômica e do golpe de estado, contribuem para tornar visível o que nos interessa, ou seja, como o próprio processo eleitoral avança. Não só no dia das eleições, mas também no contexto e nas condições em que se realiza o processo eleitoral. A condição de desigualdade que existe, porque o país está paralisado, mas o governo que é candidato ao mesmo tempo não está paralisado. O uso de publicidade estatal, disseram que não ia acontecer, hoje finalmente ocorre. Mas, além disso, a violação permanente dos direitos humanos e a perseguição sistemática aos nossos colegas. Da mesma forma, temos boas perspectivas, continuamos a refletir a vontade majoritária do povo boliviano e isso nos enche de esperança.

“A população brasileira está comendo cada vez pior”, alerta ex-diretor da FAO

“A população brasileira está comendo cada vez pior”, alerta ex-diretor da FAO

O agrônomo José Francisco Graziano foi responsável, enquanto ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, pela implementação no Brasil, em 2003, do Programa Fome Zero. Alguns anos depois, foi eleito diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), cargo que exerceu durante dois mandatos (2012-2019). Tem mais de 30 livros publicados sobre a questão agrária no país e diversas premiações mundo afora.

Preocupado com a segurança alimentar e nutricional da população brasileira, ele alerta que, se não forem tomadas providências mais rápidas, nosso país pode voltar ao mapa da fome após a pandemia. Desde 2014, o Brasil passou a não ter mais 5% da sua população em situação de miséria extrema. Além da necessidade dos programas de transferência de renda, como o auxílio emergencial, ele defende o estímulo às políticas para a agricultura familiar para conter a fome no país. Nesse sentido, deu destaque ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Na entrevista, o ex-diretor geral da FAO comenta também sobre a importante aprovação do PL 735 emergencial para a agricultura que, segundo ele, tem que ser sancionado e regulamentado o quanto antes pelo presidente da República. A importância das políticas municipais para a produção e distribuição de alimentos também foi analisada, além das críticas à extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Alguns órgãos internacionais, como a FAO e o Banco Mundial, alertaram sobre um possível retorno do Brasil ao mapa da fome. Qual a dimensão da crise e quais os seus impactos para a segurança alimentar e nutricional da população?

O impacto não é apenas a fome, mas a má nutrição de uma forma geral. A população brasileira está comendo cada vez pior, porque está substituindo produtos de qualidade inferior dada a queda da renda. Podemos ter uma explosão da obesidade no Brasil, principalmente as crianças que não estão tendo acesso à merenda escolar saudável. Sobre a volta ao mapa da fome, que são os países que têm mais de 5% da sua população nessa condição, de acordo com os dados da FAO em 2019 essa proporção no país era ainda de 3,5% antes da pandemia. Como o Brasil é um grande produtor agrícola, a fome aqui não é um problema de falta de alimentos e sim de acesso. Falta dinheiro para comprar os produtos, uma cesta básica, por exemplo, em função dos baixos salários e da crescente desocupação e desemprego devido à depressão que enfrentamos.

E como no Brasil quem não trabalha não come, a fome aumenta se não houver uma ação rápida do Estado no sentido de transferir renda a essas pessoas que estão ficando desocupadas.

Em abril, a previsão inicial do Banco Mundial indicava uma queda no PIB do Brasil de 5%. Segundo eles, faria a pobreza extrema, os que recebem menos de 1,99 dólar por dia, aumentar de 4,4% para 7%. Quase dobra, ou seja, atingiria 15 milhões de miseráveis no país. Esse impacto seria o suficiente para fazer o Brasil voltar ao mapa da fome. Ocorre que tanto o Banco Mundial como a Cepal revisaram essas previsões e agora, em julho, divulgaram outras bem mais pessimistas: a queda do PIB pode chegar a 10% no Brasil, dependendo da duração do confinamento e das políticas que forem adotadas. Portanto, se não houver políticas emergenciais ativas de transferência de renda, como o auxílio emergencial, por exemplo, estaremos a caminho de voltar à fome. A menos que se implante uma política duradora de transferência de renda. As pesquisas recentes mostram um impacto positivo do auxílio emergencial, foi capaz de reduzir a pobreza e a miséria, e até mesmo aliviar um pouco a retração da economia. Segundo a pesquisa feita pelo IBGE, entre maio e junho a proporção de extrema pobreza caiu de 4,4% para 3,3%. O estudo simula ainda a retirada do auxílio emergencial, que levaria cerca de 10% da população à miséria. Situação similar a 2007, ou seja, o número de miseráveis triplicaria, podendo chegar a 20 milhões de indigentes no país. Em resumo, voltar ou não ao mapa da fome depende da duração da pandemia e das medidas que o governo adotar para contrabalançar essa queda na ocupação e na renda dos mais necessitados.

Quais as políticas públicas mais eficientes para enfrentar as situações de vulnerabilidade alimentar no Brasil durante e pós a pandemia?

Nós temos um arsenal de políticas públicas e algumas privadas que podem ser aplicadas neste momento e também implantadas como permanentes. A mais eficiente delas, sem dúvidas, é o Bolsa Família, transferência de renda condicionada e, agora, durante a pandemia, o auxílio emergencial. É preciso que seja prorrogado pelo menos até o final do mês esse valor de R$ 600,00, porque estão falando de reduzir para R$ 200,00, mas isso não alivia a situação. Outra política fundamental é o PAA voltado para a agricultura familiar, que foi implementado em 2003 quando eu ainda era ministro e se revelou muito eficiente para substituir a distribuição de cesta básica. Esta não resolve a fome, é uma coisa emergencial, uma política permanente tem que evitá-la. É muito mais cara (a cesta básica) que comprar os alimentos da agricultura familiar e deixá-los onde foram produzidos.

O PAA vinha sendo desmontado desde 2014, quando atingiu quase R$ 2 bilhões do orçamento e chegou a ter, em 2020, cerca de R$ 200 milhões disponíveis, parte disso ainda contingenciado. Recebeu uma injeção de R$ 500 milhões durante a pandemia prometida pela ministra da agricultura, mas até agora não se viu a cor desse dinheiro. O governo está demorando muito a operacionalizar, que é fundamental neste momento. Há a proposta de um Projeto de Lei de apoio emergencial à agricultura familiar, que acaba de ser aprovado pelo Congresso. Está dependendo da sanção do presidente e da regulamentação. É preciso acelerá-lo rapidamente, pois mais da metade dos agricultores familiares sofreram uma forte redução na sua renda de mais de 50% durante a pandemia. É preciso rapidamente reconstituir, porque perder essa base de produção de alimentos saudáveis é comprometer o nosso futuro pós-pandemia.

Há também PNAE, que é a mais eficiente ação para garantir a alimentação saudável das crianças. Infelizmente, com as escolas fechadas, está havendo dificuldade em fazer os alimentos, que seriam entregues ao programa, chegarem às famílias, mas isso é possível resolver a nível local. O PNAE é revolucionário, com a compra de 30% de produtos da agricultura familiar, para dar uma merenda escolar saudável às crianças. É uma reeducação de hábitos alimentares que o Brasil precisa fazer.

Os restaurantes populares e cozinhas comunitárias também são muito importantes nessa época, onde você apoia, com certo subsídio, o consumo de determinados alimentos. Temos ainda bancos de alimentos, que podem ser públicos ou privados, e uma importante política, que é a desoneração dos produtos da cesta básica, principalmente os produtos saudáveis, verduras, legumes e frutas, e taxar as bebidas açucaradas e os produtos ultra processados para evitar a obesidade. Como já disse anteriormente, uma das grandes preocupações com essa pandemia é que estamos comendo cada vez pior e isso deve aumentar os índices de obesidade que fazem tão ou mais mal que a fome, é uma forma de fome.

Qual o papel da agricultura familiar neste contexto?

Os agricultores familiares são os maiores produtores de não commodities, que são os produtos de exportação dos mercados mundiais como a soja, o trigo e o milho. O mundo não precisa, pois já há mais que o suficiente, em parte porque o Brasil é um dos grandes exportadores mundiais. Precisamos de mais frutas, verduras, legumes, leguminosas como o feijão, por exemplo, que é altamente proteico, e esses produtos vêm dos agricultores familiares. São eles que produzem nos municípios. Um dos elementos para ajudar é a Comunidade dos Suportes Agricultores (CSA), uma organização privada onde um conjunto de consumidores se organiza para comprar de uma ou mais cooperativas de produtores. O CSA está funcionando maravilhosamente bem durante a pandemia e é uma das inovações que eu recomendaria.

O que os municípios podem fazer para apoiar a agricultura familiar e promover a segurança alimentar e nutricional, levando em conta que estamos em ano eleitoral?

Deve ser cobrado de cada candidato a prefeito qual o seu programa de segurança alimentar e nutricional. Os municípios têm um papel fundamental pois é ali que a gente mora e come. O Programa Fome Zero começou antes de o PT chegar ao governo federal, foi nas cidades governadas pelo partido e com uma seleção das experiências exitosas que ele surgiu. É o caso dos restaurantes populares, os bancos de alimentos, os sacolões e apoio a feiras livres, cultivo de hortas orgânicas em terrenos baldios, que eram isentados do IPTU, campanhas de comercialização de produtos sazonais etc. Tem muito a se fazer nos municípios e eu recomendaria, fortemente, uma nova relação com o setor privado, especialmente os supermercados. É a única forma de garantir o enfrentamento da fome durante e após a pandemia, além de evitar uma explosão da obesidade. Procurá-los para melhorar a venda de produtos frescos e saudáveis, como frutas, legumes e verduras.

Nos primeiros meses do presidente Jair Bolsonaro foi extinto o Consea.

Extinguir o Consea foi um erro estratégico. Se o presidente não queria ter um órgão de assessoramento na Presidência da República, o botasse na Casa Civil. Mas, ao extinguir perde um local importante de articulação entre as ações governamentais, o setor privado e o terceiro setor, como as ONGs, fundações e associações. Uma política de segurança alimentar tem que ser articulada, não é só o governo que acaba com a fome nem depois nem antes da pandemia. Tem que ter o setor privado e enfrentar não apenas o problema da falta de comida, mas também da má alimentação, que tem levado a uma obesidade crescente da nossa população. A fome e a obesidade fazem parte de um continuum de má nutrição no país e é isso que precisa ser enfrentado nesse governo. Para isso, precisa também da sociedade para acabar com a fome.

Haverá alguma mudança no desenvolvimento agrário brasileiro após a pandemia?

É difícil prever o futuro. Estamos enfrentando uma depressão. A recessão é uma fase do ciclo econômico de desenvolvimento capitalista, que não cresce linearmente. As economias crescem mais rápido, depois menos, param e, às vezes, até retrocedem, como parte de um processo normal de crescimento. A recessão faz parte do ciclo econômico das economias capitalistas. Já a depressão é provocada por um elemento externo, exógeno, que estamos enfrentando hoje. O coronavírus não faz parte do sistema econômico. Essa depressão só tem similar na 2ª Grande Guerra e na crise de 1929, que a antecedeu. Ocorre que estamos em uma situação completamente diferente, porque no Brasil, em 1929, a crise se refletiu basicamente na crise do café, que era o nosso grande produto de exportação. Mais do que é a soja hoje, o café era, praticamente, a única coisa que se exportava. Não foi suficiente fazer estoque, porque ninguém no mundo queria comprá-lo. Não era um produto básico prioritário, comprava dos grandes produtores para manter a renda deles e queimava para evitar uma perda ainda maior. A situação é completamente diferente, porque a pandemia pegou o Brasil no final da safra de soja de 2019, que já estava colhida e vendida a um 1 dólar por R$ 5,50. Também tivemos uma supersafra de milho, que foi totalmente exportada, além das carnes, que estamos batendo recordes todo mês, e dos produtos cítricos. Chegamos a vender a safra que, praticamente, nem foi colhida ainda, com um preço muito bom no mercado internacional.

O preço das commodities começou a cair porque o mundo inteiro está enfrentando uma pandemia, depressão, num tempo maior do que se esperava. Parece que se estenderá, pelo menos, até o final do ano. Já se fala em segunda onda, recaída, fechamento de novo, etc. Então, tudo vai depender do mercado internacional, já que o Brasil é um dos grandes exportadores e depende desse mercado, quanto vai durar e quando vai ser a recuperação dos países ricos, como a Europa, EUA, Ásia, principalmente a China. Se tiverem uma recuperação de U, como chamamos os que caem rapidamente mas crescem rápido também, isso seria muito benéfico ao agronegócio. Se for lenta, como parece indicar a situação atual, o agronegócio pode ser atingido também. Vale lembrar que, na crise de 1929, foi quando apareceu a produção independente de alimentos da pequena agricultura no Brasil, porque até lá era feita pelos colonos intercaladas com a plantação de café. Daí vinham os alimentos que abasteciam a cidade, tanto que havia um paradoxo interessante: quando o preço do café era bom, tínhamos mais fome no país, porque tudo era dirigido à produção, e quando caia, o colono tinha mais folga para produzir seus produtos de subsistência com fartura e abundância. Hoje, os tempos são outros, com uma produção familiar independente, mas que vem sofrendo muito e é preciso uma política emergente e urgente. O principal insumo para ela, nesse momento, é mercado garantido, portanto, políticas de compras da agricultura familiar, e crédito barato. A falta dele, nesse momento, pode destruir essa pequena agricultura comercial que temos no centro-sul do país.

“O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop”. Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

“O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop”. Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

“Os toca-discos é meu instrumento, a forma de eu expressar os meus sentimentos, a minha musicalidade”. Foto: Izabela Cardozo

O paulistano DJ Erick Jay é primeiro e único sul-americano a ganhar um título mundial de DJ. Erick representa o Brasil em competições internacionais desde 2009 e já tem três no currículo: DMC World Supremacy 2016 (Londres), IDA World 2016 (Polônia) e, mais recentemente, o DMC Online 2019 (veja os detalhes no Estúdio I), além de dezenas de títulos nacionais e pódios em outras competições internacionais. Quando não está competindo, Erick ministra workshops, toca em bailes e festas e, ainda, se apresenta com Black Alien e Kamau (nesta sexta, 10, inclusive, participa da live com o rapper carioca a partir das 21h).

Erick é um amante da arte dos toca-discos e luta para que a classe seja mais valorizada. Por isso, sempre participa de eventos e faz lives para compartilhar conhecimento e experiências. Em entrevista antes da live que fará junto a Black Alien, ele fala sobre o impacto do coronavírus nas periferias de São Paulo, sobre o racismo estrutural no Brasil, sobre a desigualdade de oportunidades para quem quer ser um profissional da música no país, sobre suas influências musicais e muito mais. Conheça esse grande talento da música brasileira em entrevista exclusiva para a coluna de Juan Manuel P. Domínguez para Mídia Ninja!

Você nasceu na zona leste de São Paulo. Qual foi o papel que a música desempenhou na sua infância?

Sim, nasci e moro no mesmo bairro até hoje. A música sempre esteve presente desde cedo na minha vida. Meu pai era DJ de equipe do bairro. Por isso, cresci ouvindo e bisbilhotando os discos de vinil dele. Lembro que ele tinha do Marvin Gaye, James Brown, Michael Jackson, Tim Maia, entre outros. Eu gostava de ficar olhando as capas… A música me deu experiência e alegria.   

Como paulistano, como está experienciando o fato de ser a região com o maior impacto de mortes e casos de Coronavírus?

A gente sabe que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Isso acontece em tudo e com saúde pública, infelizmente, não é diferente. As regiões periféricas estão sendo mais afetadas em número de casos e morte pelo coronavírus. Sapopemba, aqui perto da minha casa, está entre os bairros com o maior número de mortes. É muito triste essa situação.

Muitos consideram a música electrónica, produzida por DJs, como uma música exclusiva para o lazer de elites e classes privilegiadas. Quanto há de verdade nisso?

Hoje em dia mudou bastante. É claro que a música eletrônica predomina em festas elitizadas, mas já está se popularizando e presente em outras festas também. O curioso é que um dos ritmos eletrônicos que prevalece nesta cena é o Drum and Bass, um estilo que nasceu no subúrbio da Inglaterra. Aqui no Brasil, esta cena também foi formada nas periferias. Os principais DJs e produtores que eu conheço vêm de quebrada.

Quanto se precisa de estímulos para que DJs periféricos possam ter as mesmas oportunidades de se destacar em igualdade de condições que outros Djs não periféricos?

Há um abismo social enorme. Creio que o primeiro ponto é que os equipamentos para tocar são caros demais no Brasil. Em segundo lugar, normalmente, quem vem de periferia precisa dividir o seu tempo entre trabalhar para ajudar em casa, estudar e, ainda, ter tempo para treinar, porque para ser um bom DJ é preciso muito esforço e dedicação. Eu mesmo, no início, trabalhava como office boy em uma empresa na região da Av. Paulista e tocava à noite. Muitas vezes, tocava a noite inteira e ia trabalhar direto. Portanto, se você é de periferia e quer ser DJ saiba que a correria é dobrada, mas vale a pena.

Outra coisa que vale citar, é que tem cada vez menos oficinas e workshops de DJ em periferias. Quando eu era convidado para algum evento deste tipo, eu ia com o maior prazer.  Mas agora é algo cada vez mais raro! Até em eventos de Hip Hop, o DJ está sendo deixado de lado, um erro muito grande. O DJ é um dos elementos e o pilar da cultura Hip Hop.

Há pouco tempo o assassinato de George Floyd nas mãos da polícia de Minneapolis suscitou uma série de protestos e ações solidárias de muitos artistas e músicos no Brasil e no mundo. Como percebe esse envolvimento atual dos artistas nas pautas sociais do seu contexto histórico?

O Will Smith disse uma frase muito importante: ‘Racismo não está piorando, está sendo filmado’. De uma forma geral, o mundo ainda é muito racista. Os Estados Unidos, onde aconteceu este episódio, é racista. Eu fui três vezes para lá e no aeroporto toda vez a abordagem é diferente, a fila é diferente, o tratamento é diferente, tudo é diferente se comparado com uma pessoa branca. Eu acho importante levantar essa discussão, debater o assunto. Vi vários artistas levantarem a bandeira e acho importante ter pessoas sérias e com propriedade para falar sobre o assunto. Mano Brown, Dexter, Thaide, Emicida e muitos outros estão na linha de frente.

O KL Jay, DJ que me inspiro muito, também disse uma coisa interessante: “o racismo foi inventado pelos brancos”, por isso, eles precisam entender que o racismo está enraizado na nossa cultura há séculos e séculos.

 

Foto: Arquivo pessoal

Você ganhou o DMC World Supremacy 2016 (Londres), IDA World 2016 (Polônia) e, mais recentemente, o DMC Online 2019. Quanto servem esses prêmios para visibilizar a América do Sul e o Brasil dentro do universo  da música de Djs?

Claro que ganhar esses prêmios foi uma realização pessoal e profissional muito grande. Porém o que mais me deixou feliz foi mostrar para o mundo inteiro que na América do Sul, em especial no Brasil, existe uma cena ativa com vários DJs bons. Eu me inspiro em DJ gringo, mas também me inspiro em muitos DJs daqui. Espero que os DJs brasileiros continuem se dedicando, competindo e que tragam mais títulos para o nosso país. 

Você se define como um amante da arte dos toca-discos. Poderia detalhar mais do que trata isso?

Eu sou apaixonado por música e acho que nós precisamos tratar a música com mais carinho. O toca-discos é meu instrumento, a forma de eu expressar os meus sentimentos, a minha musicalidade. Me considero um amante dos toca-discos, porque amo e respeito muito a cultura Hip Hop, os DJs que vieram antes de mim e abriram portas e amo tocar. Sou muito realizado e feliz na profissão que escolhi!

Que músicos brasileiros o influenciaram?

Vários. Vou citar alguns: Ivan Lins, Jorge Ben, Sandália de Prata, Seu Jorge, Marina Lima, Ed Motta, Gilberto Gil, Olodum, entre outros artistas.

Quais são os sonhos que ainda deseja realizar?

Graças a Deus já realizei alguns dos meus sonhos. Mas o que eu desejo realizar agora é gravar um disco com várias participações. Um disco de música brasileira, com participação do Olodum e outros nomes que eu citei na resposta anterior. Quero explorar toda a riqueza da música brasileira. 

Obrigado Eric!

Obrigado Juan pela oportunidade e convido a todxs para assistir a live do Black Alien e DJ Erick Jay na sexta-feira, dia 10, às 21h:

 

E no dia 17, sexta-feira, vou falar sobre os desafios de ser DJ Durante a Pandemia em uma live com a equipe do Cult Cultura.

Mídias Erick Jay: @erickjay / @amais_assessoria / @thipaleari

 

Felipe Neto: “Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, é hora de derrotar o fascismo”

Felipe Neto: “Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, é hora de derrotar o fascismo”

Diálogos de quarentena com Felipe Neto

Arte: Cris Vector

A cultura é sempre portadora de valores ideológicos, explícita ou implicitamente. Em alguns casos, são diretamente obras de propaganda que não apenas encobrem sua ideologia, mas a expressam expressamente, a fim de alcançar uma maior divulgação. Em outros, a ideologia é percebida apenas através da leitura simbólica de um produto cultural cuja embalagem é entretenimento. Uma interpretação extrema é a que atribui a todos os produtos culturais, mesmo aos mais inocentes, uma intenção ideológica ao considerar que o entretenimento impede que os destinatários pensem sobre os assuntos que realmente lhes interessam. Seria transmitir a ideologia dominante através da cultura, usando a mídia, a fim de alcançar maior controle social.

Na Escola de Frankfurt, Benjamin seguiu uma direção diferente da de Adorno e Horkheimer e considerou que a fotografia e o cinema, o jazz e a música popular poderiam servem para modificar a consciência da massa, justamente por sua possibilidade de transmissão em massa. Benjamin viu uma oportunidade de usurpar do capitalismo a ferramenta de controle social para ajudar a aumentar a conscientização entre as massas. Nesse sentido, as redes sociais seriam análogas ao cinema ou ao jazz enquanto potenciais transformadores de consciência. E parece ser nessa perspectiva que Felipe Neto vem trabalhando suas mídias sociais desde 2012, quando começou a criticar duramente o governo do PT.

Desde então, o youtuber tem se envolvido em todos os debates sociais e políticos de atualidade. Recentemente em entrevista no Roda Viva, Felipe assumiu uma autocrítica pelos seus posicionamentos durante as manifestações que acabaram com o golpe parlamentar no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. Para Felipe, errar é possível, enquanto exista a consciência do necessário que é continuar aprendendo. Pelo Twitter, Felipe Neto se manifestou sobre as críticas que tem recebido por parte da esquerda, pelo fato de ter criticado o PT e o ex-presidente Lula no passado. Apesar das críticas, o PT apoiou o levante do youtuber e compartilhou seu vídeo.

“É hora de unir forças, não há outro caminho. Obrigado à comunicação do partido, pela mensagem tão emblemática. E um aviso a todos da esquerda: eu não sou liberal no Brasil. Eu não defendo menos Estado e nem favorecimento aos detentores de capital. Sigamos”, disse ele.

A Covid-19 acelerou ainda mais o processo de introdução das redes sociais na intimidade e no cotidiano das pessoas. As redes tornaram-se hoje fontes de informação e interconexão. Vários autores e pensadores alertam sobre o perigo da concentração de capital de informação em poucas mãos (a corporação Google e o megapólio Facebook). Em entrevista, Felipe Neto se posiciona sobre esse assunto e, como de costume, sobre a atualidade social e política do Brasil durante a pandemia da Covid-19.

Entrevista com Felipe Neto:

Youtube forma parte do Google, que hoje está sendo acusada de criar um monopólio da informação dentro dos canais digitais de veiculação. Como você enxerga a plataforma Youtube, considerando que existem outras com uma abrangência bem inferior como Dailymotion e Vimeo? Qual você acha foi o segredo que disparou Youtube em relação às outras plataformas?

A ideia de monopólio, ao meu ver, não é verdadeira. A informação hoje está distribuída em inúmeras frentes diferentes no ambiente digital. Além dos inúmeros veículos de imprensa, os maiores propagadores de notícias e informações hoje não pertencem ao Google: Facebook, Twitter e Whatsapp. Quanto ao Youtube, podemos dizer que ele se consolidou como liderança absoluta no consumo de vídeos na internet, principalmente quando falamos de entretenimento, fidelização de canais e aulas (tutoriais). O Facebook e Instagram lutam por fora, mas possuem outra forma de consumo, assim como o TikTok.

Acredito que o grande segredo do Youtube ter disparado nessa liderança foi que a plataforma enxergou que precisava profissionalizar o mercado de produção audiovisual pra internet e criou o sistema de remuneração para os criadores. Foi isso que possibilitou o investimento e o surgimento de youtubers e empresas 100% dedicadas na criação de conteúdo para a plataforma.

Há uns anos atrás surgiu na Argentina e no Chile um projeto para criar uma mídia latino-americana que substituísse o Facebook. Qual o potencial que você enxerga na região para a criação de mídias digitais?

É impossível prever qual será o próximo grande hit da internet, mas hoje em dia é muito mais complicado de competir num ambiente de redes sociais do que era na primeira década do século. Criar algo novo precisa oferecer uma solução nova para algo que as pessoas ainda não sabem que procuram. Foi o caso do TikTok, que ainda assim levou anos para se consolidar. Eu não acredito que a simples oferta de uma rede social nova, baseada em geolocalização, vá resultar em grande sucesso.

Netocracia é um termo criado pelo tecnólogo sueco Alexander Bard. Basicamente o termo diz respeito do poder de concentração de capital simbólico que um “líder de opinião” (como você) pode possuir e que condiciona a opinião que outros atores das redes sociais poderiam ter. A crítica à netocracia é que ela pode acabar afastando esses líderes de opinião dos temas que verdadeiramente envolvem a população geral de uma nação. Ou seja, esses líderes de opinião, com tanto poder, poderiam acabar falando de coisas que não formam parte das problemáticas cotidianas do cidadão comum. Até que ponto você se cuida com isso?

Eu não sei como as coisas andam fora do Brasil, mas dentro do nosso cenário, o que aconteceu foi exatamente o oposto. Com um presidente fascista e um cenário de autoritarismo e opressão crescendo a cada dia no país, uma parte considerável de quem tem voz na internet estava em silêncio. Foi preciso que alguns “líderes de opinião”, como eu, fossem a público e cobrassem, exigissem que todos se posicionassem contra o fascismo, para as coisas finalmente começarem a andar na oposição digital do país. Eu acredito que carrego uma grande responsabilidade com o fato de ter tantos seguidores e essa responsabilidade é a de estudar o máximo possível para poder acompanhar o desenrolar político e social da nossa nação e influenciar, dentro dessa minha grande bolha, questões como: liberdade, combate ao preconceito, luta por mais igualdade social e justiça.

Uma crítica às mídias novas e às digitais é o da superprodução de informação. Parece como se todo dia tudo mudasse de uma forma muito rápida e nada fosse estável. Quais temas você acha que permanecem sempre na sua agenda? De quais temas você acha que precisa falar de forma recorrente? E quais temas ainda não abordou e acha que urgentemente precisam ser falados?

Nesse momento, a luta é pela manutenção da liberdade do povo brasileiro e o combate ao projeto fascista de poder que está em desenvolvimento. Quase toda a minha energia de enfrentamento está voltada para isso, mas o Brasil também tem gravíssimos problemas resultantes de um governo tão nefasto. Nossa ministra de Direitos Humanos e Família se recusa a criar campanhas de conscientização sexual para jovens e prefere investir em ações falando para que adolescentes não façam sexo. Nosso ministro do Meio Ambiente está vendendo e destruindo a Floresta Amazônica de uma forma aterrorizante. Os povos indígenas do Brasil estão seriamente ameaçados por um governo que abertamente diz que os odeia. A política internacional do Brasil está controlada por lunáticos que acreditam que a Terra é plana. Não temos ministro da Saúde no meio da maior pandemia do século e o presidente repete a todo momento para as pessoas saírem pras ruas como se nada estivesse acontecendo. Estamos enterrados em tantos problemas que é impossível combater a todos eles. O sentimento do brasileiro consciente é de puro desespero.

O filósofo Byung-Chul Han fala do perigo de jogar informação da nossa vida privada nas redes sociais. Que isto poderia ser usado num futuro (e já foi usado com fins políticos) para a criação de um “big data” com propósito de controle da população. Como você sendo alguém com tanta exposição pública lida com sua vida privada?

Meus seguidores reclamam bastante que eu mostro muito pouco da minha vida pessoal nas redes sociais. Eu sou um criador de conteúdo no Youtube, trato meu canal como uma emissora, uma empresa. Tudo que crio lá é pensado e tento ao máximo evitar essa linha de “reality show”. Acho que um dos grandes motivos de estar há tantos anos consolidado no Youtube é porque meu foco sempre foi no conteúdo que eu produzo e não em como mostrar minha vida pessoal pras pessoas. Quero que o público goste do que eu faço, não de quem eu sou no dia a dia.

Quanto ao “big data”, é algo de que dificilmente podemos fugir e que denota a importância de se ter governos atuantes e que intervêm para o bem estar da população. Não fosse a investigação americana sobre o Facebook e o envolvimento no vazamento de dados para empresas como a Cambridge Analytica, será que isso teria sido corrigido? É preciso que governos se comuniquem cada vez mais pela preservação e manutenção da segurança pública dentro do ambiente digital, pois já vimos que o total liberalismo resulta em venda de dados pessoais e até mesmo manipulação de eleições.

Marcia Tiburi, Jean Wyllys e Debora Diniz, entre outros, tiveram que sair do país por causa das ameaças das milícias bolsonaristas. Você já foi ameaçado? Como está sendo seu presente a partir de seus posicionamentos políticos?

Já fui ameaçado e já tive que tirar minha mãe do país, pois ela também foi ameaçada. Essa foi uma ameaça mais séria, mas lidamos com ameaças menos sérias o tempo inteiro. A militância orquestrada pelo Olavo de Carvalho e as lideranças que ele estabeleceu no país é extremamente violenta. Eles acreditam que estão numa guerra contra o comunismo, são reacionários da Guerra Fria. E, infelizmente, pessoas que acreditam estar batalhando numa guerra são capazes de fazer qualquer coisa para vencê-la. A situação no Brasil está piorando a cada dia e pode explodir a qualquer momento.

Como o Coronavírus tocou sua vida? Tem alguém conhecido que se contagiou da doença?

Por sorte, nenhum amigo ou familiar passou por isso, apenas conhecidos mais distantes. Eu estou sem pisar na calçada há mais de 3 meses, bem como a maioria dos meus familiares e amigos mais próximos. O mais importante, nesse momento, tem sido cuidar da saúde mental. O isolamento é um remédio amargo e com inúmeros efeitos colaterais, mas é o único capaz de conter o avanço da doença. Infelizmente o nosso presidente se recusa a aceitar isso e o Brasil segue batendo recordes de mortes no mundo. Já somos o segundo país com mais mortos e os números não param de subir.

O mundo vê com muita preocupação a forma como o Brasil vem lidando com a pandemia? Qual é sua avaliação da situação?

Temos um presidente fascista e louco. Ele demitiu o ministro da Saúde porque este era um médico e pediu para as pessoas respeitarem o isolamento. O presidente não queria isolamento, então o mandou embora. Em seguida, nomeou outro médico, mas este também se posicionou a favor do isolamento e ainda se recusou a colocar a hidroxicloroquina como tratamento oficial, justamente pela falta de amparo científico. Então, o presidente também o demitiu. Como solução, Jair Bolsonaro colocou o Ministério da Saúde para ser conduzido por militares obedientes, que colocaram a hidroxicloroquina como tratamento oficial e não falaram mais em isolamento. A situação é de caos. O Brasil está com o número de mortes crescendo a cada dia e todas as cidades começaram a abrir o comércio, shoppings, praças e eventos. Nós temos o pior presidente do mundo no combate à pandemia e os brasileiros conscientes estão em pânico. Não sabemos o que vai acontecer.

“Influenciador que não se manifesta agora é cúmplice. Estamos oficialmente contra um regime fascista e quem se cala contra o fascismo é fascista. Ponto final” foi um chamado seu a outros influenciadores. Esse chamado teve alguma repercussão? Soube de alguém que mudou seu posicionamento a partir dessa fala?

Diversos influenciadores começaram a se posicionar depois deste vídeo, mas não acredito que foi simplesmente por causa do meu vídeo. Não quero e não preciso desse crédito. Meu vídeo foi apenas um elemento no combate ao fascismo. Acredito que o Brasil inteiro está percebendo a realidade, abrindo os olhos e saindo para o combate contra o autoritarismo e a opressão. Só isso importa.

Em uma entrevista com Danilo Gentili você falou que as pessoas precisam ter a humildade de pedir desculpas. Como você sentiu o pedido de desculpas do ex-presidente Lula a respeito das suas falas sobre o Coronavírus e a importância do estado?

Eu não acho que seja hora de falar do Lula. O ex-presidente não exerce qualquer cargo público hoje e não estamos em um período eleitoral que tenha influência sobre sua posição. Estamos no momento de combater um fascista louco diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros nessa pandemia. Precisamos de união nesse combate.

Você defende a criação de uma frente antifascista, que envolva toda a esquerda de forma simultânea. Como vê o posicionamento de Ciro Gomes, de rejeitar qualquer aproximação ao maior partido de esquerda do país?

Na verdade, Ciro Gomes vem defendendo a união de toda a esquerda na frente antifascista e a esmagadora maioria dos políticos do PT hoje no Congresso estão juntos nessa frente. Não é hora de debatermos sobre lideranças políticas, a disputa entre Lula e Ciro, ou as consequências dessa união. A hora é de derrotar o fascismo, custe o que custar. Qualquer político que se recusar a enxergar isso, é porque é um politiqueiro que só consegue pensar em vitória e poder.

Quem o influenciou mais nos seus posicionamentos políticos dentro do seu mundo privado?

Eu sou progressista, então tendo a me comunicar mais com políticos progressistas. Contudo, eu ressalto, até mesmo aos meus amigos políticos, que não irei endossá-los publicamente. Talvez um dia isso mude, mas não é a hora.

Como você vê o futuro do Brasil daqui a dois anos? Consegue fazer esse exercício lúdico de futurologia?

É impossível prever, porque Jair Bolsonaro é uma bomba relógio. Nós sabemos que vai explodir, só não sabemos ainda onde ela vai explodir e quais serão as consequências dessa explosão. A única coisa que eu sei é que, sem uma frente ampla antifascista, sem uma luta firme contra esse lunático, o Brasil será derrotado.

Noam Chomsky: “A vitória do neoliberalismo destruiu a política como refúgio dos vulneráveis”.

Noam Chomsky: “A vitória do neoliberalismo destruiu a política como refúgio dos vulneráveis”.

Diálogos de quarentena com Noam Chomsky

Arte: Cris Vector

Noam Abraham Chomsky nasceu na Filadélfia (EUA) em 1928, especificamente em 7 de dezembro. Ele é lingüista (graças a seu pai, pois foi ele quem orientou seus passos no estudo da lingüística) e também filósofo-pensador.

A educação que recebeu em casa (ele cresceu em um ambiente judeu, aprendeu hebraico e ouvia constantemente, juntamente com seu irmão David Eli Chomsky, debates sobre política sionista, como sua família estava muito envolvida no sionismo de esquerda), ele dirigiu seus estudos e também suas preocupações com o mundo do pensamento.

Ele estudou na Universidade da Pensilvânia, onde foi influenciado por Zellig Harris. Concluiu seu doutorado em 1951, após o qual passou quatro anos em Harvard e, finalmente, em 1955, mudou-se para a Universidade da Pensilvânia, onde estudou para iniciar um intenso e longo ensino de carreira no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Chomsky é um grande crítico do capitalismo, especialmente da política externa dos Estados Unidos. Foi em 1967, quando ele iniciou sua incursão no ativismo político, opondo-se totalmente à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Daí derivou seu livro de ensaios intitulado “A Responsabilidade dos Intelectuais”, pelo qual recebeu grande reconhecimento.

Casou com Carol Schatz Doris em 1949, com quem ficou até 2008, o ano de sua morte. Com esse relacionamento, ele teve três filhos: Aviva, Diane e Harry. Em 2014, ele se casou com Valeria Wasserman.

Trump e Bolsonaro geraram em uma parcela da população de seus países uma espécie de idolatria messiânica. Estamos acostumados a culpar a ignorância e a manipulação da mídia por causar essa alienação em massa. Mas até que ponto não devemos fazer uma análise do vazio institucional que os períodos democráticos anteriores falharam em preencher?

Existem algumas semelhanças entre os países. Um é o papel extraordinário da religião. Nos EUA, cerca de um quarto da população é evangélica. Eles amam Trump porque ele lhes joga alguns ossos. Eu acho que tem algo parecido no Brasil. Os EUA passaram por 40 anos de prática e propaganda neoliberais, que, previsivelmente, aumentaram acentuadamente a riqueza concentrada e o poder econômico, enquanto a maioria estagnou ou declinou. A maioria vive agora do salário desta semana e não pode lidar com nenhuma emergência.

O ataque neoliberal à população foi acompanhado por um poderoso ataque ideológico: ódio ao governo, ódio às práticas próprias da política e transferência de políticas para um poder privado inexplicável. O respeito pelas instituições entrou em colapso e o programa neoliberal de destruição de associações e atomização de pessoas (“não existe sociedade”) deixou as pessoas desamparadas. A vitória do neoliberalismo foi destruir a política como refúgio para os vulneráveis. No Brasil, uma das grandes falhas do PT foi não se organizar na base. Alguns estudos mostram que a maioria dos destinatários do Bolsa Família não sabe de onde vem. Quando perguntada, a maioria diz “Deus”.

O que é necessário, em ambos os países, são sérios programas educacionais e organizacionais para reunir as pessoas para elas se comprometerem a assumir o controle de suas próprias vidas, prontos para superar os graves males de suas sociedades. Ao longo da história moderna, os sindicatos têm liderado esses esforços. Isso pode acontecer novamente e há muitas outras possibilidades.

Você sempre foi um grande crítico das corporações de mídia. Hoje se pensa que redes sociais como Instagram e Facebook democratizaram a informação. Mas como isso seria possível se o Facebook, Instagram, Whatsapp, Youtube e Google pertencem a poucas pessoas, menos de cinco, na verdade?

Esse questionamento é interessante e necessário. Isso não deveria acontecer. Em toda a economia, a monopolização e a concentração de poder aumentaram durante o período neoliberal e devem ser revertidas, como um passo em direção a uma sociedade mais democrática baseada no controle popular. Devemos buscar alternativas e evitar a concentração dos canais de informação se queremos uma sociedade mais equitativa e justa.

A ultra-direita chega ao poder e é possivelmente reeleita nos Estados Unidos com um forte discurso de ódio, segregacionismo e insensibilidade em relação aos outros. A linguagem deles é muito simbólica, messiânica e nacionalista. Em algum momento, eles assumiram o sentimento antiglobalização que sempre foi uma agenda forte da esquerda. Ainda é o nacionalismo que decide o voto popular?

O nacionalismo sempre será um gatilho afetivo muito forte na população, porém, não há regra geral. Depende das forças concorrentes na sociedade.

Tradicionalmente, o debate entre esquerda e direita era limitado à opressão do capital. Hoje, o debate sobre opressão também abrange racismo, sexismo, homofobia, gordofobia, meio ambiente. Você acha que nenhuma dessas opressões pode ser colocada na agenda enquanto prejudica as outras?

As pessoas naturalmente têm suas próprias prioridades, mas existem semelhanças suficientes nessas estruturas para interação construtiva e apoio mútuo (“interseccionalidade”). Todas as pautas têm uma ligação em comum, o desafio é costurar todas elas juntas em uma frente comum que vença o fascismo.

Você, como intelectual, esteve envolvido em debates coletivos a vida toda e apoiou movimentos populares inúmeras vezes. Sempre se fala da necessidade desses movimentos se alimentar das teorias desses intelectuais. Mas, na sua opinião e na sua experiência, quanto é necessário para um intelectual se enriquecer participando desses movimentos? Quanto está faltando que a intelectualidade “desça” até o lugar onde estão acontecendo as mudanças fundamentais desse período histórico?

Tanto os chamados “intelectuais” quanto os movimentos populares têm tudo a ganhar com essa participação. É necessária uma interação real e recíproca. Não se pode pensar no mundo intelectual como um olimpo afastado do mundo onde acontece a ação. É quando o mundo das ideias se mistura com o mundo da ação que acontecem as mudanças desejadas pelo campo progressista.

Um debate sobre um sistema universal de saúde é essencial durante e após a pandemia. Você acredita que este debate será bem sucedido?

Certamente é essencial. Mesmo em tempos normais, o custo anual do sistema de saúde privatizado dos EUA, altamente ineficiente e cruel, é estimado em cerca de US $ 500 bilhões de dólares e 70.000 mortes. O quão bem-sucedido será, novamente, depende do poder das forças em disputa.

Como é percebida a vitória do estado chinês sobre a Covid-19 nos EUA?

Por cientistas e pessoas que penetram na avalanche de propaganda, ela é considerada um sucesso considerável. Mas o medo e o ódio do “perigo amarelo” não são difíceis de gerar nos EUA. Tem uma longa história. É abalado pelos esforços desesperados de Trump para encontrar um bode expiatório por seus crimes contra o povo americano, matando dezenas de milhares durante a pandemia. Sua escolha é culpar a China e evoca o racismo tradicional.

Você acredita que os EUA insistirão em se posicionar como a nação escolhida para cuidar do mundo, considerando o desempenho que está dando para salvar seu próprio povo do Covid-19?

Trump está causando grandes danos aos Estados Unidos, mas mesmo ele não pode minar sua posição de enorme poder. As pessoas podem não gostar e até ridicularizar o sistema de poder dos EUA, mas ainda o temem. E com razão. Os EUA certamente não são admirados por cuidar do mundo, mas governar o mundo é uma questão separada. A classe conservadora dos EUA é cruel e gananciosa, eles não vão abrir mão do controle estratégico que eles têm em diferentes pontos do planeta. Os interesses são demasiado grandes e eles têm muito a perder com isso. Acho que teremos pela frente uma disputa estratégica entre China e EUA que vai determinar as relações internacionais pelas próximas décadas.

Hollywood versus Coronavírus. Entrevista de Christian Dunker e Alessandra Martins Parente

Hollywood versus Coronavírus. Entrevista de Christian Dunker e Alessandra Martins Parente

Ilustração: Cris Vector

Quem sabe qual será a nova estratégia da máquina cultural norte-americana chamada Hollywood agora que definitivamente EUA não é o protagonista forte, poderoso e determinante na luta contra essa tragédia mundial de saúde que é o coronavírus? Será que os roteiristas serão forçados a se render ante a realidade que mostra Cuba enviando equipes médicas em missão solidária a todos os cantos do planeta? Será que o protagonismo chinês, já não como agente conspirador e sim como potência reguladora do mercado, será considerado pela fábrica de cinema do país norte-americano?

Os filmes oferecem cartografias de notável precisão para diagnosticar o caráter psico político, cultural e sociológico de uma sociedade em uma determinada época. Segundo o filósofo e teórico cultural norte-americano Douglas Kellner, nos anos 2000, uma série de filmes hollywoodianos retratou catástrofes apocalípticas variando de desastres ambientais a cataclismos sociopolíticos nas formas de entretenimento de gêneros e filmes populares. O viés propagandístico desse filmes era alimentar o imaginário de que EUA é uma nação escolhida para ser a guardiã do mundo.

Kernell afirma que é nos momentos de maior diversão quando as pessoas mais facilmente absorvem ideologias. Essa seria a razão pela qual a cultura de massas produzida e veiculada pelas corporações de mídia tornou-se uma poderosa força dominante de socialização, identificação e formação ideológica.

Desde a instauração dos EUA como pólo dominante no período de pós Segunda Guerra Mundial, iniciou-se uma batalha cultural em que os Estados Unidos não economizaram investimentos na sua maquinária cinematográfica mundialmente conhecida como Hollywood. Com o fim da Guerra Fria, Estados Unidos se torna potência dominante num mundo unipolar, e com o avanço nas telecomunicações os indivíduos são submetidos a um fluxo sem precedentes, de imagens e sons dentro de sua própria casa; novos mundos virtuais de entretenimento, informação, sexo e política estão ordenando percepções de espaço, de tempo e anulando distinções entre realidade e representação.

Sem dúvidas, Hollywood é a máquina propagandística mais potente que o país do norte tem utilizado para levar em diante seu propósito de ser intitulado como a “nação escolhida”. Em sua análise do filme “Top Gun”, Kellner coloca o filme na fila de outros que têm o propósito de mobilizar uma série de representações culturais para conseguir o apoio a nível global da guerra que Bush estava iniciando no Oriente Médio. O filme celebra o heroísmo individualista, o denodo militar e os valores americanos conservadores. Assim como outros, o filme opera num universo binário de luta entre o bem e mal, no qual o inimigo é absolutamente mau e os norte-americanos representam a personificação da bondade. “Top Gun trata principalmente de competição e vitória: mulheres, honra militar, esportes e sucesso social” (Douglas Kernell, A Cultura da Mídia, 2001).

Quando perguntada pelas consequências culturais e políticas do cinema de Hollywood em sociedades fora dos EUA, Alessandra Parente, psicanalista, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo, onde também se formou em filosofia, responde: Essa análise minuciosa já foi feita por Theodor Adorno e Max Horkheimer depois da Segunda Guerra Mundial quando ambos estiveram nos EUA e escreveram a Dialética do Esclarecimento. O conceito de Indústria Cultural, cunhado e destrinchado pelos frankfurtianos, demonstra o viés totalitário da sociedade americana. [..] Como o projeto americano é claramente imperialista, a Indústria Cultural serve como máquina de guerra ideológica contra tentativas de oferecer outros modelos possíveis de sociedade ou contra formas de resistência – daí que no campo da Indústria Cultural haja sempre a dicotomia entre o bem e mal, o forte e o fraco, o mocinho e o vilão e assim sucessivamente.

O lado americano sempre é aquele que convoca uma identificação empática por parte do espectador. Há passagens da Dialética do Esclarecimento assustadoramente atuais. Por muito tempo, criticaram-se esses dois filósofos por serem tão contundentes e descartarem quase tudo – Adorno revê certas posições ali colocadas sobre cinema mais tarde – sob uma leitura crítica aparentemente unívoca. Walter Benjamin, por exemplo, reconhecia, ao contrário do que fazem Adorno e Horkheimer, alguns ganhos perceptivos com a advento do cinema. Mas acho que hoje, infelizmente, temos que conceder mais crédito aos dois velhos ranzinzas. Um trecho, entre tantos outros, que salta aos olhos de um leitor atual é o seguinte:  

Hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles. Obstinadamente, insistem na ideologia que as escraviza. O amor funesto do povo pelo mal que a ele se faz chega a se antecipar à astúcia das instâncias de controle. Ele chega a superar o rigorismo do Hays-Office[i], quando este, nos grandes momentos históricos, incitou contra o povo instâncias mais altas como o terror dos tribunais. (Adorno e Horkheimer, [1969] 1985: 125)

De qualquer modo, há filmes oriundos da indústria americana que também conseguem burlar essa lógica de consagração da ideologia americana. Os exemplos são muitos. Queria destacar um filme da década de 1980 que é extremamente potente e atual: “Eles vivem” do cineasta John Carpenter. Mas, claro, poderia citar muitos outros. Tenho a impressão de que essa ideologia está presente, mas que a crítica a ela também acaba sendo engolida pelos sistemas de distribuição, de propaganda, de mercado. Em geral, os filmes são obrigados a se renderem ao modelo de mercado para que o filme exista – isso o fortalece como obra de arte, mas o enfraquece como forma de resistência ao establishment capitalista. “Parasita”, o filme coreano, é um ótimo exemplo: ele adquire força ao ganhar o Oscar ou a crítica feita no filme entra como parte de um léxico aceitável no mercado que orienta a Indústria Cultural. Não sei dizer.

Então, voltando à sua questão, não são apenas os filmes hollywoodianos – até mesmo Brecht foi à Hollywood – que promovem a ideologia americana mundo afora. Esses filmes existem e são, em geral, ruins. Qualquer pessoa mais atenta é capaz de perceber o viés propagandístico em sua forma e em seus conteúdos. Entretanto, o problema maior é que até mesmo os bons filmes – americanos ou não – são compelidos a aceitar uma maquinaria de distribuição e propaganda que os coloca dentro de um modelo de funcionamento capitalista americano próprio da Indústria Cultural. Acho que aí tem um certo enrosco. Do ponto de vista da subjetividade, de uma psicologia social, brindamos a vitória de “Parasita” como obra de arte e ficamos apaziguados em relação ao que o filme traz como convocação profunda de transformação social.”

[i] Código de censura instituído em 1934 pela indústria cinematográfica de Hollywood.

Viradas nas narrativas

“A trincheiras das ideias valem ainda mais que as trincheiras de pedra” é uma frase escrita pelo escritor cubano José Marti no livro “Nuestra América”.  O imperialismo americano precisou desenvolver a imagem “paternalista” do guardião global. A construção do personagem do presidente americano, homem, pai de família heterossexual, seguro de princípios e valores cristão-conservadores, tornou-se recorrente nos roteiros de catástrofes naturais, intrigas terroristas, ficção científica e todos os gêneros possíveis que o cinema hollywodiano tratou, colocando EUA dentro de uma trama de crise mundial a causa de inimigos internos ou externos.

Na questão racial, presidentes negros estão invariavelmente associados a personagens cômicos ou a tragédias planetárias, o que levou o humorista Jon Stewart, durante a última cerimônia do Oscar, a dizer que, “normalmente, quando se vê um homem negro ou uma mulher como presidente, um asteróide está prestes a atingir a Estátua da Liberdade”. Em O Presidente Negro (The Man), lançado em 1972, um desastre mata o presidente da República e o presidente do Congresso, o vice recusa o cargo por problemas de saúde e cabe ao presidente do Senado assumir relutantemente o cargo. Interpretado por James Earl Jones, Douglas Dilman se torna o primeiro negro a ocupar o cargo.

Filme: Impacto Profundo

Em Impacto profundo, filme-catástrofe lançado há 10 anos, o “presidente” Morgan Freeman tem de decidir o que fazer quando um enorme meteoro ameaça dizimar a civilização. Nesse sentido poderia se dizer que Hollywood serviu para ir “semeando o terreno”, preparando a sociedade norte americana diante da possibilidade de ter um presidente negro, o que acabou acontecendo finalmente com a posse de Barack Obama. Hollywood, mais uma vez, vai moldando a cabeça e o coração do espectador cidadão. Não esqueçamos nunca que política é um ato intelectual e afetivo. E é no plano dos afetos, das emoções, onde o cinema influencia de modo mais contundente. Quem não se viu quase que forçado a chorar diante de aqueles recorrentes discursos moralistas dos filmes nacionalistas americanos? Com a trilha sonora sugestiva e as graves expressões dos figurantes e os atores de segunda ordem?

Para Christian Dunker,  psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo, o cinema americano sofreu duas viradas recentes, quando observamos o modo de produção, financiamento e distribuição, bem como as transformações do público consumidor. A primeira virada acontece depois de 1989 e ela se orienta para a redefinição narrativa das oposições constitutivas da trama. Isso envolveu, basicamente a busca de novos inimigos, seja no oriente médio, seja nos focos de resistência hegemônica dos falcões. Lembremos também que é um momento no qual os diretores começam a tomar contato com certas restrições discursivas de casting e dramaturgia, que visavam acomodar os novos movimentos de resistência cultural emergentes na esteira do fim das grandes narrativas teológico-políticas, cujo epicentro ideológico era o comunismo. Maior presença de homossexuais, em papéis menos caricatos, heroínas e diversificação da presença de negros, por exemplo, a advertência de que estes eram sempre os primeiros a morrer, nos filmes de ação, acionou um código pós-moderno que se encontrou na origem da expressão, depois revertida pela direita como politicamente correto. Nesta virada temos uma série de filmes que redescobrem o poder das catástrofes naturais para designar o lugar perturbador do inimigo. Nestes filmes, vigora ainda um resto sintomático do antigo star-system, ou seja, no final a família sempre vence e de preferência o pai herói a representa.

A segunda virada neste sistema ideológico acontece depois de 2008, com a crise do neoliberalismo e a entrada concorrencial dos sistemas de streaming e a consequente redução de custos de produção. O inimigo agora se interioriza, assim como precisa ser deformado na sua apresentação: em vez de imigrantes indesejáveis, zumbis em errâncias do tipo walking deads, tipicamente pessoas sem família, sem voz e que se repetem automaticamente na busca de corpos alheios. Eles são antípodas da família, mais porque a forçam ao movimento de recolhimento e resistência do que por uma ameaça externa. A segunda figura ideológica deste período são os filmes de ação com super-heróis que vivem em uma espécie de família comunitária, mais ou menos ampliada. Aqui preserva-se o lugar do pai, Dr. Xavier, por exemplo. Os inimigos ainda tem rosto, mas eles vão gradativamente se naturalizando. Curinga parece ter marcado o encerramento deste ciclo ideológico com a formação de um herói interiorizado e dividido, mas ainda assim capaz de inspirar um horizonte de redenção e epifania, gerado na desordem. A terceira figura da negação do conflito e reprodução das relações de poder é naturalmente a série de filmes sobre epidemias e sobreviventes, dele a série Saw até todos os mimetismos de jogos de eliminação, com destaque para Resident Evil, uma marca na integração da ideologia cinematográfica com o universo dos videogames. Aqui fomos nos acostumando com a necropolítica, ou seja, as vidas matáveis, desumanizadas, pós-humanas, que atacam a família e degeneram no indivíduo solitário e sobrevivente.

A epidemia do Novo Coronavírus chega, portanto, neste caldo ideológico de reação e escombros do neoliberalismo na economia e do pós-modernismo na cultura. Ela antecipa a noção de refúgio domiciliar, na esteira do trabalho domiciliar, previamente precarizado. Ele antecipa a xenofobia que deverá seguir-se a incerteza sobre os contaminados. Ele antecipa também a lógica da contabilidade de mortes sentidas como inevitáveis, anônimas e sem sentido. Tudo levaria a crer que Holywood seguiria seu padrão de defesa nacional, com reificação de heróis super-naturais, mas desta vez temos Trump como uma espécie de adversário interno, que colocará a narrativa do desastre americano perto demais para não ser pensada como uma crise de identidade”.

Uma nova era?

Quem sabe qual será a nova estratégia da máquina cultural norte americana chamada Hollywood agora que definitivamente EUA não é o protagonista forte, poderoso e determinante na luta contra essa tragédia mundial de saúde que é o coronavírus? Será que os roteiristas serão forçados a se render ante a realidade que mostra Cuba enviando equipes médicas em missão solidária a todos os cantos do planeta? Será que a China vai deixar de ser esse monstro gigante querendo perverter o mundo com seu maoismo, e derrubar igrejas e sexualizar a imaculada sociedade cristã e capitalista ocidental? Até que ponto não é nosso dever cidadão revitalizar as disputas pelos espaços de exibição de filmes, hoje monopolizados por uma maquinaria de produção cultural estrangeira, e colocar no debate das ideias, de forma séria e profunda, temas como racismo, patriarcado, políticas públicas, direitos humanos? Quanto temos pecado em aceitar de forma acrítica esse conceito de “indústria do entretenimento” que molda nossas vidas e banaliza nosso tempo de ócio? A tragédia do coronavírus mostra a extrema necessidade de batalhar em todos os campos, incluindo no campo das ideias (e talvez muito mais que em qualquer outro lugar), se realmente queremos para nossos filhos uma sociedade mais igualitária, mais preparada para resistir de forma coletiva ante qualquer cenário de crise por causa de fatores externos ou de inerentes vícios internos.