Erika Palomino: existir ainda é o ato político mais radical
25 anos após o primeiro Babado Forte, Erika Palomino mapeia o Brasil que estava fora de quadro e fala sobre festa, resistência e comunidade
Entrevista realizada por Isis Maria / Matéria redigida por Isaac Urano
A retirada silenciosa de patrocinadores da Parada LGBTQIA+ de São Paulo, que chega aos 30 anos com 60% menos patrocínio, não pode ser encarada pela nossa comunidade como um acidente de percurso: é o sinal mais visível de uma reorganização conservadora que atravessa o mercado e, portanto, também as nossas instituições e políticas públicas. É nesse contexto que a nova edição de Babado Forte chega à Feira do Livro de São Paulo com mais de 70% de conteúdo inédito, expandindo o mapeamento da cena noturna brasileira para além do eixo Rio-SP, alcançando capitais como São Luís, Belém, Recife e Salvador, e colocando em perspectiva o que essa cena sempre soube fazer quando o institucional abandona o barco: existir de qualquer jeito. Em uma conversa com Erika Palomino, sobre o que esse Brasil revelou que ainda estava fora de quadro — dilatando a festa como forma de resistência — e sobre o que ainda falta fazer quando só existir já virou, de novo, um ato político.
Jornalista, curadora e diretora criativa, nascida no Rio em 1967, Erika Palomino construiu sua trajetória de forma pioneira na cobertura da cultura jovem. Foram 17 anos como colunista da Folha de S.Paulo, além de passagens como diretora do Centro Cultural São Paulo e gerente do MAM-RJ. Consultora da marca Melissa por 15 anos, publisher de livros e revistas, com presença no rádio e na TV, ela acumulou prêmios nacionais e internacionais e se tornou uma referência incontornável quando o assunto é moda e comunicação no Brasil. A primeira edição de Babado Forte, lançada em 1999, compilava experiências observadas e vividas pela jornalista, norteada pela prática jornalística em estilo reportagem. Vinte e cinco anos depois, ela retorna ao livro reunindo um time de 15 pesquisadores para expandir ainda mais o projeto.

I: O novo Babado Forte, lançado pela Ubu e que está aqui na Feira do Livro, tem mais de 70% de conteúdo inédito e expande a conversa para São Luís, Belém, Recife e Salvador. O que esse Brasil fora do eixo Rio-SP te revelou sobre a cena? E você acha que essa descentralização, no momento que a gente vive, dá mais densidade às vivências?
E: Isso foi super importante para o projeto ganhar outros horizontes e ter uma visão mais estendida e mais rica. Com o patrocínio do Instituto Vale, por meio do Centro Cultural Vale Maranhão, a ideia foi realmente compor um time de pesquisa com expertise e vivências em outros territórios. A primeira edição do livro, que saiu em 1999, dava conta de onde eu conseguia alcançar em termos de visão e presença, muito em torno de uma experiência até mesmo mais física em relação à minha atuação como jornalista. Dessa vez, eu pude atuar como editora de muitas vozes, quase como se estivesse regendo uma sinfonia polifônica de muitos sons, o que de fato tornou o livro relevante, porque não faria sentido eu voltar a essa experiência e continuar falando só do que eu estava enxergando. Então eu saio como autora e entro muito mais nesse lugar de juntar todas essas histórias e conduzir essa forma de narrar. Claro, são muitas visões; ele não é uma verdade absoluta, mas traz manifestações que aconteceram nos últimos 25 anos e que estavam longe do nosso campo de visão. Outros territórios, como Belém, São Luís, Salvador e as manifestações periféricas do Rio e de São Paulo, alimentaram o livro com referências ligadas ao funk, por exemplo. E também à cena Ballroom, que estava acontecendo no Brasil inteiro no pós-pandemia. A gente conseguiu chegar em balls em Manaus, em balls que estavam acontecendo em Minas Gerais. Ficou muito mais vivo, muito mais rico.
I: Quando você lançou a primeira versão, a gente não tinha acesso a essas coisas ou elas simplesmente não existiam?
E: Era um período pré-internet, uma vida muito mais analógica. Eu entendo que elas estavam começando a acontecer, mas a gente não conseguia ver, não conseguia ter acesso. Porque quando a gente falava de fora do eixo, era muito nesse sentido: as coisas existem, mas as pessoas não enxergam porque não conseguem acessar.
I: Você disse numa entrevista recente que a pista de dança é um lugar utópico, onde as pessoas se encontram, são felizes e são todas iguais. A Parada de São Paulo, que acontece agora no domingo, chega aos 30 anos com 60% menos patrocínio, com multinacionais saindo em silêncio depois de anos de pinkwashing. Quando o mercado e o institucional viram as costas, como a gente pode reestruturar esse lugar utópico?
E: Voltando para a essência, pensando por que, afinal de contas, a gente está fazendo tudo isso. Muito além do modismo e das ondas de marketing institucional, existe a verdade da vida das pessoas — e isso é maior do que tudo. Com consistência, coerência e se atendo a essa verdade, a gente consegue resistir a ondas mais conservadoras, mais reacionárias, que buscam retrocessos. É muito importante que essas manifestações continuem acontecendo para que a gente não tenha um regresso, para que não volte atrás nas conquistas que foram áridas e árduas de alcançar. A vida das pessoas continua. Não é porque a gente não tem mais patrocínio que isso pode acabar. Não é assim que funciona.

I: Essa movimentação de patrocinadores está acompanhada de uma onda política antidiversidade que é transnacional e já chegou aqui. Moda, noite e cena LGBT+ sempre foram também uma resposta política a momentos assim. O que essa cena tem feito e o que ainda precisa fazer?
E: A cena continua existindo, o que por si só já é um manifesto. A gente encontra um paralelo com o embrião dessa cena ali nos anos 90, quando só existir já era um ato político: sair na rua, ocupar lugares onde até então não se tinha visibilidade, onde as pessoas não eram vistas, tinham medo. Continuar existindo ainda é um grande ato político. E eu também traria uma ideia que aparece no livro, que é a da amizade como ativismo. O livro retrata o fervo, a luta, e a gente sabe que muitas vezes o jeito de se manifestar no Brasil passa pela festa, pela alegria, por um outro tipo de engajamento. Se a gente fizer a leitura do Carnaval, entende que esse talvez seja um modelo a replicar para avançar nas causas em que ainda precisamos avançar. O Simas falou disso na mesa de abertura: a conexão da festa, como ele enxerga, não é que a gente faz festa para comemorar; a festa é uma forma de não sucumbir, de conseguir sobreviver e se reencantar para não perder força. E a epígrafe de Babado Forte é exatamente isso, uma frase genial: “A gente não festeja porque a vida tá boa; justamente porque não tá é que a gente precisa ir e transcender.” É também uma forma de união. Eu ainda acredito muito que o livro é um convite para que as pessoas sigam se encontrando, porque a força do encontro é enorme. Quando a gente se aproxima de pessoas parecidas, busca afinidade, busca encontrar seu lugar no mundo, isso tem uma potência enorme. A gente sempre fala em comunidade LGBT, e hoje a comunidade é uma coisa em alta: clubes de livros são comunidades, clubes de corrida são comunidades. As pessoas têm buscado encontrar seus semelhantes, seja na identificação sexual ou num lugar de hobby. A comunidade é muito importante para que isso não se extinga. A gente precisa encontrar nossos pares. Isso nos fortalece, nos dá identidade, nos faz refletir sobre quem a gente é e quem quer ser. O livro fala muito disso: de quando as pessoas precisavam se ver para se reconhecer. Nesses tempos analógicos, não existia aplicativo de encontro; você precisava ir à rua, olhar alguém e dizer: me identifiquei. E, de alguma forma, a minha coluna na Folha fez isso durante os 13 anos em que saiu semanalmente.
I: O que a gente pode esperar do seu papo aqui na feira com a Júlia e o Renan? E o que esperar da cena, da cultura e do seu próprio trabalho dentro disso?
E: O meu trabalho sempre fala sobre formas de existir, sobre encontrar seu lugar. Tudo o que relato no livro é sobre a reivindicação desse espaço, como pessoas, como indivíduos, como coletivos, como comunidades. É um grande convite às individualidades e às subjetividades, e isso a gente segue repetindo. Todas as pessoas que vão me acompanhar na mesa falam disso também, então é sempre um encontro bonito, que me fortalece, e espero que fortaleça as pessoas que estejam assistindo e as que vão ter acesso ao livro. Por fim, a mensagem do Babado Forte se estende agora com um videocast que a gente está começando a fazer juntamente com a Rádio Novelo, uma maneira de continuar propagando essas ideias.



