Por Mauro Utida

Um dos únicos espaços do Parque Ibirapuera sem exploração comercial pode virar uma academia particular. No dia 8 de junho, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) aprovou, por 5 votos a 3, o projeto da administradora Urbia que prevê o fechamento do mezanino com vidro da Serraria do Ibirapuera — estrutura industrial histórica incorporada ao parque na década de 1990 pelo paisagista Roberto Burle Marx. A decisão gerou reação imediata de vereadores, especialistas e representantes da sociedade civil, que já acionaram o Ministério Público pedindo a suspensão da aprovação.

O prédio da Serraria é anterior ao próprio Parque Ibirapuera. Construído em 1930, o espaço funcionou originalmente como oficina de bondes. Com a criação do parque, a edificação foi incorporada ao projeto e passou a integrar o entorno do Viveiro Manequinho Lopes — foi quando Roberto Burle Marx, um dos mais renomados paisagistas do século XX, assinou o projeto da praça ao redor da estrutura, denominado Praça Burle Marx.

Foto: Mauro Utida

O Plano Diretor do Parque Ibirapuera define o local como espaço dedicado à contemplação, ao ócio e a práticas de bem-estar. Nesse requisito, o local atende a definição com sucesso, diariamente grupos se reúnem na praça Burle Marx para prática de meditação, tai chi chuan e atividades similares. Essa vocação, no entanto, pode ser radicalmente alterada com o projeto sugerido pela Urbia, concessionária responsável pela administração do parque, que prevê a instalação de uma academia — possivelmente de crossfit ou musculação, segundo a própria concessionária admitiu em apresentação ao Conselho Gestor do Parque Ibirapuera.

A Urbia argumenta que as atividades atualmente realizadas no local permanecerão acontecendo normalmente. “A proposta em discussão refere-se exclusivamente a uma área adicional localizada no mezanino, sem qualquer impacto sobre as atividades já existentes”, informou a concessionária por meio de nota.

Luana frequenta o Parque Ibirapuera desde 2014. Com o tempo, formou um grupo de amigas para a prática de yoga sob a Serraria, escolhida justamente por ser um espaço aberto, livre e acessível a todas. Para ela, a existência de espaços públicos de uso compartilhado é fundamental para a cidade. “Me assusta muito a ideia de transformar esse espaço público em privado. A gente deveria estar buscando a criação de mais espaços coletivos e não o contrário.”

Foto: Mauro Utida

Reação contrária

Segundo o vereador Nabil Bonduki, arquiteto e urbanista, a intervenção aprovada pelo CONPRESP supera as taxas de ocupação da Serraria estabelecidas no Plano de Intervenções que norteou o Contrato de Concessão. Além disso, o projeto desvirtuaria o caráter do espaço conforme definido no Plano Diretor do Parque.

Os conselheiros representantes da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) e do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) votaram contra, questionando a fragilidade técnica do projeto, considerado em desacordo com as diretrizes da concessão e com risco à integridade do patrimônio tombado. Os demais conselheiros, incluindo o representante da OAB, acompanharam o voto do relator — representante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) —, em argumento que, para os críticos, ignorou os impactos da intervenção no patrimônio tombado.

Não é a primeira vez que a Serraria é alvo de projetos do tipo. Há alguns anos, uma tentativa de instalar o Museu Krajcberg no local — também com fechamento por vidros — foi barrada pela associação de moradores da região e pelo Conselho Gestor do parque, que mobilizaram a opinião pública até os interessados direcionarem o projeto para outro espaço da cidade.

Foto: Mauro Utida

“Não toleraremos retrocessos e ameaças à defesa do patrimônio cultural, histórico e ambiental na cidade de São Paulo, que deveria ser uma missão do CONPRESP. As medidas cabíveis serão tomadas para tentarmos reverter essa decisão equivocada”, afirmou Nabil.

Os vereadores Nabil Bonduki, Renata Falzoni e Marina Bragante já enviaram duas representações ao Ministério Público pedindo a suspensão imediata da aprovação, ambas ainda sem retorno. Para Bragante, o episódio faz parte de um padrão preocupante de mercantilização dos parques públicos da cidade.

“Há meses temos denunciado que os parques de São Paulo estão sendo transformados em vitrine: show pago, marca patrocinando, área isolada para quem pode pagar. Agora vemos mais um passo nessa lógica, com a aprovação de uma reforma que descaracteriza o espaço Serraria, abrindo caminho para transformar um espaço público de silêncio e contemplação em mais uma oportunidade de exploração comercial”, disse a vereadora.

A vereadora Renata Falzoni destaca que além de acionar o Ministério Público para reverter a decisão, o mandato procura apurar possível improbidade administrativa no processo que aprovou essa reforma.

“O caso da Serraria escancara a ameaça pela qual passam parques e espaços públicos da cidade. Um patrimônio histórico, ocupado democraticamente por cidadãos há mais de 30 anos, não pode ser desfigurado com base numa lógica voltada exclusivamente a interesses comerciais. Vamos seguir batalhando pela anulação desse projeto, tanto na Câmara Municipal quanto na Justiça”, informou Falzoni.

O Conselho Gestor do Parque Ibirapuera, representante da sociedade civil, também se manifestou majoritariamente contra o projeto ao longo de inúmeras reuniões no CONPRESP. Eliane Pimenta, membro-suplente do Conselho Gestor na cadeira dos frequentadores, resume o que está em jogo: “A Serraria é o único espaço hoje que não há uma exploração comercial no Parque Ibirapuera. Creio que seja o último.”

A mobilização também conta com um abaixo-assinado em defesa da preservação do projeto original e da serraria e já reúne cerca de 10 mil assinaturas. Para assinar, clique aqui.

Próximos passos

A decisão do CONPRESP ainda não foi publicada no Diário Oficial. Após a publicação, abre-se um prazo de 15 dias para a apresentação de recurso administrativo com pedido de efeito suspensivo. Mesmo que o prazo transcorra sem reversão, o projeto seguirá para apreciação da Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente (SVMA) antes de qualquer obra ser iniciada.

Luana, frequentadora do parque. Foto: Mauro Utida

Urbia no Ibirapuera: uma gestão cercada de polêmicas

A Urbia é a concessionária do Parque Ibirapuera desde 2019, com contrato de 35 anos. Desde que assumiu a administração, as intervenções promovidas pela empresa têm gerado críticas crescentes. A concessão é alvo de um inquérito civil aberto pelo Ministério Público de São Paulo, que investiga a concessionária e a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente sob acusação de elitização, uso predatório e transformação do espaço público em um “shopping center” a céu aberto.

O cenário atual do parque ilustra bem o debate. Neste momento, o Ibirapuera abriga simultaneamente a Arena Globo, que ocupará parte do espaço durante a Copa do Mundo, com telão e atividades sob a Marquise, além do Arraiá do Ibira, com música ao vivo e área gastronômica. Também acontece os eventos Arena Brasil e Arena Firula, ambos particulares com cobrança de entrada do público. 

Para os críticos da concessão, eventos desta natureza se acumulando no parque evidenciam uma lógica de ocupação comercial incompatível com o caráter público do espaço. Um parque não é um shopping, nem uma arena de entretenimento.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que a aprovação do projeto de intervenção no edifício da Serraria do Parque Ibirapuera pelo CONPRESP teve o “caráter estritamente técnico”. “Cabe ressaltar que o projeto também conta com aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Atualmente, a análise ambiental está em andamento na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA)”, informou a secretaria municipal em nota.

A Urbia enviou uma nota após a publicação da matéria e questionou diversos pontos da reportagem declarando que “é rigorosamente falsa e irresponsável qualquer insinuação de que a aprovação do projeto da Serraria do Parque Ibirapuera tenha ocorrido de forma indevida com o objetivo de beneficiar a concessionária”.

Confira a nota na íntegra: 

“O projeto foi aprovado pelo CONPRESP após um longo e rigoroso processo técnico, que envolveu sucessivas discussões e adequações para atendimento integral às exigências do órgão de preservação do patrimônio. A decisão foi tomada pelos conselheiros no exercício regular de suas atribuições legais, com base em critérios estritamente técnicos, sem qualquer atuação indevida da Urbia no processo deliberativo.

A Urbia reforça que o projeto executivo da Serraria tem como objetivo preservar o patrimônio histórico, em linha com o restauro do entorno já executado, ampliar (e não restringir) as possibilidades de uso do espaço e contribuir para a sustentabilidade necessária à manutenção e melhoria contínua do Parque Ibirapuera.

Por fim, a concessionária reafirma seu respeito ao papel essencial desempenhado pelo Ministério Público na defesa da legalidade e do interesse público. Não obstante, registra que tem sido alvo de ataques reiterados e desleais que destoam do debate técnico e institucional esperado, especificamente por parte de um de seus representantes, que vem sustentando posicionamento pessoal a respeito do contrato de concessão, o que não contribui para a adequada condução da matéria”.