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O que hoje é um dos principais cartões postais do Recife quase foi derrubado para dar lugar a um projeto de “requalificação” da Rua da Aurora, nos anos 60.

Olhando a imagem acima, notamos como o conceito de urbanização do projeto Novo Recife/Mirante do Cais é atrasado.

Conseguem imaginar como seriam as ladeiras de São Francisco com a cidade tomada de prédios de 40 andares?

Ou Paris, se não pudéssemos olhar para a Torre Eiffel de todos os lugares da cidade?

Como seria Veneza, cidade com que Recife guarda tantas semelhanças?

Uma cidade que tem uma história tão rica não deveria promover o apagamento da sua memória.

A paisagem que foi a primeira a ser vista pela Comitiva de Maurício de Nassau quando chegou ao Brasil não deveria ser destruída pelo concreto.

Uma cidade que possui paisagem tão privilegiada não deveria destruir seu patrimônio paisagístico e amputar suas frentes d’água com prédios tão feios que mais parecem gigantescos banheiros verticais, com todo aquele porcelanato exposto.

Quem diz que o Cais José Estelita, principal portão de entrada do Recife, merece qualquer projeto de urbanização da área, por pior que seja, para retirá-lo do abandono, troca um abandono pelo outro, pois quer abandoná-la aos bandidos.

Seja porque o projeto Novo Recife/Mirante do Cais é condenável sob aspectos arquitetônicos e urbanísticos, seja porque a Queiroz Galvão, uma das sócias do consórcio Novo Recife, está profundamente envolvida na Lava Jato.

O ex-presidente e ex-diretor da empresa foram presos duas vezes. Apenas em uma das ações penais, o ex-presidente foi acusado de pagar propina de R$ 10 milhões ao ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e ao deputado federal pernambucano Eduardo da Fonte, para barrar uma CPI da Petrobras.

Nossa cidade merece muito mais do que ser jogada nessa lama de corrupção.

Do que ter sua paisagem rasgada por prédios de 40 andares.

A prefeitura deveria estar à frente de um amplo projeto de revitalização da área do Cais José Estelita.

Inclusive porque, de acordo com o Ministério Público Federal, o leilão da área é ilegal e nulo, e deveria retornar ao patrimônio público. O MPF aguarda julgamento dos recursos pelo STF e STJ e o prefeito, ciente disso, não deveria ter precipitado a execução das obras de demolição dos armazéns do Cais, demolição cujo término está previsto para próxima semana.

As ações judiciais não perderão seu objeto com essa demolição precipitada, e só os tribunais superiores – não o prefeito – poderão dizer o destino do Estelita.

Os fundamentos jurídicos defendidos pelo Ministério Público são sólidos, e o STJ tem jurisprudência firme na tutela do meio ambiente, o que significa dizer que o caso está longe de poder se dar por definido.

A renovação da área pela qual lutamos se funda em parâmetros que conciliam o patrimônio histórico e paisagístico e o desenvolvimento sustentável e inclusivo.

Turismo, comércio, polos gastronômicos, cultura e lazer podem ser desenvolvidos, com respeito à paisagem e melhorando as condições de vida das comunidades vizinhas.

Se o poder público estiver à frente da revitalização do Estelita, essa obra, que tem potencial para elevar a qualidade de vida de toda a cidade, deve promover também a urbanização e a solução para moradia das milhares de famílias que vivem no entorno da região, na Vila Sul, na Linha do Trem e arredores, em habitações precárias e abaixo da linha da pobreza.

O projeto apresentado pelo consórcio Novo Recife prevê a construção de 200 moradias populares. E o que fazer com as milhares de famílias que não serão contempladas? Desintegrá-las? Expulsá-las para fora da cidade, onde não possamos vê-las?

Estamos falando de crianças, mulheres, idosos. Estamos falando de pessoas.

A renovação do Estelita promovida pelo poder público poderia ser a oportunidade de transformarmos Recife, que desde 1991 é considerada a capital brasileira de maior desigualdade, de acordo com os índices de desenvolvimento humano e, hoje, é também a de maior vulnerabilidade social.

Isso é possível. Nas últimas eleições, mais de um candidato defendeu que a prefeitura deveria comprar o terreno (a prefeitura é ré nas ações judiciais e pode mudar o polo processual) e promover outro modelo de renovação do Estelita, democrático e includente, que possa estimular o desenvolvimento sustentável da cidade.

Ano que vem teremos novamente eleições municipais e o Estelita estará no centro dos debates eleitorais.

Escolher o projeto de Cais que queremos implica diretamente na cidade que teremos.

Um outro cais é possível. Um outro Recife é possível.

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