Por Dhenef Andrade – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Todos temos nossas lembranças de alguma Copa do Mundo. Eu nasci na beiradinha do Tetra, uma semana após a conquista de 1994, jogada em solo estadunidense. Lembro, de fato, de balançar bandeira na porta de casa na vitória sobre os alemães, em 2002. Vivi as derrotas, claro, sendo a mais marcante a de 2014, que não convém remoer.

Acontece que, quando mais jovem, sempre achei que isso era coisa muito nossa: torcer passionalmente, juntar os vizinhos em casa — em 2002, recebíamos gente de madrugada —, gritar mais alto que o volume da TV, antes de tubo e agora em telões 4K. Somos muito do “vem ver aqui em casa; puxa uma cadeira”. Uma ideia de garota que não tinha noção do tamanho do mundo.

Nas andanças pelo então mundo desconhecido, esbarrei com Candela, professora intercambista de 27 anos, nascida em um pueblo ao sul da España, em Murcia. Hoje é uma amiga querida e engraçada, de cuja hospitalidade abuso para treinar espanhol. Em nossos encontros, comentei sobre alguns dos mais importantes eventos nacionais — futebol, carnaval, eleições e festa junina no Nordeste. Aos poucos, ela foi inserindo nos seus gostos coisas nossas e hoje é fiel aos nossos botecos de mesas de plástico, com caixas de cerveja ao fundo.

Minha amiga já havia passado por outros países mais gélidos, em suas diferentes formas, antes de estacionar uma temporada mais perto da linha do Equador. O contraste é inevitável. A, provisoriamente, campinense tem vivido o jeito brasileiro de forma pulsante. E o futebol nunca esteve na mira. Até agora.

“Hacen fiesta para todo”, disse ela no meio de alguma viagem para alguma outra festa, há algum tempo. Realmente, amiga.

Em um desses passeios, tentei explicar para ela o verbo torcer de alguma maneira que transparecesse algo além de ter um time do coração. Não acho que estamos em nossos melhores anos de amarelinha, mas, mesmo assim, pensei que a Copa conseguiria transpor o que o dicionário não alcança.

Cresci vendo futebol na sala com meu pai e ainda temos esse ritual de domingo à tarde. Por isso, sempre me encanta o jeito como o futebol constrói esse laço social. Mais ainda como paramos, a cada quatro anos, para gritar, chorar, reclamar (e como), mas também para juntar. Esse é um dos eventos da minha lista que não se passa sozinho.

Essa será sua primeira Copa pelas bandas de cá e fico curiosa pelas impressões que nós, enquanto ilusionados com o Hexa, daremos a essa mais recente europo-brasileña. Como tantos, Candela viu o jogo na rua, em algum boteco de São Paulo.

“Tenho que comprar uma camisa do Brasil”, me disse dia desses, já deixando esse irremediável compromisso para os últimos instantes. Tão brasileira.

Apesar dessa expectativa em viver o Mundial de forma mais próxima do que as que passou na Espanha, ela não é exatamente a pessoa mais fanática pelo esporte — eu diria pouco, inclusive. Mas o laboratório Brasil em tempos de Copa é tiro e queda. Os comentários no pós-jogo confirmam que temos algum tempero (latino) que deixa o molho dessa festa especial.

Escutei dela, entre suas 19 mensagens seguidas, que “Aqui no Brasil, todos são muito apaixonados e se fala muito sobre a Copa, então, se eu quiser participar das conversas, preciso acompanhar um pouco”, me contou, emendando com a impressionante informação de que foi a primeira vez que se concentrou em um jogo de futebol.

Devidamente apresentada à torcida, já não preciso das explicações atrapalhadas de verbos traduzidos. A experiência contou bem mais. Cande já está pronta para construir suas memórias sobre esse evento que nos torna brasileiríssimos.