O Balanço Global da Cultura e o avanço da pauta dentro e fora das negociações formais
Encontro em Marrakesh debate cultura como aliada na ação climática e na proteção de territórios e saberes tradicionais
Por Marcele Oliveira*
Na última semana do mês de março, um encontro com mais de 50 trabalhadores e articuladores de diversos setores da cultura, atuantes em diferentes regiões do planeta, chamou atenção em Marrakesh, no Marrocos. O encontro foi mobilizado pelo Entertainment + Culture Pavilion, o “Pavilhão da Cultura”, presente nas Conferências das Partes (COPs) da ONU desde 2023, e resultou em um documento no formato de Balanço Global da Cultura — ou, em inglês, “Global Culture Stocktake” — como ação do “Marrakesh Partnership Accelerator”.
Para entender melhor, vale lembrar que, na COP22 (que foi em Marrakech!), sob a liderança dos Campeões de Alto Nível (High Level Champions), a Parceria de Marrakech para Ação Climática Global (MPGCA) foi acolhida pelos países como forma de apoiar a implementação das ações climáticas. Já o “Balanço Global do Clima” é um documento que contabiliza as ações dos países frente à crise climática, com o objetivo de garantir que o aumento da temperatura global permaneça abaixo de 1,5°C — e, em seu conteúdo, destaca áreas prioritárias para a redução de emissões e a construção de resiliência.
O primeiro Balanço Global foi apresentado em Dubai, durante a COP28, e sua revisão está prevista após um ciclo de cinco anos, na COP32, que será realizada na Etiópia — um momento estratégico para reunir esforços em torno da inserção da cultura no centro da ação climática global, como já apontado na COP30.
Estive presencialmente no debate em Marrakech para levar essas reflexões como Presidency Youth Climate Champion da COP30 e sigo acompanhando o avanço dessa agenda, que passei a monitorar de perto desde a COP29. Como legado da COP30, um dos destaques do documento é a inclusão da cultura no Grupo de Ativação 19, no Eixo 5 da Agenda de Ação das COPs.
Para quem não sabe, a Agenda de Ação é uma convocatória voltada aos “non-party stakeholders” — ou seja, aqueles que não são governos, mas que possuem articulações fundamentais para a ação climática, como o setor privado, universidades, sociedade civil, cientistas e comunidades originárias. Trata-se da institucionalização da participação dos atores da cultura no regime do clima, o que pode trazer ainda mais visibilidade para esse diálogo.
Mas onde clima e cultura se conectam?

Acredito na potência dessa conexão desde 2019, quando fui atravessada pelo racismo ambiental institucional que impedia a implementação de um parque verde na Zona Oeste do Rio, em Realengo, onde nasci e cresci. A justificativa era de que um condomínio privado seria melhor para o desenvolvimento do bairro — uma afirmação que desconsidera as crescentes enchentes e ondas de calor no território.
Em 2020, como produtora cultural e comunicadora, participei, com o coletivo da Agenda Realengo 2030, de uma parceria em educação ambiental que informava moradores, por meio das redes e de intervenções locais, sobre as atividades e assembleias em torno do Movimento 100% Parque Realengo Verde, que segue na luta territorial.
Com muita mobilização, realizamos um financiamento coletivo para melhorias na Ocupação Parquinho Verde, localizada na calçada de onde hoje está o parque, e que sediou o 1º Curso de Políticas Públicas de Realengo. Essa experiência foi a vivência de cultura e clima de mãos dadas com a luta por justiça climática e teve como resultado a construção de uma política pública que hoje contempla, além do parque em Realengo, outros seis parques na cidade — impulsionando a qualidade de vida das pessoas, como relatado na pesquisa da nova versão da Agenda Realengo 2030.
Histórias de práticas culturais que protegem a natureza e o clima, por meio do compartilhamento de saberes e tradições resilientes, atravessam museus e estudos científicos, resistindo ao longo do tempo independentemente dos marcos históricos formais. Quando o documento do Balanço Global da Cultura afirma que o conhecimento tradicional dos povos indígenas, das comunidades locais e das pessoas de descendência africana “deve ser respeitado, protegido e integrado ao conhecimento científico”, ele aponta, por exemplo, que um plano de adaptação climática que não escuta o território já nasce incompleto.

Adaptar nosso modo de vida econômico e social requer, necessariamente, escuta ativa e reconhecimento de quem já faz cultura ser clima e clima ser cultura — como aponta a cartilha “Cultura é Clima”, da Amazônia de Pé com o People’s Palace Projects, produzida em fevereiro de 2025, no contexto pré-COP, em território Borari, em Alter do Chão.
Durante essa mobilização pré-COP, o Mutirão das Juventudes destacou a atuação cultural de jovens ao redor do mundo na promoção da ação climática por meio da arte e da cultura, com impacto direto no debate global e metodologia compartilhada no relatório final do mandato PYCC COP30.
É muito trabalho sendo feito!
E a mobilização continua…
No MONDIACULT 2025, durante o 3º Diálogo Ministerial de Alto Nível do Grupo de Amigos pela Ação Climática Baseada na Cultura (GFCBCA, na sigla em inglês), ocorreu a adoção, por ministros da Cultura de 17 países, de uma Declaração Ministerial com compromissos e recomendações para a agenda climática — reafirmando o papel da cultura como eixo estratégico da ação climática global.
Outras publicações, como a pesquisa Cultura e Clima, do C de Cultura e Outra Onda Conteúdo, assim como o Relatório Global de Políticas Culturais da UNESCO — com o capítulo “Enfrentando as mudanças climáticas e promovendo a sustentabilidade ambiental por meio da cultura” — reforçam o debate entre cultura e clima e sua crescente tração para que práticas, infraestruturas e ciências culturais não fiquem de fora das estratégias de adaptação e mitigação dos países.
O documento construído em Marrakech se propõe a iluminar o debate sobre a ação climática baseada na cultura, observando tanto os impactos das atividades culturais e criativas no meio ambiente — como, por exemplo, na geração de resíduos — quanto o potencial da área no resgate e valorização de soluções locais e na promoção da conscientização climática. Ele aponta que a cultura é uma dimensão fundamental para uma mudança de chave na nossa sociedade em relação à natureza, reconhecendo seus direitos enquanto ser vivo e apontando formas alternativas de viver em interação com a biodiversidade, sem explorar nem destruir em nome do desenvolvimento econômico.
A primeira versão do Balanço Global da Cultura já está disponível para leitura, e novos refinamentos serão conduzidos rumo à SB64 e à COP31 — mas sempre mobilizando, dentro e fora dos espaços formais, cultura e clima como estratégia de engajamento e ação climática: https://www.cultureglobalstocktake.com/
Marcele Oliveira*, Diretora Executiva do Instituto Perifalab, é uma liderança climática brasileira, comunicadora e produtora cultural de Realengo, um bairro periférico do Rio de Janeiro. Seu trabalho está na interseção entre clima e cultura, enraizado em sua experiência vivida de desigualdade ambiental e racial. Aos 26 anos, tornou-se Jovem Campeã Climática da Presidência da COP30, a segunda pessoa no mundo a ocupar esse cargo, criado na COP28 para fortalecer a participação da juventude na governança climática. Por meio de sua atuação nas conferências climáticas da ONU (COP27–COP30), Marcele traz uma perspectiva conectada aos territórios, que faz a ponte entre ações comunitárias e espaços globais de tomada de decisão.



