Em jantar regado a rodízio de cuscuz, Movimento dos Pequenos Agricultores e Mídia NINJA conversam sobre como comer bem em tempos de Bolsonaro.

Quem não gosta de cuscuz? Receita clássica de Beto Palmeira, do MPA. Foto: Mídia NINJA

Você sabia que 70% do que chega à sua mesa, ainda vem da agricultura familiar? Pensando nisso, em uma das visitas do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) à casa da Mídia NINJA no Rio de Janeiro, fizemos uma conversa diferente. Nós o provocamos a ir à nossa cozinha coletiva e oferecer um jantar às equipes NINJA e MPA, com o melhor dos ingredientes orgânicos coletados na Casa Raízes, onde vivem os integrantes do movimento na capital carioca. Era um piloto do MasterXepa, programa inspirado no OcupaChef lançado em Salvador, na Casa Ninja Bahia.

Eles aceitaram o desafio e prepararam um rodízio de cuscuz com os mais diversos recheios. Durante o preparo, conversamos sobre os gargalos da distribuição de alimentos e o perigo dos agrotóxicos. Beto Palmeira, do MPA, escolheu o cuscuz pelo valor histórico e popular do alimento. “Nós somos de milho, do México até a Argentina. O prato está muito ligado ao que é o povo brasileiro, um prato originalmente africano, que os portugueses incorporam no processo de colonização”.

Todos os ingredientes utilizados são realmente orgânicos, produzidos por agricultores familiares. Especialmente o milho, que é um dos alimentos que geralmente se consome com veneno. “A grande população do meio urbano está consumindo muito amido de milho transgênico em forma de biscoitos, de enlatados, de carne”.

Mídia NINJA e MPA em jantar coletivo no Rio de Janeiro

Leia abaixo um pouco do bate-papo entre Bianca Lima, gestora da equipe Xepa de alimentação saudável da Mídia NINJA e Beto Palmeira, um dos coordenadores do MPA no Rio de Janeiro.

Beto Palmeira: os camponeses, os agricultores familiares, os povos tradicionais são quem produzem a nossa base alimentar. Os dados oficiais falam em 70%, mas acho que é um pouco mais pois nesses dados não se contabiliza a produção polo do consumo. O Estado brasileiro ajuda a estruturar o agronegócio através do subsídio direto, isenção fiscal, perdão de dívida. Para os agricultores familiares é distinto, não há uma política de Estado. As linhas de financiamento são baseadas no acordo de Brasileia, que é um acordo pelo qual quem mais ganha são os bancos e as empresas que vendem fertilizante, veneno.

A gente sente uma necessidade de diálogo com a cidade e dizer pra pessoas que quem produz a comida que ele come na cidade não é o agronegócio, e sim os camponeses. Nós viemos para a cidade fazer isso, nossa aproximação com o urbano é pra fazer esse diálogo, e mesmo que alguns produtores da agricultura familiar estejam começando a usar o agrotóxico, isso faz parte de um ciclo vicioso, de uma cadeia, e que pra sair dessa cadeia a gente precisa de apoio do urbano.

Bianca Lima: Em que sentido?

Beto: Construir alternativas no processo de distribuição. O MPA está buscando fazer um estudo de como funciona a cadeia de distribuição de alimentos no Brasil. Há uma tendência de várias empresas multinacionais controlarem isso. Então não basta a gente só produzir. Nosso desafio é como organizar a produção e organizar também a distribuição. Organizar feiras, mercados populares. Já há várias experiências Brasil afora. A gente quer debater com a cidade essa necessidade da gente organizar todo o sistema de produção, desde a semente, o plantio, a colheita, até chegar ao prato do trabalhador na cidade.

Há uma tendência de várias empresas multinacionais controlarem a distribuição dos alimentis. Então não basta a gente só produzir. Nosso desafio é como organizar a produção e também a distribuição. Organizar feiras, mercados populares. Já há várias experiências Brasil afora.

É uma tarefa deles compreender que contribuir nessa organização é um dever também, é um exercício político. Comer é um ato político, a gente faz partir das nossas escolhas.

Quem produz a comida que ele está comendo não é o agronegócio. A gente anuncia que nós somos os produtores dos alimentos e ao mesmo tempo denuncia que o agronegócio é uma falácia, denuncia o modelo hegemônico do agronegócio de alimentos com agrotóxicos. Nossa alimentação, por exemplo, está se reduzindo a soja e milho. Hoje tudo tem amido de milho e soja. Você vai nos supermercados e encontra em todo lugar o T de transgênico. Tem transgênico até no chiclete, que é o amido de milho. A grande população do meio urbano tá consumindo muito amido de milho em forma de biscoitos, de enlatados, de carne, porque os animais confinados só comem ração de soja e milho.

A gente tem uma experiência aqui no Rio de uma cliente que falou que fritava carne e sentia o cheiro de soja. Em um momento ela foi em uma comunidade nossa, ela comeu carne de verdade e viu que era outro sabor.

Beto Palmeira, do Movimento dos Pequenos Agricultores, do Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA

Bianca: Desde que o governo Bolsonaro assumiu o poder, aumentou muito o número de agrotóxicos usados no país. São 84 venenos, certo?

Beto: 86 agrotóxicos é o que a gente sabe.

Bianca: Como o MPA se organiza pra esse novo período?

Beto: Estamos em um momento bem difícil. Enquanto política de Estado, já está muito claro o que esse governo quer: liberar agrotóxicos proibidos em vários países do mundo, inclusive os EUA e países da Europa. A agrotóxico está ligado à nossa saúde, né? Várias pesquisas do Instituto Nacional do Câncer associam alimentação e câncer.

Enquanto política de Estado, já está muito claro o que esse governo quer: liberar agrotóxicos proibidos em vários países do mundo, inclusive os EUA e países da Europa.

Bianca: Eu lembrei da cidade de Cascavel, onde tem um centro especializado em tratamento de câncer e é a cidade com maior índice de uso com agrotóxicos.

Beto: É isso. E tem cidades como Lucas do Rio Verde. Uma pesquisa da UFMT averiguou que lá tem agrotóxico até no leite materno. Não é só o movimento social com um discurso político. A universidade, uma instituição de pesquisa do Estado brasileiro é quem fez a pesquisa. Esse é o cenário. O governo está liberando agrotóxico e a proliferação de bactérias na agricultura, o que ainda estaria proibido na legislação.

Bianca: Como vocês estão se preparando pra isso?

Beto: O primeiro desafio é sobreviver. É política desse governo acabar com o movimento social. Isso foi dito várias vezes pelo atual presidente no período da campanha. Nossa tarefa é sobreviver. Resistir. Organizar as resistências territoriais, entendendo que não há mal que dure para sempre. Em meio à repressão e à criminalização dos movimentos sociais, a gente organiza a resistência para poder dar um salto.

Bianca: A médio e longo prazo.

Beto: Isso. O MPA está começando a produzir um debate de construção do poder popular, que é fortalecer os trabalhos nos territórios, um processo de aumentar a autonomia dos camponeses em relação ao Estado e governo, entendendo que vamos brigar por políticas públicas, não perder direitos, mas nosso plano no próximo período é fortalecer o trabalho nos territórios. Aqui no Rio de Janeiro, que é um dos Estados mais urbanizados do Brasil, vamos aproveitar para fazer o vínculo com as organizações urbanas, entender que aqui também um espaço de irradiação de ideias.

Na mesa, somente orgânicos, inclusive o milho. Foto: Mídia NINJA

Bianca: Muito obrigado Beto, pela disponibilidade de vir. Hoje você foi o estreante do nosso MasterXepa.

Beto: Hoje fizemos um prato típico do nordeste, o cuscuz nordestino, feito com flocão não transgênico, entendendo que é possível produzir comida saudável com alimentos saudáveis pra gente pode alimentar corpo e alma. O cuscuz é um prato muito vinculado à nossa culinária brasileira. Nós somos de milho, do México até a Argentina. O prato está muito ligado ao que é o povo brasileiro, um prato originalmente africano, que os portugueses incorporam no processo de colonização e o Brasil se adapta ao milho porque é nativo. É um prato tipicamente popular.

Fizemos vários tipos de cuscuz, com ovo, com dois tipos de queijo, com gergelim, com linhaça, vegano. Entendendo que é possível produzir alimento com qualidade. Desmistifica um pouco essa ideia da gourmetização dos alimentos, que é uma tendência que nos ajuda a publicizar algumas coisas, mas se a gente não tomar cuidado a gente fica na gourmetização e esquece que o bom, bonito, gostoso é o que alimenta e que é possível desde a agricultura camponesa e familiar produzir alimentos saudáveis.