Por Graziela Guedes e Danielly Amaro – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

O maior torneio do futebol feminino mundial cresceu. Quebrou recordes de audiência, ampliou o interesse de patrocinadores e conquistou novos públicos. Ainda assim, a Copa do Mundo Feminina continua sendo tratada como um evento que precisa justificar a própria existência.

O futebol masculino raramente precisa se explicar. A competição disputada por homens é chamada simplesmente de “Copa do Mundo”. Já o torneio feminino quase sempre carrega um complemento que o diferencia. O detalhe pode parecer pequeno, mas revela uma lógica histórica: o futebol praticado por homens segue sendo tratado como o padrão universal, enquanto o futebol praticado por mulheres continua sendo visto como uma categoria à parte.

Mesmo consolidada como um dos maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo Feminina ainda enfrenta desafios relacionados à cobertura midiática, aos patrocínios e à validação constante de suas atletas quando comparadas aos jogadores da seleção masculina. A comparação é frequente, mas raramente acontece em condições equivalentes.

A Copa do Mundo Feminina não disputa apenas partidas de futebol. Disputa espaço na mídia, investimento, legitimidade e reconhecimento. Enquanto a seleção masculina continua ocupando manchetes, programas especiais e debates esportivos — mesmo em períodos marcados por resultados frustrantes —, as mulheres frequentemente precisam alcançar feitos extraordinários para receber uma fração da mesma atenção.

Essa diferença reflete uma desigualdade de gênero que atravessa diversos espaços da sociedade, inclusive o esporte. Meninas que sonham em seguir os passos das jogadoras da Seleção Brasileira ainda encontram menos investimento, menos oportunidades e mais questionamentos sobre sua capacidade. O desafio não está apenas em chegar ao alto rendimento, mas em enfrentar uma estrutura que historicamente limitou a presença feminina no futebol.

A trajetória de Marta ilustra esse cenário. Considerada uma das maiores atletas da história do futebol, a camisa 10 da Seleção Brasileira acumulou seis prêmios de melhor jogadora do mundo pela FIFA, três medalhas olímpicas e diversos títulos continentais. Ainda assim, sua carreira frequentemente é analisada sob a ótica da cobrança e da comparação, como se precisasse reafirmar continuamente sua importância para o esporte. O reconhecimento conquistado dentro de campo nem sempre é acompanhado pelo mesmo reconhecimento fora dele.

A forma como a mídia cobre as competições também ajuda a explicar essa desproporção. Jogos da seleção masculina recebem meses de preparação, programas especiais, debates diários e ampla repercussão. Já as competições femininas muitas vezes aparecem de forma pontual, restritas aos momentos de maior visibilidade. A consequência é um ciclo que se retroalimenta: menos cobertura gera menos interesse comercial, que, por sua vez, é usado para justificar a própria falta de cobertura.

Os números, entretanto, mostram outra realidade. A Copa do Mundo Feminina de 2023 foi a mais assistida da história da competição, alcançando cerca de dois bilhões de interações e audiências em diferentes plataformas. A final entre Spain e England teve alcance global superior a 220 milhões de espectadores. O torneio também registrou quase dois milhões de ingressos vendidos, tornando-se o Mundial Feminino com maior público da história. Esses dados demonstram que o problema não está na ausência de interesse do público, mas na forma como esse interesse é reconhecido, incentivado e transformado em investimento.

Mesmo com esse crescimento, a diferença de investimentos permanece significativa. A premiação total da Copa do Mundo Feminina de 2023 foi de US$ 110 milhões. Embora tenha representado um aumento expressivo em relação à edição anterior, o valor ainda ficou muito abaixo dos US$ 440 milhões distribuídos na Copa do Mundo Masculina de 2022.

As discussões sobre futebol feminino também costumam ultrapassar o campo esportivo. Em redes sociais, programas de televisão e plataformas digitais, atletas frequentemente se tornam alvo de comentários que pouco têm relação com seu desempenho dentro das quatro linhas. A cobrança direcionada às jogadoras muitas vezes carrega elementos de gênero que dificilmente aparecem quando os mesmos erros são cometidos por homens, não apenas no esporte, mas em outros espaços de exposição pública.

Um exemplo ocorreu durante os Jogos Olímpicos de 2024, quando o apresentador Tiago Leifert comentou a expulsão de Marta pela Seleção Brasileira. Ao contrário das análises feitas sobre Neymar em momentos de baixa, quando fatores externos muitas vezes foram apontados para explicar seu rendimento, Leifert direcionou as críticas diretamente à jogadora. O episódio reacendeu debates sobre a forma como figuras do futebol feminino são analisadas publicamente e sobre quais critérios são utilizados para julgar homens e mulheres no esporte. Mais do que uma controvérsia pontual, o caso evidencia uma dinâmica recorrente: atletas do futebol feminino continuam sendo avaliadas a partir de parâmetros historicamente construídos para o futebol masculino.

Mais do que uma disputa por espaço na mídia, a luta por reconhecimento do futebol feminino é uma disputa por legitimidade. A questão já não é se existe interesse pelo torneio. Os números mostram que existe. O desafio está em compreender por que, mesmo diante de recordes de audiência, público e engajamento, a Copa do Mundo Feminina continua sendo tratada como uma versão secundária de um espetáculo que ela própria ajudou a construir.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que o futebol feminino ainda recebe menos atenção. A pergunta é: até quando mulheres precisarão provar que pertencem a um esporte que também ajudaram a construir? A Copa do Mundo Feminina já conquistou audiência, relevância e espaço na cultura esportiva global. O reconhecimento, porém, ainda parece ser o troféu mais difícil de levantar.