Foto: Maíra Cabral / Mídia NINJA

Marinheira, Marinheira, quero ver você no mar

Eu também sou Marinheira, eu também sei governar

Madeira que dá em doido vai descer até quebrar

É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar

Parece meio óbvio falar que o lugar da mulher é onde ela quiser, assim como falar que o corpo é nosso. Mas, no feminismo praticamos esse exercício cotidiano, e por vezes cansativos, de falar obviedades ignoradas. É importante afirmar que as mulheres devem estar onde quiserem, pois muitas barreiras existem para ficarmos limitadas em nossos sonhos e caminhos. É fundamental nós, trabalhadoras, estarmos presentes nas lutas, nos espaços de decisão. E esses espaços devem ser mesmo ocupados, já que não vamos encontrar eles abertos; como nessa quarta-feira (14), em São Paulo, quando as professoras e professores da rede Municipal em Greve entraram na Câmara Municipal. A forte repressão policial, o sangue no chão e uma mulher ensanguentada por entrar em um espaço público deixou bem claro que as instituições do Estado e todo o sistema político estão ali para nos afastar.

Quando pensamos espaços de decisão, em geral nos vêm à mente ambientes institucionais como uma câmera dos deputados. Logo vem também o sentimento que lá, na verdade, se decide muito pouco. Sem organização popular, sindicatos, movimentos e sem pressão e força o povo não decide nada de bom para o povo. Por isso, queremos as mulheres ocupando todos os espaços de decisão, queremos vereadoras, deputadas, militantes, sindicalistas, direções e lideranças.

Observando a direção dos movimentos populares e sindicatos é fácil reparar que as mulheres ainda são minoria nos espaços de direção, representação e decisão; também encontramos menos mulheres nos espaços de fala e nas mesas em debates políticos, essa percepção ganha números quando olhamos os dados da participação feminina no congresso, por exemplo. Segundo o TSE e uma pesquisa da Onu Mulher de 2017 sobre a participação das mulheres nos congressos de 174 países, o Brasil está em 167º lugar! Dentro da Câmara em 2017 eram 458 homens e apenas 55 deputadas! Quase 10%. Sabemos que isso só acontece de vidro à Lei, que obriga os partidos a colocarem mulheres em 30% de suas candidaturas.

Muitos partidos burlam a lei e uma parte dessas candidatas ainda são de fachada. Em 2016, por exemplo, 12,5% das candidatas não receberam nenhum voto, mas isso só aconteceu com 2,6% dos homens. Ao mesmo tempo, as candidaturas femininas recebem bem menos financiamento eleitoral. Em 2015 “os 4.143 candidatos homens arrecadaram, em média, R$ 252.266,74, enquanto as 1.723 candidatas mulheres angariaram, também em média, R$ 65.461,29”. E, assim, os partidos não vão priorizando candidatas e elas não são eleitas. Dentre os vereadores no Brasil, por exemplo, temos 7 homens para cada mulher.

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No momento que estou escrevendo esse texto, soube que uma dessas raras vereadoras foi assassinada. Pensar a luta das mulheres para ocuparem a política e para que a política mude a vida do povo, é pensar na história de Marielle Franco, ela era vereadora no RJ pelo PSOL. Mataram uma trabalhadora, uma mulher, negra, uma cria da Favela da Maré, uma liderança que carregava a força e coragem de tantas mulheres que sonham e lutam cotidianamente, que causava horror à ordem. Que gerava medo nos poderosos e tanto incomodou o sistema de violência no Rio de Janeiro. A história de Marielle tem muita semelhança com a vida de milhares de mulheres. E sua morte também.

Quantas mulheres são assassinadas por seus maridos por não aceitarem baixar a cabeça? Quantos negros e negras são assassinados por policiais por não aceitarem baixar a cabeça? Marielle não baixou a cabeça.

Mas a história dela, ao mesmo tempo que é comum também é excepcional. Ela carregava a força de ocupar espaços que estão fechados pra nós. Quantos vereadores e vereadoras não baixam a cabeça? São poucos, são poucas vereadoras, poucos são do povo, são poucas negras. Quantas são assassinadas?

É revoltante ver uma mulher que conseguiu superar tantas barreiras na vida para seguir na luta política pelo povo seja atacada dessa maneira. As barreiras são muitas, começando pela dificuldade de sair de casa e participar de um ato ou reunião quando se deve cuidar de filhos e dos afazeres domésticos além de trabalhar e/ou estudar. Muito é negado às mulheres, pelo simples fato delas serem mulheres em uma sociedade machista. Do ir e vir na noite escura até frequentar aulas. Recentemente uma estudante da UFRN foi obrigada a sair de sala por estar com a filha, falta creche e sobra exclusão.

Cotidianamente as barreiras são colocadas. Em nossa sociedade patriarcal a participação política não foi feita para as mulheres e as mulheres não são formadas para a participação política. Em primeiro lugar, a forma de fazer política ainda é masculinizada e racista. Uma das bases para a dominação do capitalismo é o patriarcado, onde não há espaço aberto para mulheres delicadas e não há espaço aberto para mulheres bravas, só a espaço aberto para mulheres caladas. O processo de golpe machista contra Dilma é exemplo disso.

Nós não somos educadas para participar politicamente. Sempre preparadas para o cuidado, a cautela e para ficar dentro de casa, enquanto os meninos são estimulados a irem às ruas, desbravarem, se aventurarem, brigarem. E quando resolvemos inverter essa lógica, falta apoio, compreensão e estruturas materiais que viabilizem a participação da mulher.

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Apesar de tantas barreiras é importante lembrar que somos maioria na população, e, além disso, somos nós que fortalecemos as redes e laços populares que dão força para o povo ter conquistas.

Somos maioria nas bases dos movimentos organizados; e o machismo que se cuide, pois estamos avançando!

É uma grande alegria reconhecer cada vez mais companheiras nas falas, nos carros de som, nos debates, dirigindo sindicatos, coordenando os movimentos populares, senadoras, vereadoras, deputadas, uma presidenta. As mulheres crescem em seu protagonismo, o 08 de março aumenta a cada ano em sua importância política na reação ao golpe. Atos grandiosos com mulheres em todo o mundo onde é possível ver uma massa roxa rebelde, mulheres que entram em greve, que ocupam a Globo, que lembram de Mariana e atacam a Vale.

Esse avanço do feminismo também é presente nas novas gerações, que devem muito as lutadoras que nos antecedem. Hoje temos diversos direitos conquistados, nossa geração tem mais mulheres estudando, se formando, trabalhando. Pensando nisso, e na experiência de vivenciar um movimento de juventude onde as mulheres são grande maioria e dirigem o movimento em todo o Brasil, acho que duas ações são fundamentais para fortalecer as mulheres dentro das organizações para estarem nos espaços de decisão política.

Primeiro, não mexe comigo que eu não ando só! Nós nos fortalecemos e nos apoiamos e isso é fundamental em uma sociedade machista que coloca as mulheres como rivais. E ter mulheres como referência é fundamental pra isso. Pensando na nossa história, é necessário resgatar e referenciar as mulheres lutadoras, as mulheres fizeram e fazem história! (exemplo é o projeto das 100 mulheres cabulosas da história). E hoje também, é importante ter mulheres como nossas referências, isso faz com que mais mulheres se organizem e entendam que também podem ser lideranças e superar barreiras. É necessário solidariedade para nos fortalecer. Vamos nos cuidar e nos estimular. E isso deve estar presente em espaços auto organizados mas também em todo momento.

Segundo, a construção feminista envolve processos para as mulheres e também para os homens e para toda a sociedade. Estamos preocupadas em disputar a sociedade em conquistas que mudem a vida das mulheres onde nos organizamos. Mas também estamos preocupadas em nos fortalecer internamente e que o feminismo seja uma prática cotidiana, pra isso temos que ter processos pedagógicos para que os homens ajudem nas nossas lutas e que eles saibam: seu lugar nesse processo não é de protagonismo e revejam seus privilégios.

Mas, principalmente, nós temos que estar fortalecidas para agir, é fundamental construir processos que nos fortaleçam e também quem formem em todos os temas que dizem respeito a luta do povo, relacionando a luta das mulheres com um projeto popular de país.

Nossa geração de mulheres é marcada pela garra de quem não vai aceitar dar um passo pra trás, não vamos aceitar voltar para o armário, não vamos aceitar voltar pra frente do fogão, não vamos aceitar tirar o batom, não vamos aceitar recuar, não vamos aceitar a morte de Marielle!! Por todas as meninas, por nossas companheiras, por nossas mães, por Dandaras e Heleniras. Por nós, por todas nós.

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