Por Olivia Santos | Copa FemiNINJA

Foto: Jefferson Bernardes

O regulamento de licença de clubes da Conmebol, publicado em 2016, com prazo de dois anos para adequação dos clubes, prevê à criação e manutenção de uma equipe principal e de base feminina, pros clubes brasileiros que disputam torneios como a Sulamericana e Libertadores. À mesma exigência é feita pela Confederação brasileira de futebol, para os times que disputam à série A do brasileirão e ambas passam a valer esse ano.

À lei prevê duas possibilidades para os clubes adequarem uma equipe feminina, que vai desde criação de uma equipe até à associação de um clube ou time já existente. Independente da opção escolhida, cabe ao clube prover suporte técnico, equipamento e estrutura (para preparação/concentração e disputa de jogos), à última exigência é que às equipes disputam campeonatos regionais e locais com regularidade.

Do começo do ano até aqui, período inicial da obrigatoriedade, apenas sete (Ceará, Corinthias, Flamengo, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco), dos vinte clubes brasileiros que estão envolvidos na lei, possuem sua categoria feminina já estruturada, seis estão com projetos encaminhados (Atlético-MG, Bahia, Chapecoense, São Paulo, CSA e Goiás), dois haviam iniciado o planejamento (Atlético-PR e Fluminense ) e outros cinco (Cruzeiro, Avaí, Botafogo, Palmeiras e Botafogo) ainda não haviam desenvolvido a regra.

À maioria das atletas, envolvidas nesses clubes, sejam por times próprios ou por associação, são consideradas atletas amadoras, algumas recebem incentivos de bolsas pelos clubes mas não vivem só do futebol. Às mulheres no atual futebol brasileiro, ainda lidam com o karma estrutural da dupla jornada feminina, o que se diferencia bastante da categoria masculina, atletas de base e principal conseguem se manter através da profissionalização. Dos clubes com projetos estruturados ou encaminhados, apenas quatro deles remuneram ou pretendem remunerar  às atletas, são eles: Santos e Corinthias, que já pagam salários à suas atletas, Grêmio e Inter que possuem parte do elenco profissionalizado e pretendem profissionalizar às atletas ainda não atendidas. Atlético-PR e Flamengo cumprem à lei através de associação com outros clubes, O Paranaense que firmou acordo com o Foz Cataratas e o Flamengo com à Marinha do Brasil, em ambos às atletas recebem dos times de origem, levando aos clubes fornecer apenas material esportivo (uniforme) e estádio para à disputa de competições. Outros seis clubes, como é caso do Atlético Mineiro, fornecem ajudas de custo e acesso ao departamento médico e academias dos centros de treinamento do clube.

O que se percebe da lei, e da forma como os clubes estão cumprindo, é que, o futebol feminino ainda têm muito caminho para percorrer para se adentrar ao espetáculo que é o futebol no Brasil. O futebol, com ascensão do capitalismo, se tornou um dos principais meios de entretenimento e um dos ramos mais lucrativos para se investir, não é atoa que alguns jogadores vendem seus passes e direitos como ações em uma empresa. O gasto para se formar atletas também é muito alto, salários, estrutura, deslocamento, direitos, etc.. Tornam o futebol uma empresa de grandes lucros e gastos altíssimos. Não deve ser novidade para ninguém, que o futebol feminino não esteja contido nesse business do esporte. Infelizmente o lucro em cima das atletas é bem desigual, assim como seus vencimentos. Não existe ambição sobre às mulheres tal qual existe sobre os homens, e isso também é uma questão estrutural.

 A condição física feminina já foi colocada como empecilho para à pratica do futebol. No decreto de lei 3.199 de 14 de abril de 1941, à mulher é colocada como inferior fisicamente, por isso o futebol seria algo impossível para sua condição física. Diversas teorias comprovam que às diferenças argumentadas como motivo de desigualdade entre homens e mulheres não são inatas, mas passam por toda uma construção social, onde regras estruturais condicionam homens e mulheres à papéis sociais, baseados no sexo biológico.

Muitos comentam da desorganização tática do futebol feminino, da capacidade física das atletas, do tamanho, da baixa velocidade em campo e de pouca força física. Por mais que seja mais fácil explicar essas diferenças pelo viés biológico, é exatamente no fator social que o senso comum se desconstrói. Toda e todo profissional, envolvido com o esporte, sabe que, às condições físicas de uma pessoa é produto das atividades físicas que desempenham aliados às condições biológicas de cada corpo. Se uma pessoa teve uma construção física baseada em dietas, atividades físicas ela provavelmente terá essa herança em seu corpo. E é justamente isso que uma base faz, ela cria uma herança física e também psíquica, através de atividades estudadas e pensadas ela forma o corpo de um atleta que o permitirá desenvolver à atividade em plena condição,.

À questão estrutural interfere na falta de estrutura e ambas interferem no desempenho de atletas e na forma como o brasileiro vê essa modalidade. Mais que concessão de camisas e estádios, um futebol competitivo e de alto nível precisa ter um trabalho de base contínuo, assim como acontece nas equipes masculinas. Toda e todo atleta, assim como qualquer profissional, não se constitui da noite para o dia. No caso do esporte, existe algo muito importante que lhe dará condições de exercer à prática esportiva e alcançar máximo desempenho, à base. À estrutura física e psíquica de uma atleta não depende somente de sua genética, ou seja, uma atleta de alto nível não nasce, torna-se.

Mais do que conciliar times e ceder seus escudos, os clubes brasileiros precisam pensar na formação das atletas, à maioria das jogadoras da seleção não possuem histórico de construção em base de clubes, são geralmente atletas amadoras, que na raça tentam buscam um lugar ao sol. É necessário que se pensem em projetos contínuos, em fornecer condições necessárias para à prática. À lei é sem dúvida um avanço para o futebol feminino mas é só o começo do caminho, levaremos tempo ainda para colhermos frutos e beirar à igualdade.

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