Por João Silvino – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Nas Copas de 2018 e 2022, o futebol esteve diante de contos de fada vividos pelas seleções da Croácia e do Marrocos, que foram de meras figurantes de luxo a potenciais campeãs do mundo, em especial os croatas no Mundial da Rússia. Contudo, o futebol é cruel em sua linha do tempo, com os louros e lembranças quase sempre ficando restritos aos vencedores e campeões, condenando outros grandes times e momentos ao esquecimento ou menosprezo. Graças a uma junção de fatores bastante específicos, Croácia e Marrocos acabam se juntando a um pequeno grupo de derrotados lembrados, como a Seleção Brasileira de 1982 ou a Costa Rica de 2014, desafiando a cruel regra.

Porém, esse não será o caso de Cabo Verde, Egito, Senegal e República Democrática do Congo. Quatro seleções africanas que estiveram a um passo de fazer história na Copa do Mundo de 2026, mas acabaram deixando o feito escapar entre os dedos. Apesar de derrotados, os esquadrões de Vozinha, Mohamed Salah, Sadio Mané e Cédric Bakambu mereciam um lugar de mais honra, mas com o tempo, irão se juntar a outras seleções pouco cotadas, que quase fizeram história em Copas, no cantinho do esquecimento e menosprezo. E algumas delas você conhece a partir de agora.

Copa de 2022: Espanha e Alemanha quase foram eliminadas na fase de grupos

(Foto: Ina Fassbender/AFP)

Era uma sexta-feira de 1º de abril, em 2022, quando a Fifa sorteou os grupos da Copa do Mundo do Qatar. Na chave E, caíram Espanha, Alemanha, Japão, e o vencedor do duelo entre Costa Rica e Nova Zelândia. Dois meses depois, os costarriquenhos carimbaram seu passaporte na repescagem, mas não mudaram o palpite de praticamente ninguém: espanhóis e alemães eram francos favoritos à classificação.

A Espanha vinha de uma semifinal da Eurocopa em 2021, e iniciava uma promissora renovação após os fracassos nas Copas de 2014 e 2018. Por outro lado, a Alemanha vinha de anos esquecíveis, sendo eliminada na fase de grupos do Mundial na Rússia, rebaixada na Liga das Nações de 2018-19 (salva posteriormente por mudança de regulamento) e caindo já nas oitavas da Eurocopa. Porém, ainda era a tetracampeã do mundo, e apesar do precedente deixado pela Itália, era difícil imaginar uma segunda eliminação consecutiva na fase de grupos.

Na 1ª rodada, a Espanha atropelou a Costa Rica por 7 x 0, indicando que a fase de grupos seria mero protocolo, mas a Alemanha perdeu de virada para o Japão por 2 x 1 e de cara se complicou. Na sequência, espanhóis e alemães não saíram do zero, e a Costa Rica fez 1 x 0 no Japão. Antes da rodada final, a Espanha liderava com 4 pontos, seguida por Japão e Costa Rica com 3, e Alemanha com 1. Para os alemães, bastava o favoritismo prévio chegar com atraso: vencer a Costa Rica e a Espanha vencer o Japão, exatamente o que estava acontecendo no intervalo dos jogos.

Porém, em apenas seis minutos do 2º tempo, o Japão virou o jogo contra a Espanha e deixou a Alemanha à beira do precipício. Para piorar, a Costa Rica empatou aos 12 com Tejeda, e aos 24 minutos da etapa final, Vargas virou o placar no estádio Al Bayt, impondo por cerca de 60 segundos, um dos cenários mais inacreditáveis do futebol: Espanha e Alemanha estavam caindo juntas em uma fase de grupos da Copa do Mundo, enquanto Japão e Costa Rica eram as classificadas. Infelizmente, a zebra durou pouquíssimo, e já aos 27 minutos do 2º tempo, Havertz empatou e abriu caminho para a “revirada” da Alemanha, que venceu por 4 x 2. Com a vitória do Japão se confirmando, o triunfo não foi suficiente, e impôs outra eliminação na fase de grupos, graças ao saldo de gols.

Enquanto isso, o técnico Luis Enrique afirmava que nenhuma seleção tinha futebol melhor que a sua Espanha. Mas já nas oitavas de final, a Fúria não conseguiu superar a retranca do Marrocos e voltou pra casa.

Copa de 2018: Bélgica x Japão

Fase da competição: Oitavas de final

(Foto: Odd Andersen/AFP)

Abrindo as histórias de mata-matas, a primeira ainda dói no coração de alguns brasileiros, mesmo que não fosse o Brasil em campo. Afinal, o duelo envolvia nosso futuro na Copa do Mundo de 2018, após conquistarmos a classificação na manhã daquela segunda-feira, contra o México; o adversário nas quartas sairia de Bélgica x Japão.

A poderosa Geração Belga com a melhor campanha da fase de grupos, contra um frágil Japão, que só avançou ao mata-mata por levar menos cartões amarelos em relação a Senegal. A expectativa era de uma vitória tranquila, mas os belgas não conseguiram converter a superioridade da primeira etapa em gols, e no início do 2º tempo, com apenas 8 minutos, um resultado que parecia impossível começava a se tornar realidade: Haraguchi abriu o placar após erro primário de Vertonghen, e logo depois, Inui marcou um golaço para o 2 x 0 do Japão. 

Porém, o detalhe pode ser decisivo na Copa do Mundo, e aos 23 minutos, um cabeceio sem ângulo de Vertonghen acabou indo para as redes e devolveu a Bélgica ao jogo, graças a uma falha de reação do goleiro Kawashima. Quatro minutos depois, Fellaini conferiu cruzamento da esquerda e empatou. Nos acréscimos, após uma cobrança de falta perigosa de Honda, defendida por Courtois, a Bélgica disparou em contra-ataque relâmpago e Chadli virou o jogo, após cruzamento rasteiro da direita e corta-luz de Lukaku. Bélgica 3 x 2 e classificada para as quartas de final, onde eliminaria o Brasil.

Copa de 2014: Alemanha x Argélia

Fase da competição: Oitavas de final

(Foto: Getty Images)

Brasil x Alemanha virou um forte sinônimo do 7 x 1, mas de maneira curiosa, as duas seleções quase caíram juntas nas oitavas de final da Copa do Mundo em 2014 (pena que não caíram). Enquanto o Brasil suou sangue para eliminar o Chile em Belo Horizonte, a Alemanha passou aperto contra a Argélia no Beira-Rio, em Porto Alegre.

Antes do primeiro mata-mata, ninguém podia questionar a qualidade dos alemães, embora o empate de 2 x 2 diante de Gana na 2ª rodada fosse capaz de colocar uma pulga atrás da orelha dos mais céticos. Contra a Argélia, que se classificou na 2ª posição de seu grupo e sem chamar atenção de ninguém, a dificuldade foi maior que a encomenda. Mesmo com certa superioridade alemã, os africanos encontraram finalizações de perigo durante os 90 minutos, com Ghoulam, Feghouli, Mostafa e Slimani, além de jogadas em potencial cortadas por Manuel Neuer, que fez um papel de líbero por diversos momentos. Ao fim do tempo regulamentar, um equilibrado 0 x 0 levou o jogo à prorrogação.

Não há quem não goste de uma zebra quando envolve o time dos outros, mas o sonho do torcedor no Beira-Rio durou poucos segundos no tempo extra, até Schurrle completar cruzamento de Muller e abrir o placar com um toque acidental de letra, que foi para rede em lance de raríssima felicidade. A Argélia não se rendeu e ainda levou perigo em finalização de Mostefa aos 10 do 1º tempo, mas o sonho foi enterrado aos 14 da etapa final, quando Ozil se aproveitou do desespero argelino, e sem nenhuma marcação dentro da área, finalizou de canhota para fazer o 2 x 0. No último minuto, a Argélia pelo menos conseguiu um gol de honra, anotado por Djabou.

Copa de 2014: Holanda x México

Fase da competição: Oitavas de final

(Foto: Natacha Pisarenko/AP) 

Após 12 dias da grande atuação de Guillermo Ochoa contra o Brasil, o gramado da Arena Castelão voltava a receber um jogo da seleção mexicana, e mais do que nunca, o lendário goleiro precisava fazer seu nome. Em seu primeiro mata-mata naquela Copa, algo que já era um pesadelo há cinco edições, o México teria pelo caminho a forte seleção holandesa, dona do melhor ataque do Mundial e ainda com o perigoso trio Sneijder, Robben e Van Persie.

Contudo, quem deu as cartas no 1º tempo foi o México, enquanto o favoritismo holandês passava longe de aparecer. Layún finalizou duas vezes de longe, e um chute rasteiro de Herrera, dentro da área, aos 16 minutos, saiu zunindo a trave de Cillessen. O goleiro holandês ainda precisou intervir em finalizações venenosas de Salcido, Peralta e Giovani dos Santos, que na insistência, abriu o placar em um belo chute de fora da área no começo do 2º tempo, se aproveitando de rebatida ruim da zaga e vencendo a marcação de Daley Blind.

Peralta ainda teve mais uma finalização defendida por Cillessen, e só depois disso, a Holanda cresceu no jogo: De Vrij obrigou o primeiro grande milagre de Ochoa aos 12 minutos, e Sneijder quase empatou pouco depois, em chute desviado por Rodriguez. 

Ochoa faria novo milagre aos 28 minutos, ao parar finalização de Robben, e a surpreendente classificação mexicana parecia cada vez mais próxima. Porém, duas estrelas laranjas começaram a brilhar em cima da hora: aos 42 minutos, após escanteio cobrado da direita, Huntelaar desviou, e Sneijder mostrou porque era o camisa 10, empatando com um lindo chute de primeira na entrada da área. Mesmo assim, o sonho do México poderia resistir, não fosse pelo pênalti bastante polêmico cavado por Robben nos acréscimos, que Huntelaar converteu para selar a virada e a classificação holandesa, com um dramático 2 x 1. 

Copa de 2014: Argentina x Suíça

Fase da competição: Oitavas de final

(Foto: Agência Reuters) 

Antes do amargo vice-campeonato, a Argentina precisou de uma estrela individual para seguir viva na Copa do Mundo, e assim como nos outros casos, pelas oitavas de final. Era 1º de julho de 2014, e no gramado da Neo Química Arena, o que se esperava era um desses jogos protocolares em mata-mata, entre um previsto 1º colocado contra um 2º que não enchia os olhos de ninguém; embora esse vice-líder fosse a Suíça e seu poderoso ferrolho.

Em matéria de números e volume ofensivo, a Argentina de craques como Messi, Di María e Higuaín fez valer o favoritismo, especialmente no 2º tempo. Porém, faltava passar por uma marcação forte e pelo inspirado goleiro Benaglio, que fazia ótimas defesas, enquanto o ataque suíço havia levado perigo apenas em chute de Xhaka na primeira etapa, após grande jogada de Shaqiri. Oito anos depois da eliminação sem perder nenhum jogo, na Copa do Mundo da Alemanha, a Suíça ratificou sua fama apesar do cansaço, resistindo nos 90 minutos e em praticamente toda a prorrogação.

Até que aos 13 minutos do 2º tempo da prorrogação, Lionel Messi só precisou de um espaço para carregar no setor central do campo, até a meia-lua, de onde encontrou o passe perfeito na área para Di María, que com uma chapada precisa de canhota, fez a bola morrer rasteira no fundo da rede. O sofrido 1 x 0 classificou a Argentina, mas não antes dos suíços quase empatarem no último minuto, em cabeceio de Dzemaili que carimbou a trave.

Copa de 2010: Espanha x Paraguai

Fase da competição: Quartas de final

(Foto: Simon Bruty / Sports Illustrated via Getty Images)

Ninguém chega nas quartas de final de uma Copa do Mundo por acidente, mas nem isso poderia convencer alguém que a Espanha não venceria o Paraguai com facilidade no Ellis Park, em Joanesburgo. Mesmo com a derrota na estreia para a Suíça, a Fúria ainda era a campeã europeia de 2008, e vinha de um bom jogo contra Portugal nas oitavas, enquanto o Paraguai, que liderou o grupo da atual campeã Itália, só tinha uma vitória e três gols marcados, vindo de uma classificação nos pênaltis contra o Japão; partida essa apontada como uma das piores do Mundial.

Porém, os paraguaios conseguiram anular a potência do ataque espanhol com uma forte marcação, a sua melhor qualidade naquela Copa. A Espanha só conseguiu finalizar aos 28 minutos, após domínio estiloso e chute venenoso de Xavi da intermediária. O Paraguai, por sua vez, chegou a balançar as redes após cruzamento da direita e finalização de Valdez aos 41, mas o gol foi anulado por impedimento de Cardozo, que interferiu no lance ao tentar cabecear.

No 2º tempo, aos 11 minutos, o Paraguai teve a chance de ouro para fazer história, após Piqué cometer pênalti em cima de Óscar Cardozo, mas o camisa 7 bateu mal e parou em Casillas. Logo na sequência, David Villa foi lançado na cara do gol e foi derrubado por Alcaraz, cavando um pênalti para a Espanha. Xabi Alonso converteu, mas o árbitro Carlos Batres mandou voltar a cobrança por invasão; na segunda tentativa, o camisa 14 bateu mal e o goleiro Villar não só defendeu, como no rebote, cometeu pênalti claro em cima de Fábregas, que foi ignorado pela arbitragem.

O Paraguai resistia em busca de uma semifinal histórica, mas o sonho desmoronou com todos os requintes de crueldade: aos 38 minutos, Iniesta recebeu no meio-campo, enfileirou a marcação e deixou na cara do gol para Pedro, que finalizou no pé da trave esquerda. O rebote caiu nos pés de David Villa, que acertou a trave direita e viu a bola bater novamente na trave esquerda, antes de enfim cruzar a linha do gol.

Espanha 1 x 0 em um dos roteiros mais inacreditáveis da Copa do Mundo, digno de uma campeã mundial. E de forma cruel, a dor dos paraguaios ficou além da derrota traumática, sendo até o retorno em 2026, a última partida do país em Mundiais.

Copa de 2010: Inglaterra quase foi eliminada na fase de grupos

O ciclo do futebol inglês para a Copa do Mundo de 2010 não era dos mais gloriosos, com o English Team sequer se classificando para a disputa da Eurocopa em 2008, e vindo ligeiramente enfraquecido após a doída eliminação nas quartas de final do Mundial em 2006. No entanto, ainda era uma seleção de bons nomes, como Wayne Rooney, Frank Lampard e Steven Gerrard, e quando o sorteio realizado em dezembro de 2009 reservou um grupo com Estados Unidos, Argélia e Eslovênia, era natural esperar por uma campanha tranquila e pela liderança da chave.

A realidade, contudo, acabou sendo bem diferente. Na 1ª rodada, os ingleses empataram em 1 x 1 com os estadunidenses, enquanto a Eslovênia bateu a Argélia por 1 x 0. Na 2ª, um jogo de baixo nível técnico contra os argelinos não tirou o zero do placar e complicou a vida do English Team, graças ao empate de 2 x 2 entre Eslovênia e Estados Unidos. Para a última rodada, a Inglaterra chegou na 3ª posição com os mesmos 2 pontos dos norte-americanos, mas atrás pelo número de gols marcados. A única opção era vencer a Eslovênia para conquistar a classificação ao mata-mata.

No fim das contas, a Inglaterra teve boa atuação na hora em que precisava brilhar, e vencendo a Eslovênia por 1 x 0, quase levou a liderança do grupo C. Mas um gol de Landon Donovan nos acréscimos contra a Argélia colocou os Estados Unidos na ponta e fez a Inglaterra cair no caminho da Alemanha, quando levaria 4 x 1 em um jogo que abriria de vez as portas da tecnologia no futebol mundial.

Copa de 1990: Inglaterra x Camarões

Fase da competição: Quartas de final

(Foto: Acervo Estadão)

Por último, uma das maiores surpresas da história da Copa do Mundo, em 1990, na primeira grande campanha do futebol africano. A seleção de Camarões chegava para a sua segunda participação em Mundiais, após quase ter eliminado a Itália na fase de grupos em 1982. Liderada pelo veterano Roger Milla, de 38 anos, os Leões Indomáveis espantaram o planeta logo na abertura do Mundial da Itália, ao vencer a campeã mundial Argentina por 1 x 0. Em uma chave que contava ainda com Romênia e União Soviética, os camaroneses saíram como líderes, vencendo dois jogos e perdendo um.

Nas oitavas de final, Camarões derrotou a Colômbia por 2 x 1 em dois gols de Roger Milla, com o segundo em um dos lances mais inusitados da história do futebol: no meio-campo, o folclórico goleiro colombiano René Higuita tentou um drible e perdeu a posse. Na sequência, os camaroneses iriam para cima da poderosa Inglaterra, do artilheiro Gary Lineker e naturalmente favorita.

Aos 25 do 1º tempo, David Platt completou cruzamento no segundo pau e fez 1 x 0 em Nápoles. A vitória parcial dos ingleses seguiu até os 15 da etapa final, quando Kundé empatou em cobrança de pênalti, e quatro minutos depois, Ekeké virou o placar a favor de Camarões. Na sequência, Omam-Biyik teve a chance de matar o jogo ao receber de Milla na cara do gol, mas abusou do preciosismo e tentou finalizar de calcanhar, parando no goleiro Peter Shilton. A menos de 10 minutos do apito final, a Inglaterra teve um pênalti e empatou com Gary Lineker, que marcou de novo na prorrogação e definiu a vitória do English Team, por 3 x 2.

Camarões fez história, e ao lado de Senegal em 2002 e Gana em 2010, ostentou a melhor campanha do continente africano em Copas do Mundo até 2022, quando o Marrocos atingiu a semifinal.