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Dedico este texto as minhas amigas Olenir e Wilminha, que me salvam todo dia. Ao Mário que me anima a buscar o sol. A Helga Quagliatto, psicanalista e a Carolina Braz, personal trainer.

“Quando o medo se apossou
Trazendo guerra sem sentido
A esperança aqui ficou
Segue vibrando
E me fez lutar para vencer
Me levantar e assim crescer
Punhos cerrados, olhos fechados
E eu levanto a mão pro alto e grito
Vem comigo quem é do bonde pesadão!
(Iza, Pesadão)

A depressão já é a doença mais incapacitante no mundo. Todos os dias milhares de pessoas deixam de ir ao trabalho e de realizar suas atividades por estarem deprimidas. Não tristes, com o sentido usual do termo, mas doentes. Penso que na atualidade temos maior consciência sobre essa doença. No passado, muitas pessoas podem ter tido depressão sem sequer perceberem, e o pior, ainda eram estigmatizadas como frescas ou histéricas, distorções essas que, infelizmente, permanecem até os dias atuais.

É preciso levar em conta, ainda, o fato de que há interesse no crescimento do número de doenças mentais – e não somente, porque onde tem doença, tem a indústria farmacêutica oferecendo seus serviços, que, diga-se de passagem, já concorre com o supermercado no peso do orçamento. Mesmo considerando tudo isso, é perceptível um crescimento do adoecimento mental e não é difícil compreender suas causas.

Partindo do incômodo com essa realidade, resolvi falar um pouco sobre a depressão. Não com o saber especializado, mas do meu “lugar de fala”: tenho depressão diagnosticada. Além desse lugar como paciente (pior termo para alguém que também sofre com ansiedade hahahahaha). Penso que é importante considerar outros elementos para pensar a depressão. Falo também como professora de história da UFU, que convive todos os dias com estudantes, como militante feminista, socialista, engajada nas lutas sociais e que acompanha militantes, muitos em sofrimento psíquico.

Então o que quero considerar é que não há como falar de depressão sem considerar que vivemos em um mundo doente. É parte do projeto de sociedade dominante em curso nos adoecer.

Conheci a depressão em 2011. Foi muito assustador. Eu era da direção da seção sindical e estava organizando o congresso nacional do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). Era uma grande novidade, pois minha inserção no movimento sindical era recente. Tinha trabalhado arduamente para que tudo desse certo e quase tudo deu certo. Eu não estava preparada para suportar o que não podia controlar. Essa foi uma grande aprendizagem na minha vida. Poder errar, poder cair. Ser amparada, amparar. Não controlamos as pessoas de mau caráter, as pessoas que combinam e não cumprem, as pessoas que nos traem na vida pessoal ou política. Mas podemos tentar controlar a forma como lidamos com essas situações.

Pensando hoje, devo ter me confundido com aquela função, como fez o personagem do conto “O Espelho”, de Machado de Assis (super recomendo), que se confundiu com a “farda” que vestia e com as representações que os outros construíram sobre ele. Se eu não era aquilo, quem seria? Afundei. Passei a não conseguir ir nas atividades, nas aulas, nas reuniões. Tive pânico. Tudo se tornou impossível de realizar. Eu tinha me divorciado há pouco tempo e morava com minha filha e filho. Foi desesperador. Queria muito dar conta sozinha, não queria que minha mãe e minhas irmãs me vissem fragilizada. Não queria que ninguém me visse. Acabei me isolando.

Nesse mesmo período minha irmã Rosa foi diagnosticada com câncer na mama, passou por cirurgias, quimioterapia, radioterapia, vindo a falecer no ano seguinte. Éramos duas doentes, mas foi ela quem teve forças para me visitar. Eu quis morrer. Tinha medo das facas e das tesouras e do que eu poderia fazer com elas.

Foi aí que duas amigas em especial entraram em cena. Olenir e Wilminha usaram seus corpos para me sustentar. Me levaram ao psiquiatra (que medo quando soube que precisava ir a essa especialidade médica! Hoje eu amo psiquiatra!!!) e à terapia (que eu já fazia há 3 anos). Foram me acompanhando como se faz com um bebê, para dar conta de andar, comer, fazer saídas rápidas para cumprir alguma tarefa essencial, como uma ida ao banco. Tudo com enorme esforço e sofrimento. E aos poucos, bem aos poucos, depois de 6 meses de afastamento do trabalho eu consegui retornar. Sempre acompanhada, apoiada.

Teve papel importante um amigo, então diretor do Instituto de História, prof. Florisvaldo, que cuidou da minha vida profissional e uma amiga professora Maria Andréa, que dividiu a sala de aula comigo, no retorno ao trabalho. Com a confiança reestabelecida, com apoio de médico, psicanalista, amigas/os e família, eu pude recuperar o gosto por viver.

A depressão “é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite” (Dráuzio Varella). Embora seja doença (re)conhecida, ainda é cercada de muito preconceito, o que dificulta a busca pelo tratamento.

Esse foi um grande aprendizado para mim e para minhas amigas. No início, elas diziam para eu não tomar o remédio porque eu ia conseguir superar pela minha força de vontade, que eu devia ir a lugares alegres. O problema é que eu estava bem doente. Não conseguia estar com outras pessoas, muito menos estar alegre. A depressão tem relação com a produção da serotonina. Às vezes, nosso corpo não tem condições de reagir. Às vezes, não conseguimos dormir sem remédios. Sou favorável a usá-los quando necessário, sob orientação médica, pois são remédios controlados, com efeitos colaterais. Causam dependência se usados indefinidamente. Eu usei e depois parei.

Quando uma pessoa quebra uma perna, ninguém tem dúvida de que deve procurar o/a ortopedista. Quando alguém tem pneumonia, não há uma discussão sobre se deve ou não usar antibiótico. Quando está em sofrimento mental, é recomendado ir ao psiquiatra e psicólogo/psicanalista e usar remédios, se necessário. Infelizmente a rede pública, que até tem bons programas, não consegue atender a demanda, o atendimento é demorado e, não bastasse isso, está sofrendo retrocessos profundos na política de saúde mental (inclusive em Uberlândia) e mesmo os planos de saúde não têm muitos profissionais credenciados. É um serviço caro.

A depressão, muitas vezes, se associa a outros transtornos. Eu tive pânico, e a sensação faz jus ao nome. Tudo é aterrorizante. É uma total insegurança. Eu tinha muito medo de cair. E caí algumas vezes. Depois aprendi que em geral a gente não cai, e se cair não machuca tanto, e se machucar, melhora. O pânico é uma crise de confiança. E nesse ponto podemos pensar sobre o contexto em que vivemos e o que afirmamos anteriormente, que a sociedade em que vivemos é produtora de doenças e sofrimentos para as maiorias.

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Tentei chorar e não consegui” (Legião Urbana).

Vivemos em um mundo que produz miséria e desigualdades. Para as crises cíclicas do capital, o “deus” mercado apresenta como saída o austerícidio, menos Estado, mais mercado. Tirar mais da classe trabalhadora. Empregos ainda mais precários, menos protegidos, piores condições de vida.

Quem é de Minas Gerais tem vivido essa realidade com o governo federal e o com o governo Zema. Tirar recursos das políticas públicas, garantidoras de direitos, para dar sinais positivos ao mercado. Na maioria das vezes é mais que sinal, são altas fatias dos orçamentos destinadas a esses tubarões gulosos, enquanto minguam os serviços públicos, garantidores de direitos para as maiorias. Como ter saúde em tempos de rápidas mudanças e poucas garantias?

Você planejou sua vida, pensava em se aposentar, mas o governo quer impor uma “Nova Aposentadoria”, que é o fim desse direito para milhões de brasileiros/as, que adia em até 15 anos ou rebaixa substancialmente o que você iria receber. Você estudou, investiu na sua formação, em seu currículo, mas, a sua bolsa foi cortada. Você quer trabalhar, mas não tem emprego. Você quer fazer um concurso, mas a Emenda Constitucional 95 – que congela os recursos da saúde e da educação, impede que os concursos aconteçam.

Como ter saúde sabendo que os alimentos, a água e até o leite materno estão envenenados e o velho governo Bolsonaro libera, a cada dia, mais agrotóxicos? Vamos combinar que está bem difícil. A saúde das maiorias é incompatível com o capitalismo. Alimentação, saúde, assistência, educação não poderiam ser mercadorias. Mas o capital quer lucrar com tudo. É da sua natureza.

Neste mundo que tudo que não é veloz não é legal, que, segundo Richard Sennett, as relações de trabalho impedem a solidariedade e a confiança e, mais que isso, corrói o caráter, que gera relações de trabalho absolutamente precárias, podendo ser considerada uma nova servidão. Conforme o sociólogo Ricardo Antunes, é preciso considerar os impactos deste contexto sobre o bem estar físico e psíquico do/a trabalhador/a. Soma-se a relações de trabalho precárias e fragmentadas uma dificuldade de identificação com projetos coletivos, o esvaziamento do espaço político como se esse mundo ruim fosse o que melhor pudéssemos ter.

Então, para não parecer que não falei das flores, vou falar sobre o que acho que me salva. Já ressaltei o papel das amizades, daquelas pessoas que sabem de nossas qualidades, mesmo quando delas nos esquecemos. Se eu puder dar um único conselho para estudantes e filhos/as eu digo: conserve amigos/as.

Me salvam também os recursos da psiquiatria e da psicanálise. São recursos caros que eu priorizo pagar, aos trancos e barrancos (rsrsrs). Quando estava bem doente, não morri porque não podia dar esse desgosto para minha filha e filho. Eles/as me salvam. Me salvo fazendo exercícios físicos, há muitos anos, bem aquém do que precisava, com o apoio da Carolina. Hoje vou à yoga, às vezes à acupuntura, tomo chazinhos e tenho muitos sonhos e afetos.

Me salvo no coletivo, desde a adolescência. Nos grupos de jovens, no movimento feminista, no movimento docente, atualmente na militância no PSOL, com a Mídia Ninja. Me salvo quando enfrento os governos nos piquetes e atos. Me salvo na aliança com as mulheres da periferia, que enfrentam o desafio de alimentar sua família, que conhecem a falta e mesmo assim produzem abundância. Porque as mulheres e as práticas comunitárias existem a fome não é maior, é possível a muitos suportarem as carências, as doenças, deficiências, com a total ausência do Estado, muitas vezes com a total ausência dos homens.

A saúde pode estar em um suco, uma sopa, um afeto. Me salvo na relação amorosa e esperançosa (esperança equilibrista) com amigas/os, familiares e estudantes.

É na luta contra as desigualdades e opressões que encontro saúde e coragem, em tempos de adoecimento e medo. É na experiência enraizada nas lutas coletivas e democráticas que me constituo como sujeita que acredita que homens e mulheres fazem sua história, com os condicionamentos existentes. A disputa pelo poder, sem generosidade, é também adoecedora, seja na direita ou na esquerda. Para as maiorias a vida sempre foi difícil.

Se existiu um intervalo no qual houve alguma negociação com suas demandas, a regra é labuta diária. Nos juntemos às/aos que lutam. Vamos com as maiorias, com o povo sem medo de lutar. E se tivermos medo, vamos mesmo assim, apoiadas na confiança que temos em nós e no nosso bonde “Pesadão”, como nos inspira a cantora Iza.

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